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O que fazer com os tijolos?

Loucura

Lúcia veio correndo me abraçar e me pediu para tirarmos uma foto juntas. Depois da foto, perguntei a idade dela. 18, disse. Uma das enfermeiras se aproximou e desmentiu, contou que ela acabara de completar 41 .

- Ora ora, mocinha, mentiu pra mim por que, hein?

- Eu não menti. Se eu gosto de ter 18, eu tenho 18.

Justo!

- Onde estão os maracujás? Onde estão os maracujás? Os loucos precisam é de maracujás!

Quem dizia isso, aos berros, era um senhor parecedíssimo com Albert Einsten. Perguntei do que se tratavam os maracujás e ele me explicou que tinha levado muitos maracujás para fazerem suco para os malucos mas que, ao invés disso, estavam oferecendo refrigerante.

- Como podem querer que a gente fique curado tomando guaraná?

Eu, com o copo de guaraná na mão, fui obrigada a concordar.

Enquanto o Einsten dos maracujás me mostrava seu livro de poesias (impresso e vendido por ele mesmo), um moço parecido com o Jorge Ben Jor se aproximou de nós e perguntou meu nome.

- Roberta? Já compus uma música chamada Roberta, para uma moça chamada Roberta, sabia Roberta?

Nesse instante, passou por nós um rapaz vestindo uma camisa de forças e o Ben Jor disse:

- Eu já usei aquilo ali um monte de vezes. É horrível. Coça muito e a gente fica com as mãos presas se roçando no muro para aliviar. Pior do que a coceira, só o choque elétrico. Tá vendo aquele cara ali? Ele já foi um grande matemático, tomou choque um monte de vezes e você pode ver, óh… ele não ficou sequelado nem nada. Eu também não, tá vendo?

Eu ali, entre a Lúcia de 18 anos, o Einsten dos maracujás e o Ben Jor não-sequelado tentando entender o universo deles, fazendo perguntas que eles disputavam para responder primeiro e conseguir mais tempo da minha atenção. Tão fascinante quanto assustador foi perceber que todos eles possuem, em sua essência, alguma genialidade. Escritores, compositores, artistas, matemáticos…

E eu – que estou longe de ser um gênio – o que eu fazia num sanatório? Poderia estar, tranquilamente, buscando tratamento mas, naquela ocasião, estava cobrindo as ações sociais que uma empresa promovia no hospital. O cliente não era meu, mas de outro fotógrafo que meia volta me passava alguns trabalhos pela impossibilidade de ser onipresente e, por felicidade do destino, acabou precisando de mim naquele local, naquele dia.

Acabei voltando lá outras vezes por conta própria no ano passado para visitar Lúcia e cia e, recentemente, por outras razões, finalmente conheci o Instituto Philippe Pinel. Nessa ocasião, tive a chance de passar algum tempo com um ex-militar chamado Alberto, com quem tive uma conversa esclarecedora acerca da realidade dos portadores de disturbios mentais. Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se por ignorância.

Provavelmente você não sabe disso (eu também não sabia), mas hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o que, em outras palavras, significa que temos um dia oficial para reivindicar o respeito e reconhecimento dos direitos dos portadores de transtornos mentais, como também, a humanização do tratamento psiquiátrico no nosso país.

O que me assusta é ver como esse assunto é abafado numa sociedade onde todos nós conhecemos, convivemos (ou somos) uma dessas pessoas que sofre algum tipo de distúrbio mental. “Fulano é maluco” e pronto, o rótulo está formado, definido e o assunto está encerrado.

Ser portador de uma doença mental como a esquizofrenia, por exemplo, é tão ou mais grave do que ter um câncer, mas ninguém fala, ninguém vê, ninguém ouve, porque fomos acostumados a criar muros que nos separam, delimitam e nos isolam de pessoas com doenças mentais (a primeira vista em nome do tratamento, mas também e principalmente, em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar).

Mas aí, se você se propõe a conhecer de perto a realidade de pessoas com qualquer tipo de deficiência mental, acaba descobrindo que, ao se arriscar entender melhor suas formas de pensar, sentir e enxergar o mundo, você não vai ficar mais louco, talvez mais sóbrio, o que pode ser, de fato, comprometedor.

Eles nos dão tijolos e nós decidimos o que fazer com eles. E só há duas possibilidades:

Ou continuamos levantando muros ou começamos a construir pontes.

Lúcia, aos 18.

Lúcia, aos 18.

(entenda mais sobre o Dia Nacional da Luta Antimanicomial lendo esse artigo aqui)

Roberta Simoni

Sobre expectativa de vida, miojo e medo de dentista

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Minha vida não é mais a mesma desde o último domingo, quando, durante uma trilha no alto da Serra, eu caminhava feliz e contente, admirando as árvores, sentindo o cheiro da vegetação, curtindo o clima ameno de outono, acabei me empolgando com essa coisa toda de contato com a natureza e comecei a cantarolar umas músicas (quase a Chapeuzinho Vermelho, só que não), entre elas, um clássico do Cazuza me veio à cabeça e eu, inspiradíssima, tratei de cantar para o meu namorado, que seguia comigo na trilha:

“(…) Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar. Hum… meu bem, você tem tudo, tudo pra me conquistar…”

Retribuindo minha singela declaração de amor, ele responde:

“Quero viver um milhão de horas com você…”

Silêncio na trilha.

