Retardo Mental

Eu sei que esse blog não é do tipo que dá dicas para as moçoilas ficarem mais bonitas e tal, e, pelo menos no sentido estético, a mulher que vos fala, pouco colabora (para não dizer nada) com o universo feminino, aliás, quando o assunto é vaidade é mais fácil eu ser ajudada do que ajudar. Mas hoje, especialmente hoje, eu tenho uma dica muito importante para dar: Cuidado mulheres, muito cuidado com os sabonetes íntimos! Vou explicar o porquê.

Eu tenho notado que a pele do meu rosto anda ressecada… diferente. E não, não é o clima seco, nem o ar poluído de São Paulo. Isso já começou a fazer efeito na minha pele meses atrás. Ela só começou a ficar estranha assim de alguns dias prá cá. Não, também não são os efeitos dos queridos hormônios destruidores que nós mulheres somos obrigadas a suportar agindo em nossos corpos e que os homens são obrigados a conviver (pelo menos os que ainda gostam de mulheres). Eu constatei que a causa era mais simples do que eu imaginava, e mais – bem mais – grave também.

Visualizem a cena (não na íntegra, é claro): Banho gostoso, ducha de água quente, Beta cantarolando feliz e contente debaixo do chuveiro, até que ela dá um berro:

– “Putaqueopariu Roberta! Sabonete íntimo não é para passar na cara!”

Pois é, eu descobri que estava trocando – literalmente – os sabonetes líquidos de lugar e, pelo visto, estava fazendo isso há alguns dias. Usando o sabonete íntimo um pouco mais em cima e o facial um pouco mais embaixo.

Então, reformulando o meu aviso: “Cuidado mulheres, muito cuidado com os sabonetes íntimos usados em lugares indevidos!”

Aliás, os meus sabonetes são excelentes, não tenho do que reclamar. Pena não poder dizer o mesmo da minha cabeça. Essa, se eu pudesse, já teria trocado, e sem titubear. Mas a garantia dessa daí já expirou faz é tempo!

Retardado

O Descobridor de uma paixão…

Todo mundo sempre diz: “Notícia ruim chega depressa”. Chega mesmo, e digo mais: independente da hora que chega, chega doendo. 

Dias atrás fui avisada sobre a morte de um professor dos tempos da faculdade de Jornalismo, e fui avisada por meia dúzia de pessoas ao mesmo tempo. E lamentei seis e mais algumas centenas de vezes, porque não se tratava apenas de um educador, mas de um mestre que, pra mim, algum dia foi simplesmente um professor, que me causava até um certo asco quando falava, porque falava muito e acumulava uma quantidade significativa de saliva no canto da boca. Afe!

Mas, de professor, ele passou a ser o meu “príncipe”, como já era de muitos. Um pouco caquético, talvez muito fora de forma, e com cabelos brancos demais para um príncipe, mas era de uma aura tão encantadora, que fazia a gente acreditar que ele era mesmo encantado.

Beta RadialistaEu estava numa daquelas semanas cansativas de trabalho dobrado, e só não faltava a faculdade quando ia arrastada pela minha consciência. Era dia de aula de rádio e, eu não sabia, mas era dia de apresentação de trabalhos também, o que eu sabia menos ainda é que era o dia da apresentação do meu grupo. Que grupo? Ninguém foi à aula naquele dia. Será por que todo mundo – a não ser eu – tinha conhecimento do trabalho que, por sinal, não havia sido feito?

Já era tarde demais, só eu estava lá, e precisava representar o meu grupo. Pedi, implorei, choraminguei, aleguei que eu não tinha condições de apresentar sozinha,  mas ele não se comoveu. Mandou eu preparar outro trabalho durante a aula, mas permitiu que eu fosse a última a fazer a apresentação. Só eu sei como eu me arrependi por ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei…

Lembrei de uma crônica que eu havia escrito naquela mesma semana e publicado no meu antigo blog. Ele concordou que eu aproveitasse aquele texto, mas lembrou que uma das exigências da tarefa era criar um debate acerca do tema abordado. Ufa! Eu não tinha com quem debater, estava no grupo do “eu sozinho”, acreditei que ele finalmente fosse me liberar. Doce ilusão! Ele arrumou voluntários para o debate… vários. E lá estava eu, no estúdio de gravação, com uma folha de papel impresso às presas, com algumas alterações feitas à mão e com a mesa cheia de colegas prontos para colaborar com o meu trabalho, sem receber nenhum décimo a mais por isso em suas avaliações. O Professor Dylmo tinha o dom de conseguir o que quisesse com os seus alunos, tinha vários seguidores, e eu não conseguia entender como aquilo acontecia. Só mais tarde eu compreendi que o que ele formava, na verdade, não eram alunos, mas, verdadeiras equipes.

