A Semana dos Nãos

Acordei e vi que ele arrumava a mala. Fingi continuar dormindo só para poder observar como separava meias e cuecas calma e cuidadosamente. Não tinha a pressa de quem está prestes a perder o vôo, mas tinha o desânimo de quem viaja para o Polo Norte só de meias e cueca.

A essa semana que seguiu sem ele, resolvi batizar de “A Semana dos Nãos”. Foram muitos nãos grandes para caberem todos em dias poucos e curtos.

Um contrato não assinado. Um pedido de patrocínio negado. Um texto não terminado. Um transplante de raciocínio matemático rápido negado. Um artigo não vendido. Um pedido de empréstimo de talento para negócios negado. Um ou dois projetos vetados. Uma publicação de livro negada. Um trabalho adiado. Uma pauta não aprovada. Um visto para a lua negado.

É claro que eu coloquei a culpa nele por ter ido embora e me deixado aqui sozinha com essa cambada de nãos malquistos. Persona non grata! Daí ele me aparece hoje dizendo que foi só ali e já voltou, afinal, não teria passado pela minha cabeça que ele pudesse ter ido embora para sempre carregando apenas meias e cuecas na mala, certo? Errado. A não ser que eu fosse uma criatura mais lógica e menos emocional.

Apesar das negativas, ele voltou! Voltou porque eu, graças às negativas, tive a semana mais elucidativa do ano. Os pontos de interrogação impertinentes foram devidamente substituídos por nãos exclamativos, embora alguns sejam intermitentes.

Entre certezas desagradáveis e incertezas, eu fico com a primeira opção. Uma vez tendo um não (ou vários) como resposta, a gente pula para a próxima tentativa de sim.

De mala na mão, meu sonho voltou pra casa. Dentro da mala, meias e cuecas sujas que eu nem me importei de lavar.

Roberta Simoni

Pra caber no encaixe…

- Onde dói?

- Dói tudo, doutô!

- Aqui dói?

- Dói também. Dói até os ossinho da alma.

- Alma não tem osso, menina!

- Pois a minha tem sim, sinhô! Não tá vendo essas fraturas expostas aqui?

- Cadê?

- Aqui, doutô! Os sentimento tudo pulando pra fora. Faz eles voltarem pra dentro, doutô, faz?

- Filha, eu não posso tratar de alma fraturada. Como eu vou fazer para te engessar depois?

- Mas se o senhor que é o médico não sabe, como eu vou saber? Me disseram que o senhor podia dá um jeitinho de me ajustar no lugar.

- Mas eu não posso, criança!

- E de lego, pelo menos, o senhor entende?

- De lego???

- É! Aquele jogo de encaixar aquelas peças coloridinhas, sabe?

- Ah, sei…

- Sabe? Ah, então o senhor pode me curar! Mamãe disse que a gente é igual a peça de lego, uma encaixa na outra pra montar um brinquedo legal.

- E onde eu entro nisso?

- O sinhô entra me fazendo entrar, ora! É que me dói tudo porque eu não me encaixo nas outras pecinhas… eu forço daqui, me machuco de lá, mas não entro em nenhuma, nada me cabe e eu não caibo em nada, doutô! Me conserta pra eu caber em algum lugar, pufavô?

- Menina, você não é uma peça de brinquedo! Que ideia é essa?

- Também não sei de quem foi essa ideia de fazer a gente igual a essas pecinhas de montá. Mas isso me parece coisa de um tal de “Jerico”. O senhor conhece esse moço, doutô? Minha avó sempre fala que as coisas que eu faço se parecem com as ideias dele, mas eu juro pela minha mãe mortinha que nunca copiei a ideia de ninguém! O senhor acredita em mim?

- Criança, eu…

- … eu sei, doutô! O senhor também não acredita em mim, não é? Tudo bem, não precisa acreditar, só me conserta! Deve ter conserto para peças defeituosas assim, feito eu, não tem?

- Escuta aqui, criatura, você não está doente nem é defeituosa. O seu problema é imaginação fértil.

- Engraçado, o senhor pareceu até meu pai falando agora! Então como é que faz pra parar de fertilizar a cabeça da gente, doutô?

- Não existe anti-fertilizante cerebral para transformar alguém numa peça funcional.