Confuso com aquele silêncio repentino, ele me pergunta se disse alguma coisa errada e eu, me sentindo ligeramente rejeitada, respondo: “só um milhão de horas, é???”

“Mas, Beta, um milhão de horas é mais do que uma vida inteira. Isso dá mais de 100 anos. A gente vive, em média, umas 600 mil horas.”

Oi? Momento Maysa: ”Meu muuuuuundo caiu!

Perplexa e chocada com essa nova perspectiva de contagem do tempo, passei o resto da trilha cheia de questionamentos profundos e filosóficos sobre a efemeridade da vida, o tempo que me resta e blá blá blá. Questionamentos esses que eu trouxe para casa, para cama e agora para o blog.

(Pausa para duas informações relevantes e esclarecedoras: 1- só é capaz de se chocar com tal perspectiva quem, assim como eu, não tem a m-e-n-o-r noção de matemática lógica e não é capaz de fazer pequenos cálculos mentalmente, o que dirá lidar com números de maior escala. 2- Ficar de recuperação nas disciplinas de ciências exatas foi algo recorrente na minha vida e isso, certamente, deve significar alguma coisa.)

Pelos meus cálculos (mentira, os cálculos são desse site aqui) eu vivi até agora 252.408 horas. Se a expectativa de vida de um ser humano é de 600.000 horas, isso significa que eu já gastei quase a metade do meu cartucho. E, com sorte – se nenhum raio cair na minha cabeça ou qualquer tragédia de outra natureza não me atingir até lá – me restam, em média, umas 340.000 horas de vida.

Só eu acho muito mais assustador encarar o tempo por esse prisma?

Quantas horas eu já não devo ter perdido entediada? Quantas vezes eu já fiquei contando os segundos para o dia acabar? Quantos dias eu já passei na companhia da Laura (minha habitual depressão)? Quanto tempo eu já gastei (e ainda vou gastar) me alienando diante de uma tela (de televisão ou computador)?

De repente, cada minuto desperdiçado começou a parecer uma falta gravíssima, quase uma ofensa.

Em contrapartida, numa conversa que tive hoje com a Gabs sobre “a vida, o universo e tudo mais”, ela me alertou para a existência de um artigo de engenharia genética, que diz que num futuro próximo, talvez seja possível viver 800 anos. Cruzes! Pra quê tanto? Dispenso.

Enquanto isso, a água do miojo fervia e eu, à beira do fogão, continuei tentando fazer contas: se já tem quase 10 anos que eu moro sozinha e nessa década de vida eu já devo ter ingerido muito mais miojos do que meu estômago supõe, imagina isso multiplicado por 80?

Ah não… não quero passar 800 anos comendo macarrão instantâneo, não!

A verdade é que imaginar que a vida pode ser mais longa do que o previsto me assusta bem mais do que ter a noção de que falta “pouco” para acabar.

Ainda mais aterrorizante do que passar centenas de anos vivendo de miojo foi pensar em quantas vezes seria preciso ir ao dentista nesse período. Nas últimas semanas eu venho lidando com o pavor de encarar o dentista para extrair um siso que vem me tirando noites e noites de sono (se houverem dentistas lendo isso agora, me perdoem, não é nada pessoal, eu só tenho muito, muito medo de vocês. E de sentar na cadeira do consultório de vocês. E do barulhinho que fazem essas ferramentas de tortura que vocês usam na boca da gente). Horror é a palavra. Horror!

Conclusão: diante de um medo tão paralisador (e injustificável, eu sei), é capaz de eu ter uma crise de pânico até amanhã, quando a cirurgia no “torturador” está marcada. Também é provável que a minha gastrite piore consideravelmente se eu continuar me alimentando mal desse jeito, com a velha desculpa do excesso de trabalho não me permitir ter uma alimentação saudável.

Sendo assim, se eu chegar aos 30 já tô no lucro, né não? :)

Dramática? Eu???

Roberta Simoni

O preço da independência feminina

Mulheres Independentes

(Texto escrito para o site Amor Crônico)

A maioria das mulheres solteiras que eu conheço possuem uma característica em comum: são independentes. E isso é uma coisa que me intriga há muito tempo mas só agora resolvi trazer à tona. Não só porque é um assunto delicado, que mexe com o tão polêmico movimento feminista e toca na ferida dos machistas mas, porque, acima de tudo, eu demorei muito tempo para entender - eu disse entender, não aceitar - que mulheres independentes sofrem preconceitos reais.

Há poucos dias uma amiga veio me contar, indignada, que estava saindo com um sujeito que, depois de alguns encontros, virou-se pra ela e disse: “eu jamais namoraria você… não dá para controlar uma mulher tão livre e independente assim.”. Comigo o mesmo já aconteceu, só que de maneira mais sutil e menos franca. O rapaz aí em questão assumiu seu machismo, coisa que, nos dias de hoje, a maioria dos homens disfarça ou mascara e nós só vamos descobrir que o bom moço por quem nos apaixonamos é um tremendo machista enrustido tempos depois, quando a parte racional do nosso cérebro já está seriamente comprometida.

