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A Semana dos Nãos

Acordei e vi que ele arrumava a mala. Fingi continuar dormindo só para poder observar como separava meias e cuecas calma e cuidadosamente. Não tinha a pressa de quem está prestes a perder o vôo, mas tinha o desânimo de quem viaja para o Polo Norte só de meias e cueca.

A essa semana que seguiu sem ele, resolvi batizar de “A Semana dos Nãos”. Foram muitos nãos grandes para caberem todos em dias poucos e curtos.

Um contrato não assinado. Um pedido de patrocínio negado. Um texto não terminado. Um transplante de raciocínio matemático rápido negado. Um artigo não vendido. Um pedido de empréstimo de talento para negócios negado. Um ou dois projetos vetados. Uma publicação de livro negada. Um trabalho adiado. Uma pauta não aprovada. Um visto para a lua negado.

É claro que eu coloquei a culpa nele por ter ido embora e me deixado aqui sozinha com essa cambada de nãos malquistos. Persona non grata! Daí ele me aparece hoje dizendo que foi só ali e já voltou, afinal, não teria passado pela minha cabeça que ele pudesse ter ido embora para sempre carregando apenas meias e cuecas na mala, certo? Errado. A não ser que eu fosse uma criatura mais lógica e menos emocional.

Apesar das negativas, ele voltou! Voltou porque eu, graças às negativas, tive a semana mais elucidativa do ano. Os pontos de interrogação impertinentes foram devidamente substituídos por nãos exclamativos, embora alguns sejam intermitentes.

Entre certezas desagradáveis e incertezas, eu fico com a primeira opção. Uma vez tendo um não (ou vários) como resposta, a gente pula para a próxima tentativa de sim.

De mala na mão, meu sonho voltou pra casa. Dentro da mala, meias e cuecas sujas que eu nem me importei de ter que lavar.

Roberta Simoni

Pra caber no encaixe…

- Onde dói?

- Dói tudo, doutô!

- Aqui dói?

- Dói também. Dói até os ossinho da alma.

- Alma não tem osso, menina!

- Pois a minha tem sim, sinhô! Não tá vendo essas fraturas expostas aqui?

- Cadê?

- Aqui, doutô! Os sentimento tudo pulando pra fora. Faz eles voltarem pra dentro, doutô, faz?

- Filha, eu não posso tratar de alma fraturada. Como eu vou fazer para te engessar depois?

- Mas se o senhor que é o médico não sabe, como eu vou saber? Me disseram que o senhor podia dá um jeitinho de me ajustar no lugar.

- Mas eu não posso, criança!

- E de lego, pelo menos, o senhor entende?

- De lego???

- É! Aquele jogo de encaixar aquelas peças coloridinhas, sabe?

- Ah, sei…

- Sabe? Ah, então o senhor pode me curar! Mamãe disse que a gente é igual a peça de lego, uma encaixa na outra pra montar um brinquedo legal.

- E onde eu entro nisso?

- O sinhô entra me fazendo entrar, ora! É que me dói tudo porque eu não me encaixo nas outras pecinhas… eu forço daqui, me machuco de lá, mas não entro em nenhuma, nada me cabe e eu não caibo em nada, doutô! Me conserta pra eu caber em algum lugar, pufavô?

- Menina, você não é uma peça de brinquedo! Que ideia é essa?

- Também não sei de quem foi essa ideia de fazer a gente igual a essas pecinhas de montá. Mas isso me parece coisa de um tal de “Jerico”. O senhor conhece esse moço, doutô? Minha avó sempre fala que as coisas que eu faço se parecem com as ideias dele, mas eu juro pela minha mãe mortinha que nunca copiei a ideia de ninguém! O senhor acredita em mim?

- Criança, eu…

- … eu sei, doutô! O senhor também não acredita em mim, não é? Tudo bem, não precisa acreditar, só me conserta! Deve ter conserto para peças defeituosas assim, feito eu, não tem?

- Escuta aqui, criatura, você não está doente nem é defeituosa. O seu problema é imaginação fértil.

- Engraçado, o senhor pareceu até meu pai falando agora! Então como é que faz pra parar de fertilizar a cabeça da gente, doutô?

