A tristeza não é a vilã

Ela chegou sem avisar e me encontrou desprevenida e desarmada. Há muito ela vem tentando ser notada por mim, e aproveita qualquer espaço, por menor que seja, para se mostrar, porque não suporta mais ser ignorada. Cansou de ficar escondida por trás do meu sorriso sem graça, do meu olhar sem foco para o nada, da ausência da minha alegria e do meu entusiasmo de ser e existir. Deixo, então, que a tristeza ocupe o espaço que lhe tem sido negado, e que pertence à ela por direito, e espero que me mostre para quê veio.

Acho que quando a dor é aceita, dói pela metade, e se apressa para ir embora, pois uma vez aceita, incomoda cada vez menos, até perder o sentido de existir. Só que enquanto ainda dói, me faz sentir sono, e o sono vem depois do choro cansado e agudo que ela me provoca, sem se importar com mais nada, pedindo para a minha mente e o meu corpo se desligarem um pouco.

Chorar me faz até bem, alivia as angústias e me esvazia de mim mesma. Ando cansada de mim, cansada de existir, de tentar entender a mim, os outros e o mundo. Cansada de buscar respostas para o que é humanamente incompreensível. Então, deixe! Deixe que eu me esvazie do meu próprio cansaço mental e espiritual, deixe que eu me permita estar do jeito que eu preciso estar agora, mesmo sem um motivo “apalpável”. Minha alma não precisa de motivos para se recolher dentro de mim, mas ela só o faz quando eu permito, quando não me fecho na minha mediocridade disfarçada e no meu egoísmo, tão naturais aos humanos, que, por vezes me fazem esquecer que sou muito mais do que carne e osso.

Não acusem mais a tristeza de ser a vilã, parem de tentar camuflá-la em falsas alegrias e sorrisos amarelos. Não estou dizendo que temos que ser tristes, longe disso, o que quero dizer é que todos nós temos um pouco que seja de tristeza, que quando oprimida, fica cada vez mais incômoda, até ficar profunda e inflamada. Quando ela for inevitável, deixe que entre, trate-a com cordialidade, é apenas uma visita breve. Ela não vem para ficar, não quer tomar o espaço da alegria, é singela e humilde, e só vem para preparar o ambiente para uma futura alegria, que se antes não fosse uma dor, passaria despercebida.

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Não sei quem foi o sábio que disse essas palavras, mas ela sintetiza tudo o que quero dizer. Sentir dor é diferente de sofrer, o sofrimento fere e deixa marcas profundas, e pode ser uma escolha. A dor é inevitável, mas é sóbria e tem fundamento, chega e vai embora como uma brisa suave, não deixa saudades, mas te deixa melhor do que quando te encontrou.

Estar triste não é ser triste e a minha tristeza está  longe de ser sofrida. Eu não sou habituada a dor, mas, finalmente entendi que a dor me ajuda a crescer como gente, e a cada lágrima que ela provoca, me purifica e limpa os meus olhos para enxergarem tudo aquilo que preciso e que tenho – inconscientemente – me recusado a ver.

“A dor não é motivo de preocupação, faz parte da vida animal.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni

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3 comentários sobre “A tristeza não é a vilã

  1. A dor quando aceita doi pela metade…
    Eu realmente nunca havia pensando por este prima, mas é a mais pura verdade. Somos adaptáveis afinal. E fazendo link com o texto que se refere a caoticidade da vida e a nossa tentativa quase pífia, por ser necessária, de colocá-la em ordem, chego a conclusão que a trsiteza é analgésico. Nos trás para dentro quando, por vezes, ignoramos as dores por tanto, que já nem mais conhecemos os sintomas óbvios de felicidade ou infelicidade, ambas sendo efêmeras e paradoxalmente latentes.
    Penso na tristeza pelo viés da saudade. Sempre necessárias. Sempre indispensáveis para o nosso fortalecimento e crescimento. Para lembrarmos de que não importa o caos que o mundo nos revele, e ele irá revelar, somos completos. Pelo que somos. pelo que conquistamos. Pelo que perdemos. Por sermos nós.

    Texto Maravilhoso, Beta!! Falar mais seria chover no molhado.

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