Arquivo para a categoria 'Sentimentos e Sentidos'

Enquanto você não vem…

Graças a Deus começou a chover de novo. A chuva lava a culpa que eu sinto por ter passado o dia inteiro procrastinando e, veja só, logo agora que me obriguei a botar a cara na rua, chove de novo. Você sabe, São Pedro é meu camarada.

Eu tenho câimbra nos pés toda vez que eles ficam gelados, no coração também. Mas, por sua causa, de uns tempos pra cá, fico com câimbra só nos pés, e só quando você não está por perto.

Eu deveria ter vergonha de andar por aí assim, com meus quatro pneus arriados, e deveria ter medo de parecer idiota quando fico te olhando desse jeito, e de dormir com a porta aberta… mas se eu trancá-la, como você vai continuar entrando aqui de madrugada, trazendo ovos e me pedindo para fritá-los às 2h da manhã pra gente comer com pão?

Ainda agora senti uma vontade súbita de comer arroz-doce. O arroz-doce que vovó Verinha sempre preparava. O mais estranho desse desejo é que eu nunca fui fã de arroz-doce. Tá, eu comia, beliscava, mas não amava. Acho que o que eu amava mesmo era saber que na casa dela sempre haveria arroz-doce. Mas não há mais arroz, nem doce. Aí eu já não sei se meu desejo procede ou se é só necessidade de sentir o gosto daquela época na boca de novo. Só sei de uma coisa: detesto, com todas as minhas forças, o fato de eu ser tão nostálgica.

Laura, minha depressão, me mandou um torpedo essa semana, avisando que está bem. Pois, veja você… o médico disse que tenho depressão, essa estranha, a quem eu decidi batizar de Laura. Acho chique, um nome forte, misterioso, mais ou menos como essa doença que eu ainda não entendo direito e que eu sempre achei que fosse coisa só de gente fina, elegante e sincera. Tá, sincera eu sou mas, francamente, fina e elegante?

Trabalhei feito um ser humano nos últimos meses e demorei esse tempo todo para escrever porque, juro, pensei que eu não sabia mais como fazê-lo. Mas, como pode ver, cá estou, de um jeito ou de outro, te dizendo essas bobagens todas.

Você acha graça do fato de eu saber assobiar. O que mais você sabe fazer, menina? – você me pergunta, impressionado com as minhas aptidões extra-curriculares relevantíssimas. Também consigo estralar os dedos dos pés com meus próprios pés. Sei ficar vesga, abrir bem minhas narinas e dobrar minha língua, quer ver?

Eu bem que podia ser menos engraçada e mais sexy, mas é tão divertido te ver perdendo o fôlego de tanto rir de mim, como naquele dia que a resistência do chuveiro desarmou e você, na porta do banheiro, precisou sentar no chão para suportar suas gargalhadas ao me ver pulando feito uma perereca debaixo daquela água gelada. Ou quando, no meio de uma tentativa frustrada de fazer caras e bocas para te seduzir, ouvi você dizendo: “Deus, como você é engraçada!”

Eu deveria te incentivar a parar de fumar, mas adoro a forma como você traga o seu cigarro e a maneira como você me traga. Na verdade, a culpa é minha. Se você fuma é porque eu quis assim. Você é um personagem que eu criei e – seus pulmões que me perdoem! – mas na minha imaginação você é fumante… e tem mãos enormes, uma voz grossa e uma cabeça tão, tão linda. E você acha esquisito o fato de eu achar a sua cabeça bonita, diz que nunca achou que receberia um elogio tão estranho. Mas você também não achou que pudesse ser amado por alguém tão estranha, que adora a sua cabeça com tudo isso que ela tem dentro, e veja só.

Você fica com os olhos cerrados quando está triste e cinzentos quando está irritado, e quando você se aborrece, sua boca, língua e voz perdem completamente a funcionalidade. E quando sou eu quem provoca qualquer uma dessas suas reações, fico igual ao meu cachorro quando faz besteira: te olhando com cara de piedade, te rodeando, dando a patinha pra ganhar carinho e roçando nas suas pernas, tentando me desculpar com você, mas, diferente do meu cachorro, eu não consigo te convencer a fazer carinho na minha barriga, pelo menos não nas primeiras 24 horas. Você é duro na queda.

