Pobre Deus…

“Seja o que Deus quiser. Foi da vontade de Deus. Deus vai mostrar o caminho. Deus sabe o que faz. Deus achou melhor assim. Só Deus sabe. Entrega nas mãos de Deus. Peça a Deus. Deus é fiel.”

Religião

Deus é fiel a quem, afinal? A mim? A você? Não deveria ser o contrário? Não caberia a nós essa fidelidade?

Eu sei que a maioria dessas frases saem naturalmente, a minha boca também não se safa delas sempre. É normal, virou costume. O problema não está em falar, está em acreditar que Deus é mesmo responsável por todas as mazelas do mundo.

E o que eu mais vejo é gente folgada se aproveitando da boa vontade de Deus, gente que age de acordo com essas frases prontas. Que entrega tudo nas mãos Dele, e fica de braços cruzados vendo o circo pegar fogo; que acha que não precisa fazer nada, pois Ele cuidará de tudo;  que acredita que as coisas só acontecem porque é da vontade Dele, jamais porque houve interferência nossa.

É bem mais fácil jogar todas as responsabilidades nas costas de Deus, isso livra muita gente de deveres, culpas e dores na coluna. Ora… se fosse assim, não teríamos o livre-arbítrio, seriamos apenas marionetes no palco da vida, dentro do grande teatro Planeta Terra. Da mesma forma que o homem não é o senhor absoluto do seu próprio destino, também não é uma marionete dos deuses…

“Deus, me dê isso, me dê aquilo, faça eu conseguir aquilo outro…”

Isso me lembra uma piada que eu adoro. Sou péssima contando piadas, eu sei, mas escrevendo ninguém percebe, então eu posso me atrever aqui:

Um pobre homem ia à igreja todos os dias e rezava diante da estátua de um grande santo, dizendo: “Querido santo, por favor, por favor, por favor… conceda-me a graça de ganhar na loteria.” Esse lamento se prolongou por meses. Por fim, irritada, a estátua ganha vida, baixa os olhos para o suplicante e diz, com uma repulsa cansada: “Meu filho, por favor, por favor, por favor… compre um bilhete!”

Não condeno a prece, muito pelo contrário, mas não acho que tudo depende de oração e fé. Acredito que colabore, mas que resolva…? E o nosso esforço pessoal, onde entra? Algumas coisas não estão ao nosso alcance e outras estão, só que é mais fácil pensar que está tudo nas mãos de Deus, daí empurramos tudo para Ele e lavamos as nossas mãos, e depois, quando a coisa não se realiza, foi simplesmente porque não foi da vontade Dele, e não o contrário.

Eu tenho dó de quem passa a vida na inércia acreditando piamente no que prega a sua crença, e de quem toma como verdade absoluta um conceito criado por si próprio, mas, acima de tudo, lamento por Deus. Esse ser tão grandioso e divino, do qual batizamos de Deus, que é idealizado como nossa “imagem e semelhança” (O que eu acho pouco provável. Imagino Deus como uma energia, como vida, ou algo extremamente maior e absolutamente diferente de nós), além de ter que ouvir tantos pedidos todo o tempo, ainda precisa filtrar as necessidades reais das lamúrias preguiçosas.

Que tal dar descruzar as mãos em oração e colocá-nas em ação? Aposto que “mãos na massa” agradam mais a Deus do que uma prece fervorosa. Além do mais, tenho certeza que Ele adoraria ter uma folguinha.

Roberta Simoni