Beta e Victor na RádioEu nunca fui muito boa em apresentações, sejam elas quais fossem, e eu sempre achei a minha voz horripilante ao microfone, quero dizer, pior do que já é naturalmente. Mas, não tinha para onde correr. Comecei a falar, tremi, gaguejei e pedi para começar de novo. Na segunda tentativa,  magicamente, li aquele texto como se estivesse conversando. O fato de ter sido escrito por mim, me possibilitou criar uma intimidade maior com as palavras, as pontuações e a sonoridade na hora da narração. Consegui relaxar e quando desviei meus olhos  – que estavam fixados no  papel – e dei uma olhada ao redor, observei a cara de admiração de todo mundo, ouvi muitas risadas (a crônica tinha uma tendência um tanto cômica, confesso), e por fim, parei nos olhos do professor Dylmo. Poucas vezes na vida vi um olhar tão brilhante voltado para mim. Entendi na mesma hora de onde vinha aquela luz que eu sentia me iluminando a medida que eu me entrosava com as palavras, com o microfone, com aquele ambiente…

Durante o debate, o clima estava tão descontraído quanto à de uma roda de amigos num boteco. Naquele momento eu havia descoberto a minha paixão por Radiojornalismo. Na verdade, quem descobriu foi o Dylmo Elias, aquele homem de 80 anos, das aulas de rádio na faculdade, da Rádio MEC, das peças de teatro que escrevia e dirigia nos palcos da vida. Foi ele… ele quem descobriu a paixão pela rádio em mim. E no fim da aula, comentou sobre a grata surpresa que teve durante a minha apresentação descontraída, e falou com tanta paixão sobre a magia que existe na profissão de radialista que se eu ainda não tivesse sido mordida pelo bichinho da rádio, eu teria me apaixonado instantaneamente.

Poucos dias depois, eu recebia a ligação da radialista Eliete, da extinta Rádio Haroldo de Andrade, que através da indicação do Dylmo, me convidava para participar do seu programa. E lá estava eu, de gaga à debadetora do programa “Papo Cabeça”, onde era possível ouvir as minhas gafes ao vivo, especialmente quando o assunto era o Presidente Lula, de quem eu reclamava a torto e a direito. Isso até eu ser chamada a atenção durante o intervalo, é claro.

Agora, lembrando com carinho das minhas apresentações na rádio, só eu sei o quanto foi importante ter ido à faculdade naquele dia, só eu sei… e a falta que o Dylmo já está fazendo, muita gente sabe, muita gente…

PS: As fotos foram tiradas pelo fotógrafo André Muzzel, durante uma das nossas apresentações na Rádio Haroldo de Andrade, onde acabei me tornando estagiária, ao lado do amigo Victor Grinbaum (ao meu lado na foto) e uma equipe fantástica, que comandava a programa Agitando a Galera, que ia ao ar todo domingo.

É, você tem razão…

Concordância

É, ontem não choveu. Pois é, fez um lindo dia de sol. Nada. Eu não fiz basciamente nada, a não ser ler e escrever um bocado. Sim, aqui perto têm alguns parques, mas, não, eu não quis ir a nenhum. Ora, porque eu me cansei de parques, parques, parques! Me sinto um peixe Beta fora d’água aqui, não tenho culpa. Não, não é que eu não esteja me esforçando para me adaptar à cidade, mas… ah, que seja…

Cansei de tentar achar bonitinho um monte de crianças melequentas gritando num parque lotado de pessoas pegando sol na grama; de achar exótico adolescentes vestidos de preto com suas espadas de “Jedi” – de plástico – acreditando que estão mesmo guerrilhando nas estrelas; de tentar entender a capacidade que o ser humano tem de se divertir praticando peteca a tarde inteira; de achar graça em ficar horas rodando atrás de uma vaga para estacionar o carro no parque, e tudo isso para ver essas bizarrices?