- Ah, não? E se o senhor inventasse? Podia ficar rico com isso, já pensou?

- Rico eu não sei, mas talvez eu conseguisse fazer você caber dentro da realidade.

- Ah, então melhor deixar como tá, né doutô? Se existir já me dói todinha, imagina se eu tiver que caber nessa tal de realidade? Dizem que lá é úmido e apertado, eu vou acabar transbordando e depois vai dar um trabalho danado pra me juntar…

Roberta Simoni

O admirador e o admirado

Percebi que minhas mãos suavam enquanto eu imaginava o que poderia dizer quando estivesse a menos de um metro dele. Mas a fila estava enorme, dava voltas na livraria. E eu, logo eu, que tenho verdadeiro pavor de filas, fiquei ali, esperando resignada.

É bem verdade que grande parte dos escritores que admiro já morreu há um tempo considerável, logo, estar diante de um em plena forma literária é um privilégio. O autor português, Valter Hugo Mãe, esteve lançando seu novo livro no Rio essa semana. Eu, tiete que sou, fui ao lançamento, comprei o livro, levei outro mais antigo, enfrentei a fila quilométrica e esperei minha vez de ganhar meu autógrafo.

Quando finalmente minha vez chegou, entreguei os livros a ele e me vi paralisada, sem ação, até me escutar dizendo a frase mais criativa e original do mundo: “sou sua fã”. Aposto que ele nunca ouviu isso de ninguém. Sou um gênio, só que ao contrário. Pedi para tirar uma foto, agradeci a atenção dispensada e tomei de volta meus livros agora autografados. Pena as dedicatórias serem quase ilegíveis. Desconfio que além de escritor, o Mãe seja médico.

Saí da livraria me sentindo a criatura mais boba do universo mas, nem por isso, envergonhada. “Ah tá… então é assim que se sentem os fãs diante dos artistas da novela” – pensei. Sempre que saio à rua com algum amigo não-anônimo e vejo ele sendo abordado por algum fã, fico tentando entender como é isso de ficar emocionado diante de alguém que só se conhece “de vista” pela televisão ou internet. Agora eu sei. No meu caso, foi através de livros, mas a sensação, acredito, é a mesma.

Na mesma semana que descobri como é essa coisa toda de ser fã, tamanha foi a minha surpresa ao descobrir que tenho uma “leitora-fã” e acabei, sem querer, experimentando como é a sensação de estar do lado de lá também. Se é que posso chamá-la assim, né Marynha Dantas? Acho que classificar como fã acaba distanciando o admirador do admirado.

Recebi um monte de presentes lindos e mais do que especiais que a Maryinha me mandou pelo correio, diretamente de Sergipe. Tive a sensação dela ter enviado tudo que estava ao seu alcance para me fazer sentir querida e isso, de todos os presentes, foi o que mais me comoveu e emocionou.

Dentro da caixa de sedex, vários livros (alguns autografados pelos autores), produtos de beleza (minha boca, inclusive, nesse exato momento, está mutíssimo agradecida pelo hidratante labial), doces nordestinos de-li-ci-o-sos, uma toalha lindíssima, com meu nome e minha foto bordados com o maior capricho do mundo, lembrancinhas para o meu pai e minha mãe (que ficaram também muito agradecidos), e o presente mais caro de todos: um livro montado à mão, especialmente para mim. Nas primeiras páginas da edição exclusiva, o seguinte aviso:

“Atenção: todos os textos e fotos foram retirados do blog Janela de Cima, da escritora Roberta Simoni. Este trabalho manual e arcaico não pode ser copiado (pois você desiste pelo trabalho que dá). Não tente desgrudar as folhas e ver o que há por trás, pois um livro foi dilacerado para em cima das belas folhas coloridas se fazer este trabalho, o qual se chama ‘O dia que se perdeu a tesoura e tudo foi cortado a dedos’. É só para ‘remember’ e ratificar que há uma galera considerável esperando um livro (nem que seja de bolso, em papel reciclado) desta escritora, jornalista e viajante do e no tempo, ainda não tão famosa a nível global, mas querida por todos que amam o que é escrito com sensibilidade e talento. Aguardamos.” (Marynha Dantas)

Agora, me digam, quando eu poderia imaginar que enquanto eu estava aqui, levando minha vidinha insana e distraída, havia alguém lá no Nordeste do país preparando uma surpresa tão linda assim pra mim?