- Não existe anti-fertilizante cerebral para transformar alguém numa peça funcional.

- Ah, não? E se o senhor inventasse? Podia ficar rico com isso, já pensou?

- Rico eu não sei, mas talvez eu conseguisse fazer você caber dentro da realidade.

- Ah, então melhor deixar como tá, né doutô? Se existir já me dói todinha, imagina se eu tiver que caber nessa tal de realidade? Dizem que lá é úmido e apertado, eu vou acabar transbordando e depois vai dar um trabalho danado pra me juntar…

Roberta Simoni

Durmam, seus trombadinhas!

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

Roberta Simoni

E invento você

Não fala nada, não… chega assim como a brisa. Me beija o rosto como o sol beija o mar, ou como o Banderas beijou a Zeta Jones naquele filme… serve também. Não precisa ficar pra sempre, mas passa por aqui antes do próximo abril, antes do fim do inverno, antes do gelo derreter, da neve ferver. Chega depois que a lua aparecer, nova, cheia ou crescente, mas, por favor, não chega minguante.

Enrola meu cabelo nos teus dedos, depois me pede para eu deixar ele crescer outra vez, mas diz que eu fico bonita também de cabelo curto, que eu fico linda de qualquer jeito, até quando eu acordo de uma noite não dormida porque o barulho da minha inquietação me despertou e me arrancou do meu sono outra vez. Mente pra mim. Vez ou outra mente, por favor. Mas mente sinceramente. Não precisa ser todo dia, nem o tempo todo. O tempo todo só me engole.

Me entope de informação desimportante, de risada fora de hora, de cultura inútil. Me ensina todas essas coisas de utilidade pública e grande relevância para a humanidade, como erguer uma sobrancelha só ou encostar a língua na ponta do nariz. Me ajuda a montar um castelo de areia, outro de cartas. Me escreve uma carta? Não precisa dizer nada. Só desenha um coração bem grande no meio da folha. Dentro do coração, coloca as iniciais dos nossos nomes. Eu vou achar bonitinho, cafona, mas bonitinho. As palavras você pode espalhar no tapete da sala, na cama do nosso quarto, no pé do meu ouvido…

Me beija na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, sobretudo na chuva. A casinha não precisa ser de sapê, pode ser de tijolo mesmo. Me faz correr para entrar na internet só pra ver se o seu signo combina com o meu. Preenche as minhas reticências, ocupa os meus espaços, rouba as minhas horas. Me faz perder a hora. Do trabalho, do dentista, do oculista. Me deixa enxergar mal, eu não quero corrigir o grau das minhas lentes agora.

Não tem problema se você vier de camisa velha, mas vem. Só faz a barba se você quiser. Mas eu vou gostar se você não fizer. E se você fizer é provável que eu goste também. Tá, eu não vou nem notar. Mas se você esquecer de propósito a sua escova de dentes na pia do meu banheiro eu vou perceber. E pior: vou gostar. Vou adorar ter minha liberdade ameaçada por um objeto inanimado.

Trinca os dentes com vontade de me apertar até me sufocar. Me afoga nos teus beijos, mas depois faz respiração boca-a-boca para me salvar. Me leva pro mar, me atira aos tubarões. Se atira comigo. Mergulha fundo até perder o ar. Seja estúpido. Tolo. Menino. Seja faminto. Instinto. Tubarão. Sinta fome de mim no café da manhã que eu me sirvo de você na mesa do jantar. Depois a louça é sua… tá na sua vez de lavar. Eu te ajudo a secar, mas só amanhã, quando eu acordar pra sonhar.

Fica pra sempre até eu terminar de te inventar.

Roberta Simoni

O meu rapaz…

Eu vi você na Itália.

