Bom dia para você também!

Despertador

Como alguém pode acordar tão bem-humorado??? Eu juro que eu me esforço para entender, mas não consigo.

Eu acho o máximo quem consegue acordar sem muito esforço, que sequer precisa de um relógio para ser despertado, e mesmo quando precisa, levanta super disposto e animado. Eu imagino – e só imagino, pois nunca vivi algo semelhante a nada disso – o quanto deve ser bom começar o dia assim.  Acho lindo, e até poético. Parece comercial de margarina!

Enquanto eu levanto todos os dias me arrastando até o banheiro feito um réptil, questionando a razão da minha existência, implorando a Deus para eu conseguir abrir meus olhos. Depois acabo sucumbindo, me jogando de volta na cama, desejando mais alguns míseros minutinhos de sono, como quem deseja ganhar na mega sena.

Enquanto isso, ouço o meu vizinho de cima cantarolando junto com os passarinhos assim que o dia clareia, feliz da vida. Faça sol ou faça chuva, seja domingo ou seja segunda-feira, ele liga o som no último volume e canta junto com a música, e consegue ser mais eficaz e irritante que o meu despertador. Cada dia é um repertório diferente, mas nada me agrada, porque, na verdade, mesmo se ele colocar Norah Jones para tocar, ele vai cantar – “desafinadamente” – com ela, e vai me irritar do mesmo jeito. Mas hoje… ah, hoje ele conseguiu se superar!

Hoje eu fui acordada pelos Raimundos e ele, cantando Complicada e Perfeitinha, ele berrando mais que a bateria, a guitarra e o vocalista dos Raimundos juntos, e vibrando com enooooormes espasmos de  “Uh-huuuuuuuuuuuuuuuu!!!”. A cada “uh-huuuu” dele eu dava um pulo, sem saber direito onde eu estava e quem eu era. Depois que despertei de vez e consegui me localizar no mundo, fiquei sentada na cama, olhando para a parede e questionando se toda aquela alegria e entusiasmo eram passíveis a um ser humano normal, que acabou de acordar.

Por mais que, às vezes, tudo que eu fale possa parecer irônico, falo sinceramente quando digo que admiro quem consegue acordar com disposição… quisera eu!

Mas até para isso há limites. Uma coisa é acordar feliz e disposto, outra coisa é acordar feito uma gazela-saltitante-desafinada-cor-de-rosa-drogada-no-cio.

Bom dia para você também, querido vizinho. E vá pro diabo que te carregue…

Roberta Simoni

Brigadeiro de Panela

Brigadeiro de Panela

O que uma simples panela com brigadeiro esconde?

Além das calorias exorbitantes, cair de boca num brigadeiro de panela esconde um desejo simples, no entanto, com uma capacidade incomensurável de fazer uma reles mortal, como eu, imensamente feliz.

No meu atual estado físico – esteticamente falando – ir até a cozinha, ligar o fogão, acender o fogo,  jogar dentro da panela uma colher de margarina, três colheres de chocolate em pó e uma lata de leite condensado, depois mexer tudo isso por alguns minutinhos, não requer muitos gastos calóricos e energéticos, em compensação, requer um enoooooorme desgaste e preparo psicológico.

Quando a versão gordinha do meu cérebro me avisa – “Hummmm, Beta, tô com vontade de comer aquele brigadeiro que você faz!”, a versão consciente rebate – “Não, Beta, você não vai comer brigadeiro nenhum. Tem noção do quanto isso engorda?”

Aí começa um debate frenético na minha cabeça. A versão gordinha tenta convencer a versão consciente de todas as formas, e vice-versa. E eu, calada, assisto a discussão delas e concluo que as duas têm razão, afinal. Só que, nessa briga, não dá para todo mundo sair ganhando.

A Versão Beta Gordinha alega que a vida é uma só, e que não suporta mais viver sufocando seus instintos e se privando dos seus desejos em prol de uma vida saudável e de prazeres limitadíssimos. Enquanto a Versão Beta Consciente se defende dizendo que não aguenta mais ceder às vontades da minha versão gorda e que depois é ela quem exerce o papel chato de me fazer sentir uma jubarte na hora de vestir uma roupa justa que, por sua vez, não consegue mais ceder meio centímetro sequer.

