Que gozem !!!

Mania de levar tudo pro lado maldoso/sexual da coisa,  tsc tsc tsc… (eu diria até o lado booooom da coisa, mas, enfim…)

Ainda agora eu senti o chão tremer. Não vou mentir, a primeira coisa que pensei foi: “tem gente transando”. Mas aí o chão parou de tremer, e nem a mais rápida das rapidinhas poderia ser tão ligeira. Imediatamente me reprimi por deixar, mais uma vez, meus pensamentos terminarem em sexo.

Minutos depois, além do chão tremendo, parecia que alguém estava pregando um quadro na parede. Caramba, mas são 3h da manhã, ninguém faria isso a essa hora!

Fui para a janela e… bingo! Meus vizinhos de baixo estavam transando, loucamente, diga-se passagem. E ainda estão.  Tudo por aqui continua tremendo enquanto escrevo, ao som de gemidos e “marteladas”.

Aquela pequena pausa deve ter sido um breve espaço de tempo entre o ensaio e o espetáculo, que já dura mais de duas horas. Uau, meu vizinho não é fraco, não!

Acho que gozaram, lá pela enésima vez. A verdade é que eu esqueci de contar, e se não fosse pela ausência de cálculos, estaria me sentindo agora a própria Amélie Poulain.

Depois de tanto tempo escutando essa sinfonia harmônica de ”Ooohhhhhh, Huuuuummmm, Ahhhhhhhh…” é inevitável pensar na minha personagem favorita do cinema. Um dos prazeres de Amélie era esse: escutar os orgasmos vizinhos, e ela não só escutava como contava todos, um por um.

Um modo de passar o tempo que muita gente pode julgar obsceno. Eu considero divertido. Obsceno é diminuir o volume da tevê para escutar a briga dos vizinhos ao lado. Coisa que eu já fiz, e não me orgulho nem um pouco de ter feito.

Mas e aí? Qual é a graça de ver ou ouvir gente brigando por aí? Que se matem longe de mim. Mas se tiverem que transar por perto, tudo bem, eu não me importo.

Ficar ouvindo briga de casal é quase como ver uma ambulância socorrendo feridos na estrada e parar o carro só para olhar os acidentados. Vai ajudar? Não! Então, muito ajuda quem pouco atrapalha.

Não foram poucas as vezes que enfrentei engarrafamentos quilométricos por conta dos curiosos que empacam o trânsito só para testemunharem a dor dos outros. Tenho vontade de passar por eles e perguntar: “e aí, foi bom para vocês?”

Tenho um palpite: acho que esses sujeitos são os mesmos que interfonam para reclamar com os vizinhos que trepam de madrugada, ou fazem queixa para o síndico, incomodamos com os efeitos sonoros das trepadas alheias. Pra mim isso é um baita atestado de uma vida sexual ruim, ou pior: inexistente.

É claro que existem casos e casos e, se o casal se excede na empolgação, vale dar um toque, mas não é o caso dos meus vizinhos de baixo. Eu só posso ouví-los tão bem porque estou insone, com a janela de cima aberta (a real e a virtual) e também porque desliguei as caixinhas de som do computador, que tocavam Norah Jones, mas achei que a trilha sonora não combinava tanto assim com a ocasião, entendem?

Casais transando existem aos montes por aí, nesse exato momento vários devem estar fazendo mesmo que os meus vizinhos de baixo. Brigando idem. Muitos devem estar caindo no tapa agora. O que é preferível? Saber que duas pessoas estão se desfazendo em lágrimas e ofensas ou se acabando de tanto prazer?

Eu, assim como Amélie Poulain, prefiro ser testemunha de orgasmos… eles que, inegável e indiscutivelmente, são a excelência em gozar a vida.

Roberta Simoni

Vou de vestido preto!

No escuro de novo. Agora é assim, pelo menos uma vez por semana isso acontece por aqui, geralmente nos dias que eu mais preciso de eletricidade, obviamente.

Depois de horas na escuridão calorenta do veraneio carioca, teve até torcida gritando quando a luz voltou. E eu juro que quase pude escutar Renato Russo cantando “Eu era um Lobisomem Juvenil” ao pé do meu ouvido:

“Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou…”

E lá estava eu de novo, me transportando à adolescência. Embalada pelo som de Legião Urbana, foi até difícil me achar no meio de tantos planos milaborantes, sonhos escalafobéticos e dores nada fundamentadas. Mas lá estava eu, diante de mim mesma outra vez, parada, me olhando com uma certa desconfiança, sentindo uma curiosidade inquieta e uma compaixão quase maternal por mim.

- Ei, garota! Qual o problema?

- Tô preocupada…

- Pois não deveria. Seus planos não vão dar certo mesmo.

- Ahhh tá… agora sim, eu fiquei beeeem mais tranquila. Isso foi muuuito animador !

- Engraçado, eu não lembrava de você irônica assim desde tão nova.

- E eu não imaginava você tão pessimista.

- Não é pessimismo, é só a realidade. Sabe esses planos todos que você tá fazendo? Então… eles vão se concretizar, mas de forma absolutamente diferente de como você imagina agora.

- Ahhhhh, mas então eles vão acontecer?