Você usava uma daquelas suas camisas sociais bonitas. Estava lá a trabalho? Imagino que sim…
Achei que eu pudesse estar delirando, já que quando se chega em Roma pela primeira vez, tem-se a sensação de estar pisando num lugar absurdo, surreal… tudo é colossal e desmedido. Quando se acaba de admirar um palácio renascentista, você tropeça numa antiguidade venerável, dá de cara com uma ruína, esbarra num monumento inacreditavelmente perfeito e depois outro e outro…
Me escondi atrás de um desses monumentos e fiquei te olhando. Não me julgue.
Você conversava com um homem que falava alto e gesticulava muito (era um italiano, acertei?) e você de braços cruzados, só assentia com a cabeça, esboçando um sorriso vez ou outra que, eu sei, é um daqueles seus sorrisos que dizem: “estou te dando atenção por educação, mas não estou interessado em nada do que está dizendo”… Você não mudou nada mesmo. Fiquei vendo aquela cena e rindo sozinha.
Depois outras pessoas chegaram, todas muito animadas. Assim como eu, devia ser a primeira vez delas em Roma. Uma moça trazia uma máquina fotográfica na mão. Alguém do grupo se dispôs a tirar uma foto. Vocês fizeram pose em frente à Fontana di Trevi que, se não estivesse sempre tão lotada, eu teria dúvidas se não era mais um fruto da minha imaginação lírica. Me distraí olhando você diante da fonte mais linda que já vi na vida e o meu sorvete começou a derreter. Fiquei com a manga do casaco toda lambuzada por sua culpa.
Lembrei daquelas fotos de grupo da escola, da faculdade, dos churrascos da turma do trabalho. Você, alto, ficava sempre lá atrás, só dava para ver sua cabeça, quando muito. Uma vez você se queixou comigo, numa dessas crises existenciais periódicas e passageiras, dizendo que não conseguia se destacar nem nas fotos.
Fiquei ali parada para ver como você se posicionaria no grupo e como o grupo se posicionaria perto de você. As pessoas foram se aprumando ao seu redor, você ficou no centro naturalmente, ninguém se meteu na sua frente, de forma que era possível ver mais do que a sua cabeça dessa vez. Você se abaixou um pouco para ficar na altura das moças que estavam ao seu lado e inclinou a cabeça para frente para disfarçar a papada no pescoço que você cisma que é feia, depois você esticou os braços como se eles pudessem abraçar o grupo inteiro, ou o mundo. E sorriu largo. Eu sorri junto, como se fosse aparecer na foto também.
Aí, na hora de bater a foto, a moça que estava do seu lado direito falou alguma coisa com alguém, mas eu não consegui entender o que era e parece que você também não, mas você não moveu a cabeça, só olhou de lado, de rabo de olho. Típico. Afinal, os velhos hábitos não te abandonariam só porque você atravessou o Atlântico…
A foto ficou assim: você lindo, no centro, abraçando o mundo, sorridente e com o olhar desconfiado.
Esse é o meu rapaz, pensei.
E aí eu acordei.
Roberta Simoni

Corre, criança!

No sonho eu estava indo viajar, mas não sabia para onde. Não é que eu não me lembre aonde estava indo, é que no próprio sonho eu só sabia que estava indo viajar, mas não imaginava o destino. O plano era chegar no aeroporto e escolher um rumo conforme as disponibilidades de locais e horários, contanto que o embarque fosse imediato. Eu arrumava as malas com uma euforia infantil, de quem não precisa se preocupar com nada, só em simplesmente ir e ser feliz.

Mas as perguntas práticas começaram a impregnar: iria para um lugar tropical ou frio? Que roupas deveria levar? Por quanto tempo ficaria fora? De quanto dinheiro precisaria? Comecei a sentir aquele velho e conhecido medo do desconhecido, não aquele que paralisa, mas o que move. O objetivo era sair de casa sem saber aonde estava indo, quando voltaria e, o principal, como voltaria. Eu estava dando um par de pernas de presente para o meu coração, pernas intuitivas!

Mas elas só andaram até a fila do check-in no aeroporto, quando uma senhora apareceu, me convenceu a sair da fila, me levou para uma casa grande e me trancou lá dentro. Foi aí que o sonho colorido virou pesadelo cinza.