As duas estão cobertas de razão, eu sei. E eu estou aqui pensando numa forma de não despertar a fúria da minha versão consciente, enquanto me atraco com a panela de brigadeiro e faço a alegria da minha versão gordinha que saiu ganhando, só pra variar. 😡

Preciso pensar numa solução rápida, antes que a minha consciência me posicione estrategicamente frente ao espelho, me torturando e fazendo as minhas formas onduladas e as minhas dobrinhas-nada-sexy se envergonharem de sua infeliz e inútil existência.

Enquanto não encontro uma saída inteligente, só consigo pensar numa coisa: o meu brigadeiro é bom pra cacete !!!

Ahhhh… a modéstia eu esqueci de colocar na panela. Sabia que estava esquecendo de alguma coisa!

Roberta Simoni

Acordo com Deus

Às vezes, antes de dormir, nas minhas viagens mais malucas e distantes, eu me pego pensando: se existe mesmo esse lance de vida após a morte, reencarnação, vidas passadas e tudo mais, será que antes de reencarnarmos, nós fazemos uma espécie de acordo com “Deus”?

E, se há um acordo, todas as partes estão cientes e concordam com todos os termos e condições, obviamente. Logo, se eu fiz um acordo com Deus – ou qualquer outro ser superior, do qual cada um chama e define como bem entende – antes de vir pra cá, eu já sabia por tudo que eu passaria, e eu, provavelmente, tinha algum objetivo, motivo, pretensão e/ou interesse ao fechar esse acordo.

Aí, eu fico imaginando o papo que eu tive com Deus antes de chegar aqui…

“Deus, sabe o que é? Cansei do paraíso. Não acontece nada de interessante por aqui, eu não tenho mais inspiração para escrever, além do mais, preciso ter do que reclamar, questionar e duvidar. Você me conhece…

Estive pensando em não nascer num berço de ouro desta vez, e ter que suar muito para conseguir tudo que eu quiser. Em compensação quero nascer numa família boa e iluminada, se for possível, é claro. Quero me apaixonar muitas vezes, amar algumas outras, e viver tudo intensamente, como se fosse a primeira e a última vez sempre.

Quero experimentar todos os prazeres e as aflições humanas. Quero me aprofundar na vida, quero buscar respostas para tudo, até porque eu não me lembrarei de nada mesmo, e sei que terei que reaprender todas as coisas. E apesar de eu achar isso tudo uma covardia e de ficar cansada só de pensar em começar tudo de novo, eu concordo que haja fundamento nesse Seu método, e confiarei no sexto sentido que eu terei, porque espero poder levar comigo alguma experiência das outras vidas, mesmo que inconsciente. Você se importa?

Também não quero ter uma vida pacata. Quero viajar muito, morar em muitos lugares, me aventurar, me arriscar, ter que fazer muitas escolhas difíceis (onde eu estava com a cabeça???). Não quero ser rica, quero aprender a viver com pouco (hãããã???), porque não quero ter apego a nada material. Não me importo de ter que trabalhar muito, mesmo ganhando pouco (eu não conhecia a moeda Real naquela época!), por isso, quero me profissionalizar em algo que me dê muito prazer e não – necessariamente – muito dinheiro (isso explica o meu diploma de jornalista!).

Permita que eu atraia não só pessoas lúcidas e boas, preciso atrair malucos e pessoas de índole duvidosa também, para conseguir fazer uma análise mais aprofundada da mente humana (que tipo de psicanalista eu pensava que era? A versão feminina de Freud???).

E, por fim, me mande para um país subdesenvolvido e pobre, porém rico de belezas naturais. De clima tropical, aonde o povo seja festeiro e cheio de esperanças, apesar de todos os problemas sociais. Eu preciso aprender a ser otimista com essa gente, e espero poder levar alguma coisa boa a eles também.

Se não for pedir muito, permita que eu cresça perto da praia e que eu tenha contato com o mar constantemente. E se, por ventura, eu começar a reclamar muito da vida, me mande para algum lugar cinza, longe do cheiro da maresia (agora sei o que vim fazer em São Paulo!), para eu me lembrar do quanto eu era feliz e não sabia. Isso servirá para eu dar valor a todas as coisas, e pensar algumas vezes antes de reclamar da vida, outra vez.