É, realmente, o meu conceito de diversão é esquisito mesmo, tenho que admitir. Você tem toda razão, eu não estou vendo o lado positivo das coisas. Eu sei. Um tratamento psicológico não seria nada mal, concordo. Sair um pouco? Ir ao shopping agora? Puxa, não vai dar, tô com aquelas cólicas, sabe como é, né? Coisas de mulher. Imagina… eu estou ótima, não se preocupe. Hãããã? Desde quando pessimismo é doença? Eu não sou pessimista, só estou um pouco… pessimista.

Amanhã? Huuuuuum… a previsão do tempo diz que amanhã fará sol o dia inteiro. Pois é, mas sempre acaba chovendo no fim da tarde. Que coisa, né? Não vai dar mesmo, me desculpa. Além do mais, ainda estarei com cólicas até lá, tenho certeza. Se isso é desculpa minha? Imagiiiiiina… Por que? Quem? Eu? Não sei mentir direito? Mentiiiiiiiiira

A vida é mesmo bela. Eu acho lindo os passarinhos cantando e a luz do sol entrando pela janela do meu quarto. De verdade. Não, não estou sendo irônica. Acordei poética hoje, não posso? Sim, sinto uma tremenda falta do mar. Não, não dá… a praia mais próxima fica a horas daqui. Não, não é um pouco longe, é muuuuuuuuuuuuito longe. Ué, pra mim, é. Que ótimo você achar normal enfrentar horas de engarrafamento e desenbolsar dezenas de reais em pedágios para curtir o sol se pondo na praia. Não!!!!!! Juro que não é sarcarsmo, caramba! Eu realmente te admiro por não se aborrecer com nada disso. É, eu é que não sou evoluida o bastante, sabe?

Sim, eu sei, essa cidade é maravilhosa. Eu acredito. Aham, é… eu imagino. Deve ter muita coisa boa para se fazer aqui mesmo. Eu é que ainda não descobri. Claro! Eu vou aprender a gostar daqui sim. É verdade, o Rio de Janeiro é caótico. Você tem toda razão, aquele lugar é horrível, não sei porque chamam aquela cidade de Maravilhosa. Não! De jeto nenhum! Claro que eu não quero voltar pra lá. Deus me livre…

… … … … … … … … …

Porque chega uma hora que é melhor concordar. E apenas concordar.

Roberta Simoni

Sobre a Blogosfera

Pensando no texto anterior, inspirada em relatos e conversas com amigos blogueiros, tive que concordar com um deles quando disse que talvez seja melhor escrever anonimamente. Já pensei nisso também. Para falar a verdade, eu até tentei, anos atrás. Sem sucesso… um, dois, três textos e eu abandonei o blog. A gente pensa que escrevendo sem assinar, fica mais à vontade para falar, pode até ser, mas acho que anonimamente ou não, sempre vai ter um público para criar uma imagem sobre nós. Não tenho absolutamente nada contra blogueiros anônimos, pelo contrário, sou frequentadora assídua – e super fã – de vários blogs desse gênero. E acho sinceramente que essa seja a melhor solução para sobreviver à exposição na blogosfera.

Para quem opta por ter sua identidade declarada, o jeito é botar a cara no mundo, e estar preparado para, de vez em quando, levar uns “tapinhas” daqueles que visitam a sua página exclusivamente com esse intuito, afinal, o seu blog é um prato cheio para aqueles que não se simpatizam muito com a sua pessoa, esteja você falando que adora a Gretchen ou que odeia o Obama, não importa, o foco é você. Mas isso não é regra, é exceção. A maioria entra na sua página de fininho, dá aquela espiadinha básica e já se dá por satisfeito por saber notícias suas, e esse ato pode ser tão inofensivo quanto nocivo.

E desde que você não use a sua página como um diário-público-pessoal (hã? confuso isso, heim?), relatando com detalhes do que você faz no banheiro todos os dias ou o que fez na cama com a sua namorada na noite passada (se bem que isso pode ser até excitante, mas, para isso, existem milhares de blogs eróticos – e dos bons – por aí.) você não precisa se privar de ser você mesmo e de falar do que sente vontade, afinal, o blog é seu, e entra nele quem quer e porque quer.

Por isso, blogueiros queridos, aqui pode tudo, menos ficarmos desconfortáveis em nossos próprios blogs. É o mesmo que morar sozinho e não se sentir à vontade de andar pelado em casa. Apesar da blogosfera, às vezes, demonstrar ser um lugar hostil, a maior parte do tempo é um mundo fantástico, do qual eu adoro fazer parte e que me permite estar em contato com mentes brilhantes. Tá certo que tem muita porcaria por aí, mas tem muuuuito conteúdo bom também.

