Divagando…

Leveza

Essa semana nós comemoramos o 83° aniversário do meu avô Paolo (vulgo Palolito). Italiano tem sangue forte, né? Seria efeito do vinho? Meu avô usa o inverno como desculpa para beber uma garrafa inteira de vinho toda noite. E sou tentada a dizer que, nos últimos tempos, ele tem dado um banho de vitalidade em mim e em muita gente por aí.

Durante a comemoração, pergunto se minha avó (que ainda nem chegou aos 70) quer comer um “petit gateau” e ela reponde: “O que? Investigador???”

Volto para casa pensando na porcentagem de chances que tenho de chegar à velhice como ela, ou igual ao meu avô. De hoje em diante, tomarei mais vinho. Tá decidido.

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lembram da ex-gatinha de rua Margot? Ganhou um pai-carioca-swing-sangue-bom, uma casa com quintal e tudo e, de brinde,  se livrou da mãe Felícia. E a Felícia aqui já está desesperada de saudades. Dane-se a cortina desfiada e a alergia. Quero minha felina de volta!

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Estou decidida a canonizar o Théo, meu cachorro. Eu deito na barriga dele, ele deixa. Eu aperto a bochecha dele, ele deixa. Eu encho ele de beijos, ele deixa. Eu abraço até ele ficar sem ar e ele deixa. Eu fico escrevendo até às 5h da manhã e ele fica comigo, caindo de tão trêbado de sono, mas se recusa a me deixar sozinha. Olho para ele e e sempre recebo de volta um olhar apaixonado, com aquela cara lânguida e o rabo balançando feito um ventilador ambulante.

Tenho pensando na gratuidade do amor canino e em como eu gostaria que as relações humanas fossem, ao menos, parecidas. Não digo todas, mas pelo menos as mais íntimas, aquelas que consideremos mais importantes. Ou, pelo menos, uma das partes considera.

Ontem comprovei a máxima que diz mais ou menos assim: “Quer ver se alguém é seu amigo? Procure-o na dificuldade”. Me surpreendi, pois diferente do que eu apostei, a amizade não passou no “teste”. Não é a primeira e, infelizmente, não será a última vez que sofrerei esse tipo de decepção, e eu sei que não sou a primeira nem serei a última a passar por coisa parecida. Mesmo assim, o coração sente tanto como se fosse.

Em contra partida, um amigo – meio amigo, meio anjo – aparece na porta da minha casa com violetas, bombons, abraços e sorrisos para mim. E nem precisava disso tudo. Bastava saber que ele existe.

Roberta Simoni

Um pouco mais de Kundera…

Milan Kundera(…) No começo do Gênese, está escrito que Deus criou o homem para que ele reine sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus quisesse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou sobre a vaca e o cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo fraterno, mesmo durante as guerras mais sangrentas.

Esse direito nos parece natural porque nós é que estamos no topo da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro se intrometesse no jogo, por exemplo, um visitante vindo de um outro planeta a quem Deus tivesse dito: “Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas”, para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado a uma carroça por um marciano, eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via Láctea, talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato e pediria (tarde demais) desculpas à vaca.”

(trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera)

Pois é, pois é… não é à toa que eu “pago um pau” pro Kundera!  E isso é só uma pequena mostra do que é esta arte, que eu gosto de chamar de “Kunderar”, que quanto mais eu conheço, mais eu gosto… e quero mais!

Terminei de ler A Insustentável Leveza do Ser hoje, com muito pesar, já sentindo saudades da companhia do livro, da trama, dos personagens… afe! Eu queria tanto aprender a me apegar menos a tudo: pessoas, bichos, lugares, cheiros, gostos, passados, palavras, lembranças…

Mas como esperar desapego de uma criatura que se afeiçoa até com personagens fictícios…?

Roberta Simoni

Eu, minha mala e “ela”.

Perder-se

É quando eu penso que ela não virá tão cedo que ela chega sorrateira, de mansinho, no meio da madrugada, prendendo a respiração, andando na ponta dos pés, com os passos lentos como os de um astronauta em solo lunar.

Tanto esforço em vão. Eu já estou acordada. Sou amiga da madrugada, temos um caso e somos fiéis amantes. É com ela que eu penso na morte da bezerra – e na minha própria – contamos carneirinhos, vaquinhas e a fauna inteira, esperando o sono chegar, mas quem chega é ela. E chega sem avisar.

