Faz de Conta

MeninaEla que gostava de ser criança, e mesmo depois de ter tornado-se mulher, não queria deixar morrer a menina que existia nela. Que gostava de brincar de faz de conta, e fazia de conta que era uma princesa, que a casa em que morava era um castelo, e ficava perto das nuvens.

Às vezes ela cansava de ser princesa, e simplesmente fazia de conta que já era adulta, mãe, secretária, atriz, médica… Quando de castigo, aproveitava o tempo para planejar a sua fuga do próximo castigo, ou até mesmo de casa, ou da escola, quando se via muito contrariada.

Tinha medo de bruxas e fantasmas, mas nunca levou muita fé no bicho papão, achava até graça nele. Gostava de abrir a porta e sair andando sobre as nuvens, de colher algodão doce no jardim de casa, de conversar com as fadas, colecionava estrelas, e todo dia antes do sol ir embora ela pegava um pedacinho dele e guardava dentro de si, para não ficar no escuro, no caso dele não aparecer no dia seguinte.

Eram tantos desejos e sonhos que se fosse escrevê-los num papel, ela faria uma listinha, e mesmo assim não caberia. Ela que aprendeu a rezar todos os dias antes de dormir, hoje mal se lembra de de como são feitas as orações.

Hoje ela acordou e observou-se no espelho por alguns minutos, passou a mão pelos cabelos, lembrou da menina que foi, tocou-se nos seios, sorriu, mas achou novas rugas, procurou a menina e não mais a encontrou. Sentiu-se assassina de si mesma, afinal, o que ela havia feito com a garota colecionadora de estrelas?

Os sonhos que sequer cabiam numa folha de papel, nem na sua memória habitam mais, as novas metas e o planejamento financeiro ocuparam o lugar que foi deles um dia. Sem perceber, ela deixou de guardar dentro dela o pedacinho de sol que ela pegava todos os dias, e o espaço que a luz do sol ocupava ficou escuro, dando espaço às inseguranças e aos anseios. As fadas, coitadas, essas ficaram falando sozinhas por tanto tempo, que foram procurar outra amiga. Parou de comer doce porque engorda, e as dietas só serviram para secar os jardins de algodão doce que ela tinha.

Mas, os medos, ah… esses ela ainda tinha. Só que os fantasmas ganharam uma nova forma e as bruxas, bom, essas não eram tão feias quanto as que ela tinha medo quando pequena. Nada de chapéus pontiagudos, vassouras e narizes cheios de verrugas, em compensação, ela passou a conviver com bruxas de todos os sexos e aprendeu que elas sempre aparecem usando máscaras belíssimas.

Ser adulta não é, nem de longe, o que ela imaginou, mas, afinal, não é de todo mal. Ela não fica mais de castigo, nem precisa gastar energia tentando fugir, não deve obediência a mais ninguém, e, além do mais, tem uma coisa que não tinha quando menina, e nem sonhava que existia: orgasmos !!!

Nem tudo está perdido, e sabe do que mais? Ela ainda pode ser criança. Na verdade, a menina não morreu, é verdade que na maior parte do tempo, fica escondida, mas, é que ela gosta de brincar de “esconde-esconde”, porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, a mulher que ela habita sentirá falta da garotinha, da princesa que mora no castelo arranha-céu, e ela irá até lá procurá-la, e quando se encontrarem, vão brincar de faz de conta outra vez, e por algumas horas, vão fazer de conta que ela não é adulta, que não há horários, contas a pagar, nem compromissos, que fantasmas e bruxas não existem, vão comer muitos algodões doces e fazer de conta que não existem calorias , e depois vão correr pelas nuvens. Sim, elas têm pressa, pois precisam recuperar os sonhos que ficaram perdidos por lá…

Roberta Simoni