Só peço que, enquanto eu estiver por lá, eu seja lembrada constantemente  da efemeridade da vida, para que eu contemple emocionada cada pôr-do-sol, cada flor que nasce no meu jardim, cada folha que cai das árvores, cada abraço sincero, cada sorriso gratuito, cada beijo apaixonado, cada palavra verdadeira, cada gesto humanitário, cada atitude benfeitora, cada suspiro e cada sopro de vida. Ou seja, cada vez que eu Te reconhecer nessa minha jornada.”

Depois, Deus e eu assinamos o contrato (do qual eu desconheço o prazo) e cá estou eu, experimentando, sentindo e saboreando a vida outra vez, enquanto o acordo está vigente.

Roberta Simoni

Meu Jardim

Eu tinha um jardim… na verdade, eu ainda tenho. Só que metade das plantas morreram nessa minha temporada de viagens. Juro que eu pensava nelas todos os dias, torcendo que chovesse e que o sol não as castigasse tanto.

Entrei em casa largando as malas pelo caminho e correndo para vê-las, pobres “meninas”… muitas morreram, foram poucas as que resistiram. Retirei todo o mato que cresceu, e todas as folhas e flores que morreram, reguei as que sobreviveram e me desculpei sinceramente por tê-las abandonado.

Meu pequeno jardim ficou pronto para receber novas flores. Mas ainda estou pensando sobre o assunto… não acho justo plantar novas plantas e depois viajar de novo, ou ir embora, deixando-as morrerem. Especialmente se tratando de alguém como eu, que tem um vida tão nômade.

Hoje eu fui acordada pelo canto dos pássaros. Eles voltaram agora que limpei o meu jardinzinho, felizmente! Enquanto estou no computador, ouço a cantoria deles. E perco horas observando-os na minha pequena varanda verde.

Eles enchem a minha casa de alegria, melodia, e vida. E nessas horas eu percebo o quanto é vital, para mim, estar em contato com a natureza, especialmente com a vida animal. Mais uma vez, faço das palavras da Lispector as minhas: “Ter contato com a vida animal é indispensável à minha saúde psíquica.”.

Metade das plantas fui eu quem plantei, a outra metade foram trazidas por eles: os pássaros. Quando comecei a cuidar da terra, novas espécies foram surgindo, e eu não conseguia descobrir a origem delas. Até que, um dia, observei um passarinho colocando uma sementinha na terra, e dessa sementinha nasceu uma planta com flores brancas lindíssimas, que, por sinal, é a mais linda do meu jardim.

Impossível não fazer uma analogia entre o jardim e a minha vida. Impossível pensar nisso e não me emocionar, ainda por cima ouvindo o Vander Lee cantando Meu Jardim, que é a definição perfeita de tudo isso. Não há como negar: a minha vida está exatamente como eu descrevi o meu jardim. Ainda que eu só esteja percebendo a semelhança entre os dois agora, enquanto escrevo, absolutamente sem a intenção de criar uma metáfora.

E agora que cuidei do jardim da minha casa, acho que chegou a hora de regar as minhas próprias flores. De podar minhas folhas secas, de arrancar pela raiz as plantas mortas, que nunca mais darão flores. De molhar a terra ressecada e atrair os passarinhos de volta para a minha vida.

É hora de me desculpar comigo mesma por ter me abandonado, por não ter cuidado bem de mim. Por ter deixado as folhas secarem, as flores murcharem até morrerem, o mato tomar conta de tudo e por ter afastado os pássaros e as borboletas.

É hora de beber as minhas culpas e regar a terra com as minhas lágrimas e com o suor que eu tenho poupado. De preparar o meu terreno para as sementes novas. É hora de refazer o meu caminho. De dar um passo para trás, para depois dar dois para frente. De fortalecer as minhas raízes, a minha luta, a minha vida. É hora de cuidar do meu jardim, e me preparar para a próxima temporada de flores!

Roberta Simoni

Ler devia ser proibido

Ando lendo muito, por isso, viajando muito também. Quando eu digo muito, é muito MESMO, quando não estou devorando um livro atrás do outro feito uma traça obesa e sempre faminta, estou na internet caçando alguma coisa para ler. Sim, ler vicia. É uma “droga”, e como todas as outras, te causa dependência.

