A essencial essência

Livros

Hoje, sem querer, acabei descobrindo um sebo no meu bairro. Eu tinha algo em torno de vinte centavos no bolso, mas não resisti e entrei na loja. Sabia que não podia comprar nada com aquela quantia, mas sebos me atraem como se tivéssemos um imã.

Como todo sebo que se preze, este era perfeitamente desorganizado e tinha cheiro de coisa antiga. O perfume mofado daquele ambiente me despertou – além de alguns espirros alérgicos – doces e antigas recordações, que de tão antigas estavam se tornando desconhecidas. Retornei às “dezenas” de casas que morei com minha família durante a minha infância, lembrei do meu pai em suas madrugadas insones, acompanhado de cigarros e livros, e da minha mãe quase me implorando para que eu fosse dormir enquanto eu lia revistinhas em quadrinhos madrugada adentro. E isso me fez lembrar que a insônia e eu somos companheiras de longas datas…

Lembrei que a minha mãe sempre me seduzia com alguns cruzeiros que eu gastava na banca mais próxima à loja onde ela trabalhava, comprando gibis que me entretinham a tarde inteira.  Lembrei que eu levei anos até deixar que ela doasse aquelas revistas empilhadas numa cesta que ocupou um espaço no canto do meu quarto durante tanto tempo. Lembrei das prateleiras abarrotadas de livros da casa dos meus pais, que só fizeram crescer ao longo desses anos, e me dei conta de que estou criando o mesmo hábito.

O cheiro de passado entranhado em cada livro daquele sebo era mais do que familiar, era aroma palpável que dizia muito sobre mim. Era parte essencial das lembranças que estavam esquecidas em alguma prateleira antiga.

Folheei revistas e livros antigos e mexi nos discos de vinil da mesma forma que saboreio um pedaço de chocolate. Era a nostalgia que estava me atraindo e me seduzindo, era o passado pedindo para não ser esquecido, era a saudade carente de uma infância feliz e era também uma parte da minha essência querendo ser lembrada através de objetos, cheiros e lembranças.

Talvez não sejam só os livros do sebo que me atraiam, mas o passado que eu revivo quando entro lá, que sempre me seduz para que eu não ouse esquecer do que é importante ser lembrado.

Preciso urgentemente que alguém impeça a digitalização dos livros, por favor! Não duvido de sua praticidade e eficácia, mas livros eletrônicos não têm cheiro de poesia, não têm rabiscos nas páginas, e nem páginas de papel têm. Menos ainda têm o charme, o porte e a elegância de um senhor livro. Eu não me importo de usar objetos ultrapassados, afinal, também estou ficando ultrapassada, e não venha me dizer que perdi todo o meu charme por conta disso… 😉

E você, no que é ultrapassado? Quais são os cheiros que te trazem lembranças? E sua essência? Também anda esquecida em algum canto cheio de mofo por aí?

Roberta Simoni

Simplificando o sexo

Casal Sensual

Sinceramente, eu não entendo a dificuldade que as pessoas têm de falar sobre sexo. É claro que eu não espero que todos saiam por aí contando detalhes sobre a sua vida sexual. Também não tenho absolutamente nada contra quem faz isso, apenas não é o meu caso. Só não vejo problema algum em falar sobre sexo com a mesma naturalidade com que se fala sobre culinária, política ou religião.

No meu caso, por exemplo, falar sobre sexo é mais fácil do que falar sobre culinária. E aposto que não sou a única.

Assumo que tive uma criação diferente. Sempre conversei sobre sexo com a minha mãe. E não, não estou falando daquele diálogo super constrangedor entre pais e filhos:

– “Filha, precisamos conversar sobre sexo, afinal, você já está virando uma mocinha.”

– “Não se preocupe, mamãe, eu sou virgem.” (escondendo um pacote de camisinhas numa mão, e, na outra, uma caixa de pílulas anticoncepcionais).