Minha mãe sempre me disse que eu assusto os homens e eu sempre me assustei com essa afirmação tão segura e enfática dela. E inconformada, questionava, “mas, por que isso, mãe?”. A resposta é simples e mesmo assim, meia volta eu preciso que ela desenhe novamente para mim, especialmente quando saio frustada e despedaçada das minhas relações.

Aos 13 anos de idade comecei a trabalhar e a ganhar meu próprio dinheiro. Aos 18, saí de casa e fui morar em outra cidade, sozinha. Trabalhei, estudei, estagiei, viajei e paguei, sem a ajuda de ninguém, minha própria faculdade, minha carteira de motorista, meu aluguel e as calcinhas que visto. Em dez anos, morei em várias cidades, tive diversos endereços e atualmente moro sozinha num apartamento pequeno que cabe no meu orçamento de jornalista freelancer e, apesar de ainda ter um caminho longo a percorrer para realizar meus sonhos e objetivos, sou feliz na minha condição de mulher livre, contudo, hoje, perto de completar 30 anos, sinto o peso das minhas conquistas.

Isso mesmo, o peso. Nessa década de caminhada solitária em busca da minha realização pessoal e profissional me envolvi com homens que, em sua maioria, admiravam a minha postura mas que, no entanto, não seguraram o rojão de ter ao lado uma mulher que toma suas próprias decisões, que não pede permissão para ir ao bar com as amigas ou para ir ali rapidinho em Ilha Grande no fim de semana se isolar para pensar um pouco na vida. Mas, ao que me parece, para eles o FIM mesmo é quando notam que não somos dependentes deles, financeira ou emocionalmente. Em contrapartida, nós, mulheres, jamais suportaríamos um companheiro emocionalmente dependente de nós, e isso não tem nada a ver com machismo ou feminismo, mas com amor, ou melhor, com a nossa forma de amar.

Mulheres independentes amam de forma diferente, amam de forma, digamos… independente. É como se, com as nossas atitudes, disséssemos assim para eles: “Olha, meu amor, eu te amo, mas precisar, precisar mesmo, eu preciso do meu trabalho, dos meus projetos, preciso me realizar, mas quero ter você ao meu lado em cada conquista. Você topa seguir de mãos dadas comigo?”. E eles entendem assim: “Querido, eu até gosto de você, mas como eu sou uma mulher livre e independente, eu saio por aí dando para quem eu quiser, tudo bem?”. E é claro, eles não aceitam, não entendem e se recusam a ter ao lado uma mulher cuja a vida, ela própria controla.

E o que temos é uma geração de mulheres bem-sucedidas, com carreiras cada vez mais sólidas e… sozinhas. Mulheres independentes dependentes de carinho, com um potencial surpreendente para amarem e serem amadas, mas que assustam tanto os homens com sua auto-suficiência que acabam se vendo abrindo mão – não por escolha, mas por imposição subconsciente da sociedade – a não terem uma vida amorosa (sim, eu tô falando de amor, não de sexo!) para continuarem conquistando seu espaço.

É claro que existem homens que não só não se importam, como também se orgulham e vibram por terem ao lado uma parceira com essas características mas, garanto, eles estão em minoria. O machismo persiste até os dias de hoje e os homens ainda se sentem intimidados e inseguros com mulheres decididas e determinadas a serem, acima de tudo, felizes e plenas.

Da mesma forma que cabe a eles, cabe a nós também o desejo e a capacidade de desempenhar diversos papéis com maestria. Eu quero ser uma profissional reconhecida e bem remunerada, quero ser uma boa mãe e quero também ter um parceiro que não só compreenda como compartilhe dos mesmos desejos e vontades, inclusive da necessidade de distração e diversão nos intervalos disso tudo, seja individualmente ou em dupla. E, tenho certeza, não é querer demais.

Roberta Simoni

Horinhas de Descuido

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.” (Guimarães Rosa)

À Helena, Roberto e Alexandre.

Há quem diga que meus textos são densos. Como poderia ser diferente se eu sou densa? Pungente, intensa, dolorida. Não se deixem enganar pelo meu sorriso cheio de dentes. Também sei ser sorridente, engraçada, doce e gentil. Mas a vida me dói sempre, menos nos momentos de distração… menos naquelas horinhas de descuido quando a felicidade acontece.

Ontem eu ganhei um sorriso gratuito de um transeunte. E ganhei cafuné de mãe. Ganhei músicas de amigos e, de um deles, ganhei uma música que ele compôs e que, segundo ele, se parece comigo pelas minhas tristeza e doçura profundas. Chorei de emoção. E de alívio por perceber que a minha capacidade de emocionar-me continua intacta.

De outro amigo escutei a frase mais linda do dia: “Amo a impossibilidade de me enganar com você.”

Achei lindo e puro, embora lá no fundo, eu gostaria que ele estivesse equivocado. Gostaria que as pessoas pudessem se enganar comigo de quando em vez ou que, ao menos, se surpreendessem, mas a minha transparência impossibilita qualquer equívoco, pelo menos para aqueles que enxergam bem.

