Sobre estradas e escolhas

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Eu sei que domingo não é o melhor dia para filosofar, mas hoje eu acordei assim, e para piorar, comecei o dia com a cara enfiada no livro do Kundera (A Insustentável Leveza do Ser). Se sem alimentar a minha imaginação, ela já é obesa, imagina quando as palavras do Kundera se entranham nos meus poros?

“Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas, o homem, por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a seu sentimento.” (Milan Kundera)

É claro que você, eu e todo mundo gostaria de poder saber o que vai acontecer lá na frente. De poder testar, provar e experimentar tudo antes. De poder ter garantias concretas de que tomou a melhor decisão, mas não dá. Não temos superpoderes, bolas de cristal só funcionam como enfeite e máquinas do tempo ainda estão restritas às obras cinematográficas. Nós só temos o agora, e o agora exige escolhas – na maioria das vezes – imediatas. Vai, não vai? Quer, não quer? Pode, não pode? Faz, não faz? Sim ou não?

É difícil, mas também é instigante não saber se… se você tivesse feito, se tivesse ido, se tivesse aceitado, se tivesse recusado; se você fizer, se for, se aceitar, se recusar…

Viver é um suspense, é uma caixinha de surpresas, com presentes maravilhosos dentro e presentes de mau gosto também. Mas, presente são se recusa jamais. A gente aceita e depois decide o que fazer com ele.

Quando faço o exercício de imaginar como as coisas poderiam ser ou ter sido, eu me pego arrependida de algumas escolhas que fiz. E esse tipo de arrependimento é infundado, afinal, não dá para saber se seria melhor ou pior se tivesse sido de outro jeito. Viver é e sempre vai ser um mistério, e tudo que é misterioso é arriscado demais, e nós somos muito ariscos. Desconfiamos, tememos e, às vezes, sentimos um medo tão grande que decidimos simplesmente não arriscar. E essa me parece ser a decisão mais difícil e corajosa de todas: não arriscar.

Fazer escolhas como, por exemplo, mudar de vida, de foco, de profissão, de opinião, de amor, de cidade, de país… tudo isso requer muita coragem. Mas, escolher não mexer no que você pode mudar, não deixa de ser um ato de coragem também. E se a vida é basicamente um resumo das escolhas que fazemos todos os dias, somos todos corajosos, mesmo o mais covarde dos covardes é corajoso por escolher não escolher, não fazer, não ir, não ser…

E as escolhas que deduzimos serem acertadas? Será que são mesmo? Da mesma forma que eu me arrependo em vão de certas escolhas, eu também sinto um orgulho ilusório de outras escolhas que fiz na vida. Eu penso que foram boas, mas não posso saber se teria sido melhor seguir por outra estrada, fazer a curva ou fazer o retorno e voltar.

Estrada...Não dá nem para saber o que tem lá no fim da estrada. Tudo o que conseguimos descobrir até agora é que não existe um único caminho, que cada estrada possui uma característica diferente, que há percalços no asfalto, que muitas vezes é preciso pagar pedágio para continuar seguindo, que  acidentes de percurso acontecem, que pessoas incríveis cruzaram o nosso caminho, que outras vão conosco no banco ao lado, e topam nos seguir independe da direção que escolhemos ir, que podemos acabar dando carona a pessoas erradas, mas que temos a chance de deixá-las num posto mais adiante.

Nós podemos ir e vir, podemos ter um destino ou simplesmente seguir a esmo, podemos escolher as placas que nos indicam a direção, podemos controlar a velocidade, podemos escolher nossos acompanhantes de viagens ou podemos escolher seguirmos só. E, independente das escolhas que fizermos durante a jornada, vamos continuar sem saber se acertamos, se erramos, e – principalmente – quando, onde e como essa viagem vai terminar.

Eu não vejo outra forma senão seguir em frente, mesmo que eu ainda me pegue olhando para trás de vez em quando, mesmo que os pneus furem algumas vezes, que a gasolina acabe, que o carro quebre, que eu siga de ônibus, de bicicleta, de carona, a pé. Não importa como, tampouco o meu destino, eu quero é chegar, e tenho tanta pressa… não sei bem por quê, mas tenho. Na verdade, eu acho que sei de onde vem essa urgência impaciente de viver: vem da noção da efemeridade, que me lembra o tempo todo que eu não sei quanto tempo essa viagem pode durar. Por isso eu sou multada o tempo todo por excesso de velocidade, mas não consigo – e talvez não queria – tirar o pé do acelerador.

Não sou só eu, a vida também é depressa demais.

Roberta Simoni

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8 comentários sobre “Sobre estradas e escolhas

  1. Lindona…amei como sempre…

    Quem não arrisca, não petisca…e a vida é assim, pra saber se vai dar certo ou não, só arriscando…tb me sinto assim às vezes, aliás, quem nunca sentiu???

    E tenho certeza que vamos nos encontrar no final dessa estrada, cheias de coisas lindas e boas para contar!!!

    Bjsssssssssssssss…mts sdds!!

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  2. ” …que pessoas incríveis cruzaram o nosso caminho, que outras vão conosco no banco ao lado, e topam nos seguir independe da direção que escolhemos ir, que podemos acabar dando carona a pessoas erradas, mas que temos a chance de deixá-las no posto adiante…”

    SE eu não tivesse arriscado, jamais teria encontrado você, e disso eu com certeza me arrependeria 😛

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  3. De tudo o que foi escrito(e que achei muito bonito) uma coisa é certa. Se na estrada da vida você escolhe a entrada errada, a saída errada e até mesmo a mão errada da estrada, um guardinha com asas bem grandes, boné branco e apito bem barulhento faz você pegar um retorno divino e te coloca no caminho certo outra vez, portanto escolha, somente escolha.
    Achei esse o melhor de todos os textos que você escreveu até agora.

    Bjo grande

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  4. primeira vez que lei esse blog e já achei o primeiro texto maravilhoso.
    o caminho que tomei deu certo ;D
    muito lindo com vc escreveu da incerteza da vida, dos caminhos certos e errados. aCho que não existe um lugar para se chegar, nós sempre seguiremos diferentes caminhos e eles q nos leva~rão à um final. Texto muito bom *-*
    parabéns 🙂

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