Lembro de ter dormido e acordado, ainda na casa dela, trancada num quarto confortável e quando a mulher abriu a porta, me trazendo um prato de comida, eu escapei, correndo  escada abaixo, procurando a saída. Ela gritava que não ia adiantar, porque eu não ia conseguir fugir. Mas eu chegava até um quintal e pulava os muros das casas vizinhas até sair numa rua escura e barrenta. De repente o dia virou noite. A mulher, correndo atrás de mim, esbravejava, me chamando de tola, dizendo que eu não ia encontrar lugar melhor no mundo do que a casa dela. E eu só corria, corria, corria. Cheguei até a encontrar – e ultrapassar – um maratonista no caminho (ah, gente! Me deixa sonhar….). A essa altura, eu já tinha perdido a minha mala e as minhas sandálias, corria descalça na estrada de barro.

A velha miserável continuava atrás de mim, enfurecida. Eu já estava sem fôlego, mas continuava correndo. Quando finalmente consegui despista-la, já era tarde da noite, eu estava suja, perdida, com medo e, para piorar, eu tinha virado criança. Usava um vestido rosa rodado lindo, mas continuava imunda dos pés à cabeça. Daí acordei.

Não sabia por que eu tinha voltado a ser menina, não sabia exatamente de quem eu estava fugindo, tampouco para onde eu estava indo, mas recuperei a liberdade que era tão minha lá no começo do sonho.

Faz dias que tive esse sonho, comecei a escrever sobre ele, depois fiquei tão sem rumo no texto quanto a menina de vestido rosa rodado, suja de lama. Só hoje, enfim, tive uma epifania!

A mulher que me tira do aeroporto e me tranca numa casa é a minha própria consciência racional, a minha versão protetora de mim mesma, meu lado conservador que não entende meu instinto livre e aventureiro. É o medo personificado, fazendo das tripas coração para confiscar meu futuro.

Afinal, como esperar que o medo e a razão não reajam mal diante de tamanho disparate? Eu estava saindo de casa para me perder na tentativa de me achar, era óbvio! Uma necessidade tão grande de liberdade que vira uma coisa quase irracional, instinto puro, tipo bicho que quer sair da jaula com comida farta e água fresca para voltar para selva, com todos os perigos e desafios que ela oferece. Até os animais domesticados, tratados cheios de mimos e vontades, diante de um portão aberto, fogem.

Então deixa eu ser criança que, na primeira chance, me desprendo das mãos dos meus pais, corro pra mais longe, mesmo sem saber pra onde, só para experimentar a sensação deliciosa de estar indo para algum lugar com os meus próprios pés.

Vou voltar lambuzada de lama, mas com um sorriso impagável na cara.

(e essa é a minha resposta para você, minha senhora!)

Roberta Simoni

É disso que eu tô falando!

É daquele beijo com sabor de café que eu tô falando. Do café com sete gotas de adoçante que você preparou pra mim de manhã.

Eu tô falando daquela alegria condicional provocada por aqueles amores incondicionais que a gente tem na vida, poucos, mas tem.

Daquela madrugada que nós deitamos no chão de concreto do terraço lá no alto da cidade pra ver a lua e planejamos o que faríamos quando ficássemos ricos depois de ganhar na loteria, isso, é claro, se a gente lembrasse de jogar.

E daquele dia que eu tinha desistido de viajar para acampar porque estava chovendo e aí vocês apareceram na porta da minha casa com barraca e mochila nas costas e não me deram outra alternativa senão partir pro meio do mato…

Do cheiro de amaciante no lençol. Da roupa de cama limpinha que eu acabei de trocar.

Daquela chuvinha fina que cai no fim da tarde e a gente fica da sala assistindo as gotas caindo no quintal, sentindo o cheiro da terra molhando aos poucos. Desses dias de verão dentro e fora da gente, que você liga o ventilador em cima de mim e eu me jogo semi-nua no piso de madeira da sua sala e você ri, dizendo que um dia ainda vai me levar pra morar numa casa com uma piscina bem grande.

Daquela música que a gente compôs junto. Da filha linda que você batizou com o mesmo nome que o meu e agora você vem reclamar comigo que o nome acabou influenciando na hiperatividade da menina.

Eu tô falando é dos longos silêncios que não incomodam, da confortável ausência de palavras, da vontade de ficar perto sem fazer nada, dos carinhos que se comunicam sozinhos, sem a nossa ajuda.

