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O que fazer com os tijolos?

Loucura

Lúcia veio correndo me abraçar e me pediu para tirarmos uma foto juntas. Depois da foto, perguntei a idade dela. 18, disse. Uma das enfermeiras se aproximou e desmentiu, contou que ela acabara de completar 41 .

- Ora ora, mocinha, mentiu pra mim por que, hein?

- Eu não menti. Se eu gosto de ter 18, eu tenho 18.

Justo!

- Onde estão os maracujás? Onde estão os maracujás? Os loucos precisam é de maracujás!

Quem dizia isso, aos berros, era um senhor parecedíssimo com Albert Einsten. Perguntei do que se tratavam os maracujás e ele me explicou que tinha levado muitos maracujás para fazerem suco para os malucos mas que, ao invés disso, estavam oferecendo refrigerante.

- Como podem querer que a gente fique curado tomando guaraná?

Eu, com o copo de guaraná na mão, fui obrigada a concordar.

Enquanto o Einsten dos maracujás me mostrava seu livro de poesias (impresso e vendido por ele mesmo), um moço parecido com o Jorge Ben Jor se aproximou de nós e perguntou meu nome.

- Roberta? Já compus uma música chamada Roberta, para uma moça chamada Roberta, sabia Roberta?

Nesse instante, passou por nós um rapaz vestindo uma camisa de forças e o Ben Jor disse:

- Eu já usei aquilo ali um monte de vezes. É horrível. Coça muito e a gente fica com as mãos presas se roçando no muro para aliviar. Pior do que a coceira, só o choque elétrico. Tá vendo aquele cara ali? Ele já foi um grande matemático, tomou choque um monte de vezes e você pode ver, óh… ele não ficou sequelado nem nada. Eu também não, tá vendo?

Eu ali, entre a Lúcia de 18 anos, o Einsten dos maracujás e o Ben Jor não-sequelado tentando entender o universo deles, fazendo perguntas que eles disputavam para responder primeiro e conseguir mais tempo da minha atenção. Tão fascinante quanto assustador foi perceber que todos eles possuem, em sua essência, alguma genialidade. Escritores, compositores, artistas, matemáticos…

E eu – que estou longe de ser um gênio – o que eu fazia num sanatório? Poderia estar, tranquilamente, buscando tratamento mas, naquela ocasião, estava cobrindo as ações sociais que uma empresa promovia no hospital. O cliente não era meu, mas de outro fotógrafo que meia volta me passava alguns trabalhos pela impossibilidade de ser onipresente e, por felicidade do destino, acabou precisando de mim naquele local, naquele dia.

Acabei voltando lá outras vezes por conta própria no ano passado para visitar Lúcia e cia e, recentemente, por outras razões, finalmente conheci o Instituto Philippe Pinel. Nessa ocasião, tive a chance de passar algum tempo com um ex-militar chamado Alberto, com quem tive uma conversa esclarecedora acerca da realidade dos portadores de disturbios mentais. Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se por ignorância.

Provavelmente você não sabe disso (eu também não sabia), mas hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o que, em outras palavras, significa que temos um dia oficial para reivindicar o respeito e reconhecimento dos direitos dos portadores de transtornos mentais, como também, a humanização do tratamento psiquiátrico no nosso país.

O que me assusta é ver como esse assunto é abafado numa sociedade onde todos nós conhecemos, convivemos (ou somos) uma dessas pessoas que sofre algum tipo de distúrbio mental. “Fulano é maluco” e pronto, o rótulo está formado, definido e o assunto está encerrado.

Ser portador de uma doença mental como a esquizofrenia, por exemplo, é tão ou mais grave do que ter um câncer, mas ninguém fala, ninguém vê, ninguém ouve, porque fomos acostumados a criar muros que nos separam, delimitam e nos isolam de pessoas com doenças mentais (a primeira vista em nome do tratamento, mas também e principalmente, em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar).

Mas aí, se você se propõe a conhecer de perto a realidade de pessoas com qualquer tipo de deficiência mental, acaba descobrindo que, ao se arriscar entender melhor suas formas de pensar, sentir e enxergar o mundo, você não vai ficar mais louco, talvez mais sóbrio, o que pode ser, de fato, comprometedor.

Eles nos dão tijolos e nós decidimos o que fazer com eles. E só há duas possibilidades:

Ou continuamos levantando muros ou começamos a construir pontes.

Lúcia, aos 18.

Lúcia, aos 18.