- Vão, mas você não vai nem sentir, porque eles não acontecerão de maneira óbvia, muito menos dentro do tempo que você espera, e você vai julgar que eles não te servirão mais, e eles acabarão não servindo mesmo. Tipo aquele vestido que você ganhou de presente no seu aniversário de 15 anos que você veste para desfilar em frente ao espelho, enquanto espera pela festa perfeita para finalmente usá-lo, sabe?

- Sei, claro… aquele preto que minha tia me deu! Você já usou?

- Não. Ficou curto, não cabe mais. Nós fomos à festas maravilhosas, mas não usamos o vestido esperando “a festa perfeita”, que nunca aconteceu. E eu achei por bem doar o vestido novo… com cheiro de mofo.

- Não acredito que você deu o meu vestido !!!

- Você deu. Um dia você se olhou no espelho com ele e se achou ridícula e –  preciso dizer – você estava mesmo ridícula e… cafona. Seu vestido saiu de moda, mocinha !

- Você tá me dizendo que é isso que eu faço com os meus… com os nossos sonhos?

- Booooa, garota! É isso! Você não degusta. Ou a fome é muita e você come cru ou você gosta tanto que guarda pro final, e come frio.

- É quase como se não tivesse acontecido, né?

- Exato. Por isso, não se preocupe se vai acontecer, se concentre em como vai acontecer, mas não agora. E não se frustre se, na hora agá, você estiver usando a sua calça jeans mais surrada, ou aquela camiseta velha, pois é exatamente assim que vai ser.

“Beeeeeeeeeeeta, tá na sua vez de comprar pão !!!

Tô iiiiiindo, mãe!”

Nossa conversa foi interrompida por causa do pão fresco do lanche da tarde.

E eu fui e voltei da padaria sob os olhos de estranheza da minha mãe, do padeiro, e de todo mundo que passou por mim na rua. Ninguém jamais entenderia o que aquela garota fazia ali, usando aquele vestido preto sofisticado àquela hora do dia.

Era só uma menina vestindo um sonho que não podia ficar pendurado para sempre no cabide, ora!

E hoje, que eu julguei ser o dia ideal para fazer o meu trabalho, voltei pra casa mais cedo e “puffff”: fiquei no escuro. E aí eu pensei na conversa que não aconteceu ontem, na viagem que eu cancelei no mês passado, na mudança que eu adiei para esse ano e lembrei do vestido preto que eu poderia ter usado antes…

“E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante…”

Roberta Simoni

Porque sempre haverá o caminho de volta para casa…

“Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Sonhos dourados enchem seus olhos,
Sorrisos lhe acordam quando você se levanta,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.”

(Tradução de Golden Slumbers -Sonhos Dourados” - The Beatles)

Minha memória fotográfica é boa, mas não ajuda muito se eu não consigo lembrar o caminho. Sei como é, mas não sei onde é. Dizem que a minha desorientação geográfica serviria para estudos científicos. Não duvido.

Se você me ensina a ir até a sua casa uma vez e eu chego lá, não se iluda, da próxima vez que eu for, você vai precisar me ensinar o caminho todo de novo, e da terceira vez, da quarta… por isso, eu sei que muita gente se esforça para não perder a paciência comigo, e a minha bússola defeituosa agradece.

Mas tem um caminho que eu nunca erro, que eu sempre dou jeito de chegar, seja lá como for, eu chego: é o caminho de volta pra casa. Não o da minha casa, onde a minha bagunça divide espaço com a minha vida zoneada, mas a casa dos meus pais, “de mamãe e papai”, lá na nossa terrinha, de onde eles não têm a menor intenção de sair, nem eu de voltar. Mas eu sempre volto…

… E todas as vezes que eu entro na minha rua, meu coração dá uma festa! É lá… lá que está tudo de melhor que eu tenho na vida, é lá que eu encontro todo o amor e apoio que qualquer um precisa, e o meu coração - que não é bobo nem nada – já se tocou disso. E não importa se eu ficar um dia, ou um mês por lá, sempre vou embora ouvindo dele a mesma reclamação: “mas já?!”

Respondo que “já”, porque eu preciso trabalhar, ganhar dinheiro, dar continuidade aos meus planos quase sempre falíveis, porque eu não posso desistir de realizar os meus “sonhos dourados” que a minha terra se nega a realizar, e mais uma série de “porquês”. O coração se aquieta, mas não se conforma. Jamais.

Eu já estive do outro lado do mundo sem que o meu coração estivesse inteiramente ali, comigo. E eu sei que era que ele estava. E sempre estará. Uma parte, uma parte enoooorme, de mim sempre estará “lá em casa”, talvez por isso eu sempre acerte o caminho.

Às vezes bate uma vontade forte de voltar pra ficar, de acomodar a minha mala no fundo do armário do quarto vazio que ainda guarda o meu cheiro e que nunca se tranca com seus bichinhos de pelúcia sorridentes, registrando que uma criança foi muitíssimo feliz ali, e com seus lençóis limpos e coloridos, que me aquecem todas as vezes que faz muito frio aqui fora.

É que tem ficado muito apertado morar na minha mala, mas, eu sei… ainda não é hora de voltar. Mesmo assim é ótimo saber que lá, naquele lugar, existe um quarto com o meu cheiro, uma sala com fotos minhas nos porta-retratos, um cachorro que me derruba de alegria ao me ver, e sempre espera paciente no portão pelo meu retorno, uma irmã com saudades minhas, uma avó que reza um terço para mim todas as noites antes de dormir, e quarto braços sempre abertos, esticados na minha direção: dois da minha mãe e dois do meu pai.