Ganhei um beijo do velho Chiquinho Ramalho. O vô que já não fala, não anda, tampouco distribui beijos. Sentei na varanda ao lado dele, sentado sobre sua cadeira de rodas, e assisti o meu velho segurando um cigarro imaginário (costume pelos muitos anos passados sentados na porta de casa fumando e observando a vizinhança).

Ele segurava o cigarro que não tinha nas mãos, levava até a boca, tragava, assoprava, jogava a guimba no chão e olhava para o horizonte. Com a outra mão, segurava a minha mão com muita, muita força. E eu perguntava: “vô, no que você tá pensando?”, e pedia: “vô, olha pra mim!”. Mas ele não olhava, não falava, não se movia, a não ser para fumar seu cigarro imaginário, e eu pensava no que ele ainda era capaz de sentir e se ele ainda era capaz de sentir alguma coisa. Ao final, como das outras vezes, pedi-lhe um beijo e, diferente das outras vezes, ele me deu. E o beijo calou as minhas dúvidas sobre os sentidos e os sentimentos dele. Foi a minha horinha de descuido do dia.

Pela manhã, recebi essa mensagem da Helena, minha menina acesa: “Justo quando a lagarta achou que o mundo ia acabar, ela virou uma borboleta”.  

“Não vejo a hora de virar borboleta”, respondi. “Quanto mais tempo dentro do casulo, maiores e mais belas as asas da borboleta”, me garantiu a menina acesa. Veremos…

Enquanto isso, faço como o velho Chico com seu cigarro: vivo meus amores imaginários, trago as minhas tragédias íntimas, assopro as minhas dores e escrevo com o que me restou de alma que, eu sei, é mais do que alguns têm de alma inteira.

Roberta Simoni

Encarando o caos de frente…

Enxergar

“Aceitar o que nos machuca profundamente, o inexorável, o que é, ao mesmo tempo, brutal e natural, não nos torna, necessariamente, mais brutos. Só mais lúcidos. A brutalidade, você e eu aprendemos isso ao longo da vida, pode ou não vir acompanhada de boa dose de realismo.” (Fal Azevedo em “Sonhei que a neve fervia”)

A Fal tem razão quando diz que reconhecer que a vida é mesmo uma causa perdida, não significa, em momento nenhum, que a doçura vai deixar de existir. Eu fiz uma escolha. Escolhi olhar o caos de frente e uma escolha como essa requer muita, muita coragem, porque é sabido que vai doer, vai doer muito. E o gosto é amargo, mas existe alguma coisa doce ali. A coragem de fazer aquilo que todos os envolvidos deveriam ter feito há muito, é agridoce.

Meu apartamento está parecendo um campo de refugiados. No caso, de refugiada. Uma única: eu. Há roupas espalhadas por todos os lados, malas ainda não desfeitas, garrafas de água, coca-cola e vinho vazias. A pia da cozinha transbordando, bem como o cesto de roupas sujas. A geladeira, como de costume, vazia. E eu não quero ir ao supermercado agora, nem amanhã, nem depois. Eu não quero e não vou fazer nada que eu não sinta vontade agora, talvez amanhã ou depois.

Meu apartamento é, quase sempre, o reflexo do meu estado emocional, portanto, estamos oficialmente caóticos. E sem culpa, pois escolhemos encarar o caos de frente. Mas não sem dor.

E todas as vezes que eu assumo, sem vergonha, que estou sentindo dor, as pessoas se assustam. Ora, nada dói em vocês? Ou dói e só eu e mais alguns poucos assumem? Esse ano eu fiz o rappel mais alto da minha vida, no local mais alto do Brasil, senti medo, avisei que estava com medo e perguntei para os outros que estavam no mesmo barco, ou melhor, na mesma corda que eu se eles também não estavam sentindo medo e ninguém se pronunciou, apesar de cara de pânico de alguns ser maior do que a minha. Me parece que é desse mesmo jeito que as pessoas reagem diante da dor.

O conceito equivocado de felicidade tem me incomodado mais do que antes, tem me saltado aos olhos o tempo todo, aliás, tantas coisas me saltam aos olhos que minha vista anda cansada. Aumentar o grau das minhas lentes não foi uma atitude inteligente. Com o passar dos anos, enxergo menos e melhor. Sim, melhor. Vejo coisas que antes não via, quando minha miopia ainda não era tão acentuada. O problema é que não há óculos que corrijam minha nitidez precisa.

Enxergar as coisas como elas são dá uma certa tristeza, porque as coisas, geralmente, são tristes. No fundo, e no raso também, enxergar bem é uma punição.

Bem aventurados os amores cegos, as paixões desenfreadas, a esperança descabida, a fé imaculada, a ignorância abençoada e a sinceridade podada.

Hoje é o último dia de 2012, e eu acordei lembrando do sonho que tive pouco antes de despertar: um escorpião me picava. Busquei o significado no Google e parece que sonhar com escorpiões, especialmente quando se está sendo picada por eles, é sinal de bom agouro. Tão melhor…

O calor está insuportável e eu não quero ir a lugar algum, mas preciso. Hoje é noite de Reveillon e eu vou trabalhar fotografando as pessoas sendo – ou tentando ser – felizes. Hoje é noite de Reveillon e eu não vou ter ninguém para abraçar na hora da virada, vou me esconder atrás do visor da minha máquina e meu dedo vai apertar aquele botão que disparará fotos frenéticamente e ninguém vai perceber que o meu coração estará disparando no mesmo ritmo.