Lá em casa, sexo nunca foi um assunto proibido, mesmo assim eu não senti vontade de ir para casa correndo contar para os meus pais quando perdi a virgindade, tampouco quis que a minha mãe me acompanhasse na minha primeira visita ao ginecologista. Falar com ela sobre a minha vida sexual foi uma coisa que aconteceu naturalmente, aos poucos. No fim das contas, ela já havia se transformado numa espécie de “confidente sexual”. Logo, se eu não tenho problemas de falar sobre o assunto com a minha mãe, por que eu teria de falar com os outros?

Quando eu declaro que gosto de sexo sem o menor pudor e medo de ser feliz, ainda me deparo com fisionomias surpresas e até assustadas e ainda esbarro com aquelas interpretações arcaicas…

Dia desses, conversando com um amigo e falando sobre as mazelas da vida, entre uma lamentação e outra, nos queixamos da dificuldade que tem sido viver no mundo de hoje, repleto de pessoas amarguradas, frias, loucas e neuróticas, e acabamos chegando a conclusão de que as pessoas têm feito pouco sexo. Afinal, sexo faz bem a saúde física e psíquica, além de melhorar absurdamente o humor e elevar o estado de espírito. E isso não sou eu quem está dizendo, é o que a ciência já comprovou há muito tempo.

A sexualidade faz parte da vida humana, animal e até vegetal, não é à toa que é através do sexo que é possível perpetuar as espécies. E viver sem isso é algo que realmente torna a vida de qualquer pessoa, no mínimo, menos saudável e interessante.

Se as pessoas fizessem sexo com mais frequência certamente o mundo seria um lugar beeeeem melhor de se viver. Por isso, a partir de agora, estou lançando a campanha: Faça sexo e ajude o mundo a melhorar!

Sexo, pra mim, é uma coisa tão bonita, divina e vital quanto o amor, por isso, nada mais natural que eles interajam entre si de maneira tão única e poética.

Escuta a Rita Lee aí, que ela fala por mim…

Roberta Simoni

Que livro você é?

Quando eu comecei a ter acesso a internet (lá nos primórdios dos tempos), eu costumava fazer tudo quanto era teste que encontrava pela frente. Os de QI e de sanidade mental eram os campeões. Bom, quanto aos resultados, é melhor não comentar (:-p). Sei que nunca mais me interessei por nenhum, em parte pelo meu ceticismo, em parte pela falta de testes interessantes. Até que, essa semana, um me chamou atenção: Que livro você é? 

Segundo o teste, se eu fosse um livro, eu seria:

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Machado de Assis“Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro… Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade – um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.
“Memórias póstumas de Brás Cubas”
(1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.”

Gostei do livro, foi um dos primeiros que li na vida. E a descrição… hummm… digamos que me cai bem, a não ser a parte que fala do cinismo ácido que eu destilo, é claro. Hahahaha!

E você? Que livro é?

Roberta Simoni

Morte ao Gerundismo

Operador de Telemarketing

Antes de relatar o meu último encontro com o Gerundismo, aquele %$#@!*&¨%$##%$@!*&¨$#… vou transcrever aqui o que o Wikipédia me disse: “O Gerundismo é uma locução verbal que consiste no uso sistemático de verbos no gerúndio, cujo emprego é relativamente recente no português, particularmente o brasileiro. A concordância da construção com a sintaxe do português não é ponto pacífico, sendo, por vezes, considerada um vício de linguagem. O Gerundismo foi estigmatizado graças ao seu emprego constantemente impreciso semanticamente e ao preconceito lingüístico.”

Ou seja, o Gerundismo é uma droga (se é um vício de linguagem, é uma droga) criada e traficada pelos Operadores de Telemarketing, que possuem uma rede de distribuição tão grande e poderosa que já pode ser enquadrada na categoria de crime organizado. A droga tem sido tão consumida que está desbancando a cocaína, a maconha, o crack, o LSD, a Heroína, o Ecstasy, o álcool, o tabaco, o lança-perfume, a morfina, o ópio, e até mesmo os sedativos e tranquilizantes.