Isso de admirar e ser admirado por quem a gente nunca olhou nos olhos é uma coisa mágica. Obrigada, Marynha, por me provocar a sensação de estar no caminho certo numa semana onde a estrada me pareceu tão sinuosa, escura e perigosa, me fazendo pensar, diversas vezes, em voltar e procurar outro caminho menos arriscado.

Roberta Simoni

Durmam, seus trombadinhas!

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

Roberta Simoni

Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo contando para a minha avó sobre a minha última empreitada amorosa e escuto ela contando sobre como ela tem feito para livrar-se do meu avô que, aos 85 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teima em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia não quer mais saber dessas saliências – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos de bar. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais ligaria para ela contando sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez, é verdade.

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois é. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja um problema pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia. Ok, quase sempre.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. E eu minto. Eu crio. E eu até vivo um pouquinho do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse amar. Não é como se eu soubesse também. Eu penso que sei, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Fico com medo de ser piegas, de parecer idiota. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro, um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

Fosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do “Amar é…” que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, só que enrustida. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário. Mas olhando assim, para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais. Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha pra criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com essa vontade insubstituível e irresistível de acordar todos os dias e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

Roberta Simoni

Café ou achocolatado?

Você apontou para o meu antebraço direito e perguntou:

- Como foi que você arrumou essa cicatriz?

Foi nesse momento que percebi que somos dois completos estranhos. Todo mundo sabe como eu arrumei essa cicatriz. Todo mundo que me conhece minimamente bem. A maioria já deve ter esquecido (eu esqueceria) mas, em algum momento, eles souberam, porque estavam lá ou porque eu contei. Mas você não sabia.

Você passou quase a noite inteira dentro de mim, mas não sabia como a marca daquele corte que precisou de dezenove pontos para ser costurado foi parar no meu braço.

Eu apaguei a luz do quarto e só depois lembrei de te perguntar se você também gostava de dormir no breu. Você disse que não se incomodava de ficar no escuro, desde que o seu corpo ainda pudesse encontrar o meu.

No café da manhã tinha leite quente, café e chocolate em pó, mas eu não sabia do que você gostava e tive que te perguntar o que ia querer beber.

Nós andamos pelas ruas de mãos dadas pela primeira vez e nos enrolamos um pouco na hora de decidir de qual lado quem deveria ficar, até que você intimou: “Mulher tem que ficar do lado de cá da calçada que é pro homem poder proteger!”. Elogiei seu cavalheirismo e você estufou o peito, orgulhoso.

Você me viu comendo feijão e fez cara feia. Eu comentei que adorava feijão, mas que aquele não era o meu preferido, que eu gostava mesmo era de feijão preto. Você disse que dava no mesmo, que era tudo grão. Você não entende nada de feijão.

Pegou o violão, tocou uma, duas, três músicas…

- Você vai se atrasar…

- Eu sei.

Continuou tocando até chegar na nossa música. Veja bem, nós já temos até uma música. Mais de uma até. Também tem aquela que você me pediu para cantar baixinho no seu ouvido, depois de eu ter passado dias decorando a letra debaixo do chuveiro, esperando por esse momento. Quando a canção acabou você exclamou: “olha!” - me mostrando os pêlos dos seus braços arrepiados.

- Foi um tombo de bicicleta… tive uma fratura exposta e precisei fazer algumas cirurgias…

Você arregalou os olhos enquanto eu contava a odisseia daquele braço quebrado. Depois fechou, apertando-os e levando suas mãos ao rosto, ainda perplexo, confessou que não teria suportado passar por aquilo, porque mal aguentava uma simples injeção…

Eu acabara de conhecer sua primeira fraqueza. Você riu, sem se importar, eu também ri e te puxei pelo queixo para te dar um beijo. Porque tudo, o tempo todo, é motivo para mais beijo.

- Lembra, amor?

Você me perguntou, entusiasmado, mostrando a placa que indicava a Rua Pauliceia. Era o mesmo nome do hotel que ficamos hospedados daquela vez. Eu não lembrava, obviamente. Mas tudo bem, você não liga porque sabe que eu sou desmemoriada. Não é que você não se importe, é só que você ainda me gosta como gostava quando eu ainda não sabia se você preferia café ou achocolatado.