(entenda mais sobre o Dia Nacional da Luta Antimanicomial lendo esse artigo aqui)

Roberta Simoni

Sobre expectativa de vida, miojo e medo de dentista

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Minha vida não é mais a mesma desde o último domingo, quando, durante uma trilha no alto da Serra, eu caminhava feliz e contente, admirando as árvores, sentindo o cheiro da vegetação, curtindo o clima ameno de outono, acabei me empolgando com essa coisa toda de contato com a natureza e comecei a cantarolar umas músicas (quase a Chapeuzinho Vermelho, só que não), entre elas, um clássico do Cazuza me veio à cabeça e eu, inspiradíssima, tratei de cantar para o meu namorado, que seguia comigo na trilha:

“(…) Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar. Hum… meu bem, você tem tudo, tudo pra me conquistar…”

Retribuindo minha singela declaração de amor, ele responde:

“Quero viver um milhão de horas com você…”

Silêncio na trilha.

Confuso com aquele silêncio repentino, ele me pergunta se disse alguma coisa errada e eu, me sentindo ligeramente rejeitada, respondo: “só um milhão de horas, é???”

“Mas, Beta, um milhão de horas é mais do que uma vida inteira. Isso dá mais de 100 anos. A gente vive, em média, umas 600 mil horas.”

Oi? Momento Maysa: ”Meu muuuuuundo caiu!

Perplexa e chocada com essa nova perspectiva de contagem do tempo, passei o resto da trilha cheia de questionamentos profundos e filosóficos sobre a efemeridade da vida, o tempo que me resta e blá blá blá. Questionamentos esses que eu trouxe para casa, para cama e agora para o blog.

(Pausa para duas informações relevantes e esclarecedoras: 1- só é capaz de se chocar com tal perspectiva quem, assim como eu, não tem a m-e-n-o-r noção de matemática lógica e não é capaz de fazer pequenos cálculos mentalmente, o que dirá lidar com números de maior escala. 2- Ficar de recuperação nas disciplinas de ciências exatas foi algo recorrente na minha vida e isso, certamente, deve significar alguma coisa.)

Pelos meus cálculos (mentira, os cálculos são desse site aqui) eu vivi até agora 252.408 horas. Se a expectativa de vida de um ser humano é de 600.000 horas, isso significa que eu já gastei quase a metade do meu cartucho. E, com sorte – se nenhum raio cair na minha cabeça ou qualquer tragédia de outra natureza não me atingir até lá – me restam, em média, umas 340.000 horas de vida.

Só eu acho muito mais assustador encarar o tempo por esse prisma?

Quantas horas eu já não devo ter perdido entediada? Quantas vezes eu já fiquei contando os segundos para o dia acabar? Quantos dias eu já passei na companhia da Laura (minha habitual depressão)? Quanto tempo eu já gastei (e ainda vou gastar) me alienando diante de uma tela (de televisão ou computador)?

De repente, cada minuto desperdiçado começou a parecer uma falta gravíssima, quase uma ofensa.

Em contrapartida, numa conversa que tive hoje com a Gabs sobre “a vida, o universo e tudo mais”, ela me alertou para a existência de um artigo de engenharia genética, que diz que num futuro próximo, talvez seja possível viver 800 anos. Cruzes! Pra quê tanto? Dispenso.

Enquanto isso, a água do miojo fervia e eu, à beira do fogão, continuei tentando fazer contas: se já tem quase 10 anos que eu moro sozinha e nessa década de vida eu já devo ter ingerido muito mais miojos do que meu estômago supõe, imagina isso multiplicado por 80?

Ah não… não quero passar 800 anos comendo macarrão instantâneo, não!

A verdade é que imaginar que a vida pode ser mais longa do que o previsto me assusta bem mais do que ter a noção de que falta “pouco” para acabar.

Ainda mais aterrorizante do que passar centenas de anos vivendo de miojo foi pensar em quantas vezes seria preciso ir ao dentista nesse período. Nas últimas semanas eu venho lidando com o pavor de encarar o dentista para extrair um siso que vem me tirando noites e noites de sono (se houverem dentistas lendo isso agora, me perdoem, não é nada pessoal, eu só tenho muito, muito medo de vocês. E de sentar na cadeira do consultório de vocês. E do barulhinho que fazem essas ferramentas de tortura que vocês usam na boca da gente). Horror é a palavra. Horror!

Conclusão: diante de um medo tão paralisador (e injustificável, eu sei), é capaz de eu ter uma crise de pânico até amanhã, quando a cirurgia no “torturador” está marcada. Também é provável que a minha gastrite piore consideravelmente se eu continuar me alimentando mal desse jeito, com a velha desculpa do excesso de trabalho não me permitir ter uma alimentação saudável.

Sendo assim, se eu chegar aos 30 já tô no lucro, né não? :)

Dramática? Eu???

