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A Semana dos Nãos

Acordei e vi que ele arrumava a mala. Fingi continuar dormindo só para poder observar como separava meias e cuecas calma e cuidadosamente. Não tinha a pressa de quem está prestes a perder o vôo, mas tinha o desânimo de quem viaja para o Polo Norte só de meias e cueca.

A essa semana que seguiu sem ele, resolvi batizar de “A Semana dos Nãos”. Foram muitos nãos grandes para caberem todos em dias poucos e curtos.

Um contrato não assinado. Um pedido de patrocínio negado. Um texto não terminado. Um transplante de raciocínio matemático rápido negado. Um artigo não vendido. Um pedido de empréstimo de talento para negócios negado. Um ou dois projetos vetados. Uma publicação de livro negada. Um trabalho adiado. Uma pauta não aprovada. Um visto para a lua negado.

É claro que eu coloquei a culpa nele por ter ido embora e me deixado aqui sozinha com essa cambada de nãos malquistos. Persona non grata! Daí ele me aparece hoje dizendo que foi só ali e já voltou, afinal, não teria passado pela minha cabeça que ele pudesse ter ido embora para sempre carregando apenas meias e cuecas na mala, certo? Errado. A não ser que eu fosse uma criatura mais lógica e menos emocional.

Apesar das negativas, ele voltou! Voltou porque eu, graças às negativas, tive a semana mais elucidativa do ano. Os pontos de interrogação impertinentes foram devidamente substituídos por nãos exclamativos, embora alguns sejam intermitentes.

Entre certezas desagradáveis e incertezas, eu fico com a primeira opção. Uma vez tendo um não (ou vários) como resposta, a gente pula para a próxima tentativa de sim.

De mala na mão, meu sonho voltou pra casa. Dentro da mala, meias e cuecas sujas que eu nem me importei de ter que lavar.

Roberta Simoni

Eu, minha mala e “ela”.

Perder-se

É quando eu penso que ela não virá tão cedo que ela chega sorrateira, de mansinho, no meio da madrugada, prendendo a respiração, andando na ponta dos pés, com os passos lentos como os de um astronauta em solo lunar.

Tanto esforço em vão. Eu já estou acordada. Sou amiga da madrugada, temos um caso e somos fiéis amantes. É com ela que eu penso na morte da bezerra – e na minha própria – contamos carneirinhos, vaquinhas e a fauna inteira, esperando o sono chegar, mas quem chega é ela. E chega sem avisar.

Patética de tão dissimulada com seus passos de astronauta tentando não me acordar. Eu acho até graça, mas não sorrio pra ela. E ela sabe o porquê. Paro de pensar na bezerra, na morte dela, na minha, nas vacas, nos carneiros, e penso agora no astronauta que nunca foi à Lua e até hoje se faz acreditar ter passado por lá. Ai ai… como somos tolos. Acreditamos no que queremos acreditar…

Ela também tem o direito de acreditar que pode entrar aqui sem que eu consiga notar. Deixa… deixa ela achar que não está fazendo barulho nenhum com seus passos desastrados e pesados, com sua respiração profunda e cansada. Me deixa também… deixa eu fingir que não a vi chegar. Ela vai fingir que acredita por alguns dias, até tomar coragem de me enfrentar. Ganho algum tempo inerte até lá.

Lá no fundo, eu sei… uma pequena fração de mim gosta de vê-la chegar e sente até saudade quando ela demora para voltar, enquanto todas as minhas outras milhares de particulas começam a se repelir só de ouvir falar o nome dela outra vez: MUDANÇA!

Passo dias e dias sem lhe dirigir a palavra. Ela, educada, me corteja, abre caminho para que eu possa passar, me leva até à porta de casa quando vou sair, e quando volto, ela está lá, me esperando com um sorriso irritantemente largo. Me lança um olhar desafiador e começa a apelar: ocupa o meu lugar preferido no sofá, se coloca à frente da tevê, deita na minha cama, me empurra durante a noite. Por fim, começa a me incomodar.

E eu sei que ela só vai embora quando eu mudar. Então eu me mudo… mudo de casa, de bairro, de cidade, de país, de planeta. Ela vem comigo, fiel. E garante que só vai embora depois que eu também mudar.

Eu, cansada, carregando uma mala pesada numa das mãos. Sem rumo, sem estrada e sem calçados nos pés, caminho descalça na chuva outra vez. Na outra mão, a mão dela, entrelaçada à minha. Seguimos de mãos dadas, esperando o tempo mudar, e esperamos que eu mude junto com o tempo. Para melhor. Sempre.

Roberta Simoni


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