E falando em blog, essa semana eu tive várias surpresas agradáveis que me fizeram ficar sorrindo de orelha a orelha. A primeira aconteceu enquanto eu me deliciava com o texto A Idade da Palavra ou a Palavra da Idade, no Blog Borboletário, e encontrei no fim do texto uma indicação para a minha Janelinha… que honra!

E, com o texto que escrevi anteriormente, sobre despir-se, acabei despertando a vontade do amigo blogueiro Cristiano, do Blog Café com os Amigos, a despir-se em palavras também. Ainda tive a felicidade de ganhar o Prêmio Lemniscata, do Blog Espanta Espíritos, da querida Cristina, o que me deixou muito contente, especialmente por se tratar de um blog tão encantador.

Prêmio Lemniscata

Este selo foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos leitores.

1 – O premiado deverá expor o selo no seu blog e atribuí-lo a 7 outros blogs que considere merecedores. E os meus escolhidos são:
Sobre as Coisas – por ser um blog simples, porém rico, que aborda temas cotidianos que nos fazem parar para pensar na vida, ainda que a sua autora desconheça esse feito.
Caneta Digital – por se tratar de uma blogueira novata que se revelou uma escritora sensível e talentosíssima.
Eu e Meu Ego Grande – adoro essencialmente tudo o que o Léo escreve. É de uma espontaneidade sem igual. Ele e o seu ego grande são escritores natos.
Incompletudes – por ser de uma liberdade inspiradora. A K. se reinventa constantemente e nos permite acompanhar todas as suas transformações e sensações, e nos deliciarmos com elas.
Ordem no Caos – andei colocando placas de “procura-se” por toda a blogosfera atrás do autor deste blog que, apesar de sumido, quando resolve escrever não faz nada menos do que arrasar, de maneira construtiva e inteligente.
Senhorita Rosa – irreverentes e divertidos, os dilemas da Senhorita Rosa garantem uma leitura pra lá de animada, considerando o seu jeito único e fantástico de se expressar.
Drops da Fal – é um dorps para ser provado em fragmentos, e todos os seus fragmentos são deliciosos, também pudera, a dona do Drops é uma das melhores escritoras da atualidade, na minha opinião.
2 – O premiado deverá responder à seguinte pergunta: O que significa para si ser um Homo Sapiens?
Resposta: Bom, na íntegra, Homo Sapiens é homem sábio. Mas eu tenho duvidado, tenho duvidado muuuuuuito.
Roberta Simoni

Escrever é como despir-se

Nudez

Nascemos nús e nos vestimos apenas de pele, pêlos e restos de placenta quando chegamos ao mundo, nem por isso nos envergonhamos por não estarmos usando nenhuma peça de roupa, ou por estarmos “sujos” de parto. Mas trememos de frio e choramos de medo.

A nudez é pura na sua essência, mas não é comum, e quase sempre é inapropriada. Livrar-se de roupas é um ato tão corriqueiro e, ao mesmo tempo, tão simbólico, poético e, acima de tudo, tão raro. Ficar nú diante do espelho ou diante de alguém é algo que parece simples, mas não é. Não para todos. O frio e o medo que as pessoas sentem no primeiro contato com o mundo é o mesmo que sentem ao se despirem de si próprias, quando deixam seus corações expostos, quando são demasiadamente transparentes, sinceras, espontâneas e autênticas. E elas têm razão de sentirem medo, porque esse tipo de nudez costuma chocar mais do que a nudez física, espalhada por todos os cantos.

É claro que é preciso ter coragem e estar bem resolvido com o seu próprio corpo para ficar completamente nú diante de um público ou de uma câmera fotográfica. Sou fotógrafa e, apesar de estar do outro lado da câmera, sei o quanto é difícil até que se acostume com a sua nudez sendo vista e explorada por pessoas que estão, ao contrário de você, em situação mais confortável: cobertas de roupas.

A nudez humana exige ainda mais coragem que a física, porque o que vão julgar não é o seu corpo, se você está magra ou gorda, se tem uma ou muitas celulites, até porque, depois que inventaram o photoshop, e outros programas similares, esse tipo de avaliação se tornou bem mais difícil de ser feita. O que fica exposto quando se permite ser vista sem máscaras é muito mais do que cicatrizes, marcas de nascença ou tatuagens por trás dos panos.