Roberta Simoni

Encosto de Saramago

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Eu, que já acordei tantas vezes com encosto de Beauvoir, Cortázar, Lispector, entre outros, dessa vez despertei com frases prontas do Saramago na cabeça e, depois de um longo e tenebroso verão, sem a interferência dos raios de sol, voltei a usar meus olhos para enxergar, de fato, os fatos.

“Olhar, ver e reparar são maneiras distintas de usar o órgão da vista. Só o reparar, no entanto, pode chegar a ser visão plena.” (José Saramago)

Reparei, então, que mesmo mergulhada no meu pessimismo mais profundo e genuíno, ainda alimento esperanças absurdamente inconvenientes que me impulsionam a buscar um pouco de fôlego na superfície para, só então, com os pulmões cheios de qualquer coisa parecida com vida, voltar a nadar na realidade dos dias.

“Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.” (José Saramago)

Roberta Simoni

Eu não tenho um plano

Zeitgeist Photography

Aquele momento em que você para diante da página em branco do Word e espera para ver o que os seus personagens têm a dizer e o que querem fazer…

O relógio marca 3:36 e faz pelo menos 30 minutos que estou parada diante da tela do computador esperando que eles digam alguma coisa, mas eles simplesmente não falam nada. A essa hora devem estar dormindo. Eu também deveria estar.

Alguém, a essa hora, também pode estar diante da página em branco da minha vida, esperando que eu diga alguma coisa. E eu, do lado de cá, esperando que alguém me diga o que fazer. Acho que o roteirista da série que eu protagonizo tirou férias. Deve estar no Havaí deitado numa rede, debaixo de uma bela sombra, diante de um mar azul, tomando um bom drink, decidido a voltar a pensar na minha personagem só no próximo mês, quando voltar de viagem.

Se eu sou uma personagem criada por alguém que inventou a minha vida, esse cara que me escreveu certamente anda indisposto a pensar na minha trama. Talvez esteja cansado dos meus dramas e, com preguiça dos meus dilemas, resolveu tirar férias de mim. Ou não. Talvez esteja apenas sem saber o que escrever, tal como eu com os meus personagens.

Pode ser que, nesse exato momento, ele esteja acordado, diante da tela do seu computador, fumando um cigarro atrás do outro, esperando que eu diga alguma coisa, enquanto tudo que eu faço é tomar coca-cola na minha xícara de café, sem ter a mínima noção do que fazer com o meu dia de amanhã, com a minha semana, com meu ano e com o resto da minha vida. A verdade é que eu não tenho um plano.

Pode ser também que ele esteja escrevendo que eu estou escrevendo agora e, se for esse o caso, gostaria que ele escrevesse que eu estou escrevendo a minha peça, sabendo exatamente o que fazer no terceiro ato, quando um dos personagens simplesmente resolve desaparecer e me deixa sem saber como explicar seu sumiço repentino para os demais personagens.

Não adianta. Hoje é domingo de carnaval, ele tá embriagado em algum boteco na Lapa e, definitivamente, não está em condições de me explicar como devo continuar o espetáculo.

Deixa pra lá, Word. Hoje não vai sair nada. Além do mais, acabei de ler aqui no meu roteiro que agora é a hora que eu começo a sentir sono, desisto de escrever e vou dormir.

Roberta Simoni

Horinhas de Descuido

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.” (Guimarães Rosa)

À Helena, Roberto e Alexandre.

Há quem diga que meus textos são densos. Como poderia ser diferente se eu sou densa? Pungente, intensa, dolorida. Não se deixem enganar pelo meu sorriso cheio de dentes. Também sei ser sorridente, engraçada, doce e gentil. Mas a vida me dói sempre, menos nos momentos de distração… menos naquelas horinhas de descuido quando a felicidade acontece.

Ontem eu ganhei um sorriso gratuito de um transeunte. E ganhei cafuné de mãe. Ganhei músicas de amigos e, de um deles, ganhei uma música que ele compôs e que, segundo ele, se parece comigo pelas minhas tristeza e doçura profundas. Chorei de emoção. E de alívio por perceber que a minha capacidade de emocionar-me continua intacta.

De outro amigo escutei a frase mais linda do dia: “Amo a impossibilidade de me enganar com você.”

Achei lindo e puro, embora lá no fundo, eu gostaria que ele estivesse equivocado. Gostaria que as pessoas pudessem se enganar comigo de quando em vez ou que, ao menos, se surpreendessem, mas a minha transparência impossibilita qualquer equívoco, pelo menos para aqueles que enxergam bem.

Ganhei um beijo do velho Chiquinho Ramalho. O vô que já não fala, não anda, tampouco distribui beijos. Sentei na varanda ao lado dele, sentado sobre sua cadeira de rodas, e assisti o meu velho segurando um cigarro imaginário (costume pelos muitos anos passados sentados na porta de casa fumando e observando a vizinhança).