Porque, felizmente, sempre haverá o caminho de volta para aquele lugar que eu chamo de lar.

Roberta Simoni

Era uma vez uma janela…

- Você deveria voltar a escrever, já disse…

- Eu sei, mas…

- Mas o que, Beta? Você vai me dizer que não tem tempo? Enjoou do seu blog de novo? Não tá inspirada? O que é dessa vez?

- É… isso tudo aí que você disse. Faz um layout novo pra mim, faz? Quero tentar escrever outra vez, mas preciso me mudar pra uma casa nova!

- Outro blog? Já criei vários blogues pra você, pô!

- Eu sei, e eu te amo por isso. Prometo que se você criar um cantinho novo pra mim, eu volto a escrever. Você poderia fazer um layout de um jeito que…

- Espera! Tenho uma proposta: crio o seu blog novo, mas eu escolho tudo. Inclusive o nome, o endereço, e gostando ou não, você vai ter que escrever nele.

- Fechado!

E foi assim que ele abriu uma nova janela na minha vida. Dessa vez, a janela de cima, do alto, de onde eu pudesse ter uma visão mais ampla desse mundo que se revela cada vez mais maluco, de onde eu tivesse que correr o risco de cair. Era o que ele queria: que eu temesse cair, e mesmo assim eu me pendurasse, me arriscasse… e me atirasse se fosse preciso, como tantas vezes me atiro, de corpo e alma (mais alma do que corpo, é bem verdade).

Ele provoca o meu instinto criativo, desafia o meu trauma de exposição na internet, ri da cara da minha insegurança, me empurra no abismo, e ainda diz, sorrindo, que empurra porque sabe que eu tenho asas.

Obrigada por isso, meu amigo. Por enxergar as asas que, nos dias nublados, eu sou incapaz de ver.

O nome dele? Marcello Sampaio. Gravem esse nome, esse moço poeta, escritor e cineasta ainda vai dar muito o que falar.

… E, contrariando as expectativas, este blog completou um aninho de vida no dia 05 deste mês (!!!). Um ano inteiro de atualizações não regulares, porém, bem mais frequentes que nos meus quase 8 anos anteriores de blogueira.

E esta semana, como presente de aniversário, a Janela de Cima recebeu o comentário de uma leitora que, ao que parece, já lê os meus escritos há algum tempo, mas só agora resolveu se revelar, não só pra mim, mas pra ela própria, diante do mundo. Copio aqui um trecho:

“Roberta, eu não a conheço – a não ser pelos textos do blog – mas venho lendo seus textos – quase todos – e me identifico muito com o que você escreve, com você! E não é só porque fazemos aniversário no mesmo dia! (…) Precisava lhe escrever para te dar os parabéns pelos seus textos, suas fotografias, e também quero agradecer por se tornar uma das pessoas que me inspiram! Graças a você decidi finalmente abrir meu blog – e não foi por falta de vontade, mas sim de coragem ! (…) Mais uma vez, valeu mesmo por escrever! Não pare! Espero, assim como você, não só me expressar, mas inspirar alguém, mudar algo, fazer diferença !”

Ariane: sou tão grata a você por me ler quanto você é grata a mim por eu escrever. E minha gratidão vai além: obrigada, de coração, por, além de apreciar o que escrevo, dividir comigo uma coisa tão especial. Saber que, de alguma forma, minhas palavras te encorajaram a escrever, é qualquer coisa de maravilhoso.

Não pense que vai ser fácil, pois não será. Não o ato de escrever em si, mas o ato de se descobrir, se desvendar e, ainda mais, se revelar diante dos outros. Mas também não pense em desistir, te garanto que será uma experiência única, da qual muita gente passa por essa vida sem experimentar: o auto-conhecimento! Vai com tudo, Ariane, e depois me conta o resultado, combinado? ;)

Outro dia eu recebi um outro comentário, no mínimo curioso, sobre uma narrativa que publiquei aqui. Nele o autor dizia que o texto era bom, porém apelativo.

Well… tirando o texto que escrevi sobre o enfermo (esse aqui óh!), onde eu apelava para que a minha mãe me socorresse caso lesse o meu blog, pois eu estava infernalmente gripada e carente, não lembro de ter feito outros apelos por essas redondezas, de todo jeito, é bom esclarecer: eu não escrevo com a intenção de apelar, convencer, persuadir. Pra falar a verdade, eu nem tenho intenções ao escrever, eu simplesmente escrevo. E é bom, intenso, “é vasto, vai durar”.

Aos meus leitores que me lêem desde os primórdios da Blogosfera, seguidos daqueles que me “descobriram” ontem, meu muito obrigada e o meu melhor sorriso pelos comentários cheios de estímulo, carinho e até cumplicidade, pela troca de boas energias, boas ideias e conversa fiada da melhor qualidade.

Essa janela de arranha-céu, que não possui grades e não é segura, de onde tantos, mesmo assim, se penduram para acompanhar os meus devaneios, às vezes é luz, outras vezes escuridão, abre-se em momentos indeterminados, e fecha-se também. Aqui dentro vive essa moça incompleta, apoiada na janela assistindo assustada o mundo lá embaixo, outras vezes encantada, sempre sonhando com paisagens novas e cada vez mais bonitas, para seus olhos enxergarem e refletirem o que vêem.