Malditos vão estar sendo estes operadores de telemarketing que não conseguem estar falando sem estar espalhando essa maldita praga da comunicação moderna, malditos, malditos, malditos mil vezes!

Desabafo feito, já posso contar como foi o nosso último encontro, há poucos minutos:

Gerúndio: Boa tarde, com quem eu vou estar falando?

Eu: Péssima tarde e você está falando com uma cliente extremamente insatisfeita e de péssimo humor, com o tempo curto e desejando profundamente conseguir objetividade no atendimento.

Gerúndio: Hã????

Eu: Quero cancelar o meu plano. Minha internet não funciona, nem meu telefone, nem a minha tevê.

Gerúndio: Senhora, nós vamos estar enviando um técnico à sua residência ainda hoje para estar verificaaaando o problema.

Eu: Não quero técnico, quero c-a-n-c-e-l-a-r o meu plano, e eu quero fazer isso AGORA!

Gerúndio: Senhora, por favor, mantenha a calma, eu vou estar transferindo a sua ligação para o setor responsável. A senhora pode estar aguardando um momeeeeento?

Eu: Não posso estar esperando, nem estar aguardando, nem estar negociando. A única coisa que eu posso e quero estar é voltando para a Sibéria, de onde eu nunca deveria ter saído.

Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu!

Estava óbvio que a ligação ia estar caindo, né? E eu, obviamente, ia estar me fodendo. Também, quem mandou eu estar dizendo que o meu tempo era curto?

Proponho falência à NET, tortura aos operadores de telemarketing e sacrifício ao Gerundismo. Tempos modernos de merda… a vida certamente era menos estressante antes de existir tanta tecnologia, que deu origem aos operadores de telemarketing, que criaram essa praga de nome feio.

Roberta Simoni

Pulando fora!

Caindo fora!

Que se danem as minhas inseguranças. Se são inseguras, que caiam, se machuquem, se quebrem e se partam ao meio. Que continuem confusas e atordoadas as minhas incertezas. Que se arrepiem inteiros e gritem de pavor os meus medos. Que arda, queime, corte e doa a dor que veio para ser sentida. Que se apertem, se empurrem e se atropelem de tanta ânsia essas ansiedades aflitas. Que se se ferrem, não estou nem aí. Estou pulando fora…

Se eu tento controlá-los, eles é que me controlam, é sempre assim. Então, eles que se virem sozinhos. Eu quero ver todo mundo se organizar por conta própria aí dentro, quero ver o circo pegar fogo… quero ver sobrar espaço pra todo mundo sem que eu tenha que colocar ordem nesse barraco, quero ver !!!

Aposto que a ansiedade vai ser a primeira a pular do barco, de todos, ela é a menos intolerante. A incerteza vai ficar no convés se decidindo se pula ou não pula. E o medo vai ficar falando pra ela: “você não vai ter coragem de fazer isso, vai?”. A dor vai perguntar ao medo: “Isso vai doer muito?” e o medo vai dizer: “Claro que vai. Essa água deve estar congelada e cheia de tubarões, além do mais, você não sabe nadar, e morrer afogado deve ser horrível”. A dor vai ficar entusiasmada e vai mergulhar de cabeça no mar, sem pensar duas vezes. A incerteza vai escutar a conversa do medo e da dor, e vai pensar: “se é tão incerto o que pode acontecer lá embaixo, então, lá é melhor do que aqui”, e finalmente decidirá pular. A insegurança só vai pular depois que vir os outros pulando. E o medo, que não queria pular de jeito nenhum, vai ficar apavorado quando perceber que ficou sozinho no barco, e vai pular também.