Já não assisto mais televisão e pouco fico sabendo do que anda acontecendo com o mundo, mas, também, é tanta coisa ruim que o noticiário me conta todo dia que nem dá gosto mais de ver/ouvir. Ou seja, eu estou ficando alienada para ficar cada vez mais inspirada, confesso. É uma tática subconsciente, que acabei de tomar conhecimento agora, enquanto escrevo.

Escrever… taí outra coisa que tem me salvado de mim mesma. Me salva porque me livra da minha aflição de existir, e não saber exatamente o por quê, nem para quê eu existo. E também porque eu me aproximo cada vez mais de mim mesma, de uma pessoa que eu desconheceria senão fossem as palavras que me decifram por si só.

É como conhecer alguém novo. É como mergulhar no desconhecido, me jogar de cabeça num lago de águas escuras e turvas, onde é impossível enxergar a profundidade e saber dos perigos que ele abriga secretamente, até mergulhar nele. Eu sou o lago e, ao mesmo tempo, a mergulhadora. Então mergulho profundamente em mim mesma, e me espanto, me surpreendo, me emociono, me multiplico, me dimensiono…

Enquanto isso, leio tudo o que posso e o que me dá prazer. Mas estaria mentindo se eu dissesse que estou mais culta. Claro que venho descobrindo e aprendendo muito, mas ando sonhando muito mais do que qualquer coisa. E continuo sem entender quase nada, talvez menos ainda. E, por isso tenho buscado respostas, e, com isso, acumulado novas perguntas.

O triste é que quanto mais eu leio, mais eu me afasto da ignorância… ah, a ignorância… essa sim é uma dádiva divina !!!

Você é um antes de saber, e se torna outro depois que sabe, e nunca mais volta a ser o que era no princípio. Nunca mais será capaz de enxergar as coisas com os olhos que um feliz ignorante enxerga. E, acredite, isso é de se lamentar. Por isso, ler deveria ser terminantemente proibido.

A leitura está me tornando perigosamente mais humana…

Roberta Simoni

Esperando no portão…

Beta e Théo

Já faz mais de três dias que me despedi dos meus pais e do meu cachorro –  depois de passar alguns dias com eles, matando as saudades – e voltei para São Paulo. Vim chorando boa parte do caminho, e deixei a minha mãe chorando lá também. Percebo que, a medida que o tempo passa, cada despedida fica mais dolorosa.

Dói porque não sabemos por quanto tempo ficaremos distantes desta vez, e também porque a nossa família não anda vivendo dias de glória, e o fato de estarmos tão longe – fisicamente apenas – não colabora para conseguirmos lidar numa boa com toda essa situação.

Ontem liguei para casa para ter notícias de todos, e minha mãe contou que Théo, nosso cão, continua no portão de casa, esperando que eu volte a qualquer momento. Meu coração, é claro, ficou em caquinhos.

Quando eu me despedi dele, desta vez, abracei, abracei, abracei e dei muitas beijocas nele, pedi que ele cuidasse de todos em casa, e expliquei que eu demoraria para voltar, por isso, pedi também que não ficasse triste e me esperando. Parece que não adiantou muito…

Engraçado como ele sente quando vamos “abandoná-lo”. Enquanto nos arrumamos para sair, ou enquanto fazemos as malas para viajar, ele se joga no meio do corredor, entre o banheiro e os quartos, atrapalhando a passagem, e quando vamos fazer carinho nele, ele mal se mexe, e não balança o rabo de jeito nenhum. Depois, quando vamos sair, e tentamos falar com ele, ele vira a cara pra gente e fica de costas para o portão, em forma de protesto.

Théo é o cachorro mais dócil do planeta, é incapaz de ameaçar a vida de qualquer ser vivo. A não ser quando ele escuta minha irmã gritando, e vai correndo para perto dela procurando alguma barata para matar. Ele já reconhece o grito dela quando está diante de uma barata, e surge imediatamente como um herói para salvar sua vida daquele “monstro” repugnante.

Ele é um labrador hiperativo, maluco, engraçado, desastrado e o seu rabo parece uma hélice de ventilador ambulante, que vai passando e derrubando tudo. Mas, quando sente que estamos tristes ou doentes, muda completamente, fica quieto, ao nosso lado, só dando carinho, e nos olhando com aquela carinha de “ei, não chora, eu estou aqui, vou cuidar de você”. E cuida mesmo.