Daquele dia que a gente parou o carro alugado numa estrada escura e completamente deserta em algum lugar entre São Paulo e Minas Gerais, apagou os faróis para ver o céu mais estrelado que eu já contemplei na vida e uma estrela cadente despencou bem na nossa frente e aí a gente começou a pular e se abraçar, até que, no meio da euforia, alguém lembrou que devíamos fazer um pedido… e então, ficamos lá, parados, num abraço mudo, olhando pro céu e sentindo nossos pés desgrudando da terra.

Das vésperas. De viagens, feriados, fins de semana, fins de saudades…

Eu tô falando de pés enroscados, beijos na nuca e sexo preguiçoso de manhãzinha.

Daquela Coca-Cola gelada e com pouco gás que eu vou tomar no gargalo assim que eu terminar isso aqui que eu tô escrevendo pra falar disso aqui que eu tô falando…

É disso que eu tô falando!!!

Vocês me entendem???

Roberta Simoni

Enquanto isso, em Paris…

Esses dias meu ex-namorado veio me perguntar se eu tinha mandando um e-mail para a atual namorada dele… hein?

Por que eu faria isso? Mesmo se a minha louça estivesse toda lavadinha (o que não é o caso) e eu não tivesse coisa melhor para fazer, eu trataria de arrumar.

- Por que, diabos, eu mandaria um e-mail para a sua namorada?

- Sei lá. Ela disse que você mandou.

- Ah, é? O que eu dizia no suposto e-mail? Desculpa, mas não consigo me lembrar…

- Não sei direito, mas parece que você dizia que apesar de vocês não serem amigas, você não gostaria que fossem inimigas e coisa e tal… um e-mail “de boa”…

- Sei. E você acreditou?

- Sei lá…

Sei lá por que um cara que supostamente me conhece tão bem consegue conceber essa cena: eu, sentada na frente do meu computador, escrevendo um e-mail para a namorada dele. Sei lá por que a namorada dele inventou isso. Sei lá por que uma mulher de trinta e tantos anos age dessa forma. Sei lá como arruma tempo pra esse tipo de coisa. Sei lá.

Só sei que depois de pensar, pensar e não chegar a nenhuma conclusão, me senti no direito de inventar, eu mesma, uma razão.

Ontem eu escrevi no meu twitter que eu ainda tenho mil histórias para contar e um milhão para inventar. Ela também tem as dela. Todos temos. E, algumas dessas histórias que temos pra contar têm de ser invenção mesmo, porque assim ficam mais interessantes. Não importa a razão, não importa o que te faz querer contar uma história que não aconteceu, não importa que pensem que você é um mentiroso. Desde que seja uma mentira inocente, que não prejudique a ninguém e te faça qualquer bem, fantasie. Não faz mal se te faz bem.

Meu telefone tocou e era a minha mãe perguntando se eu ia mesmo ficar em casa na véspera do feriado. Eu disse que sim porque pretendia acordar cedo para comprar uma baguete no bistrô da esquina, já que aqui nesse hotel servem um pão dormido, e como eu estou em Paris, por que não comprar eu mesma meu pão francês fresquinho e sair carregando-o debaixo do braço como fazem as mulheres chiques daqui? Merci, mamãe, ficarei aqui mesmo e amanhã te enviarei um postal lindo da cidade.

Por sorte mamãe estava com meu sobrinho no colo fazendo uma algazarra danada e ela mal conseguia entender o que eu falava: “o que você tá dizendo, menina?”

“Nada não, mãe…” – eu respondi, rindo. Nos despedimos e eu desliguei o telefone sentindo uma vontade tão grande de acordar em Paris que, se não fosse pela falta de grana, eu teria comprado as passagens imediatamente e, a essa altura, já estaria a caminho da cidade luz.

Às vezes vocês não imaginam coisas estúpidas, tristes ou divertidas? Vez ou outra não sentem saudade daquilo que nunca viveram? Pois. Eu sim. De quando em quando fecho os olhos e visualizo cenas inteiras, com detalhes (incluindo os sórdidos). É como se eu visitasse universos paralelos e, nesses universos eu sou autora, roteirista, diretora e atriz. E nos meus filmes acontecem coisas das mais extraordinárias às mais triviais. Das mais improváveis às mais possíveis.