Roberta Simoni

E invento você…

Não fala nada, não… chega assim como a brisa. Me beija o rosto como o sol beija o mar, ou como o Banderas beijou a Zeta Jones naquele filme… serve também. Não precisa ficar pra sempre, mas passa por aqui antes do próximo abril, antes do fim do inverno, antes do gelo derreter, da neve ferver. Chega depois que a lua aparecer, nova, cheia ou crescente, mas, por favor, não chega minguante.

Enrola meu cabelo nos teus dedos, depois me pede para eu deixar ele crescer outra vez, mas diz que eu fico bonita também de cabelo curto, que eu fico linda de qualquer jeito, até quando eu acordo de uma noite não dormida porque o barulho da minha inquietação me despertou e me arrancou do meu sono outra vez. Mente pra mim. Vez ou outra mente, por favor. Mas mente sinceramente. Não precisa ser todo dia, nem o tempo todo. O tempo todo só me engole.

Me entope de informação desimportante, de risada fora de hora, de cultura inútil. Me ensina todas essas coisas de utilidade pública e grande relevância para a humanidade, como erguer uma sobrancelha só ou encostar a língua na ponta do nariz. Me ajuda a montar um castelo de areia, outro de cartas. Me escreve uma carta? Não precisa dizer nada. Só desenha um coração bem grande no meio da folha. Dentro do coração, coloca as iniciais dos nossos nomes. Eu vou achar bonitinho, cafona, mas bonitinho. As palavras você pode espalhar no tapete da sala, na cama do nosso quarto, no pé do meu ouvido…

Me beija na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, sobretudo na chuva. A casinha não precisa ser de sapê, pode ser de tijolo mesmo. Me faz correr para entrar na internet só pra ver se o seu signo combina com o meu. Preenche as minhas reticências, ocupa os meus espaços, rouba as minhas horas. Me faz perder a hora. Do trabalho, do dentista, do oculista. Me deixa enxergar mal, eu não quero corrigir o grau das minhas lentes agora.

Não tem problema se você vier de camisa furada, mas vem. Só faz a barba se você quiser. Mas eu vou gostar se você não fizer. E se você fizer é provável que eu goste também. Tá, eu não vou nem notar. Mas se você esquecer de propósito a sua escova de dentes na pia do meu banheiro eu vou perceber. E pior: vou gostar. Vou adorar ter minha liberdade ameaçada por um objeto inanimado.

Trinca os dentes com vontade de me apertar até me sufocar. Me afoga nos teus beijos, mas depois faz respiração boca-a-boca para me salvar. Me leva pro mar, me atira aos tubarões. Se atira comigo. Mergulha fundo até perder o ar. Seja estúpido. Tolo. Menino. Seja faminto. Instinto. Tubarão. Sinta fome de mim no café da manhã que eu me sirvo de você na mesa do jantar. Depois a louça é sua… tá na sua vez de lavar. Eu te ajudo a secar, mas só amanhã, quando eu acordar pra sonhar.

Fica pra sempre até eu terminar de te inventar.

Roberta Simoni

O meu rapaz…

Eu vi você na Itália.