Ele segurava o cigarro que não tinha nas mãos, levava até a boca, tragava, assoprava, jogava a guimba no chão e olhava para o horizonte. Com a outra mão, segurava a minha mão com muita, muita força. E eu perguntava: “vô, no que você tá pensando?”, e pedia: “vô, olha pra mim!”. Mas ele não olhava, não falava, não se movia, a não ser para fumar seu cigarro imaginário, e eu pensava no que ele ainda era capaz de sentir e se ele ainda era capaz de sentir alguma coisa. Ao final, como das outras vezes, pedi-lhe um beijo e, diferente das outras vezes, ele me deu. E o beijo calou as minhas dúvidas sobre os sentidos e os sentimentos dele. Foi a minha horinha de descuido do dia.

Pela manhã, recebi essa mensagem da Helena, minha menina acesa: “Justo quando a lagarta achou que o mundo ia acabar, ela virou uma borboleta”.  

“Não vejo a hora de virar borboleta”, respondi. “Quanto mais tempo dentro do casulo, maiores e mais belas as asas da borboleta”, me garantiu a menina acesa. Veremos…

Enquanto isso, faço como o velho Chico com seu cigarro: vivo meus amores imaginários, trago as minhas tragédias íntimas, assopro as minhas dores e escrevo com o que me restou de alma que, eu sei, é mais do que alguns têm de alma inteira.

Roberta Simoni

Encarando o caos de frente…

Enxergar

“Aceitar o que nos machuca profundamente, o inexorável, o que é, ao mesmo tempo, brutal e natural, não nos torna, necessariamente, mais brutos. Só mais lúcidos. A brutalidade, você e eu aprendemos isso ao longo da vida, pode ou não vir acompanhada de boa dose de realismo.” (Fal Azevedo em “Sonhei que a neve fervia”)

A Fal tem razão quando diz que reconhecer que a vida é mesmo uma causa perdida, não significa, em momento nenhum, que a doçura vai deixar de existir. Eu fiz uma escolha. Escolhi olhar o caos de frente e uma escolha como essa requer muita, muita coragem, porque é sabido que vai doer, vai doer muito. E o gosto é amargo, mas existe alguma coisa doce ali. A coragem de fazer aquilo que todos os envolvidos deveriam ter feito há muito, é agridoce.

Meu apartamento está parecendo um campo de refugiados. No caso, de refugiada. Uma única: eu. Há roupas espalhadas por todos os lados, malas ainda não desfeitas, garrafas de água, coca-cola e vinho vazias. A pia da cozinha transbordando, bem como o cesto de roupas sujas. A geladeira, como de costume, vazia. E eu não quero ir ao supermercado agora, nem amanhã, nem depois. Eu não quero e não vou fazer nada que eu não sinta vontade agora, talvez amanhã ou depois.

Meu apartamento é, quase sempre, o reflexo do meu estado emocional, portanto, estamos oficialmente caóticos. E sem culpa, pois escolhemos encarar o caos de frente. Mas não sem dor.

E todas as vezes que eu assumo, sem vergonha, que estou sentindo dor, as pessoas se assustam. Ora, nada dói em vocês? Ou dói e só eu e mais alguns poucos assumem? Esse ano eu fiz o rappel mais alto da minha vida, no local mais alto do Brasil, senti medo, avisei que estava com medo e perguntei para os outros que estavam no mesmo barco, ou melhor, na mesma corda que eu se eles também não estavam sentindo medo e ninguém se pronunciou, apesar de cara de pânico de alguns ser maior do que a minha. Me parece que é desse mesmo jeito que as pessoas reagem diante da dor.

O conceito equivocado de felicidade tem me incomodado mais do que antes, tem me saltado aos olhos o tempo todo, aliás, tantas coisas me saltam aos olhos que minha vista anda cansada. Aumentar o grau das minhas lentes não foi uma atitude inteligente. Com o passar dos anos, enxergo menos e melhor. Sim, melhor. Vejo coisas que antes não via, quando minha miopia ainda não era tão acentuada. O problema é que não há óculos que corrijam minha nitidez precisa.

Enxergar as coisas como elas são dá uma certa tristeza, porque as coisas, geralmente, são tristes. No fundo, e no raso também, enxergar bem é uma punição.

Bem aventurados os amores cegos, as paixões desenfreadas, a esperança descabida, a fé imaculada, a ignorância abençoada e a sinceridade podada.