Vou de um hotel em Paris à porta da minha geladeira. Imagino de uma conversa franca com Deus a um telefonema de trabalho. Invento que sou rica e fico imaginando que loucura deve ser a vida na classe média. Eu invento situações para testar emoções. É como provar o sabor das possibilidades.

Nunca inventei receber e-mail de ex-namorada de nenhum namorado meu, não. Pelo menos não até hoje, mas agora compreendo quem precisa inventar. Quem alimenta a imaginação não morre de tédio.

E eu, que não enviei nada, provocada por um e-mail imaginário, fiz melhor: escrevi um texto.

Agora eu preciso ir porque o dia amanhece e o cheiro da baguete fresquinha tá invadindo o meu quarto. Querem alguma coisa de Paris?

Roberta Simoni

Ouse sonhar ousado

Helena Bonham Carter

Sonhe com um príncipe encantado montado num cavalo branco. Sonhe em ter um marido perfeito, uma família linda, tipo comercial de margarina. Sonhe em se casar na praia. Sonhe em se casar. Sonhe em ser solteiro de novo. Ou que a sua mulher desapareça durante a TPM. Sonhe que você vai ganhar na loteria, que vai ficar milionário e que nunca mais vai ter problemas na vida. Mas, por favor, jogue.

Sonhe com um corpo perfeito, uma barriga tanquinho, seios durinhos, um pênis maior, que nunca faça corpo mole em serviço. Sonhe em transar com o Brad Pitt, com a Angelina Jolie ou, de preferência, com os dois juntos. Se é pra sonhar, sonhe direito.

Sonhe em viajar o mundo, em falar todas as línguas, em fazer um milhão de amigos. Sonhe em ser onipresente. Em ser uma mosquinha ou um peixe para num límpido aquário mergulhar e fazer borbulhas de amor… enfim, seja cafona na hora de sonhar.

Isso! Sonhe com o amor, mas sonhe mesmo, pra valer. Com direito a coraçõezinhos rabiscados num papel. Sonhe com um amor pra recordar, outro pra recomeçar e um amor pra toda vida. Sonhe com uma vida sexual ativa e de qualidade. Sonhe em comer todo mundo. Ou só a Jolie que já basta, né?

Sonhe com filhos que não dão trabalho. Com adolescentes adoráveis. Com pais bacanas, equilibrados. Ricos, de preferência. Sonhe com uma morte que não seja dolorosa e com a vida plena mesmo depois de partir dessa pra melhor. Que seja melhor! Sonhe com o céu, com o seu deus e que a sua fé vai mover montanhas.

Sonhe com a felicidade permanente. Sonhe com a fidelidade, com a satisfação eterna na vida monogâmica. Sonhe com uma vida saudável. Sonhe em comer tudo o que você quiser sem nunca engordar, inclusive a Jolie. Sonhe em ser magro e bonito. Sonhe com um mundo cheio de gente fina, elegante e sincera.

Mas se você quiser sonhar alto mesmo, se quiser ser realmente audacioso nessa vida, sonhe em ganhar dinheiro fazendo aquilo que você gosta. Não existe nada mais ousado do que querer ser (bem) remunerado para fazer uma coisa que te dá imenso prazer. Ter um emprego que te encha de orgulho. Realizar um trabalho que você realmente acredita.

Seja ambicioso. Deseje que aquilo que você passa a maior parte do seu dia (e da sua vida) fazendo seja algo que te dê vontade de voltar a fazer no dia seguinte, e no outro, e pra sempre. Sonhe em fazer algo que te entusiasme, que te satisfaça, que te aumente a alma.

Tenha sonhos espaçosos. Incômodos. Sonhos devem ser possivelmente impossíveis. Risíveis. Mitos.

Conte-os a outras pessoas. Se rirem de você, vá por mim, você tá no caminho certo!

De novo: grande coisa a gente não consegue com sonho pequeno.

Roberta Simoni

O Batom Vermelho

Meus sonhos têm sido responsáveis por metade da minha cota de inspiração ultimamente. Durmo, sonho, acordo, escrevo. Não exatamente nessa ordem.