Você oxigena antes de falar e eu acho lindo. E dilacerante. Fico te olhando feito espectadora, paralisada diante da tela do cinema na cena final do filme. Quando você fala, chego no clímax e quando você só suspira, eu fico balbuciando coisas sem sentido pra ver se adivinho o que você está tentando me dizer. Eu falo demais, culpa dessa minha verborragia incorrigível, você sabe… o meu mal é ter o cérebro muito perto da boca.

Queria passar o restante do dia aqui, escrevendo impropérios, criando metáforas, sendo redundante enquanto digo o quanto te amo e te contar pela milésima vez como eu te quis desde a primeira vez que te vi, mas não posso, parou de chover de novo, isso significa que eu preciso fingir que sou um ser humano normal, com atividades normais. Tenho que ir ao banco, depois ao supermercado, ligar para minha avó que não faz mais arroz-doce, fazer as unhas, revisar um texto, levar o carro no borracheiro para consertar os pneus arriados, esperar você chegar… essas coisas de gente ocupada demais, diferente desses escritores que passam o dia tomando água com gotas de limão enquanto se dedicam só a criar. Esses, sabe? Esses que eu queria ser…

Não demora muito pra chegar, tá? E faz o favor de trazer a chuva de volta com você quando vier.

Roberta Simoni

Abstração no jardim abstrato

Já faz mais de duas semanas que eu fui atropelada e alguns dias que fiz aniversário e eu gostaria imensamente de escrever sobre como me sinto após esses dois acidentes, mas hoje eu só consigo escutar Janis Joplin e Nina Simone sem parar, só pensando em não pensar.

Em pensar que um dia eu já fui uma garota à frente do meu tempo… agora eu ando me sentindo mais viva ouvindo a voz de mulheres que já morreram.

Por enquanto eu me aproveito de umas costelas afundadas para passar as noites em claro porque não encontro posição para dormir. Mas depois que as costelas voltarem para o lugar, eu voltarei a ser a mesma estranha de sempre, com os mesmos motivos errados para me manterem acordada, tentando dormir angústias que me acordam, mas nunca me tiram o sono.

Tenho sono de todas as minhas angústias, tão antigas e previsíveis quanto as missas de domingo, que eu posso passar mais vinte e tantos anos sem ir, sem nunca esquecer cada oração. Sei a hora exata em que cada angústia minha vai sentar, levantar, me fazer ajoelhar e por fim, dizer amém.

Oremos.

Um poeta me disse que uma pessoa sem angústias deixa de ser interessante. Na mesma hora me senti “a atraente”, como se eu fosse, de alguma forma, diferente. Não sou. Todo mundo vive angustiado por algum motivo, e, partindo desse princípio, todo mundo é atraente. Mas entendo o raciocínio. Entendo e compartilho. Parece que quanto mais angustiada uma pessoa se sente, mais ela se esforça para parecer radiante, especialmente se ela tiver uma rede social para usar de palco para sua encenação. Preguiça.

Preguiça é a palavra. Tenho um corpo de quase 30 e o cansaço de quase 300. Trezentos anos. Trezentas pessoas. Já vi tanta coisa repetida, tanta gente parecida. Já vejo onde tudo vai terminar e é inevitável sentir uma profunda preguiça de começar. E então bocejo longo e gostoso, sem pressa de acabar, pensando seriamente em devolver o ingresso na bilheteria.

E só agora, no inverno, eu soube que quase perdi um amigo na primavera passada. Logo ele que eu não tenho preguiça de assistir. Ele que sabe que não pode morrer. Ele que me disse que não vai, que não vamos, que somos imortais. Eu com minhas costelas de aço e ele com seus olhos azuis que amarelo nenhum pode roubar.

Eu tenho visitado mais hospitais e cemitérios do que gostaria. Mas perto deles tem um pátio bonito onde a gente se encontra de vez em quando e ri solto. As flores são de plástico, mas nem parece, ou parece, mas a gente finge que não acha porque ainda sente alguma preguiça de cultivar girassóis.

Roberta Simoni

Incondicionalmente

Fotografia genial do genial Elliott Erwitt

O Théo, meu cachorro, não sabe brincar de bola. Ele não entende o fundamento básico da brincadeira entre o cão e o homem que consiste em devolver a bola para o homem para que ele possa jogá-la para ele ir buscar. No mundo dele, a brincadeira funciona assim: a maior interessada em pegar a bola sou eu, e se eu quiser pegá-la, tenho que enfiar a mão dentro daquela bocarra cheia de dentes enormes e arrancar a bola toda babada de lá, na marra. E enquanto eu não fizer isso, ele não me deixa em paz.