A exposição que é feita de um corpo nú é a mesma de uma alma transparente – e entregue. É você ali, vestida dos pés a cabeça, mas completamente pelada para quem consegue te enxergar além da roupa que você veste, dos acessórios que você usa, do seu estilo ou da moda que você segue, ou não segue. O que fica a vista para quem quiser ver é a sua opinião. São as suas verdades nuas e cruas. Seus gostos, costumes e opções. E o que saltam aos olhos são os seus deslizes, suas fraquezas, suas falhas, seu jeito de ser por opção e/ou por essência. E tudo isso poderia ficar escondido se você quisesse, confortavelmente acomodado entre várias camadas espessas de panos, mas não… quem opta por dar voz e tonalidade sonora às próprias palavras, prefere se expor ao vento frio, ao sol, ao calor, ao clima úmido e seco, que provocam todo tipo de reação, menos a de proteção.

Escrever é como despir-se. É impossível querer que as minhas palavras não me exponham, é inevitável que elas me arranquem peça por peça de roupa, e é muita ingenuidade achar que elas gerarão reações idênticas. As mesmas palavras que emocionam ou fazem rir, causam repulsa e contrariam. Geram polêmica e desconforto, da mesma maneira que confortam. E, de uma forma ou de outra, me tornam vulnerável. Escrever num blog tem sido, para mim, um exercício fascinante de nudez e de descoberta de partes de mim que estavam tão cobertas e protegidas que eu mesma desconhecia.

É como pegar um espelho e colocar entre as pernas pela primeira vez e tocar-se, descobrindo variadas sensações. É como ter um corpo visto sem edições. É como ser tocada com ternura, com amor, com tesão, com admiração, com malícia, com maldade. É sentir a reação que cada toque causa em mim. É como tocar no que não é apalpável e mesmo assim, sentir que toquei profundamente.

FaceMas descobertas também doem, e os toques maldosos ferem. Por isso é tão difícil ficar nú diante de tanta gente que se recusa a tirar a roupa ou que considera a nudez insolente, desaforada e grosseira, mas eu continuo me sentindo cada vez mais à vontade sem vestir nada.

Um vez que você tira sua roupa diante do mundo, fica difícil sentir vontade de voltar a usar vestimentas, elas te fazem transpirar, incomodam e apertam. Palavras que sufocam causam a mesma sensação, por isso, eu deixo as minhas palavras experimentarem o gosto doce e amargo da liberdade. Elas podem até chocar, mas são de uma beleza tão libertina e dissoluta que se tornam cada vez mais puras, mesmo no auge de suas maiores orgias.

Roberta Simoni

Palavras do Coração

Sabe quando, sem motivo ou explicação, você sente necessidade de dizer ou de lembrar a alguém o quanto ele(a) é importante na sua vida? Talvez porque você não faça isso há muito tempo, ou porque nunca tenha feito e esteja com vontade de fazer agora, ou simplesmente porque você respeita as exigências do seu coração? Well… se o seu coração for tão autoritário e mandão quanto o meu, ele te fará viajar a distância que for preciso para falar pessoalmente com essa pessoa, ou telefonar de madrugada para ela, ou escrever uma carta, ou mandar um e-mail, uma mesagem, um sinal de fumaça que seja. Mesmo que seja só para dizer – “Ei, eu estou pensando em você!”

Pois então, foi essa vontade que deu origem a essas palavras que brotaram do meu coração, quando eu permiti que ele falasse por mim nos ouvidos do coração meu pai hoje:

Pai e Filho

“Pai:
Você foi o primeiro homem que eu amei e o único por muito tempo. Era também o único homem bonito do mundo e o único que eu aceitava como “meu namorado”. Um dia eu descobri que mamãe era fã do Fabio Júnior. Quando eu a vi suspirando enquanto ele cantava na tevê, me senti traída. Minha primeira reação foi a de emburrar a cara para ela. Não entendia como ela podia admirar outro homem além do meu pai. Como isso era possível?