Obrigada, meus queridos, por serem a extensão dos meus olhos…

Roberta Simoni

♪ ♫ ♪ ♫ ♪ “Da janela lateral, do quarto de dormir…” ♪ ♫ ♪ ♫ ♪

Flagrantes de Felicidades

Sou do tipo que adora um impresso. Livros, revistas, jornais, gosto até do cheiro das folhas. Antiquada. Jornalista à moda antiga. Mas, confesso: coisa rara é me ver folheando um jornal. Simplesmente não dá tempo. Essa é mais uma das muitas coisas que eu faria diariamente se pudesse. É verdade que a leitura dinâmica na web acaba sendo sempre a opção mais prática, mas  hoje eu comprei um jornal, não porque deu tempo, mas porque eu precisava dos Classificados de Imóveis. Pois é, de mudança outra vez!

Inevitavelmente passei os olhos nas notícias de destaque do jornal. Na foto da primeira página: haitianos se matando por comida. É o fim do mundo, só pode. Não dá pra ver tudo isso e ignorar, achar que é um fato isolado, um caso distante da minha realidade. Não é.

Dói. Faz parecer que a comida que eu tenho no meu prato todo dia não é digna. Que o meu estômago cheio e o de outros vazios não é honesto. Não é justo. Triste ver mortos dividindo espaço com vivos nas ruas. Mais triste ainda para os que não morreram soterrados, e agora morrem de sede e fome. Não dá. É o fim.

Sei lá. É tanta coisa ruim acontecendo com o mundo que dá vontade de pedir pro pessoal lá do meu planeta me buscar e me levar de volta pra casa, porque aqui definitivamente não é o meu lugar.

Aí eu saio. Respiro ar puro, caminho, vejo o mar, vejo gente. Volto melhor. Fazer isso é tão instintivo que só hoje eu percebi que eu sou uma caçadora de fragmentos de felicidade. Eu fico buscando aqui e ali vestígios de alegrias, rastros de instantes de compensação por viver nesse mundo. E, invariavelmente, acabo achando.

Dessa vez voltei pra casa com um frasco cheio deles: uma aurora belíssima que inundou o céu de rosa. Um cachorro de rabo abanando, sorridente (sim, cães sorriem, não sabiam?). O primeiro beijo de um casal que, se não foi o primeiro, pareceu ser. A surpresa e o entusiasmo da menininha ao ver o cachorro (é o au-au, é o au-au!). A expressão de prazer da gordinha ao devorar o seu sorvete. O vovô vidrado nas pernas da morena que desfilava rebolativa na orla. A moça da limpeza da praça de alimentação abrindo um sorriso largo pra mim, ao perceber que eu a observava admirada na sua árdua tarefa de limpar a sujeira dos outros. Flagrantes. Pequenos flagras de felicidades.

A guerra continua, ainda há os mortos de fome, o mundo continua feio e eu continuo sentindo tudo isso de forma latente, mas ainda dá pra flagrar gente sendo feliz por aí, mesmo que por instantes de aparência insignificante, ainda que essa mesma gente sequer se dê conta que está sendo feliz. Eu percebo. E é dessas pequenas alegrias cotidianas (as minhas e as alheias) que eu me alimento.

Flagrantes de dor me abatem e me adoecem, mas os flagrantes de felicidade são o antídoto, principalmente essas felicidadezinhas que se escondem por trás da rotina cotidiana desse planeta estranho.

E quando há pouco o que comemorar ou nada do que se alegrar eu saio por aí… caçando aquela que, de todas, é a presa mais arisca que existe e, possivelmente, tão inconstante quanto eu: a felicidade.

Já que não dá para ser constante, tampouco permanente, que seja breve, mas intensamente saboreada.

Roberta Simoni

(Créditos: Fotografia de Miguel Teotónio)

O triste fim de Margot Simoni

Era uma daquelas noites de tanto frio que, ao sair à rua, dava para enxergar a própria respiração numa fumaça se dissolvendo no ar gelado. Eu evitava sair de casa a todo custo, até que numa noite dessas de inverno a solidão quase me engoliu e me lançou nas ruas frias de São Paulo. Cansada de vê-la à espreita em todos os cantos do apartamento, à espera do momento certo para me dar o bote, arrisquei uma caminhada pelo bairro.

Naquela noite eu andei tanto que fui parar longe demais de mim. Sentei no banco duma praça, próxima à Marginal Pinheiros. O cheiro não era bom, o visual não era nada poético e para todos os lados que eu olhava, só via prédios e escuridão. Paredes Gigantes. Concreto. Verdadeiras muralhas que protegem - e afastam - as pessoas.

Junto com as minhas mãos, pés e nariz, o meu coração também começou a congelar. Dentro ou fora de casa o frio era o mesmo e a solidão me seguiria de qualquer forma até aquele lugar sofrível. E lá estava eu, me sentindo do jeito que ela queria: sozinha.

Já era tarde e eu resolvi fazer o caminho de volta pra casa. Escondi as mãos nas mangas do casaco e levei o coração apertado dentro do bolso que, às vezes, de tão apertadinho, suava. Ou chorava. Não sei bem o que era, porque o frio me deixou meio dormente.

De repente, um miado. Fininho. Choramingoso. Loooongo. Láááá longe. Depois perto, muito perto.  E o susto. Uma gatinha vira-latas se enroscando nas minhas pernas, esfregando a cabeça nos meus pés, me olhando com a cara lânguida. Cinco minutos depois, uma gata dentro do meu bolso, apertada junto ao meu coração.