Hoje é o último dia de 2012, e eu acordei lembrando do sonho que tive pouco antes de despertar: um escorpião me picava. Busquei o significado no Google e parece que sonhar com escorpiões, especialmente quando se está sendo picada por eles, é sinal de bom agouro. Tão melhor…

O calor está insuportável e eu não quero ir a lugar algum, mas preciso. Hoje é noite de Reveillon e eu vou trabalhar fotografando as pessoas sendo – ou tentando ser – felizes. Hoje é noite de Reveillon e eu não vou ter ninguém para abraçar na hora da virada, vou me esconder atrás do visor da minha máquina e meu dedo vai apertar aquele botão que disparará fotos frenéticamente e ninguém vai perceber que o meu coração estará disparando no mesmo ritmo.

E, contraditoriamente a tudo que eu disse antes, eu vou arrumar meu apartamento antes de sair, porque é muito bom ter para onde voltar e eu espero que o meu retorno para casa seja menos caótico – e que os escorpiões, de fato, me tragam sorte em 2013. Mas, não… não adianta, eu não vou mais ao supermercado esse ano. Ano que vem talvez. No ano que vem amanhã tudo pode acontecer.

Roberta Simoni

Eu, Tamagotchi.

Roberta Simoni

Dorotéia, querida, como você está? Não me faça essa pergunta de volta porque eu não estou boa para responder perguntas difíceis em nenhum grau de complexidade hoje, sim? Agradecida.

Faz tempo que não te escrevo, eu sei. Gostaria que fosse por excesso de trabalho, mas não, é por falta de organização mesmo. Todos os dias sento em frente ao computador e penso: vou escrever para Doroty hoje, daí, o hoje vira daqui a pouquinho, que vira amanhã que não vira nada, como você deve ter notado pela ausência de e-mails meus na sua caixa de entrada nos últimos dias. Quer dizer… eu espero que você tenha notado e não se acostumado com a minha ausência.

Só faço isso porque você sempre me perdoa (pra você ver como eu sou uma péssima pessoa…). Você vai direto para o céu – sem escala – por ainda me amar e continuar abrindo meus e-mails, apesar de tudo.

Deixa eu te contar: hoje eu passei por uma loja de roupas e acessórios femininos que estava toda em liquidação, entrei e me interessei por uma bolsa baratinha, baratinha, mas lindinha… naquele estilo: pobre, mas limpinha, sabe?

Só que aí, quando eu fui pagar, percebi que o tecido da bolsinha-lindinha-baratinha, estava descascando todinho. Tem dó. Sou pobre, mas sou limpinha. Desisti de comprar, mas não sem antes me desculpar uma centena de vezes com a vendedora. Saí da loja e fiquei pensando: por que eu me desculpei tanto? Afinal, eu estava no meu direito de consumidora, além do mais, a vendedora foi super compreensível, apesar de ter tentado me convencer a levar a bolsinha-lindinha-baratinha-descascadinha com um desconto amigável. Não levei mesmo assim.

Lembrei daquilo que você me disse uma vez, sobre eu me sentir na obrigação de consumir tudo aquilo que me oferecem e, você sabe, eu adoraria estar falando de bolsas, sapatos e similares. Também não tô falando de drogas, já passei dessa fase, não se preocupe.

Depois esqueci da vendedora e fiquei pensando na bolsa. Espero que ela não tenha se sentido rejeitada (a bolsa, não a vendedora), porque eu sei bem como é se sentir assim por causa de um defeitozinho de nada. Estamos mesmo falando dos sentimentos de um objeto inanimado? Ok, eu estou. Parei.

Te contei da minha vizinha da janela da frente? É uma senhorinha bem idosa que fica sempre debruçada na janela. Peguei-a me observando com binóculos ontem, e não foi a primeira vez. Acenei pra ela, ela acenou de volta e sorrimos uma para outra. Hoje, a mesma coisa, mas ela não acenou de volta. Tentei de novo, e nada. Talvez ela não tenha me visto acenar, acho que estava bisbilhotando o apartamento ao lado. Mas quando foi que a minha vida deixou de ser interessante pra ela? E por que as pessoas acenam para você num dia e no outro dia te ignoram? E não, você não precisa me dizer que eu estou carente. Eu sei disso. Ainda há pouco me peguei fazendo auto-cafuné. Pois é. Veja a que ponto chegamos…

Acho que eu virei um tamagotchi, querida. Lembra do tamagotchi? Nós já tivemos um. Aquele joguinho que você precisa dar de comer para o bichinho, fazer carinho todos os dias, botar para dormir, etc.

Se ele me dá carinho, fico contente. Se me trata com frieza, fico doente. Se ele não me dá comida, morro de fome. Eu sou uma ridícula.