Algum tempo depois eu comecei a perceber que eu também admirava outros homens, e que isso era normal, afinal. Na adolescência, virei fã de Patrick Swayze e suspirava por ele também. Me apaixonei pela primeira vez. Depois me apaixonei outras vezes. Dei meu primeiro beijo. Meu primeiro namorado teve que te pedir permissão para me namorar. O segundo também. Os outros, felizmente, puderam pular essa parte…

Um belo dia eu percebi que você não era mais o único homem da minha vida, e pensando bem, talvez nem fosse o mais bonito também (risos). Me toquei que você havia perdido o seu posto exclusivo quando eu pensei nos outros homens da minha vida: meus avôs e tios, amigos queridos, namorados…
O fato é que você não era mais a minha única figura masculina. E, além disso, eu descobri que você era humano e que tinha defeitos. Defeitos que eu demorei alguns anos para reconhecer que havia herdado, da mesma forma que eu demorei pra perceber que as minhas melhores características também eram suas, até me orgulhar de cada uma delas e dizer – “Puxei ao meu pai!”

Só queria que você soubesse que EU TE AMO, e que sou grata pela minha herança genética, porque apesar de suas limitações humanas, eu não consigo imaginar pais melhores e mais maravilhosos do que vocês, que são um pedacinho de mim, que sou um resumo de vocês dois.

Eu sei que você não é mais o único homem da minha vida, mas continua sendo o mais importante de todos. O meu “primeiro namorado”, o meu primeiro amor e o primeiro homem que eu admirei e sempre vou admirar. Isso é só seu, e ninguém tira.”

Roberta Simoni

Sobre prazeres e desprazeres

Prazeres Amelie Poulain

Eu penso que descontar no próprio corpo frustrações pessoais e universais não seja a atitude mais sábia. Mas eu só penso depois que faço. E hoje, especialmente, eu meti o pé na jaca “di-cum-força”, e o fiz no mercado mais próximo de casa, e, aproveitando que já estava lá, além da jaca, meti o pé numa caixa de Amanditas e em outras porcarias deliciosas.

O que o mundo tem a ver com isso? Tudo. Eu vivo em estado de choque por causa dele. Por mais que a violência e a falta de respeito estejam em crescente banalização, eu não consigo me acostumar. Vocês viram o inovador sistema de segurança e organização que foi criado na minha cidade “maravilhosa”? Funciona assim: O trem tá lotado? Não cabe todo mundo? É só socar e chutar as pessoas porta adentro. Um método bem parecido com o que fazemos quando queremos colocar mais peças de roupas numa mala lotada. Espremendo bem cabe tudo. A única e sutil diferença é que são seres humanos tomando o trem a caminho dos seus trabalhos e, ao contrário das roupas na mala, que  ficam apenas amarrotados, eles ficam feridos e humilhados.

Se o método não for eficaz, não há com o que se preocupar. Os seguranças (auxiliados por PMs) da linha de trem da SuperVia são bem treinados e estão preparados para enfrentar qualquer tipo de situação, por isso, possuem chicotes (isso mesmo: CHI-CO-TES!!!) ultra-eficazes para combater a desordem humana. É só chicotear os infelizes e pronto.

E pronto mesmo, considerando que estamos no Brasil, e no “país do carnaval” tudo pode, e quando não pode é só jogar a sujeira debaixo do tapete. E se o tapete não for grande o suficiente para tapar toda a imundice é aplicado um castigo bem brando nos delinquentes (ai ai ai, meninos feios, não, não e não!). Daqui a pouco tem outro carnaval aí, e ninguém mais vai lembrar deste triste episódio. Simples assim.

Clique aqui para ver a matéria na íntegra.

Não seria nada mal se descobrissem vida extraterrestre por aí. Será que eles me aceitariam lá? Ou será que uma humana só já seria suficiente para fazer um estrago completo em outro planeta? Não duvido…

Enquanto espero ansiosamente ser abduzida, vou vivendo a minha vidinha mundana cheia de pequenos prazeres e desprazeres, e hoje eu tive o prazer de substituir um miojo por uma refeição que me tiraria horas preciosas de preparo. Fiquei sabendo do falecimento do pai de um amigo querido, o que me deixou com o coração tão apertado quanto alguém que esteve naquele trem em Madureira hoje. Distraí a minha vaidade e roí todas as minhas unhas, uma por uma. Recebi duas respostas negativas para duas tentativas frustradas. Reencontrei um antigo amigo no orkut. Ouvi pessoas dizendo que lugares e e músicas fizeram elas lembrarem-se de mim. Tive dores de cabeça. Uma amiga me contou que apaixonou-se novamente, depois de ter saído de um relacionamento turbulento. Outra amiga me contou que ontem sofreu uma tentativa de assalto por uma senhorinha, que depois de pedi-la uma informação, anunciou o assalto – “Perdeu, perdeu!”. Tomei um banho quente e beeeeem demorado. Comi Amanditas.

