Existindo…

Existir

Sou do tipo que conversa com cachorros de rua. Tenho um filho canino chamado Theo e não tive ainda nenhum filho da mesma espécie que eu… ainda!  Numa terra distante, sem ser planejada, por culpa da tabelinha, uma criatura de cabeleira arrepiada chegava ao mundo, era eu: cabofriense, “carioca da clara”, brasileira e, até que provem o contrário, terráquea, pois já me garantiram que eu sou de Vênus.

Meu signo era leão, até descobrirem que sou, na verdade, canceriana, revelação que  não mudou drasticamente a minha vida. Não sou paciente. Sou chocólatra. Provavelmente sou a única pessoa que você conhece que esteve em Paris e não foi à Torre Eiffel. Sou neta de italiano, adoro qualquer tipo de massa. Acho vinho pra lá de chique, mas fico grogue fácil. Sou irmã caçula. Filha de Paulo, Beth e, à contra gosto deles, também sou filha do mundo.

Não gosto de frescura. Sou prática quase sempre. Demasiadamente sincera. Estupidamente humana. Moderna e antiquada ao mesmo tempo. Ainda não me acostumei a ter que usar um celular, nem sei se um dia vou. Me deleito lendo Milan Kundera, Julio Cortázar, Marçal Aquino. Sou fã inveterada de mulheres como Hilda Hilst e Clarice Lispector. Apaixonada por Literatura.

Já quebrei meus braços algumas – ok, muitas! - vezes. Tive uma infância fantástica, cresci na beira da praia, corri descalça nas ruas, subi em árvores, pulei muros, brinquei pouco de boneca, sempre fui moleca.

Odeio ficar ansiosa, coisa que acontece com uma frequência considerável. Adoro feijão preto. Acordar é o momento mais difícil do dia, dormir mais ainda. Tenho horror de baratas, e estou certa de que elas planejam secretamente dominar o mundo. Já morei em repúblicas e pensionatos. Fui radialista e comentarista de futebol, mesmo sem entender, até hoje, a regra do impedimento.

Às vezes acordo meio “Amélie Poulian”, achando que a vida é uma fábula. Adoro uma hipérbole. Sou hiperativa e notívaga. A insônia é minha namorada. Sou beijada por palavras, acariciada por cartas, e assumidamente promíscua com livros. Não sei dançar, mas danço. Não sei cantar, mas canto. Não gosto de morno, ou é quente ou gelado. Ser intensa não é escolha, é característica. Gafe é o meu sobrenome e, Beta, quase um nome.

Tenho espasmos de alegria, especialmente a alegria dos prazeres inofensivos. Não suporto a economia de gestos. Assim como Vinícius de Moraes, já rasguei poemas, amores e horizontes. Fiquei simples, sem fontes. Prefiro um verbo a um substantivo. Algumas vezes sinto fadiga existencial. Vivo minhas tragédias e conquistas de natureza pessoal. Sou a própria nostalgia. Já me olhei no espelho chorando. Por vezes carreguei minha alma no bolso. E apesar de toda essa minha verborragia incorrigível, continuo me sentindo incapaz de descrever-me.

Roberta Simoni

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10 Respostas para “Existindo…”


  1. 1 Andarilho outubro 4, 2009 às 5:45 pm

    Eu tb conversava com cachorros na rua, mas parei. Eles nunca respondiam.

  2. 2 Juliana outubro 5, 2009 às 12:40 pm

    tão lindo esse texto;
    assim faz parecer que já te conheço,
    ainda que eu esteja vários estados distante;
    assim dá vontade de te dar um abraço,
    e na falta de um teletransporte
    [que infelizmente já me conformei de não conhecer nessa vida]
    me transporto no vento
    pra chegar aí e te dizer bem baixinho:
    Beta, tu é demais!!!

    boa semana!

  3. 3 Ronaldo outubro 7, 2009 às 4:18 am

    Lindo texto, amiga!!!
    Saudades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Muitas jáááá!!!!!!!!
    Bjsssssssssss

  4. 4 Mesquita outubro 8, 2009 às 4:11 pm

    Adorei também…
    Acredito realmente que você ainda não sabe utilizar o telefone celular, pois estou passando “sms” e você não responde..rs.
    Bjs

  5. 5 Marcelle Alves outubro 9, 2009 às 3:43 pm

    Garota! O que é esse texto! Palmas! Muitas palmas!

    Bjs

  6. 6 Amaro outubro 9, 2009 às 3:59 pm

    “inda não tive nenhum filho da mesma espécie que eu…”

    haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhahahhahahahahahahah!

    Mijei-me

  7. 7 Amaro outubro 9, 2009 às 4:01 pm

    “ainda não tive nenhum filho da mesma espécie que eu…”

    haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhahahhahahahahahahah!

    Mijei-me

  8. 8 André Jotha outubro 13, 2009 às 11:23 pm

    Amigaaaaaa, somos dois né?

    Vai pegar buzão lotado pra vir me visitar tb? hehee

    Saudades. Bjuu

  9. 9 Espanhol esquecido abril 16, 2010 às 2:35 pm

    Linda…. td lindo….
    td BETA!

  10. 10 marynha dantas dezembro 25, 2011 às 5:42 pm

    BETA, linda texto, um resumo autobiográfico detalhado, por tuas palavras podemos ver até o invisível, ouvir o inaudível. BETA és tao intensa e tao jovem, desde já tens muito a passar e repassar a teus semelhantes, direta ou indiretamente de ti mesma, imagine na tua sexagenária data de vida ou mais…tô gostando de tudo aqui. SÓ ALGO, por que afirmas tao categoricamente que o teu Deus não seja o meu, por exemplo ? acredito que seja, a começar pala maneira de escrever o nome Dele…pense em DEUS como todo o OCEANO( Pacífico,Atlântico, etc) onde geograficamente os rios correm sempre para ele, porém, este MARavilhoso SER, invertidamente ao MAR derrama de Si mesmo para cada braço de rio ligado direta ou indiretamente a Ele. Quando falamos DEUS fica muito grande, muito forte, parecendo inatigivel, inalcançavel. mas quando falamos e escremos “DeuS” percebemos que há algo no meio dele, na nossa lingua mãe, que é a razão Dele nos amar. o EU de cada um de nós…abraço. Nao precisa liberar meu comentario ok ? mas gostaria de ter teu email, qq um. valeu !!!


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