Estava lendo Cortázar quando bateu aquele sono gostoso ainda agora. Quando esse tipo de coisa acontece, largo o que eu estiver fazendo (e isso incluí até mesmo o Cortázar) e me entrego de corpo, alma e ilusão.

É… ilusão! Normalmente essa sensação gostosa de leseira passa depressa e quando chego a conseguir dormir, o sono nunca é o bastante.

Dessa vez não durou mais do que 10 minutos, e o mais lamentável é que eu acordei como se tivesse dormido por 10 horas, ou melhor, minha mente acordou a todo vapor, só ela. O corpo segue padecendo…

Sonhei que eu estava casando. Ora eu era o noivo, ora a noiva, e vivia a aflição na pele dos dois. Quando eu era o noivo e estava prestes a entrar na igreja, tomado por um nervosismo típico de quem tem consciência que vai fazer merda, eu aparecia, dessa vez como noiva, já me sentindo na pele dela e no vestido longo, pesado e desconfortável que a pobre usava, como todo bom vestido de noiva deve ser.

Ela, ou melhor, eu – a noiva – puxava o noivo antes que ele entrasse na igreja e começava a mexer no paletó dele. Procurava pelo meu gloss rosa, não encontrava. O noivo, nervoso, me mandava parar de mexer no seu bolso, eu perguntava pelo meu gloss e ele dizia que tinha deixado em casa, porque não fazia o menor sentido casar carregando minha maquiagem no bolso, o que, afinal, faz todo sentido!

Eu, muito irritada, ouvia o som da marcha nupcial e tentava tirar a todo custo o batom vermelho da minha boca (e que não saia nem com reza forte) porque, de repente, comecei a me sentir insegura com ele. Enquanto isso, o noivo me mandava esquecer essa besteira de batom e tratava de se encaminhar pro altar, apressado como se fosse possível a cerimônia acontecer sem ele.

Decidida a não casar com a boca vermelha e aborrecida por não poder passar meu brilho labial, dei meia volta e fui embora, deixando o noivo – que até agora eu não desconfio quem seja – para trás.

Oi?

10 minutos depois eu estava acordada, tão solteira e cansada quanto antes.

E agora eu estou aqui, pensando e escrevendo. E tô decidida a não procurar o significado para um sonho como esse no Google, porque sei que não existe a menor possibilidade de encontrar. Logo, o que me resta é divagar e tirar minhas próprias conclusões.

Caso tenha chegado até aqui, acompanhe-me:

Pra começar, desconfio que eu não vá casar um dia, então até aí, tudo bem, deve estar no subconsciente e isso explica o casamento não se concretizar no sonho. E quanto ao batom? Por que essa implicância com o batom vermelho? Por que só casar com o rosa?

É bem verdade que eu uso bem menos batom vermelho do que eu gostaria, não é todo dia que me sinto preparada pra ele, só nos mais ousados. Sem contar que não é sempre que combina ou fica bom em mim, só quando eu estou mais, digamos… ousada!

Vai ver que, lá no fundo, eu ache que casamento e ousadia não combinem tanto, o que, em alguns casos, não é verdade, porque casar pode ser exatamente a maior ousadia que alguém pode cometer na vida!

Já o noivo, como todo homem que se preze, tá pouco ligando se o batom é vermelho ou rosa, ou se existe algum batom ali, desde que a nossa boca tenha mais utilidade do que só fazer falar, falar e falar.

Talvez o que me falte seja a vontade de casar, ou de pensar no assunto tão cedo, ou talvez seja só medo de ousar mais um pouco, e desta vez não me refiro ao casamento, mas exatamente a tudo o que está desvinculado a ele ou à ideia de união. E de estável.

Um gloss rosinha é garantia absoluta de sucesso, é discreto, combina sempre e nunca é extravagante. Usar batom vermelho todo dia, assim como casar, ou escolher ficar só, requer coragem.

Acontece que tenho me permitido desfilar com a boca vermelha mais vezes por aí. Rosa é ousadia pouca, não serve. Grande coisa a gente não consegue com coragem pequena.

Roberta Simoni


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