Mas o que me impulsionou mesmo a ir até o supermercado foi o noticiário. Por isso que eu insisto em dizer que um pouco de alienação ajuda a manter a minha sanidade psíquica e física. E tenho dito.

Roberta Simoni

Calcinha Velha

Calcinha

Saí do banho, abri a minha gaveta de calcinhas e vi aquela minha adorável calcinha velha. Por que eu ainda uso esse troço? – me perguntei. Ora… porque ela é a mais confortável de todas!

Toda mulher tem uma calcinha de “estimação”, aquela que passa mais tempo estendida no varal do que dentro da gaveta. Peguei a calcinha para jogá-la fora de uma vez, mas voltei atrás… Não! Ela ainda não estava pronta para se aposentar. Lembrei da canção Ciranda da Bailarina do Chico Buarque e me senti compreendida. Era o apoio que eu precisava para prolongar o tempo de vida daquela lingerie idosa, que já foi tão formosa, um dia.

Guardei a senhora calcinha de respeito de volta na gaveta e botei a música do Chico para tocar e, como sempre, fiquei rindo sozinha. Eu posso ouvir essa música centenas de vezes que ela sempre vai me fazer rir. Adoro escutar cada impureza da canção, tratada com tamanha pureza. Lembro das minhas impurezas físicas e humanas e acho graça de todas, pelo menos enquanto a música toca…

Ciranda da Bailarina (Chico Buarque)

“Procurando bem, todo mundo tem pereba,
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba.
Só a bailarina que não tem.
E não tem coceira, verruga nem frieira,
Nem falta de maneira ela não tem.

Futucando bem, todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho.
Só a bailarina que não tem.
Nem unha encardida, nem dente com comida,
Nem casca de ferida ela não tem.

Não livra ninguém, todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina.
Teve escarlatina ou tem febre amarela.
Só a bailarina que não tem.
Medo de subir, gente!
Medo de cair, gente!
Medo de vertigem, quem não tem?

Confessando bem todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina.
Todo mundo tem um primeiro namorado.
Só a bailarina que não tem.
Sujo atrás da orelha, bigode de groselha,
Calcinha um pouco velha ela não tem.

O padre também pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina.
Reparando bem, todo mundo tem pentelho.
Só a bailarina que não tem.
Sala sem mobília, goteira na vasilha,
Problema na família, quem não tem?

Procurando bem, todo mundo tem…”

Tadinha da balairina, só ela não tem… mas você eu aposto que tem, não tem???

Roberta Simoni

Pobre Deus…

“Seja o que Deus quiser. Foi da vontade de Deus. Deus vai mostrar o caminho. Deus sabe o que faz. Deus achou melhor assim. Só Deus sabe. Entrega nas mãos de Deus. Peça a Deus. Deus é fiel.”

Religião

Deus é fiel a quem, afinal? A mim? A você? Não deveria ser o contrário? Não caberia a nós essa fidelidade?

Eu sei que a maioria dessas frases saem naturalmente, a minha boca também não se safa delas sempre. É normal, virou costume. O problema não está em falar, está em acreditar que Deus é mesmo responsável por todas as mazelas do mundo.

E o que eu mais vejo é gente folgada se aproveitando da boa vontade de Deus, gente que age de acordo com essas frases prontas. Que entrega tudo nas mãos Dele, e fica de braços cruzados vendo o circo pegar fogo; que acha que não precisa fazer nada, pois Ele cuidará de tudo;  que acredita que as coisas só acontecem porque é da vontade Dele, jamais porque houve interferência nossa.

É bem mais fácil jogar todas as responsabilidades nas costas de Deus, isso livra muita gente de deveres, culpas e dores na coluna. Ora… se fosse assim, não teríamos o livre-arbítrio, seriamos apenas marionetes no palco da vida, dentro do grande teatro Planeta Terra. Da mesma forma que o homem não é o senhor absoluto do seu próprio destino, também não é uma marionete dos deuses…

“Deus, me dê isso, me dê aquilo, faça eu conseguir aquilo outro…”

Isso me lembra uma piada que eu adoro. Sou péssima contando piadas, eu sei, mas escrevendo ninguém percebe, então eu posso me atrever aqui:

Um pobre homem ia à igreja todos os dias e rezava diante da estátua de um grande santo, dizendo: “Querido santo, por favor, por favor, por favor… conceda-me a graça de ganhar na loteria.” Esse lamento se prolongou por meses. Por fim, irritada, a estátua ganha vida, baixa os olhos para o suplicante e diz, com uma repulsa cansada: “Meu filho, por favor, por favor, por favor… compre um bilhete!”