(Até hoje não descobri quem foi a vítima de quem naquela noite. Se fui eu quem a salvei ou se foi ela quem me adotou.)

Casa comida e roupa lavada. Caminha quentinha. Pratinho de areia. Cortinas novinhas para escalar e companhia nas madrugadas à dentro. Juntas, podíamos ser felizes para sempre, se fôssemos só eu e ela. Mas a outra sempre aparecia para estragar tudo. No final, éramos três companheiras entediadas: Margot, eu e a solidão.

Margot e eu cansamos do frio – e da frieza – de São Paulo, planejamos uma fuga, e concordamos em não contar nada para a solidão. Foi trairagem, eu sei, mas eu sei também que a solidão tem um monte de amigos por aí, vejo-a sempre, acompanhada de tudo quanto é tipo de gente. “Ela vai superar” – pensamos. E assim partimos para o Rio de Janeiro. Nessa parte do caminho nós nos separamos. Eu fui para um lado da cidade, Margot para outro.

Voltei a ser nômade, mas definitivamente não queria que a Margot voltasse a viver nas ruas. Encontrei um pai pra ela. O pai castrou (coisa de pai ciumento, rs!), cuidou, amou e deu à ela a liberdade que ela queria ter novamente. Eu voltei a perambular pelo mundo e ela voltou a escalar telhados, andar livremente pelo bairro, varar a madrugada e dormir só quando a noite cedia espaço para o dia. Mesmo à distância, nosso apetite pela madrugada continuava idêntico. Tudo ia bem. Margot parecia contente da vida, e eu ficava satisfeita todas as vezes que recebia notícias dela.

Mas tinha outra coisa que Margot e eu tínhamos em comum: nós amávamos a liberdade, apesar de, muitas vezes, eu ainda não saber direito o que fazer com a minha, eu pensava que Margot sabia… no entanto, aquela felina não havia se livrado dos vícios que criou enquanto vivia na rua. Nem eu me livrei de muitos dos meus. Por exemplo: enquanto eu tinha a liberdade de comer a hora que eu bem entendesse e me esquecia de comer e, quando lembrava, comia mal, Margot esquecia que tinha comida em casa e não precisava mais fuçar o lixo. Culpa dos vícios, dos velhos vícios…

Um dia Margot foi encontrada morta. O pai dela me falou ao telefone: “Acho que ela comeu veneno pra rato!”. Chorei um bocado. E, inconformada, pensei alto: “Poxa Margoleta, por que você tinha que pegar comida no lixo se tinha comida em casa?”.  Depois lembrei que gatos não pensam como nós pensamos. Foi aí que percebi uma coisa interessante: eles não pensam como nós, mas nós agimos como eles, com a diferença deles terem o perdão da limitação de raciocínio, e nós?

Nós temos alergia a camarão e comemos mesmo assim, não temos resistência ao álcool e bebemos até ficar “daqueeele jeito”, sabemos que o cigarro estraga o pulmão, mas não paramos de fumar. Que droga vicia, que chocolate engorda, que sorvete tem gordura hidrogenada, que fritura faz mal pro estômago…

Nós nos apaixonamos pela pessoa errada. Nos envolvemos com sujeitos visivelmente problemáticos. Cometemos o mesmo erro mais de uma vez. Comemos, bebemos, amamos e sofremos além da conta e depois passamos mal pelo excesso.

Margot não sabia que estava comendo veneno. Nós sabemos e mesmo assim comemos. Eu já comi comida estragada sem saber. E já comi sabendo.

Viver também é aceitar correr o risco de comer comidas exóticas, vencidas ou estragadas de vez em quando… é provar, depois decidir se vai querer ou não repetir, identificar se vai ou não gostar, se vai ser bom pra você ou não. Se vale a pena variar o cardápio, ou se é mais seguro se alimentar só daquilo que já está acostumado a comer, ainda que você não goste tanto ou tenha enjoado do paladar.

Se for fatal, paciência. Pelo menos você vai morrer com a sensação de ter saciado sua vontade, como certamente Margot morreu: livre e de estômago cheio.

Ela que não teve sete vidas, mas viveu intensamente a única que teve.

Roberta Simoni

… porque quando eu comecei a escrever esse texto, só consegui pensar nessa música e enquanto eu escrevia, era ela que eu escutava repetidas vezes.

Para quem não leu as páginas passadas da minha história com a Margot, aqui eu conto tudo, e aqui também.

E sim, o título deste post foi inspirado no romance de Lima Barreto: ”Triste Fim de Policarpo Quaresma”. :D

Dormindo Sozinha?

Eu tenho dormido pouco, muito pouco. Por volta de 2… 3 horas, no máximo, por noite, mas fico com a sensação de ter dormido 3 minutos. Em suma: eu apenas cochilo. E apesar da agilidade que os últimos dias têm exigido de mim, eles estão letárgicos, eu ando devagar, quase parando. Meus movimentos estão tão lentos quanto os de uma tartaruga ou de um brinquedo que começa a falhar porque a pilha está acabando. Além disso, o meu raciocino foi para as cucuias. Eu sei… ele nunca foi lá grandes coisas, mas, mesmo assim, faz falta. De tudo, o estado mais grave é o da minha cabeça. Acho, aliás, estou certa de que estou variando…

Nessa madrugada, durante o meu breve instante de sono, eu levantei de sobressalto.  Olhei pro lado, não tinha ninguém. Dei um pulo! Onde ele estava? Comecei a procurá-lo por toda a casa. O coração estava acelerado. Eu precisava dele. Entrei em todos os cômodos do apartamento, fucei todos os cantos. Tudo vazio. Bateu um leve desespero: “cadê ele?”. Abri a porta de casa, olhei no corredor do meu andar… nem sinal de ninguém. Cansei. Deitei de novo, inconformada.