Você passa a vida inteira tentando controlar esse bando de sentimentos desocupados, que só servem para perturbar o juízo, quando não é um, é o outro e, às vezes, são todos ao mesmo tempo. Cada um a seu modo, tentando chamar mais atenção. E aí começa uma guerra de orgulho entre eles pra ver quem manda, quem é mais forte e mais poderoso, e você no meio, tentando separar a briga e acalmar os ânimos. Tenta fazer com que te ouçam e te obedeçam, mas é claro que todo mundo te ignora. E aí, você é quem passa a ser controlado por eles.

Mas, o que ninguém nos ensina e custamos a descobrir sozinhos é que os sentimentos podem até ser mais fortes e parecerem bem maiores, mas são totalmente dependentes de nós. Eles só crescem porque damos “casa, comida e roupa lavada”. E, em troca disso, eles nos controlam. Aí, se paramos de cuidar deles, eles não sabem como se virarem sozinhos.

Marmanjo vivendo na proa do meu barco sem pagar nada, e ainda querendo mandar no marujo e na tripulação toda, não dá, né? Francamente. Prefiro deixar o meu barco livre para as alegrias darem suas gargalhadas escandalosas sem que ninguém reclame, para os prazeres terem espaço para se esticarem e pegarem sol o dia inteiro e depois se atirarem no mar para se refrescarem, para o amor poder exclamar suas poesias sem que ninguém o chame de brega ou piegas, para a euforia poder preparar aqueles drinques deliciosos enquanto a paz toca Bossa Nova na sua velha viola. E quando decidirmos parar em alguma praia, a segurança vai poder escolher onde ancorar.

Roberta Simoni

Sobre estradas e escolhas

past-present-future

Eu sei que domingo não é o melhor dia para filosofar, mas hoje eu acordei assim, e para piorar, comecei o dia com a cara enfiada no livro do Kundera (A Insustentável Leveza do Ser). Se sem alimentar a minha imaginação, ela já é obesa, imagina quando as palavras do Kundera se entranham nos meus poros?

“Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas, o homem, por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a seu sentimento.” (Milan Kundera)

É claro que você, eu e todo mundo gostaria de poder saber o que vai acontecer lá na frente. De poder testar, provar e experimentar tudo antes. De poder ter garantias concretas de que tomou a melhor decisão, mas não dá. Não temos superpoderes, bolas de cristal só funcionam como enfeite e máquinas do tempo ainda estão restritas às obras cinematográficas. Nós só temos o agora, e o agora exige escolhas – na maioria das vezes – imediatas. Vai, não vai? Quer, não quer? Pode, não pode? Faz, não faz? Sim ou não?

É difícil, mas também é instigante não saber se… se você tivesse feito, se tivesse ido, se tivesse aceitado, se tivesse recusado; se você fizer, se for, se aceitar, se recusar…

Viver é um suspense, é uma caixinha de surpresas, com presentes maravilhosos dentro e presentes de mau gosto também. Mas, presente são se recusa jamais. A gente aceita e depois decide o que fazer com ele.

Quando faço o exercício de imaginar como as coisas poderiam ser ou ter sido, eu me pego arrependida de algumas escolhas que fiz. E esse tipo de arrependimento é infundado, afinal, não dá para saber se seria melhor ou pior se tivesse sido de outro jeito. Viver é e sempre vai ser um mistério, e tudo que é misterioso é arriscado demais, e nós somos muito ariscos. Desconfiamos, tememos e, às vezes, sentimos um medo tão grande que decidimos simplesmente não arriscar. E essa me parece ser a decisão mais difícil e corajosa de todas: não arriscar.