O Emerson diz que isso acontece porque eu passei tanto tempo sem amar e sem ser amada com alguma decência que tá dando pane no meu sistema. Acho que ele tem razão. Ninguém nunca me contou que amar requer muita, muita prática. Portanto, estou aprendendo na prática. Estou… não estou? Espero que haja solução para o meu caso. Mas, se não houver, você me adota?

Sabe o que eu acabei de perceber? Que estou te escrevendo porque, além da saudade que sinto de você todo o tempo, eu estou enrolando para não fazer a revisão de um livro que a editora me mandou hoje. Eu juro que estou grata por ter pintado trabalho, embora esse trabalho seja quase indecente. R$ 1,00 por página revisada, acredita? Pois creia, não é pegadinha. Em tempos de vacas desnutridas, até mesmo esses bicos têm me deixado contente.

Eu resolvi que quero ser rica, Dorotéia. Então decidi jogar na loteira, passei em frente à casa lotérica e tinha uma fila enorme, desisti. De jogar, não de ser rica. Assim fica difícil. Preciso conversar com meus pais e prepará-los para a realidade: eles têm uma filha que anda ganhando a vida por R$ 1,00 por página. Ainda não tive coragem de contar para eles.

Estou merecendo um castigo, querida. Acho que vou dormir na casinha do cachorro hoje.

Agora vou me despedir de você, já é tarde e eu ainda preciso sair para providenciar uma casinha. E um cachorro.

Amor, R.

Roberta Simoni

E se…?

Eu não posso dizer que estou curada, ainda é cedo para fazer tal afirmação. Sou como uma paciente em pleno tratamento que, frequentemente, têm recaídas. Mas garanto que já estive pior.

Já fui do tipo que não passava uma só hora do dia sem me questionar, começando sempre com a mesmíssima introdução barata e previsível: “mas, e se…”. E se eu tivesse ido, e se eu tivesse ficado, e se eu disser, e se eu calar…???

Ainda coloco “e se” em um monte de lugares e situações onde, definitivamente, eles não deveriam estar. Só que, hoje em dia, faço isso numa escala muito menor do que eu fazia antigamente. E se vocês estão esperando que eu diga que eu passei a olhar para frente, que eu aprendi com meus erros ou que eu evolui enquanto ser humano, sinto muito, estimados leitores, mas eu simplesmente fiquei mais preguiçosa.

Pensar sempre no que – e como – poderia ter sido se eu tivesse feito tal coisa de forma diferente, se eu tivesse escolhido ir por ali e não por aqui e coisa e tal, é mais exaustivo do que correr uma maratona. Tá certo que eu nunca corri nem sequer meia maratona, 5km foi a distância máxima que eu já alcancei (e morri de orgulho por isso!), mas posso afirmar que nada, nada demanda tanto gasto de energia quanto ficar remoendo o passado e temendo o futuro, como se fosse possível interferir em qualquer um dos dois.

Muito mal tenho algum domínio sobre o meu presente, o que dirá sobre o passado ou o futuro, mesmo assim ainda perco um tempo precioso tentando descobrir como teria sido  se eu não tivesse entrado naquele avião, se eu tivesse passado naquele concurso, se eu tivesse feito aquela outra faculdade, se eu não tivesse pedido demissão daquele emprego, se eu não tivesse me mudado, se eu tivesse ido embora, se eu tivesse dito sim e se tivesse dito não…

A gente tá sempre escolhendo, seja entre tomar sorvete de chocolate ou de baunilha, lanchar no MC Donald’s ou comer uma salada, casar ou comprar uma bicicleta, viajar ou juntar dinheiro… e não importa quais sejam as nossas escolhas, é bom que a gente acredite que foram as melhores, porque se tem uma coisa que nunca vai dar para saber é como teria sido se…

Dizem que tudo está escrito, que as coisas já estão todas determinadas e destinadas a acontecerem a partir do momento em que nascemos. E se isso for verdade? Então, no fundo, tudo isso é Deus brincando de deixar a gente acreditar que decide alguma coisa, só pra gente não se sentir tão impotente?

Taí mais um “e se” para se pensar. Taí mais um “e se” que eu não quero pensar agora…

Doutor, cadê meus remedinhos?

Roberta Simoni

Trauma? Que isso? É de comer?

Foram 4 acidentes de bicicleta no total, contando só com aqueles que envolveram hospitais, cirurgias, ossos quebrados, alguns pontos na cara e outros espalhados pelo corpo. Se eu fosse contabilizar os tombos mais singelos, certamente ficaria aqui até… bom, até muito.

E aí você me pergunta por que eu ainda ando de bicicleta e eu te respondo: porque eu não traumatizo. Simples assim. Sou uma mutante atípica: não me regenero, não sou imortal, não sou resistente a dor, nada disso. Só não traumatizo. O que é bom por um lado, porque eu tenho memória curta para a maioria das coisas ruins que me acontecem e é péssimo por outro lado, porque eu não aprendo. Vou lá, monto na minha bicicleta e quebro os braços e a cara de novo. E de novo. E mais uma vez.