Ele teria ido embora no meio da noite? Por que não se despediu? Será que estava se escondendo de mim? Mas por que ele se esconderia? Aquilo era uma brincadeira? Como foi embora sem que eu notasse? Será que voltaria? Talvez tivesse apenas dado uma saída rápida, mas, para onde teria ido?

E no meio daquele dilúvio de dúvidas, fui me cansado de tentar entender. Os batimentos cardíacos entrando no ritmo normal, o sono voltando, meus olhos foram cedendo ao cansaço e se fecharam de novo, até que… eu dei outro pulo!

Peraí, quem é que eu estou procurando? Ele…? Mas ele quem? Quem é ele? Eu fui dormir sozinha, e nada mais natural que eu acordasse sozinha. Nem fui dormir à espera da chegada de ninguém. Além do mais, só eu tenho as chaves de casa, então, a não ser que escalassem o prédio e entrassem pela janela, eu poderia dormir sozinha e acordar acompanhada.

Como assim, minha gente? Enlouqueci de vez?

E o pior não foi isso. O pior é que até agora eu estou com uma sensação terrível de abandono, sentindo uma saudade aguda nem-sei-de-quem. De alguém que me visitou durante a noite e que, certamente, eu não gostaria que tivesse ido embora.

Uma hora mais tarde, quando meu celular despertou na hora que programei, acordei pensando no episódio de poucos minutos antes, e conclui o óbvio: “sou doida de pedra!”, voltei a dormir sem querer, na verdade foi ”sem querer querendo”, mas longe de estar podendo prolongar o sono. Adormeci por mais alguns minutos e depois fui despertada por alguém, como se me catucassem pra eu levantar, e aí eu levantei, adivinhem só, com mais um pulo (o terceiro, contaram?).

Não é a primeira vez que acontece, e não raro, depois do susto de acordar atrasada, e de constatar que fui salva por poucos minutos, eu já levanto dizendo: “obrigada, anjinho, se não fosse você, eu estaria perdida!”

Não sou espírita, católica, evangélica nem macumbeira. Não sou nada. Sou o que eu sinto. E eu não sei se anjos existem, e se existem, eu nem sei se  tenho um que me guarde, mas alguém – ou alguma coisa - tá lá, SEMPRE, ainda que eu só perceba esporadicamente.

Pode ter sido um anjo me visitando. Um fantasma. E esse último pode aparecer de várias formas: pode ser um fantasma do passado, o fantasma de mim mesma ou o de outra pessoa. Pode ter sido uma saudade que foi me ver. A saudade que alguém sentiu de mim. Pode ter sido um encontro, ou um reencontro. Pode ser que minha alma esteja enamorada enquanto eu durmo. E pode ser, é claro, que eu esteja precisando de um tratamento psicológico urgentemente. E talvez o Pinel seja o próximo lugar que eu escolha passar uma temporada, pra variar. :D

De todo jeito foi bom. Bom demais. Mas foi breve e deixou saudade. Só por isso, eu vou dormir mais essa noite, ainda que ele volte a me visitar e eu nem me recorde disso amanhã.  

Ai ai… eu não me canso de me surpreender com as minhas aventuras noturnas!

E você? Tem certeza que dorme “sozinho”?

Roberta Simoni

Tudo novo, novamente, de novo, mais uma vez!

Sou ré confessa: não telefonei para ninguém no Natal, não mandei cartão com votos de renovação de esperança para os meus amigos, nem mesmo pelo correio virtual, o que tomaria apenas alguns minutos do meu corrido tempo.

Também esqueci de me lembrar que Natal é mais do que peru e reunião familiar, e nem é culpa do meu ceticismo ou da minha falta de intimidade com o universo religioso, tampouco tenho alguma coisa contra o Natal, é simplesmente por não estar conectada.

Pode ser que no ano que vem eu comece a comprar os enfeites para a minha árvore de Natal com três meses de antecedência. Pode ser que no próximo ano eu tenha uma árvore de Natal. Pode ser que eu sinta vontade de ligar para Deus e o mundo. Pode ser que eu pense em Jesus. Pode ser que eu mande um e-mail para você com animações natalinas e com um Papai Noel falando “ho ho ho”. Ou pode ser que não.

Natal, Reveillon, aniversário… tudo isso pra mim é estado de espírito. Eu, por exemplo, costumo fazer mais de um aniversário por ano, ter mais de um Reveillon. Sempre acontece quando eu mudo. Quando eu sinto que alguma parte de mim se transforma para melhor, eu “aniversario”. Quando a vida me mostra novos rumos, é ano novo dentro de mim!