Não é a coisa mais agradável do mundo, mas também não é a pior, é por isso que volta e meia a minha mão está dentro da boca do Théo, um labrador grande, gordo e lindo de quase 10 anos de idade que ainda se comporta como se tivesse 2 e que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma tem a intenção de morder ninguém, mas que vez ou outra acaba me machucando na tentativa de me acordar com uma patada de “leve” na cara, pulando no meu colo para demonstrar o quanto está feliz com a minha chegada ou abocanhando a minha mão quando ela está segurando a sua bola. Ele não tem a menor noção do próprio tamanho, peso e força. Age como se tivesse o porte atlético de um pequinês ou de um porquinho da Índia.

Foi brincando assim que ontem ele arrancou a pele do meu dedo e eu dei um grito de susto e de dor – mais de susto do que de dor – e ele largou a bola na mesma hora e veio lamber a minha ferida. Até nisso os cães são mais nobres do que nós, eles não esperam a ferida se cicatrizar para tentarem se retratar conosco. Orgulho é só mais uma característica humana entre tantas que os cães desconhecem.

Ele me feriu e lambeu minha ferida em seguida. É quase como morder e assoprar, coisa que as pessoas fazem o tempo todo, inclusive com quem amam. A diferença é que alguns humanos só mordem. Alguns só assopram. E outros machucam sem usar os dentes.

Faz 10 anos que tento, inutilmente, ensinar ao Théo a maneira correta de brincar de bola. Faz 10 anos que explico para ele que a brincadeira não funciona desse jeito…

Às vezes penso que Théo é burro. E faz 10 anos que ele pensa exatamente a mesma coisa a meu respeito, mas não desiste de mim. Incondicionalmente.

Roberta Simoni

Amar é… (ou A Romântica Enrustida)

Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo contando para a minha avó sobre a minha última empreitada amorosa e escuto ela contando sobre como ela tem feito para livrar-se do meu avô que, aos 85 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teima em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia não quer mais saber dessas saliências – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos de bar. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais ligaria para ela contando sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez, é verdade.

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois é. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja um problema pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia. Ok, quase sempre.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. E eu minto. Eu crio. E eu até vivo um pouquinho do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse amar. Não é como se eu soubesse também. Eu penso que sei, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Fico com medo de ser piegas, de parecer idiota. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro, um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

Fosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do “Amar é…” que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, só que enrustida. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário. Mas olhando assim, para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais. Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha pra criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com essa vontade insubstituível e irresistível de acordar todos os dias e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

Roberta Simoni

E invento você

Não fala nada, não… chega assim como a brisa. Me beija o rosto como o sol beija o mar, ou como o Banderas beijou a Zeta Jones naquele filme… serve também. Não precisa ficar pra sempre, mas passa por aqui antes do próximo abril, antes do fim do inverno, antes do gelo derreter, da neve ferver. Chega depois que a lua aparecer, nova, cheia ou crescente, mas, por favor, não chega minguante.

Enrola meu cabelo nos teus dedos, depois me pede para eu deixar ele crescer outra vez, mas diz que eu fico bonita também de cabelo curto, que eu fico linda de qualquer jeito, até quando eu acordo de uma noite não dormida porque o barulho da minha inquietação me despertou e me arrancou do meu sono outra vez. Mente pra mim. Vez ou outra mente, por favor. Mas mente sinceramente. Não precisa ser todo dia, nem o tempo todo. O tempo todo só me engole.

Me entope de informação desimportante, de risada fora de hora, de cultura inútil. Me ensina todas essas coisas de utilidade pública e grande relevância para a humanidade, como erguer uma sobrancelha só ou encostar a língua na ponta do nariz. Me ajuda a montar um castelo de areia, outro de cartas. Me escreve uma carta? Não precisa dizer nada. Só desenha um coração bem grande no meio da folha. Dentro do coração, coloca as iniciais dos nossos nomes. Eu vou achar bonitinho, cafona, mas bonitinho. As palavras você pode espalhar no tapete da sala, na cama do nosso quarto, no pé do meu ouvido…

Me beija na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, sobretudo na chuva. A casinha não precisa ser de sapê, pode ser de tijolo mesmo. Me faz correr para entrar na internet só pra ver se o seu signo combina com o meu. Preenche as minhas reticências, ocupa os meus espaços, rouba as minhas horas. Me faz perder a hora. Do trabalho, do dentista, do oculista. Me deixa enxergar mal, eu não quero corrigir o grau das minhas lentes agora.