Eu arrumo as malas há poucas horas de partir para o aeroporto e só percebo que esqueci de levar meias quando vou calçar o sapato, já bem longe de casa. Nunca esqueço de levar a máquina fotográfica, mas esqueço baterias, pilhas, lentes. Volto em casa para resgatar o livro que esqueci de colocar na bolsa, garanto o entretenimento da viagem e passo frio com o ar condicionado porque esqueci o casaco outra vez. E mesmo assim, não há Cristo que me faça arrumar minhas malas com antecedência.

Cumpro todos os prazos de trabalhos, nunca entrego um produto a um cliente com atraso, mas nem por isso me organizo durante o processo. Faço inscrições no último dia, sempre quando descubro que ainda falta algum documento que deixei de agilizar. Lembro que preciso fazer reservas às vésperas da viagem, quando já não há mais vagas, e numa próxima vez, mesmo depois de me prometer que vou fazer tudo diferente, quando dou por mim, tarde demais… já estou fazendo tudo do mesmo jeito torto, atrasado, retardado.

Meu equipamento de mergulho pifa e eu quase morro sem poder respirar no fundo do mar, e no mesmo dia, volto a mergulhar.

Qualquer semelhança com a minha vida amorosa não é mera coincidência.

Mergulho fundo, de cabeça, sem antes ter noção da profundidade, e então, não raro, racho a cabeça – e a cara – porque mergulhei no raso sem saber. E quando eu penso que o traumatismo craniano dessa vez vai me transformar em alguém que antes de entrar na água, molha primeiro os pés, depois os braços e o restante do corpo, gradual e lentamente, sem cogitar mergulhar a cabeça, eu vou lá e me apaixono.

Custei uma vida inteira para assumir (principalmente para mim mesma) que eu sou uma criatura passional. Não que a paixão seja uma trivialidade na minha vida, não é, nunca foi, nunca será. A paixão é “só” o que me move, sendo assim, é o que determina não só a minha vontade de ir para cama com alguém, como também, o resultado de um trabalho ou projeto que eu esteja desenvolvendo e o futuro das minhas relações interpessoais, sejam elas amorosas, familiares ou de amizade. Se tem admiração, tem paixão e se tem paixão, vida longa para a relação.

Mas e o amor? Ah, o amor… ledo engano daquela menina de 9 anos que acreditava que só teria um único amor a vida inteira. Não tive vários, mas tive alguns poucos. O suficiente para saber que não se ama uma vez só ao longo de uma vida. Ama-se de jeitos diferentes, mas é amor de todo jeito. E nesse âmbito eu também não escapei de ter minha coleção de tombos e cicatrizes, como qualquer outra pessoa.

A diferença entre mim e a maioria das pessoas talvez seja só na forma como eu trato das minhas cicatrizes. Não tenho a intenção de esconde-las ou de fazer plásticas para me livrar delas. É claro que elas são feias, mas fazem parte de mim, assim como os meus pés, que são medonhos e nem por isso pretendo arrancá-los das minhas pernas.

Mais do que parte do meu corpo, minhas cicatrizes contam muito a meu respeito. São histórias que me marcaram mas que, por algum motivo misterioso, não me traumatizaram. Pelo menos não a ponto de me tornarem incapaz de amar e ser amada de novo, como eu já acreditei que aconteceria.

Mas não aconteceu. Não até agora. Olhem só pra mim: aqui estou eu, amando como se fosse a primeira vez. E é. A primeira vez que amo desse jeito, sendo a pessoa que sou hoje, com a experiência que acumulei e os traumas que dissolvi para poder me preparar para esse novo amor.

Se eu fosse alguém razoavelmente normal, depois do tanto que passei e que me machuquei, estaria agora, encolhida num canto, acuada, com medo das pessoas, do mundo e do amor. Mas, felizmente, eu tenho probleminhas.

Talvez não seja só uma questão de probleminhas ou disfunções mentais… pode ser que eu tenha nascido com uma válvula de escape por onde fogem todos os meus traumas, levando com eles os meus medos e me deixando aqui, constantemente exposta ao risco de cair do cavalo – e da bicicleta – de novo.

E pode ser que essa válvula dê defeito a qualquer momento, portanto, tudo que tenho a fazer é aproveitar o encanto antes que a magia se quebre e eu não possa mais experimentar amar e ser amada com tamanha doçura, entrega e verdade.