Também não é por mal que, às vezes, eu não telefono no dia do aniversário. O motivo é quase sempre o mesmo: eu esqueço. Tenho um problema sério com datas mas, mesmo quando lembro, só telefono se eu estiver conectada de alguma forma com o aniversariante. Se for única e exclusivamente para seguir protocolo, pode esquecer! Pra mim, só existe contato válido se os votos são reais, se existe alguma coisa realmente boa para ser compartilhada.

Quando eu me compreendi assim, parei de me forçar a fazer o que manda o figurino em datas comemorativas e me senti livre… livre para seguir a risca o que o meu coração manda, independente do dia do ano. Por isso aqueles por quem eu tenho amor, respeito, gratidão, admiração e/ou amizade recebem de mim cartas inesperadas em datas atípicas, e-mails inspirados, presentes personalizados, palavras doces, sorrisos genuínos, gargalhadas espalhafatosas, abraços apertados, telefonemas empolgados… e é deles que eu também recebo os melhores presentes.

Hoje me desejaram o sol. De todos os votos de fim de ano, esse foi o melhor. “Você merece o sol.” foi o que me desejou um recente amigo. E isso soou tão bem ao meu coração que eu decidi compartilhar com vocês o sol que ganhei. Pra aquecer, para secar o que ainda estiver úmido e para derreter o que era gelado. No mais, desejo TUDO NOVO DE NOVO!

E de tudo o que quero mudar (de novo), a única coisa que eu não quero que mexam é no sol que eu ganhei de presente, nem mesmo no inverno. Porque é dele que eu recebo os mesmos raios de luz que irradio.

Sol pra quem me lê, pra quem olha através da minha janela, e para quem entra aqui a fim de poetizar, distrair, rir, emocionar, ver e ler o cotidiano da vida acontecendo. Pra quem quer ler um conto, um “causo”, uma crônica. Pra quem quer me ler… sol, muito sol, como profundo agradecimento pela companhia e pela partilha de luz que entra e sai por esta janela de cima!

Tudo novo de novo, menos essa troca natural de empatia com o universo, maior que do qualquer apatia que o mundo oferece o tempo todo.

E mais uma confissãozinha antes de partir pra 2010: sabem o que eu quero muito, muito mesmo? É ver 2009 pelas costas!  E algo me diz que eu não sou a única! ;)

E para fechar o ano com chave de ouro e começar a próxima contagem de tempo com a energia renovada, eu escolhi essa música que é mais do que um hino, é a minha oração há muitos anos, a oração que um anjo chamado Gabriel me ensinou a cantar:

Tudo Novo de Novo (Moska)

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos.”

Roberta Simoni

Você acredita?

Eu nunca esperei que a fadinha do dente trocasse o meu dente de leite por dinheiro, sempre soube que eram os meus pais que compravam os ovos de páscoa e nunca entendi direito o que o coelho tem a ver com chocolate.

Com o bom velinho não foi diferente, sempre soube que Papai Noel era um homem comum fantasiado, por isso, nunca escrevi uma carta pra ele, nem esperei que ele entrasse pela chaminé da minha casa trazendo o meu presente. Até porque eu nunca morei numa casa que tivesse lareira.

Nasci no litoral de um país tropical, e Papai Noel com aquelas roupas todas de frio nunca fizeram muito sentido pra mim. Nossa! Como devem soar os “Papais Noéis” brasileiros, pobres coitados!

Meu pai passou a infância traumatizado, magoado com Papai Noel, que ano após anos não aparecia, o presente então… menos ainda. É compreensível que tenha vindo dele a decisão de não alimentar nenhuma ilusão nas filhas. Minha mãe concordou, e felizmente nunca usou o Papai Noel para fazer terrorismo comigo. Nunca me disse que se eu não me comportasse, o tal gorducho de barbicha branca não traria o meu presente. Ufa!

No entanto, na nossa última confraternização natalina eles se confessaram arrependidos por não terem alimentado a minha imaginação infantil.

Papy e Mamy: Não se preocupem! As fantasias que vocês não criaram na minha cabeça quando criança, eu compenso até hoje. Minha imaginação é, provavelmente, mais fértil que a de uma garota de cinco anos, e os meus devaneios são tão grandes que eu evito contar pra vocês porque, aí sim, vocês ficariam preocupados.

Ter tido consciência da verdade desde cedo não afetou a minha imaginação, tanto que hoje eu não só escrevo como crio histórias. E se teve algum lado negativo nisso tudo, os que sofreram com ele foram os pais das outras crianças. Explico:

“Sua boba, se você puxar a barba dele, vai ver que é de mentira!” “Papai Noel vai na sua casa entregar os presentes? Deve ser o seu pai fantasiado, menino! Procura só o seu pai pra ver se ele não some na hora que Papai Noel aparece!” “Você pediu isso de presente na cartinha pra Papai Noel? Se eu fosse você pediria alguma coisa que seus pais pudessem comprar, porque Papai Noel não pode ser rico se ele nem existe.” “Você não acha que tá muito grandinha pra acreditar em Papai Noel, não? O quê? Sua mãe não te contou a verdade até hoje?”

Não satisfeita em saber a verdade antes de todas as outras crianças da minha idade, eu fazia questão de desmistificar toda a farsa pra elas, consequentemente desmascarando os pais delas que, nada contentes, iam reclamar com os meus.

Criança é uma coisinha muito meiga e pura, mas pode ser a criatura mais cruel que existe. E eu, obviamente, passei longe de ser uma flor de candura desde bem novinha. Ora… aposto que se eu não falasse, ninguém jamais notaria!