Você usava uma daquelas suas camisas sociais bonitas. Estava lá a trabalho? Imagino que sim…
Achei que eu pudesse estar delirando, já que quando se chega em Roma pela primeira vez, tem-se a sensação de estar pisando num lugar absurdo, surreal… tudo é colossal e desmedido. Quando se acaba de admirar um palácio renascentista, você tropeça numa antiguidade venerável, dá de cara com uma ruína, esbarra num monumento inacreditavelmente perfeito e depois outro e outro…
Me escondi atrás de um desses monumentos e fiquei te olhando. Não me julgue.
Você conversava com um homem que falava alto e gesticulava muito (era um italiano, acertei?) e você de braços cruzados, só assentia com a cabeça, esboçando um sorriso vez ou outra que, eu sei, é um daqueles seus sorrisos que dizem: “estou te dando atenção por educação, mas não estou interessado em nada do que está dizendo”… Você não mudou nada mesmo. Fiquei vendo aquela cena e rindo sozinha.
Depois outras pessoas chegaram, todas muito animadas. Assim como eu, devia ser a primeira vez delas em Roma. Uma moça trazia uma máquina fotográfica na mão. Alguém do grupo se dispôs a tirar uma foto. Vocês fizeram pose em frente à Fontana di Trevi que, se não estivesse sempre tão lotada, eu teria dúvidas se não era mais um fruto da minha imaginação lírica. Me distraí olhando você diante da fonte mais linda que já vi na vida e o meu sorvete começou a derreter. Fiquei com a manga do casaco toda lambuzada por sua culpa.
Lembrei daquelas fotos de grupo da escola, da faculdade, dos churrascos da turma do trabalho. Você, alto, ficava sempre lá atrás, só dava para ver sua cabeça, quando muito. Uma vez você se queixou comigo, numa dessas crises existenciais periódicas e passageiras, dizendo que não conseguia se destacar nem nas fotos.
Fiquei ali parada para ver como você se posicionaria no grupo e como o grupo se posicionaria perto de você. As pessoas foram se aprumando ao seu redor, você ficou no centro naturalmente, ninguém se meteu na sua frente, de forma que era possível ver mais do que a sua cabeça dessa vez. Você se abaixou um pouco para ficar na altura das moças que estavam ao seu lado e inclinou a cabeça para frente para disfarçar a papada no pescoço que você cisma que é feia, depois você esticou os braços como se eles pudessem abraçar o grupo inteiro, ou o mundo. E sorriu largo. Eu sorri junto, como se fosse aparecer na foto também.
Aí, na hora de bater a foto, a moça que estava do seu lado direito falou alguma coisa com alguém, mas eu não consegui entender o que era e parece que você também não, mas você não moveu a cabeça, só olhou de lado, de rabo de olho. Típico. Afinal, os velhos hábitos não te abandonariam só porque você atravessou o Atlântico…
A foto ficou assim: você lindo, no centro, abraçando o mundo, sorridente e com o olhar desconfiado.
Esse é o meu rapaz, pensei.
E aí eu acordei.
Roberta Simoni

Vinte e Seis Reais (ou A Fortuna de Ramalho)

Chiquinho Ramalho e Paulo Cardoso - by Roberta Simoni

Mal de Alzheimer e Arteriosclerose avançados foi o diagnóstico que os médicos deram para o meu avô paterno. Francisco Ramalho, popularmente conhecido como “Chiquinho da Praia do Siqueira”, o maior engenheiro sem diploma que eu conheci, o sujeito rabugento e engraçado que muito antes de perder o juízo já falava sozinho, esbravejando com Noé por ele ter, supostamente, permitido que um casal de pernilongos entrasse na arca. Pô, Noé, com tanto bicho para salvar…

O mesmo sujeito que há alguns anos contrariou a família toda quando assumiu o namoro com uma mulher que – todo mundo sempre soube – não é flor que se cheire. Nem na qualidade de flor é possível encaixar essa senhora. A mesma, inclusive, que tratou de abandoná-lo na porta da casa dos meus pais há algumas semanas, depois de ter tirado todo o (pouco) dinheiro do velho doente e caduco que ela, é claro, se cansou de cuidar.

Dia desses ele me contou que tem uma neta que mora no Rio de Janeiro…

- É mesmo, vô? Que legal! Como ela se chama?

- Ela quem, menina?

- Sua neta…

- Neta? Eu não tenho neta.

- Tem sim, vô. Sou eu, a sua neta que mora no Rio, lembra?

- No Rio? Já nadei, sim. Mas agora não quero nadar, não… anda, menina, devolve o meu dinheiro!

R$26,00 é a quantia que a namorada do meu avô fez o favor de deixar no bolso da bermuda dele quando decidiu “devolvê-lo” aos filhos. Vinte e seis reais é o valor da fortuna do Vô Chiquinho. Todos os dias ele enrola, desenrola e depois enrola de novo as notas de real com um pedaço de barbante, dorme e acorda segurando aquilo que acredita ser o seu maior tesouro. Tesouro que tivemos que colocar dentro de um saco plástico transparente e levar para debaixo do chuveiro com ele. Só assim foi possível mantê-lo no banho sem que ele tentasse fugir com medo de ser roubado nesse interím higiênico.