E lá se vão 100 lindos dias com ele…

Roberta Simoni

A vida real para qual eu não sirvo

Uma vez recebi uma mensagem anônima de alguém que nutria sentimentos poucos nobres por mim. A mensagem chegou através de um extinto site de fotos onde eu tinha uma conta, anos atrás. A foto que provocou a ira do “odiador anônimo” em questão era uma foto comum, onde eu aparecia feliz e radiante, num inofensivo passeio ao zoológico. Eu não lembro mais as ofensas destiladas e, felizmente, esqueci todos os xingamentos, mas um trecho daquela mensagem me marcaria para sempre: “você brinca de faz-de-conta, pensa que a vida é um conto de fadas, mas você é uma mentira…”. Puxa! E eu achando que disfarçava bem…

Sou obrigada a concordar: eu sou uma farsa. E dessas bem fajutas. Quantas vezes eu penso e ajo como se a vida fosse um conto de fadas? Verdade seja dita: eu me encaixo muito melhor no meu mundo imaginário do que no mundo real. Não sou tão boa em viver quanto sou em fantasiar e uma parcela dessa culpa eu deposito na conta da Disney, mas é uma parcela pequena, a maior parte eu invisto no meu fundo de rendimento imaginário fixo, pessoal e intransferível.

Gabi e Kathe, minhas amigas que, assim como eu, leram muitas histórias e assistiram a muitos filmes da Disney na infância, defendem a teoria de que todas as desgraças que vivemos hoje é culpa da Disney, com suas histórias de amor envolvendo principes desencantados e sofredoras princesas passivas. Pensamos até em mover um processo contra eles num futuro bem próximo. Enquanto isso, vamos tentando nos livrar da Síndrome da Disney que nos acompanha até hoje, na vida adulta.

Adulta? Se for parar para avaliar bem, eu só brinco de ter uma, porque eu basicamente não presto pra nada que envolva a vida adulta, ainda que eu desempenhe com louvor minhas tarefas de provedora da casa, embora eu more sozinha e não tenha nenhum dependente, nem mesmo de espécie animal ou vegetal. Pago meu aluguel, minha luz, minha internet e o meu gás (para o caso de precisar fritar um ovo ou ferver uma água para fazer um miojo semestralmente…), ainda coloco comida em casa, compro a roupa que visto e saio para trabalhar, mesmo quando doente. Sou uma exímia dona de mim mesma. Ou, pelo menos é o que tento me convencer, até que uma dor de cabeça aguda me persegue por 3 dias seguidos e eu me nego a procurar um médico e só percebo que estou tomando remédio vencido 48 horas depois, ou quando a minha geladeira pifa, meu chuveiro queima e o meu ralo entope e eu fico completamente perdida.

Conclusão: minhas habilidades práticas são nulas, especialmente quando há questões burocráticas envolvidas. Assumo minha completa falta de talento para lidar com qualquer coisa que requeira ir à prefeitura ou a qualquer outro órgão público, consultar um advogado, recorrer à justiça, agilizar um documento, falar com o meu gerente do banco, conseguir uma assinatura. Todas essas expressões, inclusive, sempre que proferidas, me fazem agonizar como se eu estivesse diante de um monstro gigante cheio dentes e  tentáculos enormes tentando me engolir viva.

E mesmo quando é menos, vira mais, eu travo… fazer um simples telefonema, por exemplo, pode se transformar num drama equivalente a um parto normal. De gêmeos. Se escrever uma carta ou enviar um e-mail forem opções viáveis, eu jamais chegarei perto de um telefone. J-a-m-a-i-s. A palavra escrita sempre foi minha melhor forma de expressão e isso também demonstra minha total falta de tato para lidar com determinadas pessoas em determinadas situações, especialmente se o contato for feito por razão de qualquer tipo de pedido de ajuda ou favor.

Meu banheiro está esperando uma obra que nunca vem, minha descarga quebrada está à espera do encanador que eu prometi que viria na semana que vem… que já veio há 3 semanas. E minha mãe, toda vez que me liga, me cobra o telefonema que eu ainda não fiz para a secretária daquela médica para tentar me encaixar num horário da agenda super disputada dela.

Aliás, eu também não presto para nada que seja disputado: médicos, mesas de restaurantes, festas, homens…

E o pior dessa minha total falta de serventia para o mundo real e para a vida adulta é que eu não sei fingir que sirvo, e mais: não quero fingir. Eu também não presto para isso: fingir. E eu estaria sendo leviana se dissesse que gostaria de prestar para qualquer uma dessas coisas que envolvem o mundo real, cheio dessas inconvenientes Realidades que começam com a letra “R” de Ruim.

Eu queria mesmo era que não prestar para nada disso prestasse para alguma coisa.

Roberta Simoni


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