Quando eu tiver os meus filhos (se eu os tiver), talvez eu os estimule a acreditarem em Papai Noel, ou talvez eu simplesmente deixe que sejam livres para acreditarem no que quiserem, como os meus pais fizeram. No fundo, ninguém precisa de estímulo para fantasiar. Uns fantasiam mais, outros menos. Há ainda os que só sabem viver o que é real, palpável.

Eu continuo com meus sonhos, vestindo as minhas fantasias coloridas e ousadas, confundindo o real com o imaginário, ultrapassando o limite do impensável.

Eu que sempre fui descrente do Papai Noel, coelhinho da páscoa, fadinha do dente, fada madrinha, duende e príncipe encantado, acredito em coisas bem menos prováveis, que gente grande e pequena é capaz de duvidar: no sorriso que pode transformar, na intuição que pode salvar, na palavra que pode acarinhar, na estrela que pode me ouvir, no amor que ainda pode ser mais forte e no sonho mais ousado que pode acontecer.

Pensando bem, seria mais fácil acreditar em Papai Noel…

Roberta Simoni

Retalhados, porém intactos.

Ele estava assistindo um filme de luta na tevê, sem nada melhor para fazer. Já era tarde e o sono começava a bater quando, de repente, seu celular tocou. Era ela… nem ele sabia, mas ainda tinha o número dela registrado na agenda do telefone, apesar de não receber nenhuma chamada sua há anos. Anos mesmo.

Ela arriscou ligar para o número dele, sem muitas expectativas. Imaginou que fosse uma das únicas pessoas que consegue manter o mesmo número durante tanto tempo. Por isso cedeu despreocupada ao seu impulso e ligou tarde da noite, acreditando que não daria em nada mesmo, mas com uma esperança tímida escondida no canto da alma.

Pelo visto ela não era a única que fazia questão de manter certas coisas. Aliás, essa não era a única coisa que os dois mantinham intactos. Tanto que o coração dele, quando viu o nome dela no visor, começou a bater tão acelerado quanto o dela quando viu que estava chamando…

Ele sentiu vontade de atender falando o nome dela, mas temeu que pudesse ser um engano, ou sei lá o que, e só disse:

- Alô?
- Alô… Nando?
- Clara?
- Meu Deus… é você! Desculpa te ligar tão tarde, é que…
- Tudo bem, eu continuo com problemas de insônia… é ótimo ouvir a sua voz de novo, sabia?
- É muito bom falar com você também. Eu sei que prometi não te procurar, mas hoje…
- Eu quis te procurar muitas vezes, só que…
- Sofri um acidente, Nando. Quase morri.
- Meu Deus! Como isso aconteceu? Como você tá?
- Tô bem agora. Não vou morrer, quero dizer, pelo menos não agora. Mas tô apavorada.
- Mas o que houve, afinal? Me fala, por favor… tá me assustando.
- Fui atropelada há alguns dias. Quebrei alguns ossos e bati com a cabeça, fiquei desacordada por mais de um dia, e quando recuperei os sentidos não lembrava de nada do acidente, e ainda não lembro, mas desde então tenho pensado em você com fixação, por isso quebrei a promessa.
- Puxa, Clara, sinto tanto por isso… de verdade. Gostaria de estar aí para te abraçar agora, para ver de perto como você está.
- Você não ia gostar de ver como está o meu rosto. Quebrei o nariz em cinco lugares, inclusive. Mas o médico disse que vou voltar ao normal, e isso me encorajou a te procurar.
- Mas o que é isso? Você acha que eu deixaria de querer te ver se o seu rosto estivesse desfigurado? Francamente…
- Então vem…

Silêncio.

- Você sabe que…
- Eu sei… apesar de não parecer, eu tenho noção do que estou te pedindo.
- Pois é… eu adoraria te ver de novo, especialmente agora que você tá passando por isso, mas…
- Eu sei Nando, eu sei… você não pode, eu não posso. E nós estamos há centenas de quilômetros de distância. Existe um verdadeiro abismo entre nós. Mas é que quando eu pensei que fosse morrer, só consegui pensar em você, e fiquei apavorada com a ideia de não poder te ver nunca mais.
- Clara, eu…
- Nando, eu nunca tive pensamentos suicidas, você sabe, mas confesso que cheguei a pensar que teria sido mais fácil se eu tivesse morrido, mas aí eu lembrei das coisas que eu ainda quero fazer, e no topo da minha lista está você. Preciso te ver mais uma vez. Foi essa vontade que me deu forças para viver, tenho certeza.
- Clara, não fala mais nada.

Ele desligou o telefone apressado, comovido, emocionado, com o coração de Clara nas suas mãos, segurou-o com cuidado, sabendo exatamente o que devia – mas não podia – fazer.

Bastou uma ligação. Um toque. Uma verdade dolorosa. Um incidente. Um acidente. O calafrio da morte que não matou, ao contrário, ressuscitou dois corações.

Roberta Simoni

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Ela. Aquela. Beta. Roberta.

Jornalista e Fotógrafa. Cabofriense, Carioca, se aventurando no mundo e morando na "Janela de Cima" - mais perto do céu, tentando alcançar as palavras.

Fotografia por Roberta Simoni

Efeito do contato com a natureza...

Deusas gregas também se tatuam, ora essa!

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