Não é porque é o meu cachorro, já tive outra cadelinha que eu amei demais, mas que definitivamente não era uma santa, tinha um gênio impossível. Mas, Théo não, ele é bom. Já começa sendo bom só pelo fato de ser um cachorro, porque, para mim, cachorro foi uma das melhores e mais maravilhosas invenções divinas.

Mas, ele vai além… é impossível não se apaixonar por ele, pela carinha de carente que ele faz toda hora, implorando por um carinho, pelo jeito como ele levanta a orelha e te olha nos olhos quando você conversa com ele, como se tivesse compreendendo tudo o que você diz. Pelo jeito inocente dele, que o levou ao extremo de “apanhar” de um gato e de cachorros menores que ele. Pela incapacidade que ele tem de machucar alguém, até mesmo quando se sente acuado, não usa seu instinto canino, porque sabe que pode machucar se resolver usar de verdade os seus dentes enormes. Mas, definitivamente, não tem noção do seu tamanho e sua força quando pula na gente para brincar, e sequer imagina o peso que tem cada patada sua, deixando hematomas pelo nosso corpo.

Essa figurinha linda que enche a nossa vida de alegria está completando 6 anos de vida hoje. E eu não tinha como deixar de falar dele, enquanto ele está lá, me esperando no portão…

Esses dias, enquanto eu conversava e fazia carinho num cãozinho de rua, eu comentei com o André – “Eu devo ter sido cachorro na minha outra vida.” E ele retrucou de imediato – “Não, Beta, em todas as suas outras vidas você foi cachorro, nessa vida aconteceu alguma coisa de errado e você veio como gente!”

Sábias palavras… talvez isso explique muita coisa.

Roberta Simoni

Montanha Russa

Montanha Russa

Nesses últimos tempos em que estive ausente do blog – e quase morri de saudades, por sinal – eu meti os meus pés na estrada (do jeito que eles gostam de estar…) e estive em muitos lugares, com muitas pessoas. Pessoas que eu tinha que conhecer nesse percurso, pessoas que eu precisava rever, caminhos que eu precisava percorrer, experiências que eu tinha que viver, amigos que eu queria muito abraçar, minha família que eu queria ver de perto como estava, sorrisos que eu precisava distribuir, e outros tantos que eu esperava ganhar há alguns longos meses…

Mais do que colocar meus pés na estrada, eu embarquei numa montanha russa de emoções, apesar de morrer de medo desse brinquedo. Ainda viajei sentada na primeira fileira, sentindo um enorme frio na barriga e o vento batendo na cara, ficando de cabeça para baixo e completamente descabelada.

Vivi uma infinidade de coisas, todas ao mesmo tempo, e agora que a montanha russa estacionou, eu ainda estou cambaleando para me levantar da cadeira, e saio completamente tonta e desorientada.

Felizmente meu estômago tem se comportado feito um rapazinho e não está me deixando sentir náuseas. Ao menos meu corpo, apesar de cansado, está intacto, agora é só consertar a minha cabeça  – se é que isso é possível, no meu caso – e, quem sabe, finalmente aprender a ter senso de direção, porque eu estou pior do que cego em tiroteio que acabou de sair da montanha russa.

Só sei que todas essas sensações me trazem uma certeza: a de que eu estou bem viva, obrigada. E sentir a vida é um privilégio e tanto, a gente sabe disso.

Roberta Simoni

A delícia de ser mulher

Pin-up balança

Nós temos pânico de insetos menores que o nosso dedo mindinho. Ficamos de TPM e não somos presas nem consideradas uma ameaça à sociedade por isso, mesmo sabendo que, às vezes, até fazemos por merecer. Nós amadurecemos mais cedo do que os homens, e, apesar de reclamarmos, gostamos de ser um pouco “mãe” deles de vez em quando.

Nós sangramos mensalmente e, mesmo assim, não morremos. Somos fortes e  mais resistentes à dor.  Somos nós que damos a vida a outro ser humano. Sentimos a dor do parto. Sofremos de cólicas. Sexo frágil? Só porque choramos por tudo – e por nada? Somos emotivas, exageradas, ansiosas, confusas, inseguras, perfeccionistas, vaidosas, eternamente insatisfeitas com nosso cabelo, nosso corpo, nosso peso, nossa aparência. Nunca temos roupas suficientes, nem atenção.