Fazer escolhas como, por exemplo, mudar de vida, de foco, de profissão, de opinião, de amor, de cidade, de país… tudo isso requer muita coragem. Mas, escolher não mexer no que você pode mudar, não deixa de ser um ato de coragem também. E se a vida é basicamente um resumo das escolhas que fazemos todos os dias, somos todos corajosos, mesmo o mais covarde dos covardes é corajoso por escolher não escolher, não fazer, não ir, não ser…

E as escolhas que deduzimos serem acertadas? Será que são mesmo? Da mesma forma que eu me arrependo em vão de certas escolhas, eu também sinto um orgulho ilusório de outras escolhas que fiz na vida. Eu penso que foram boas, mas não posso saber se teria sido melhor seguir por outra estrada, fazer a curva ou fazer o retorno e voltar.

Estrada...Não dá nem para saber o que tem lá no fim da estrada. Tudo o que conseguimos descobrir até agora é que não existe um único caminho, que cada estrada possui uma característica diferente, que há percalços no asfalto, que muitas vezes é preciso pagar pedágio para continuar seguindo, que  acidentes de percurso acontecem, que pessoas incríveis cruzaram o nosso caminho, que outras vão conosco no banco ao lado, e topam nos seguir independe da direção que escolhemos ir, que podemos acabar dando carona a pessoas erradas, mas que temos a chance de deixá-las num posto mais adiante.

Nós podemos ir e vir, podemos ter um destino ou simplesmente seguir a esmo, podemos escolher as placas que nos indicam a direção, podemos controlar a velocidade, podemos escolher nossos acompanhantes de viagens ou podemos escolher seguirmos só. E, independente das escolhas que fizermos durante a jornada, vamos continuar sem saber se acertamos, se erramos, e – principalmente – quando, onde e como essa viagem vai terminar.

Eu não vejo outra forma senão seguir em frente, mesmo que eu ainda me pegue olhando para trás de vez em quando, mesmo que os pneus furem algumas vezes, que a gasolina acabe, que o carro quebre, que eu siga de ônibus, de bicicleta, de carona, a pé. Não importa como, tampouco o meu destino, eu quero é chegar, e tenho tanta pressa… não sei bem por quê, mas tenho. Na verdade, eu acho que sei de onde vem essa urgência impaciente de viver: vem da noção da efemeridade, que me lembra o tempo todo que eu não sei quanto tempo essa viagem pode durar. Por isso eu sou multada o tempo todo por excesso de velocidade, mas não consigo – e talvez não queria – tirar o pé do acelerador.

Não sou só eu, a vida também é depressa demais.

Roberta Simoni

Daqui da minha janela…

Janela de Cima

Hoje eu comecei a escrever sobre vários temas e depois apaguei todos, nada parecia bom o suficiente para poder fluir. Mas, aqui estou eu, por pura insistência. Ficar sem escrever ultimamente tem sido como passar um dia inteiro sem escovar os dentes, simplesmente não dá. Impossível. Está longe de ser uma obrigação, é só algo que não tem mais como ser arrancado da minha rotina.

A escrita tem sido o meu canal de comunicação comigo mesma e com o mundo externo. Estou sempre escrevendo alguma coisa, em algum lugar. Se não é aqui, é no caderninho que não sai da minha bolsa, ou num pedaço de papel qualquer que eu encontro num canto qualquer. Hoje eu fui juntando alguns deles que encontrei espalhados por esses cantos, e percebi que tem tanta coisa distinta escrita que eu já não consigo mais me lembrar o porquê de certas anotações, e as palavras vão se perdendo e perdendo o sentido, assim como as ideias que eu tive quando as rabisquei…

Sabe-se lá quanta coisa eu já não devo ter desperdiçado por essa falta de organização que eu tenho com os papeis e com a minha cabeça? Tadinha… tão nova, tão nova…

Eu não sei como cabe tanta coisa numa cabeça tão pequena, mas cabe. E está tudo uma zona tão grande que consigo visualizar as palavras se estapiando para se organizarem de tal forma que possam me ajudar a formular um pensamento. Vocês tentam, não posso negar, mas tá difícil minhas amigas, tá difícil, eu sei…

Eu fico daqui da minha janela, escrevendo para tentar libertar algumas dessas palavras que ficam se espremendo dentro da minha cabeça… Para me divertir, me distrair, e, provavelmente, para distrair um bando de pensamentos perversos e inconvenientes que sempre dão um jeito de subir até aqui, arrombando a minha janela mais alta só para fazer barulho.