E, contraditoriamente a tudo que eu disse antes, eu vou arrumar meu apartamento antes de sair, porque é muito bom ter para onde voltar e eu espero que o meu retorno para casa seja menos caótico – e que os escorpiões, de fato, me tragam sorte em 2013. Mas, não… não adianta, eu não vou mais ao supermercado esse ano. Ano que vem talvez. No ano que vem amanhã tudo pode acontecer.

Roberta Simoni

Diferente, mas igual.

Iguais

Fui abordada por uma moradora de rua que já vi algumas vezes ali pela Glória. Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo que passa por ela na rua. Hoje foi a minha vez:

“Olha, você me parece uma moça bem informada e inteligente, por isso, vou direto ao ponto: sou moradora de rua, mendiga mesmo, e tô com fome, não tenho nada para te oferecer, mas se você tiver algum trocado aí pra me dar...”

Não costumo dar dinheiro a pedintes, quando posso – e quando eles aceitam – pago um lanche na lanchonete mais próxima, mas estava com pressa e tinha uns trocados no bolso. Enquanto contava as moedas para dividir com ela e com a passagem que usaria para pegar o metrô, observei que ela usava uns pedaços de pano que fez de mini-saia e top para se cobrir e brinquei: “gostei do visual”. Ela foi logo se desculpando pela forma como estava vestida. “Não, não… você não tá entendendo, eu realmente gostei da sua roupa, especialmente com o calor que tá fazendo hoje, é de se invejar!” Ela riu e ficou me olhando contar as moedas misturadas com algumas notas de R$ 2,00 amassadas. Expliquei: “sou jornalista”.

Quanto terminei a contagem daquela pequena fortuna que (supostamente) pagaria o almoço dela e a minha passagem de volta para casa, perguntei seu nome. Ela ficou me olhando por um longo tempo e, por fim, disse: “você é diferente”.

“Eu sei, me sinto assim o tempo todo.”

“É, eu também.”

Ficamos nos encarando por segundos quase longos, como dois E.T.s que se reconhecem na multidão, até ela se virar, ir embora e, dois passos a seguir, parar novamente, olhar para trás e, com as moedas numa mão e a outra apoiada na cintura, me encarar mais uma vez, com uma expressão irônica, e dizer: “Afff… sabia que você me fez ficar pensativa?”

“É, você também.”

Sempre penso no que pode ter acontecido na vida de uma pessoa que acabou indo morar nas ruas. E sempre, sempre penso que a vida, no fim das contas, é uma tacada de sorte ou azar. Dependendo de onde se nasce e sendo filho de quem se é, qualquer um pode parar no mesmo lugar que ela. Qualquer um mesmo, com talentos, aptidões, personalidades e sonhos semelhantes, mas chances diferentes. É o que alguns chamam de destino.

E ela ainda começou a conversa dizendo que não tinha nada a me oferecer…

Roberta Simoni

Eu, Tamagotchi.

Roberta Simoni

Dorotéia, querida, como você está? Não me faça essa pergunta de volta porque eu não estou boa para responder perguntas difíceis em nenhum grau de complexidade hoje, sim? Agradecida.

Faz tempo que não te escrevo, eu sei. Gostaria que fosse por excesso de trabalho, mas não, é por falta de organização mesmo. Todos os dias sento em frente ao computador e penso: vou escrever para Doroty hoje, daí, o hoje vira daqui a pouquinho, que vira amanhã que não vira nada, como você deve ter notado pela ausência de e-mails meus na sua caixa de entrada nos últimos dias. Quer dizer… eu espero que você tenha notado e não se acostumado com a minha ausência.

Só faço isso porque você sempre me perdoa (pra você ver como eu sou uma péssima pessoa…). Você vai direto para o céu – sem escala – por ainda me amar e continuar abrindo meus e-mails, apesar de tudo.

Deixa eu te contar: hoje eu passei por uma loja de roupas e acessórios femininos que estava toda em liquidação, entrei e me interessei por uma bolsa baratinha, baratinha, mas lindinha… naquele estilo: pobre, mas limpinha, sabe?

Só que aí, quando eu fui pagar, percebi que o tecido da bolsinha-lindinha-baratinha, estava descascando todinho. Tem dó. Sou pobre, mas sou limpinha. Desisti de comprar, mas não sem antes me desculpar uma centena de vezes com a vendedora. Saí da loja e fiquei pensando: por que eu me desculpei tanto? Afinal, eu estava no meu direito de consumidora, além do mais, a vendedora foi super compreensível, apesar de ter tentado me convencer a levar a bolsinha-lindinha-baratinha-descascadinha com um desconto amigável. Não levei mesmo assim.

Lembrei daquilo que você me disse uma vez, sobre eu me sentir na obrigação de consumir tudo aquilo que me oferecem e, você sabe, eu adoraria estar falando de bolsas, sapatos e similares. Também não tô falando de drogas, já passei dessa fase, não se preocupe.

Depois esqueci da vendedora e fiquei pensando na bolsa. Espero que ela não tenha se sentido rejeitada (a bolsa, não a vendedora), porque eu sei bem como é se sentir assim por causa de um defeitozinho de nada. Estamos mesmo falando dos sentimentos de um objeto inanimado? Ok, eu estou. Parei.