Não tem problema se você vier de camisa velha, mas vem. Só faz a barba se você quiser. Mas eu vou gostar se você não fizer. E se você fizer é provável que eu goste também. Tá, eu não vou nem notar. Mas se você esquecer de propósito a sua escova de dentes na pia do meu banheiro eu vou perceber. E pior: vou gostar. Vou adorar ter minha liberdade ameaçada por um objeto inanimado.

Trinca os dentes com vontade de me apertar até me sufocar. Me afoga nos teus beijos, mas depois faz respiração boca-a-boca para me salvar. Me leva pro mar, me atira aos tubarões. Se atira comigo. Mergulha fundo até perder o ar. Seja estúpido. Tolo. Menino. Seja faminto. Instinto. Tubarão. Sinta fome de mim no café da manhã que eu me sirvo de você na mesa do jantar. Depois a louça é sua… tá na sua vez de lavar. Eu te ajudo a secar, mas só amanhã, quando eu acordar pra sonhar.

Fica pra sempre até eu terminar de te inventar.

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada…

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje possivelmente existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou com Cristina e ela vestidas de branco, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas…

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje não mais. Só há silêncio e a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete me fazer girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas, há mais de 16 anos, tia Bernadete já estava muito doente, e enquanto os adultos discutiam as medidas que deveriam tomar com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar!). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

No fundo são todos Chicos, Tons e Vinícius…

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Rio, em 1979. (Foto do querido Evandro Teixeira)

É claro que eu já xinguei a mãe de todos eles, já desejei viver sem, ou melhor, desejei conseguir desejar viver sem eles. Também já julguei todos como iguais, tudo farinha do mesmo saco, flor que não se cheire… gastei horas falando mal deles com as minhas amigas, afinal, essa é a parte mais divertida de todo “Clube da Luluzinha”, é tema recorrente…

Mas a verdade é que na maior parte do tempo eu gosto mesmo é de estar com eles.

Desde pequena eu sempre estive rodeada por figuras masculinas, nas reuniões familiares achava mais divertido ficar perto deles, que bebiam, falavam alto, diziam palavrões impressionantes e eram engraçadíssimos. As mulheres trocavam receitas, chamavam a atenção das crianças que tentavam se divertir e reclamavam dos maridos enquanto lavavam a louça do jantar. Maldizer os homens é tradição milenar, isso a gente aprende desde pequenininha. Só depois é que vai entender que tradições, quase sempre, são equívocos.

As mulheres que me perdoem, mas os homens são bem mais… mais legais. É isso, legais, espirituosos! Homens já nascem livres, crescem soltos como gatos. São criados longe da repressão, com menos regras, não escutam discursos enfadonhos sobre o pecado (se escutam, ignoram!) e normalmente desconhecem o significado da palavra culpa porque são fiéis, acima de tudo, às suas próprias vontades. Percebem a leveza?

Não é o que parece. Não estou dizendo que os homens são melhores do que as mulheres, a questão é outra, não é comparativa. Existem milhões de textos enaltecendo as qualidades femininas por aí. Eu mesma já escrevi alguns. Mas e sobre os homens? Ninguém escreve? Vejo as mulheres falando sempre tão mal dos homens que tenho a impressão de que só os gays falam bem deles.

Não sou do tipo que considera os homens um mal necessário. Eu gosto de tê-los por perto não só quando o meu chuveiro queima ou o meu ralo entope, como agora. Gosto porque sempre aprendo alguma coisa com eles. Quando jogam vídeo-game até passarem de fase, por exemplo, demonstram como são perseverantes, e quando assistem futebol são as criaturas mais compenetradas do universo, já repararam? Acho tudo isso lindo, desde que eu não precise disputar atenção com uma televisão, é claro.

Adoro a praticidade deles, a ausência de modos, de frescuras e a maneira quase irritante como simplificam tudo. Acho admirável o senso de orientação que eles possuem, mas acho  graça mesmo é do orgulho que sentem de pedir informação quando estão perdidos, e a maneira como mexem nos nossos cabelos sem nunca conseguirem mantê-los no lugar que gostaríamos que ficassem, levando em consideração que passamos horas arrumando o penteado em casa, diante do espelho.