Talvez eu esteja começando a aprender a lidar com essa barulheira toda. Se antes eu falava sem parar a troco de explulsá-los com o tom agudo da minha voz, agora eu ouço calada e apenas os observo. Alguns pensamentos se cansam e vão embora, alguns se transformam em palavras escritas, pois são tão incansáveis que parece impossível fazê-los desistir. Alguns, no entanto, são apenas absorvidos e tratados como filhos pequenos que precisam dos cuidados da mãe até que amadureçam e queiram partir para o mundo por conta própria.

Enquanto isso, eu vou tentando colocar em prática – começando com os meus próprios pensamentos  – o exercício mais difícil que já me deram um dia: ouvir mais e falar menos. Eu os tenho escutado, mas pouco tenho falado deles. Esse também é um conselho que eu peguei para criar como filho e que, certamente, um dia, vou poder ver crescendo e se transformando num grande homem, que encherá de orgulho essa mãe coruja que eu sou.

Roberta Simoni

Arco-Íris

arco-íris

Amigos leitores que olham por esta minha janela, perdoem esta blogueira por não ter aparecido por aqui na última semana nem para dar um alô. Lá estava eu com meus pés na estrada e a minha cabeça nas nuvens outra vez…

Inspirada em algumas das alegrias dos prazeres inofensivos que ajudaram a compor o meu post anterior, eu viajei só com a passagem de ida, vi o sol nascer na estrada e me senti como se estivesse no “camarote vip” do maior espetáculo de todos. Fui presenteada por dias intensos de sol, vi o sol se pondo na praia, subi no alto de uma pedra, abri os braços para ser abraçada por Deus e tive o privilégio de ver um lindo arco-íris.

Não sei há quanto tempo eu andava caçando um arco-íris, mas, parece que só agora eu estava no lugar certo e na hora certa. Eu não me importo com o “pote de ouro” que tem lá no final do arco-íris, eu só quero saciar os meus olhos da vontade imensa que eles sentem de ver colorido.

Adoro a poética do preto e branco. As minhas melhores fotografias têm tonalidades variantes do cinza. Adotei a filosofia do “preto no branco”. Gosto da claridade da luz do branco, e da clarividência que existe no preto. Mas as cores… ah, as cores… se não houvesse as cores tanta coisa perderia o sentido.

Se eu só pudesse ver o mundo em preto e branco, eu inventaria cores. Eu choraria rosa, sorriria branco, beijaria vermelho, abraçaria verde, falaria e escreveria azul, sentiria amarelo florescente, amaria cor-de-abóbora. Eu sentira revolta em roxo, ficaria triste em cinza, sentiria saudade em marrom, me apaixonaria em violeta…

Então tá decidido: se eu demorar muito tempo para ver o arco-íris outra vez, eu vou inventá-lo. E vou criar as cores no meu próprio céu, vou fazer desenhos com as minhas nuvens, vou pintar o sol quando a chuva não quiser parar, vou fazê-lo nascer e se pôr no meu coração, vou rabiscar estrelas na minha constelação, vou fazer balé com as cores, vou ensiná-las a dançar salsa, tango, bolero, zouk, samba, forró, e depois, vou aprender a dançar com elas…

Roberta Simoni

A alegria dos prazeres inofensivos

Love

Respirar cheiro de gasolina. Pisar em folhas secas nas ruas de outono. Ver a primavera florindo. Dormir sem roupa no verão. Nadar pelado. Comer chocolate, tomar sorvete no inverno. Mergulhar no mar à noite. Ver o pôr-do-sol. Ouvir o silêncio da madrugada. Sentir o cheiro da terra molhada. Caminhar na beira da praia. Compor uma música. Tocar uma viola. Escrever uma poesia. Dar um beijo apaixonado. Acordar ao meio dia. Viajar sem comprar passagem de volta. Dar presentes. Receber presentes. Escrever uma carta. Receber uma carta. Ler um livro. Escrever um livro.