Te contei da minha vizinha da janela da frente? É uma senhorinha bem idosa que fica sempre debruçada na janela. Peguei-a me observando com binóculos ontem, e não foi a primeira vez. Acenei pra ela, ela acenou de volta e sorrimos uma para outra. Hoje, a mesma coisa, mas ela não acenou de volta. Tentei de novo, e nada. Talvez ela não tenha me visto acenar, acho que estava bisbilhotando o apartamento ao lado. Mas quando foi que a minha vida deixou de ser interessante pra ela? E por que as pessoas acenam para você num dia e no outro dia te ignoram? E não, você não precisa me dizer que eu estou carente. Eu sei disso. Ainda há pouco me peguei fazendo auto-cafuné. Pois é. Veja a que ponto chegamos…

Acho que eu virei um tamagotchi, querida. Lembra do tamagotchi? Nós já tivemos um. Aquele joguinho que você precisa dar de comer para o bichinho, fazer carinho todos os dias, botar para dormir, etc.

Se ele me dá carinho, fico contente. Se me trata com frieza, fico doente. Se ele não me dá comida, morro de fome. Eu sou uma ridícula.

O Emerson diz que isso acontece porque eu passei tanto tempo sem amar e sem ser amada com alguma decência que tá dando pane no meu sistema. Acho que ele tem razão. Ninguém nunca me contou que amar requer muita, muita prática. Portanto, estou aprendendo na prática. Estou… não estou? Espero que haja solução para o meu caso. Mas, se não houver, você me adota?

Sabe o que eu acabei de perceber? Que estou te escrevendo porque, além da saudade que sinto de você todo o tempo, eu estou enrolando para não fazer a revisão de um livro que a editora me mandou hoje. Eu juro que estou grata por ter pintado trabalho, embora esse trabalho seja quase indecente. R$ 1,00 por página revisada, acredita? Pois creia, não é pegadinha. Em tempos de vacas desnutridas, até mesmo esses bicos têm me deixado contente.

Eu resolvi que quero ser rica, Dorotéia. Então decidi jogar na loteira, passei em frente à casa lotérica e tinha uma fila enorme, desisti. De jogar, não de ser rica. Assim fica difícil. Preciso conversar com meus pais e prepará-los para a realidade: eles têm uma filha que anda ganhando a vida por R$ 1,00 por página. Ainda não tive coragem de contar para eles.

Estou merecendo um castigo, querida. Acho que vou dormir na casinha do cachorro hoje.

Agora vou me despedir de você, já é tarde e eu ainda preciso sair para providenciar uma casinha. E um cachorro.

Amor, R.

Roberta Simoni

Diário de uma viajante…

Mergulho no Rio Sucuri – MS / Foto: Sylvie Devalle

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” (Clarice Lispector)

Das lições aprendidas na última viagem:

- Ficar pendurado por uma corda pode se tão libertador quanto desesperador à certa altura;

- Rappel negativo, definitivamente, não é coisa de gente sã, e talvez isso explique o fato de eu ter gostado tanto;

- Não se deve olhar para baixo quando se está pendurado à 90 metros de altitude;

- Pular no abismo ganha um sentido muito maior quando deixa de ser apenas uma metáfora;

- Mergulhar no lago de uma caverna escura pode ser assustador, mas se você arrumar um pouco de coragem e uma lanterna, pode tornar-se a experiência mais mágica da sua vida;

- Ter medo faz parte do processo de tomar coragem. Ser paralisado pelo medo é que não faz;

- Não importa a profundidade do seu mergulho desde que você não deixe de mergulhar;

- Quanto mais cristalina a água, maior o prazer em se molhar por inteiro nela;

- Se você, assim como eu, ainda não aprendeu a voar, experimente mergulhar, ou simplesmente deixe seu corpo flutuar na água corrente de um rio. É a sensação mais próxima de pertencer asas;

- Nadar contra a correnteza cansa;

- O contato direto com a natureza é transformador;

- Nunca vá para o meio do mato com roupas escuras. Isso atrai todos os insetos do universo (ah, gente… como eu ia saber?);

- Beber água salobra dá piriri. Comer biscoito recheado e sanduba do “podrão” todos os dias também. Viajar com pouco dinheiro idem;

- Se você tem dinheiro, viaje. Se você tem pouco dinheiro, viaje. Se você não tem dinheiro nenhum, viaje mesmo assim;

- Nunca escolha seus parceiros de viagem pelo grau de parentesco ou tempo de amizade, mas pelas afinidades. Prefira aqueles que saibam ceder e, caso você não saiba fazer o mesmo, aprenda imediatamente. Ou viaje sozinho;

- Faça amizades por onde passar para ter sempre ótimas razões para voltar;

- Tenha alguém para sentir saudades todos os dias. Isso garante sua felicidade em voltar para casa, por melhor que esteja sendo sua viagem;

- Tenha alguém para sentir saudades de você. Alguém que te telefone para saber se você está bem e para te pedir para voltar logo… alguém que te espere ansioso(a) no aeroporto;

- Não espere uma oportunidade para viajar, crie a sua você mesmo;