Gosto de colocar os meus pés pequenos perto dos pés grandes deles e me sentir miúda e frágil, de deitar no peito deles para ficar tranquila e de ter a sensação de que nada de mau pode me acontecer enquanto eu estiver envolvida no abraço daqueles braços compridos. Admiro a postura segura e corajosa que eles têm diante de alguma situação de risco, mesmo sabendo que eles estão tão apavorados quanto eu. Gosto de ver como se portam como heróis em minha defesa diante de uma barata.

Eu amo o cheiro deles mesmo quando não passam perfume. Sou viciada nas suas loções e desodorantes e seria capaz de viver debaixo de suas axilas. Adoro barba por fazer, feita, mal feita, grande, curta… em suma: adoro o fato de terem barba, independente do estilo que adotam, desde que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma deixem de roçar na minha nuca. Mas não há nada que eu adore mais num homem do que as mãos e a maneira como eles manuseiam talheres, volantes, canetas, ferramentas e, principalmente, o meu quadril.

E quando se apaixonam? Homem apaixonado é coisa linda – e engraçada – de se assistir e de se querer possuir. Viram poetas, fazem rima, prosa e amor até de madrugada. Ficam assustados quando se descobrem românticos, tentam disfarçar, mas nunca são bem sucedidos na tentativa. Ficam cafonas, tolos, bobos, voltam a ser meninos… deixam a gente fazer o que bem entender deles. Se sentem um pouco na nossa pele e começam a compreender melhor o universo e a essência feminina. Homens apaixonados resultam em homens apaixonantes, como esses Chicos, Tons e Vinícius…

Isso sem falar que eles têm a peça-chave do encaixe que, quando bem utilizada, nos fazem amá-los como se fossem dois seres independentes um do outro, mas que queremos sempre em um só.

Acho engraçado como quando, não raro, sou a única mulher numa roda de homens e, à certa altura, um deles se desculpa pelo vocabulário esdrúxulo, como se estivessem me incomodando ou ofendendo. Nunca me choquei com a liberdade da conversa masculina. Talvez porque mesmo tendo as unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa e usando sapatilhas de boneca, eu pense como eles muitas vezes.

Eu gosto do tato e da falta de tato masculina. Gosto mais do tato, é verdade. É verdade também que já reclamei da insensibilidade deles nos momentos mais delicados. Mas como querer que o mesmo sujeito tenha pegada forte e seja delicado comigo ao mesmo tempo ou na mesma medida e proporção?

Nunca me esqueço de um dia em que eu estava chorando de soluçar por conta de um desafeto e um amigo me levantou, me puxando pelo braço, ergueu minha cabeça e me disse: “seja macho, engole o choro agora!”. E não é que eu engoli? E antes que eu morresse desidratada, comecei a rir. Nós, mulheres, temos um talento nato para o drama e algumas vezes precisamos adotar uma postura meio machista para controlar o instinto teatral, mas sempre temos a TPM para colocar a culpa…

E essa é mais uma razão que me faz amar os homens: eles não têm TPM, embora alguns se comportem como se menstruassem mais vezes no mês do que eu. Mas eu tô falando de homem de verdade, do tipo que não sabe a diferença entre calçados scarpin e antonella, menos ainda entre culote e celulite; que não tá nem aí se o seu cabelo estiver encaracolado ou esticado com escova marroquina, japonesa ou uma estrangeira dessas qualquer; se suas unhas estiverem pintadas ou não; se suas calças estiverem passadas, engomadas ou amarrotadas. Ele sempre vai preferir que você esteja sem calças perto dele.

Eu amei verdadeiramente todos os homens que tive, cada um a seu modo. Adorei cada detalhe dos moços que passaram pela minha vida e guardei, de cada um, pelo menos um momento bom, que me provoca um sorriso do canto de boca toda vez que lembro, com ou sem saudade, mas sempre com uma enorme gratidão pelo amor que me deram, mesmo os que me amaram da maneira mais torta e equivocada. De certo eles tentaram ser os Chicos, Tons e Vinícius da minha vida e, de certa forma, foram.

Mas, Bossa Nova à parte, continuo em apuros com o ralo do meu banheiro… homens?

Roberta Simoni

Sentimento: retire aqui o seu!

“- Ei, tô com saudade!

- Tá nada!

- Tô ué. Por que? Não posso?

- Poder, pode… mas eu não acredito!

- Tudo bem, retiro o que eu disse. Quer que eu retire a saudade também?”