Papai morreu pra mim! - Era o que meu pai afirmava categoricamente antigamente, quando se referia ao meu avô. Mas pai nenhum renega um filho e, de um dia pra outro, foi nisso que o meu avô se transformou para o meu pai: um filho. E ele que mal conseguia chegar perto das fraldas sujas do neto, agora escova os dentes do pai, faz a barba, limpa o bumbum, dá banho, comida na boca e dorme ao lado, sobre vigília constante.

Papai estava certo: o pai dele morreu. E no lugar dele ficou uma criança pirracenta e de cabelos brancos, que se nega a tomar banho depois de fazer xixi nas calças e que - sem o menor sinal de afeto ou gratidão – o acusa de ladrão.

Sim… porque meu pai não confessa, mas ele faz tudo isso por causa da fortuna, a gente sabe. Há um interesse por trás de toda essa enorme compaixão e generosidade. Só uma coisa justifica tanto cuidado e sacrifício: amor desmedido – a verdadeira fortuna do herdeiro.

Com muito custo consegui convencê-lo a sentar-se comigo na varanda. Arrumei mais uns dois metros de barbante para ele enrolar o vil metal. Aquilo renderia uma, com sorte, duas horas de distração pra ele e de descanso para mim. Peguei o livro e li um trecho em voz alta, mas ele se mostrou profundamente irritado, nada contra Valter Hugo Mãe, acredito. Nada pessoal também, é só que a leitura estava atrapalhando sua concentração no mecanismo de enrolar o barbante em torno das valiosas notas.

Papai chegou e trocamos de turno.

Da janela da cozinha consigo ver os dois. Meu velho com o velho dele, tão parecidos, com a diferença do cruel efeito do tempo, se alternando entre pais, filhos e dois completos desconhecidos.

Vovô andando na frente, a passos lentos e rastejantes, papai um pouco atrás, seguidor silencioso e quase oculto…

Agora vovô está parado em frente à roseira que era da minha avó e que papai batizou de “Dona Norma”. Meu pai sente o coração acelerado, alimenta uma esperança genuína de que a plaquinha com o nome da mãe cause qualquer tipo de reação no pai. Mas ele, naturalmente, não esboça nenhuma emoção, nem imagina quem foi Dona Norma. Sua preocupação é outra: encontrar o esconderijo perfeito para enterrar seu tesouro. Escolhe a planta ao lado. Não supõe que está sendo vigiado. Age sorrateiro feito menino astucioso. Papai não tenta impedí-lo, deixa que ele estrague seu jardim, que suje as mãos e a roupa de terra e, principalmente, que acredite que sua missão foi cumprida.

O filho observa o pai, tenta entender cada movimento daquela nova pessoa que está (des)conhecendo, procura decifrar o que se passa pela cabeça dele e acompanha de perto aquele doloroso processo, não o de crescimento, como no caso de um filho pequeno, mas o de envelhecimento de um pai doente.

Depois se aproxima devagar, pega o pai pela mão suja de terra e o conduz para dentro de casa. Enquanto tenta pacientemente convencê-lo a se lavar, Ramalho diz:

- Rapaz, os ladrões levaram todo o meu dinheiro, você viu?

- Eu vi, papai… mas fica tranquilo que eu pego eles e trago seu dinheiro de volta! Eles vão ver só…

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada…

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje possivelmente existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou com Cristina e ela vestidas de branco, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas…

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje não mais. Só há silêncio e a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete me fazer girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas, há mais de 16 anos, tia Bernadete já estava muito doente, e enquanto os adultos discutiam as medidas que deveriam tomar com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar!). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

Próxima Página »


Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Join 844 other followers

Roberta Simoni na Janela…

Pode ser que você entenda o que eu digo. Pode ser que não. Pode ser que você goste do que eu escrevo. Pode ser que não. O que não importa muito na verdade, porque eu não vou parar.

Com uma máquina na mão...

Luz

BSB

Brasília

Brasília

More Photos

Atualizações do Twitter

Debruçados na janela...

  • 173,354 Curiosos

Páginas Passadas…

Quer começar por onde?

Aqui você também encontra:

Quando eu escrevi:

junho 2012
S T Q Q S S D
« mai    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 844 other followers