Não condeno a prece, muito pelo contrário, mas não acho que tudo depende de oração e fé. Acredito que colabore, mas que resolva…? E o nosso esforço pessoal, onde entra? Algumas coisas não estão ao nosso alcance e outras estão, só que é mais fácil pensar que está tudo nas mãos de Deus, daí empurramos tudo para Ele e lavamos as nossas mãos, e depois, quando a coisa não se realiza, foi simplesmente porque não foi da vontade Dele, e não o contrário.

Eu tenho dó de quem passa a vida na inércia acreditando piamente no que prega a sua crença, e de quem toma como verdade absoluta um conceito criado por si próprio, mas, acima de tudo, lamento por Deus. Esse ser tão grandioso e divino, do qual batizamos de Deus, que é idealizado como nossa “imagem e semelhança” (O que eu acho pouco provável. Imagino Deus como uma energia, como vida, ou algo extremamente maior e absolutamente diferente de nós), além de ter que ouvir tantos pedidos todo o tempo, ainda precisa filtrar as necessidades reais das lamúrias preguiçosas.

Que tal dar descruzar as mãos em oração e colocá-nas em ação? Aposto que “mãos na massa” agradam mais a Deus do que uma prece fervorosa. Além do mais, tenho certeza que Ele adoraria ter uma folguinha.

Roberta Simoni

Não sou freira, nem sou puta.

Nem Freira, nem Puta

Você tem que ser assim, tem que agir assado, deve fazer aquilo, precisa se comportar como aquilo outro. Assim, assado, aquilo, aquilo outro, tudo balela, puro rótulo. A maturidade tem me ensinado como é delicioso poder ser eu mesma sem precisar seguir um paradigma, ainda que eu me transmute o tempo todo.

Eu já ouvi bons e maus conselhos, e já segui todos dois, como já ignorei também. Já fiz coisas boas e ruins. Me esforço para trabalhar alguns traços da minha personalidade que me sabotam, tento melhorar, mudar. E mudar nunca é fácil, muito menos imediato, mas, pelo menos existe a vontade para começar. Mas, quando essa vontade passa longe de me tomar, nem adianta tentar, o sorriso fica amarelo, a expressão forçada, o interesse dá a impressão de forjado, a satisfação soa falsa, as palavras saem mecanicamente.

Eu não sou “automatizada”, não tenho um botão de liga e desliga, embora eu concorde que ter um botão desses em determinadas situações facilitaria bastante as coisas, como diz a minha amiga .

Eu consigo me comportar conforme exige a etiqueta, sou capaz de obedecer as regras e respeito as leis, mas quando eu não quero, eu não quero; quando eu quero, eu confesso; quando eu sinto, eu demonstro; quando eu discordo, me manifesto; quando eu acho que não está bom, eu reclamo; quando eu preciso falar, nada me cala; quando fico indignada, eu não escondo; quando eu preciso fazer, eu quebro regras;  não sou sempre politicamente correta; não me comporto da maneira que se espera e não falo o que as pessoas desejam ouvir.

Eu sobrevivo mesmo não sendo benquista por todos. Ser mal vista, mal interpretada e mal julgada não me fazem ser diferente, tampouco modificam a minha vida ou me estimulam a seguir um protótipo. Até porque, mesmo se eu me moldasse conforme os padrões da sociedade, eu continuaria sendo vista do jeito que cada um quisesse me ver, ou seja, ainda de maneira distorcida e equivocada.

Fama de porra louca? Tudo bem.  Exagerada? Careta? Radical? Feia? Bonita? Gorda? Gostosa? Inteligente? Ignorante? Forte? Frágil? Engraçada? Ousada? Abusada? Santa? Puta? Rude? Franca? Boa nisso? Péssima naquilo? Na minha constante transformação, eu posso ser cada uma delas, ou todas ao mesmo tempo, sob diferentes aspectos. Ou simplesmente nenhuma. Tudo depende exclusivamente da maneira que escolhem me enxergar. Aí já não tem mais nada a ver comigo, muito menos com as minhas escolhas.

A minha escolha é simples:  não abro mão da autenticidade.

Roberta Simoni