Tão bom se sentimento fosse coisa que a gente retira, né? Tipo fita adesiva, tampa de panela, casca de ovo cozido, maquiagem em fim de festa, lacre de proteção.

Sentimento nem sequer é transferível. Se é, tem alguma coisa errada. Não dá para pegar um afeto, uma admiração, uma saudade, tirar de uma pessoa e passar pra outra. Eu tô falando de sentimento, não de transfusão sanguínea ou de transferência bancária.

Dá sim para sentir isso tudo aí por um bocado de gente, inclusive simultaneamente, e dá até pra passar de um pro outro feito virose, que contamina, contagia. Mas aí é transmissível, não transferível. São só palavras foneticamente parecidas, nada mais.

Sentimento é igual a senha: individual e intransferível. Normalmente você não revela a ninguém, nem mesmo a parentes, amigos ou pessoas de confiança. Basta que você saiba para que exista.

Dá até pra mudar de lugar. Tipo cadeira, cama, geladeira, sofá. Costuma ficar bem num determinado cômodo, lá naquele canto… e pode passar a vida inteira ali, como pode também mudar e pode ser até que fique melhor lá. Tesão pode virar paixão, que pode virar amor, que pode virar admiração, que pode virar amizade, que pode não virar nada. O inverso também funciona. Mas tudo tende a terminar em saudade. Açúcar. Nuvem.

É que, às vezes, a casa fica apertada demais, daí a gente vai lá e retira o sofá, joga fora ou dá pra alguém que esteja precisando. Compra uma geladeira nova e coloca no lugar da antiga. Até acontece. Mas demora. Desapego requer prática. Ou necessidade.

Sentimentos mudam, se transformam, passam, vão embora pra sempre, ou ficam pro jantar, pro café da manhã, pro resto da vida. Mas aí depende deles. É quando, como e se eles quiserem. Sentimento a gente não escolhe. Sentimento escolhe a gente.

Eu não sou livre, meus sentimentos é que são. Mas quando eu crescer, serei igual a eles!

-  … E se você quiser, eu digo que retiro essa saudade, mas isso vai ser tão útil e eficaz quanto retirar o que eu disse. ;)

Roberta Simoni

Do que fica…

“A maioria dos dias do ano são irrelevantes. Eles começam e terminam sem nenhuma lembrança duradoura entre eles. A maioria dos dias não têm impacto no percurso da vida…” *

… 1º de julho era uma sexta-feira e, definitivamente, não era um desses dias.

* Frase do filme “500 Days Of Summer”.

Roberta Simoni

Do que você (não) sabe.

Eu não sei o que você pensa a meu respeito – se é que o fazes – mas quase acho graça quando fala que me conhece muito bem.

Você não sabe que tenho sonhos em preto e branco, e que conjugo o tempo pelo que sou quando estou dormindo e acordada.

Não sabe que nesses sonhos descoloridos há música francesa tocando no rádio e que eu não só consigo entender as letras, como sei cantar todas as canções.

Não imagina que o rádio dos meus sonhos só toca as músicas que gosto, e quando não há nada de bom tocando em nenhuma estação, o rádio se cala. E assim permanece por longos intervalos.

Já pensou como seria bom se eu fosse como esse rádio? Se tudo que eu falasse soasse como música aos seus ouvidos e se eu só falasse quando fosse para te dizer o que você gosta de ouvir?

É claro que já pensou, que já teve vontade de me calar a boca, o impulso de interromper bruscamente meus pensamentos tortos de tão certos a seu respeito, mas aposto que se viu recriando as minhas frases tolas na sua cabeça uma centena de vezes antes de dormir.

E você nem sabe dos julgamentos que faço intimamente, nem mesmo de ti, pois pensa que eu já te disse tudo, com esse meu péssimo hábito de dar voz a tudo que me passa pela cabeça, tantas vezes sem antes passar pelas vias do coração. Mas estou guardando o melhor pro final.

Você não notou que eu sou outra a cada dia. Você poderia ter se apaixonado por várias “mins”, mas só gostou de uma ou outra que se deu ao trabalho de conhecer. Poderia ter se deitado com várias mulheres e ter feito planos diferentes com cada uma delas. Você nunca teria se entediado se tivesse notado…

Quem me diria hermética? Qualquer estranho, mas não você, afinal, conhece-me como a palma dessa tua mão bonita que você nunca parou para observar direito.

Julga minha transparência como leitura fácil, mas não passou do primeiro parágrafo.

Roberta Simoni


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