É claro que eu já xinguei a mãe de todos eles, já desejei viver sem, ou melhor, desejei conseguir desejar viver sem eles. Também já julguei todos como iguais, tudo farinha do mesmo saco, flor que não se cheire… gastei horas falando mal deles com as minhas amigas, afinal, essa é a parte mais divertida de todo “Clube da Luluzinha”, é tema recorrente…
Mas a verdade é que na maior parte do tempo eu gosto mesmo é de estar com eles.
Desde pequena eu sempre estive rodeada por figuras masculinas, nas reuniões familiares achava mais divertido ficar perto deles, que bebiam, falavam alto, diziam palavrões impressionantes e eram engraçadíssimos. As mulheres trocavam receitas, chamavam a atenção das crianças que tentavam se divertir e reclamavam dos maridos enquanto lavavam a louça do jantar. Maldizer os homens é tradição milenar, isso a gente aprende desde pequenininha. Só depois é que vai entender que tradições, quase sempre, são equívocos.
As mulheres que me perdoem, mas os homens são bem mais… mais legais. É isso, legais, espirituosos! Homens já nascem livres, crescem soltos como gatos. São criados longe da repressão, com menos regras, não escutam discursos enfadonhos sobre o pecado (se escutam, ignoram!) e normalmente desconhecem o significado da palavra culpa porque são fiéis, acima de tudo, às suas próprias vontades. Percebem a leveza?
Não é o que parece. Não estou dizendo que os homens são melhores do que as mulheres, a questão é outra, não é comparativa. Existem milhões de textos enaltecendo as qualidades femininas por aí. Eu mesma já escrevi alguns. Mas e sobre os homens? Ninguém escreve? Vejo as mulheres falando sempre tão mal dos homens que tenho a impressão de que só os gays falam bem deles.
Não sou do tipo que considera os homens um mal necessário. Eu gosto de tê-los por perto não só quando o meu chuveiro queima ou o meu ralo entope, como agora. Gosto porque sempre aprendo alguma coisa com eles. Quando jogam vídeo-game até passarem de fase, por exemplo, demonstram como são perseverantes, e quando assistem futebol são as criaturas mais compenetradas do universo, já repararam? Acho tudo isso lindo, desde que eu não precise disputar atenção com uma televisão, é claro.
Adoro a praticidade deles, a ausência de modos, de frescuras e a maneira quase irritante como simplificam tudo. Acho admirável o senso de orientação que eles possuem, mas acho graça mesmo é do orgulho que sentem de pedir informação quando estão perdidos, e a maneira como mexem nos nossos cabelos sem nunca conseguirem mantê-los no lugar que gostaríamos que ficassem, levando em consideração que passamos horas arrumando o penteado em casa, diante do espelho.
Gosto de colocar os meus pés pequenos perto dos pés grandes deles e me sentir miúda e frágil, de deitar no peito deles para ficar tranquila e de ter a sensação de que nada de mau pode me acontecer enquanto eu estiver envolvida no abraço daqueles braços compridos. Admiro a postura segura e corajosa que eles têm diante de alguma situação de risco, mesmo sabendo que eles estão tão apavorados quanto eu. Gosto de ver como se portam como heróis em minha defesa diante de uma barata.
Eu amo o cheiro deles mesmo quando não passam perfume. Sou viciada nas suas loções e desodorantes e seria capaz de viver debaixo de suas axilas. Adoro barba por fazer, feita, mal feita, grande, curta… em suma: adoro o fato de terem barba, independente do estilo que adotam, desde que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma deixem de roçar na minha nuca. Mas não há nada que eu adore mais num homem do que as mãos e a maneira como eles manuseiam talheres, volantes, canetas, ferramentas e, principalmente, o meu quadril.
E quando se apaixonam? Homem apaixonado é coisa linda – e engraçada – de se assistir e de se querer possuir. Viram poetas, fazem rima, prosa e amor até de madrugada. Ficam assustados quando se descobrem românticos, tentam disfarçar, mas nunca são bem sucedidos na tentativa. Ficam cafonas, tolos, bobos, voltam a ser meninos… deixam a gente fazer o que bem entender deles. Se sentem um pouco na nossa pele e começam a compreender melhor o universo e a essência feminina. Homens apaixonados resultam em homens apaixonantes, como esses Chicos, Tons e Vinícius…
Isso sem falar que eles têm a peça-chave do encaixe que, quando bem utilizada, nos fazem amá-los como se fossem dois seres independentes um do outro, mas que queremos sempre em um só.
Acho engraçado como quando, não raro, sou a única mulher numa roda de homens e, à certa altura, um deles se desculpa pelo vocabulário esdrúxulo, como se estivessem me incomodando ou ofendendo. Nunca me choquei com a liberdade da conversa masculina. Talvez porque mesmo tendo as unhas pintadas com esmalte cor-de-rosa e usando sapatilhas de boneca, eu pense como eles muitas vezes.
Eu gosto do tato e da falta de tato masculina. Gosto mais do tato, é verdade. É verdade também que já reclamei da insensibilidade deles nos momentos mais delicados. Mas como querer que o mesmo sujeito tenha pegada forte e seja delicado comigo ao mesmo tempo ou na mesma medida e proporção?
Nunca me esqueço de um dia em que eu estava chorando de soluçar por conta de um desafeto e um amigo me levantou, me puxando pelo braço, ergueu minha cabeça e me disse: “seja macho, engole o choro agora!”. E não é que eu engoli? E antes que eu morresse desidratada, comecei a rir. Nós, mulheres, temos um talento nato para o drama e algumas vezes precisamos adotar uma postura meio machista para controlar o instinto teatral, mas sempre temos a TPM para colocar a culpa…
E essa é mais uma razão que me faz amar os homens: eles não têm TPM, embora alguns se comportem como se menstruassem mais vezes no mês do que eu. Mas eu tô falando de homem de verdade, do tipo que não sabe a diferença entre calçados scarpin e antonella, menos ainda entre culote e celulite; que não tá nem aí se o seu cabelo estiver encaracolado ou esticado com escova marroquina, japonesa ou uma estrangeira dessas qualquer; se suas unhas estiverem pintadas ou não; se suas calças estiverem passadas, engomadas ou amarrotadas. Ele sempre vai preferir que você esteja sem calças perto dele.
Eu amei verdadeiramente todos os homens que tive, cada um a seu modo. Adorei cada detalhe dos moços que passaram pela minha vida e guardei, de cada um, pelo menos um momento bom, que me provoca um sorriso do canto de boca toda vez que lembro, com ou sem saudade, mas sempre com uma enorme gratidão pelo amor que me deram, mesmo os que me amaram da maneira mais torta e equivocada. De certo eles tentaram ser os Chicos, Tons e Vinícius da minha vida e, de certa forma, foram.
Mas, Bossa Nova à parte, continuo em apuros com o ralo do meu banheiro… homens?
Roberta Simoni








Andaram dizendo…