- Tenha bons motivos para ir e motivos melhores ainda para voltar. Se você não os tiver, arrume;

- O Brasil é o lugar mais lindo para se conhecer no mundo, Mato Grosso do Sul é um dos lugares mais impressionantes do Brasil e a cidade de Bonito deveria se chamar Lindo;

- Registre tudo. Seja por fotos, vídeos ou diários de viagem. Tão bom quanto viver cada experiência nova, é poder relembrar depois. Recordar é quase reviver;

- Mova-se. Arrisque-se. Pule. Mergulhe. Voe. Vá. Se atire na vida;

- Realizar um sonho é tão bom quanto parece ser;

- Nada, nada expande tanto a sua cabeça e a sua alma quanto viajar;

- Poucas, pouquíssimas pessoas sabem viver a vida. E existe uma grande chance de você se sentir uma dessas pessoas raras se você colocar uma mochila nas costas e meter o pé na estrada sem hesitar.

Roberta Simoni

Trauma? Que isso? É de comer?

Foram 4 acidentes de bicicleta no total, contando só com aqueles que envolveram hospitais, cirurgias, ossos quebrados, alguns pontos na cara e outros espalhados pelo corpo. Se eu fosse contabilizar os tombos mais singelos, certamente ficaria aqui até… bom, até muito.

E aí você me pergunta por que eu ainda ando de bicicleta e eu te respondo: porque eu não traumatizo. Simples assim. Sou uma mutante atípica: não me regenero, não sou imortal, não sou resistente a dor, nada disso. Só não traumatizo. O que é bom por um lado, porque eu tenho memória curta para a maioria das coisas ruins que me acontecem e é péssimo por outro lado, porque eu não aprendo. Vou lá, monto na minha bicicleta e quebro os braços e a cara de novo. E de novo. E mais uma vez.

Eu arrumo as malas há poucas horas de partir para o aeroporto e só percebo que esqueci de levar meias quando vou calçar o sapato, já bem longe de casa. Nunca esqueço de levar a máquina fotográfica, mas esqueço baterias, pilhas, lentes. Volto em casa para resgatar o livro que esqueci de colocar na bolsa, garanto o entretenimento da viagem e passo frio com o ar condicionado porque esqueci o casaco outra vez. E mesmo assim, não há Cristo que me faça arrumar minhas malas com antecedência.

Cumpro todos os prazos de trabalhos, nunca entrego um produto a um cliente com atraso, mas nem por isso me organizo durante o processo. Faço inscrições no último dia, sempre quando descubro que ainda falta algum documento que deixei de agilizar. Lembro que preciso fazer reservas às vésperas da viagem, quando já não há mais vagas, e numa próxima vez, mesmo depois de me prometer que vou fazer tudo diferente, quando dou por mim, tarde demais… já estou fazendo tudo do mesmo jeito torto, atrasado, retardado.

Meu equipamento de mergulho pifa e eu quase morro sem poder respirar no fundo do mar, e no mesmo dia, volto a mergulhar.

Qualquer semelhança com a minha vida amorosa não é mera coincidência.

Mergulho fundo, de cabeça, sem antes ter noção da profundidade, e então, não raro, racho a cabeça – e a cara – porque mergulhei no raso sem saber. E quando eu penso que o traumatismo craniano dessa vez vai me transformar em alguém que antes de entrar na água, molha primeiro os pés, depois os braços e o restante do corpo, gradual e lentamente, sem cogitar mergulhar a cabeça, eu vou lá e me apaixono.

Custei uma vida inteira para assumir (principalmente para mim mesma) que eu sou uma criatura passional. Não que a paixão seja uma trivialidade na minha vida, não é, nunca foi, nunca será. A paixão é “só” o que me move, sendo assim, é o que determina não só a minha vontade de ir para cama com alguém, como também, o resultado de um trabalho ou projeto que eu esteja desenvolvendo e o futuro das minhas relações interpessoais, sejam elas amorosas, familiares ou de amizade. Se tem admiração, tem paixão e se tem paixão, vida longa para a relação.

Mas e o amor? Ah, o amor… ledo engano daquela menina de 9 anos que acreditava que só teria um único amor a vida inteira. Não tive vários, mas tive alguns poucos. O suficiente para saber que não se ama uma vez só ao longo de uma vida. Ama-se de jeitos diferentes, mas é amor de todo jeito. E nesse âmbito eu também não escapei de ter minha coleção de tombos e cicatrizes, como qualquer outra pessoa.

A diferença entre mim e a maioria das pessoas talvez seja só na forma como eu trato das minhas cicatrizes. Não tenho a intenção de esconde-las ou de fazer plásticas para me livrar delas. É claro que elas são feias, mas fazem parte de mim, assim como os meus pés, que são medonhos e nem por isso pretendo arrancá-los das minhas pernas.

Mais do que parte do meu corpo, minhas cicatrizes contam muito a meu respeito. São histórias que me marcaram mas que, por algum motivo misterioso, não me traumatizaram. Pelo menos não a ponto de me tornarem incapaz de amar e ser amada de novo, como eu já acreditei que aconteceria.