Temos orgasmos múltiplos. Adoramos comprar lingerie, receber flores.  Somos românticas. Necessitamos de demonstrações de afeto constantes. Precisamos de chocolate para viver. Queremos ser compreendidas pelos homens quando não compreendemos a nós mesmas.

Tentamos esconder espinhas, rugas, olheiras, celulites, estrias e ciúmes. Acreditamos em cremes “anti-envelhecimento”. Pintamos as unhas (quem inventou isso?). Odiamos, odiamos, odiamos com todas as forças, todas as baratas do mundo. Nos equilibramos em cima de saltos altos assustadores. Falamos demais. Ouvimos de menos.

Estamos por trás (ou à frente) de homens de sucesso. Não precisamos, necessariamente, pagar a conta, dividir já é o bastante. Não broxamos. Temos ataques nervosos e damos gritinhos histéricos quando encontramos uma amiga querida. Mesmo não assumindo, observamos outras mulheres, reparamos na roupa, no estilo. Gostaríamos de afogar a Gisele Bundchen na privada. Não ficamos doentes quando o Flamengo perde. Não somos orientadas geograficamente…

Mulheres, mulheres… ah, as mulheres! “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”, e nós também.

Parabéns a todas pelo nosso dia, que, na verdade, é todo dia.

Roberta Simoni

A palavra do momento…

Saudade

Se eu fosse uma palavra, hoje, eu seria a saudade. É a palavra da vez, a que eu mais tenho usado no meu vocabulário e a que mais tenho escutado também. Se alguém me visse distraída e perguntasse no que estou pensando, eu diria que estou apenas sentindo… sentindo saudade, e é ela quem está me levando para longe e me deixando com esse olhar distante…

Ela tem me feito viajar mais do que as minhas pernas, que – felizmente – têm me feito viajar bastante ultimamente. Mas a saudade está sempre muito à frente das minhas pernas, por mais agitadas e velozes que elas sejam.

A saudade que eu trago comigo é forte e potente, coloca a Ferrari do Schumacher no chinelo, e aposto que, muitas vezes, ela é mais veloz do que a luz. Além de tudo, é onipresente, afinal, eu sinto saudade de tanta coisa e de tanta gente constantemente que só sendo onipresente para dar conta de tudo.

Saudade da gargalhada de um amigo, do jeito de falar de outro, do carinho e doçura de alguns, da falta de noção e juízo de outros, do jeito engraçado, da espontaneidade, do jeito de ver e viver a vida…

Saudade do olhar carente e pidão do meu cachorro. Saudade de um lugar… não, na verdade, de vários. Saudade de cheiros, do cheiro da casa da minha mãe, do cheiro dela, e das covinhas que ela revela toda vez que sorri, e que eu morro de raiva por não ter herdado. Saudade de sons, sabores, cores. E, incrivelmente, não há nostalgia desta vez. Ela não tem me visitado nos últimos tempos, não fico relembrando momentos, nem fases, nem remexendo o passado, vendo fotos de algum lugar distante, nem abrindo as gavetas que têm o cheiro da minha história entranhado em cada peça de roupa minha.

Também não tenho aberto a minha caixinha mágica de recordações. Eu a considero mágica porque ela é, de certa forma, uma máquina do tempo que me leva diretamente ao passado, mas, somente ao passado de momentos felizes, emocionantes, únicos… mágicos! E, apesar de me acompanhar há tantos anos, e ser muito antiga, a minha caixinha é o que eu tenho de mais moderno, e supera qualquer invenção tecnológica.

A nostalgia é uma velha companheira minha, a maior parte do tempo convivemos harmoniosamente, mas nem sempre é assim. Confesso que ela me atrapalha, às vezes. A verdade é que ela é acomodada e espaçosa, chega, se instala, é bem tratada, e quer ficar, tomando todo o meu tempo, e me impedindo de viver o presente. Por isso, precisamos tirar férias uma da outra, de vez em quando. Igualzinho a qualquer relacionamento humano que se desgasta naturalmente.

Já a saudade nunca vai embora, apenas se distancia e se aquieta quando se satisfaz, mas com o apetite que tem, não demora muito e ela começa a se fazer presente de novo. Chega como quem não quer nada, porque sabe que chegou – como sempre – cedo demais. Faz o tipo que acha que pontualidade apenas não basta, e prefere estar sempre adiantada para garantir o melhor lugar aonde quer que vá.