Ter um sonho bom, dormindo ou acordado. Brincar de pique-se-esconde. Tomar banho de água quente. Cantar debaixo do chuveiro. Ser acordado com beijos na nuca. Entrar numa calça que antes não cabia. Andar descalço. Tomar chocolate quente no frio. Ter uma mangueira no quintal de casa. Ter um quintal. Ter uma casa.

Jogar baralho. Ganhar uma aposta. Abraçar um amigo. Se embriagar com um amigo. Ter um amigo. Rir sem motivo. Sentir frio no umbigo. Fazer uma surpresa. Ser surpreendido. Ganhar dinheiro. Trabalhar com o que se gosta. Viajar o mundo. Se perder no mundo. Se encontrar sem estar perdido. Banho de chuva. Paixão de verão. Cinema com pipoca. Amizade canina. Espera no portão. Cheiro que trás lembrança. Colo de mãe. Gargalhada de filho.

Um brinde à alegria dos prazeres inofensivos, esses que costumam ser tão pequenos que, às vezes, não passam de detalhes. Detalhes que dão cheiro, cor , sabor e, principalmente, sentido à vida.

É impossível falar de pequenos prazeres e não pensar em Amélie Poulain, por isso, aqui vai o vídeo dessa fábula que sabe perfeitamente como alegrar os meus prazeres…

Roberta Simoni

Dor Curtida

União

Acho que o meu estoque de lágrimas acabou!  – Cissa pensou, enquanto assistia comovida o seu querido se debulhando em lágrimas, e disse: Meu bem, eu sequer consigo ter forças para continuar chorando!

Então vem cá, deita aqui. Eu choro por nós dois até a nossa dor passar, tá bom?

Bastou Cissa encostar a cabeça no colo dele para começar a chorar. Era a falta de calor humano que havia secado suas lágrimas, mas Pedro fez chover de novo no seu coração, como ele sempre fazia. Bastava tocá-la.

Eles choraram juntos, e quando os soluços começaram a cessar, Pedro disse: – Querida, depois que terminarmos de chorar, podemos almoçar? Cissa então se levantou, secou o rosto e ainda soluçando um pouco, foi preparar a comida. Ela também estava faminta.

Aquela dor havia se tornado tão presente e frequente entre os dois que já nem havia mais o que conversar, discutir, brigar, tentar entender, resolver… eles já haviam tentado de tudo, e a dor continuava lá. Eles também tentavam evitá-la, ignorá-la… fingiam que ela não estava lá, mas a dor não é muito boa com esconderijos e é sempre muito fácil encontrá-la, mesmo quando eles não a procuravam, ela sempre aparecia, sempre estava lá, garantindo um lugar bem próximo deles.

Eles então, choraram, e já cansados de tentar entender, esconder ou fugir, sabiam que apontar um culpado era total perda de tempo (eles já haviam tentado isso também). Afinal de contas, ninguém tem culpa. Eles finalmente estavam começando a entender que aquela dor precisava ser simplesmente sentida até se esgotar, assim como a paixão foi.

E depois de sua dose diária de dor, Cissa e Pedro mataram a fome, tomaram vinho, conversaram sobre coisas banais, distraíram-se com a televisão e bocejaram, porque chorar cansa tanto…

Ele apoiou a cabeça no ombro dela, e enquanto ela fazia cafuné nele, eles  adormeceram juntos por alguns minutos. Eles finalmente estavam  descobrindo que havia muitas outras coisas para serem curtidas a dois além do utópico amor pleno.

Roberta Simoni