É preciso viver apesar de.

Clarice Lispector

Terminei de ler Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector. Mais um livro maravilhoso. Eu não consigo falar da Clarice sem cair em lugar comum.  Ela é única, escreve com a alma, com emoção, e ao mesmo tempo, sabe trabalhar os sentidos da razão de forma leve e perturbadora, porque te obriga a refletir, te impulsiona a chegar no âmago das questões emocionais, racionais, e irracionais também. Como dizem, Clarice não é para ser lida, e sim, sentida, e como ela mesmo disse: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.”

Destaquei vários trechos do livro que me despertaram interesse, mas escolhi falar deste, em especial:

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Não é que eu esteja vivendo apesar de, é que eu sempre vivi apesar de. Parei para pensar sobre a minha vida e o rumo que ela tomou e lembrei que apesar de, estou vivendo. Apesar de, não desisti. Apesar de, não tentei. Apesar de, eu amo. Apesar de, eu odeio. Apesar de, não enxerguei. Apesar de, não chorei. Apesar de, não sorri. Apesar de, não consegui. Apesar de, eu ganhei. Apesar de, não me esqueci. Apesar de, fui embora. Apesar de, eu permaneci.

Vivemos sempre, sempre, sempre apesar de. E apesar dos pesares, sobrevivemos até aqui.

Não é com tristeza nem alegria que eu escrevo hoje. Na verdade, eu escrevo apesar de. E, apesar de, a despeito de, não obstante, eu escrevo, e sinto, como sinto… e espero – e quero – que os pesares que a vida me impõe todos os dias, tornem-se sempre apesares, porque eu quero ter força e sabedoria para continuar apesar de.

E, apesar de querer, eu não tenho escolha. Essa escolha a vida não me deu, nem nunca vai dar, nem a mim, nem a ninguém. Faz parte de um mistério maior: o da existência. Nós ignoramos o começo e desconhecemos o fim. O fato é que fui o único espermatozóide a fecundar aquele óvulo apesar de ter milhões de espermatozóides com o mesmo objetivo, na mesma tentativa, no mesmo instante. E um dia, breve ou não, eu tenho a certeza de que vou morrer, apesar disso, não sei quando, nem onde, nem como isso vai acontecer, e menos ainda, se apesar de morrer em matéria, eu vou viver em espírito.

Melhor eu parar de ler Lispector, já me bastam os devaneios que tenho sem alimentar a minha imaginação, se ela continuar dando de comer à minha mente, vou engordar também a minha consciência.

Pensando bem, quero mais Lispector… 😀

Roberta Simoni