Quando chega, vem de mansinho, mostra a cara, mas fica de longe, não me toca e nem fala nada, e quando eu me dou conta, ela já está me rodeando, me aborrecendo, reclamando o tempo inteiro, me perseguindo, e quando eu tento ignorá-la, ela piora ainda mais. Me catuca no ombro, põe as mãos na cintura, franze a testa, me olha aborrecida e fala – “Ei, eu tô aqui óh… você não vai fazer nada, não? Esqueceu que eu existo para poder morrer? E você sabe que morrer, para mim, é um prazer enorme, e eu fico uma fera quando isso não acontece. Exijo que você me proporcione esse prazer e tem que ser agora!”. Ainda por cima é mimada e arrogante.

Ela começa a me ferir quando eu não faço o que ela manda, não que eu não queira fazer, mas eu não posso, não consigo ser tão veloz como ela, especialmente quando estou vivendo a tantos quilômetros de distância de tantos dos meus amores. Mas ela não entende, nem tenta. Me castiga, começa as sessões de tortura, e faz o meu coração doer de uma forma que só ela consegue fazer.

Estou decidida a dar um basta nisso, e ela sabe que eu vou, por isso começa a ter um pouco de piedade de mim, mas só um pouco. Agora me perturba como eu perturbava meus pais toda vez que viajávamos, perguntando de cinco em cinco minutos – “Estamos chegando? Falta muito ainda?”

Como se não bastasse a saudade grudada em mim 24h por dia, me torturando, ela ainda convida a amiga ansiedade – outra torturadora profissional – para passar um tempo conosco. Agora sim o serviço ficou completo.

Mas falta pouco para tudo isso acabar, pelo menos, desta vez.

Roberta Simoni

Fragmentando

Férias. Euforia. Milhas. Bagagem. Avião. Carro alugado. Estrada. Sono. Sol. Calor. Chuva. Tempestade. Mar. Praias. Águas quentes. Lagoas. Piscinas. Casa de amigos. Estrada. Hotel. Estrada. Chalé. Estrada. Pousada. Estrada. Estrada. Estrada.

Boa companhia. Encontros. Desencontros. Reencontros. Novos amigos. Gente interessante. Gente desinteressante. Empatia. Antipatia. Frustrações. Surpresas maravilhosas. Experiências novas. Experiências excelentes. Experiências ruins. Experiências.

Feriado. Verão. Chapéu. Água. Filtro Solar Fator 15. Pele queimada. Pele ardendo. Carnaval. Festa. Água. Alegria. Maracatu. Frevo. Samba. Suor. Pouca disposição. Cansaço. Fantasias. Criatividade. Sorrisos. Cores. Ladeiras. Cansaço de novo. Água. Sorvete. Fuga do tumulto. Pé na estrada. Praia deserta. Praia naturalista. Pé na areia. Descanso.

Vaga-lumes. Sapos. Pererecas. Mosquitos. Borboletas. Pássaros. Baratas voadoras. Percevejos. Cães. Gatos. Micos. Peixes. Moréia. Golfinhos. Dromedários. Lagartos. Iguanas. Jegues. Formigas. Gambás. Raposa. Siris. Grilos. Mariposas. Caranguejeiras. Gatos. Galinhas.

Emoção. Encanto. Curiosidade. Medo. Susto. Grito. Nojo. Pânico.

Livros. Palavras. Inspiração. Caderno. Caneta. Saudades do meu blog. Silêncio. Barulho. Música. Som das ondas do mar. Maresia. Brisa. Ar puro. Palavras ao vento. Palavras ao coração. Fotos. Vídeos. Lembranças.

Trilhas. Mato. Caminhadas. Mãos dadas. Rumos. Praias. Dunas. Paraísos. Aventuras. Adrenalina. Contemplação. Artes. Pinturas. Culturas. Sotaques. Sabores. Temperos. Cheiros. Jeitos. Gente.

Saudades de casa. Pressentimentos. Sentimentos. Estrada. Aeroporto. Retorno. Medo da fatura do cartão de crédito. E, mesmo assim, vontade de viajar de novo.

Roberta Simoni