Mas não aconteceu. Não até agora. Olhem só pra mim: aqui estou eu, amando como se fosse a primeira vez. E é. A primeira vez que amo desse jeito, sendo a pessoa que sou hoje, com a experiência que acumulei e os traumas que dissolvi para poder me preparar para esse novo amor.

Se eu fosse alguém razoavelmente normal, depois do tanto que passei e que me machuquei, estaria agora, encolhida num canto, acuada, com medo das pessoas, do mundo e do amor. Mas, felizmente, eu tenho probleminhas.

Talvez não seja só uma questão de probleminhas ou disfunções mentais… pode ser que eu tenha nascido com uma válvula de escape por onde fogem todos os meus traumas, levando com eles os meus medos e me deixando aqui, constantemente exposta ao risco de cair do cavalo – e da bicicleta – de novo.

E pode ser que essa válvula dê defeito a qualquer momento, portanto, tudo que tenho a fazer é aproveitar o encanto antes que a magia se quebre e eu não possa mais experimentar amar e ser amada com tamanha doçura, entrega e verdade.

E lá se vão 100 lindos dias com ele…

Roberta Simoni

Ah… a vida alheia…

Tenho experimentado bastante essa coisa de viver. Ao acaso, é claro, porque eu quase não sei viver de outra forma. De todas as outras formas, cheias de normas e fórmulas, eu até sei, mas gosto de fingir que não sei.

Sei que vivendo, eu vejo mais coisas do que gostaria de ver. E me vejo em mais situações do que gostaria de estar e, por consequência, acabo voltando para casa todos os dias com uma reflexão nova, dessas que a gente leva junto pro banho, pra cama… e ainda que tente se livrar delas, não consegue. Tipo vontade de comer chocolate, que não passa até que você coma. No meu caso, até que eu escreva.

Então cá estamos mais uma vez: eu, vocês e meus devaneios… que dessa vez me transportaram para uma situação que vivi não faz muito tempo: eu estava numa festa onde a Cissa Guimarães também estava. Logo que ela chegou, surgiu atrás de mim, feito assombração, uma senhora que eu nunca vi mais gorda e que, sem rodeios, começou a me encher o saco de perguntas:

- Essa daí não é aquela atriz?

- É.

- Cissa Guimarães o nome dela, não é?

- É.

- Não foi o filho dela que morreu?

- Foi.

- Nossa! Ela parece tão feliz para quem perdeu um filho há tão pouco tempo, né?

- …

Lancei um olhar tão indignado para a velha que não sei como não perfurou aquela boca que ela anda usando de forma tão infeliz. Depois, comecei a explicar num tom hostil que, para começar, o acidente com o filho dela já tinha acontecido há alguns anos e, além disso, ela não poderia passar a vida inteira de luto. Depois, no meio do meu discurso revoltado, me dei conta do tempo e da saliva que estava desperdiçando em vão, dei as costas e saí, deixando a desagradável mulher com cara de interrogação e, finalmente, muda.

Parece óbvio que as pessoas só enxerguem aquilo que os olhos vêem mas, pra mim, o óbvio é que estamos falando de gente limitadíssima, que tem que ver pra crer. Gente que precisa ver dor em exposição, pendurada numa moldura bonita na parede.

Mas é claro que ela vai viver esse luto a vida inteira. Ela vai acordar todos os dias e vai pensar no filho, vai sentir um aperto no peito que medicina nenhuma nunca vai conseguir curar e não vai passar nenhum dia sequer sem sentir saudades dele. Mas, ainda que o luto seja eterno, ele tende a ser cada vez mais interno. Ela vai parar de usar o vestido preto, vai colocar aquele vestido florido e vai sair linda e colorida por aí, a garota que quebra o coco sem arrebentar a sapucaia.

E sempre vai aparecer uma “velha” infeliz se ofendendo com a alegria alheia. Sempre.

Talvez mais detestável do que alguém que julga o seu estado te vendo em breves minutos, ignorando o que você passa e sente nas outras dezenas de horas com as quais os seus dias são preenchidos, só mesmo quem tenta te convencer do que você precisa superar ou de como deve se sentir ou reagir diante das suas dores e perdas.

Alguém que te empresta um ombro, te dá um lenço ou um rolo de papel higiênico pra você assoar o nariz quando tudo que você quer é chorar, ou que fica do seu lado no mais profundo silêncio quando palavra nenhuma é capaz de confortar, é infinitamente mais útil do que alguém que te diz que já está na hora de você superar, que você precisa sair dessa e blá blá blá Whiskas Sachê.

Ah… a vida alheia! Como é doce e terna a vida alheia, não é mesmo? Fácil de opinar e simples de resolver, ainda que ninguém seja capaz de imaginar ou mensurar.

E se eu abro o berreiro no meio da rua ou se choro baixinho quando ninguém está vendo, não é porque a minha dor muda de tamanho, o que muda, na verdade, é o meu tamanho quando eu sinto dor. E se eu volto a ser criança toda vez que a vida me dói, isso é tão alheio aos outros quanto deve ser.

Mas se as minhas dores estiverem expostas e visivelmente maiores do que eu, a ponto de eu não conseguir ou não querer esconder, repara uma omelete pra mim e me traz uma coca-cola gelada que eu vou te agradecer muito mais. E se eu estiver feliz também.

Roberta Simoni 


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