Patética de tão dissimulada com seus passos de astronauta tentando não me acordar. Eu acho até graça, mas não sorrio pra ela. E ela sabe o porquê. Paro de pensar na bezerra, na morte dela, na minha, nas vacas, nos carneiros, e penso agora no astronauta que nunca foi à Lua e até hoje se faz acreditar ter passado por lá. Ai ai… como somos tolos. Acreditamos no que queremos acreditar…

Ela também tem o direito de acreditar que pode entrar aqui sem que eu consiga notar. Deixa… deixa ela achar que não está fazendo barulho nenhum com seus passos desastrados e pesados, com sua respiração profunda e cansada. Me deixa também… deixa eu fingir que não a vi chegar. Ela vai fingir que acredita por alguns dias, até tomar coragem de me enfrentar. Ganho algum tempo inerte até lá.

Lá no fundo, eu sei… uma pequena fração de mim gosta de vê-la chegar e sente até saudade quando ela demora para voltar, enquanto todas as minhas outras milhares de particulas começam a se repelir só de ouvir falar o nome dela outra vez: MUDANÇA!

Passo dias e dias sem lhe dirigir a palavra. Ela, educada, me corteja, abre caminho para que eu possa passar, me leva até à porta de casa quando vou sair, e quando volto, ela está lá, me esperando com um sorriso irritantemente largo. Me lança um olhar desafiador e começa a apelar: ocupa o meu lugar preferido no sofá, se coloca à frente da tevê, deita na minha cama, me empurra durante a noite. Por fim, começa a me incomodar.

E eu sei que ela só vai embora quando eu mudar. Então eu me mudo… mudo de casa, de bairro, de cidade, de país, de planeta. Ela vem comigo, fiel. E garante que só vai embora depois que eu também mudar.

Eu, cansada, carregando uma mala pesada numa das mãos. Sem rumo, sem estrada e sem calçados nos pés, caminho descalça na chuva outra vez. Na outra mão, a mão dela, entrelaçada à minha. Seguimos de mãos dadas, esperando o tempo mudar, e esperamos que eu mude junto com o tempo. Para melhor. Sempre.

Roberta Simoni

Meu adorável manicômio…

Patch Adams

Essa noite eu tive um sonho. Sonhei que estava internada num manicômio. Não era um sonho sem pé nem cabeça como tantos outros. Ele tinha sentido, e tinha ordem cronológica, eu só não consegui registrar tudo, mas quase.

Eu me dei conta de que estava dentro de um hospício enquanto andava pelos corredores, e via os loucos. Uns riam, outros gritavam, alguns vestiam roupa de carnaval, se “travestiam”, outros usavam máscaras de palhaços e alguns tentavam assustar as pessoas quando elas passavam.

No começo eu senti medo. Depois me lembro de também vestir fantasias. Eu ria, junto de outras pessoas, que se arrumavam comigo num lugar que parecia a coxia de algum teatro. E então, eu finalmente percebia que eu era só mais uma louca no meio de tantos loucos. E nem por isso me sentia triste. Pelo contrário…

Mais tarde eu me via de novo naqueles corredores e, à minha frente, uma menina andava apavorada, com medo dos loucos, como eu também já tinha sentido. Eu passava a frente dela e mostrava que não havia o que temer. Andei de um lado para o outro, subi e desci e escadas e terminei numa fila onde algumas pessoas seguravam malas, fechavam contas e efetuavam pagamentos. E eu também estava ali pra isso.

Nesta fila, eu encontrava alguns amigos. Conversando com um deles, descobri que estávamos partindo, pois o tratamento havia terminado e nos deram alta. Acabei descobrindo também que eu mesma havia me internado por conta própria.

Me lembro de olhar ao redor e ver aquele bando de malucos, alguns com o semblante triste, mas a maioria, no entanto, vivendo em plena euforia, como se seguissem um bloco de carnaval. Eu olhava para todos com ternura, e nenhum deles me assustava mais. Lembro de só sentir um medo: o de ir embora e voltar para o mundo lá fora.

Acordei com saudade do manicômio e tentando entender o que me levou a me internar por livre e espontânea vontade lá. Ainda não entendi, mas certamente esse foi o sonho que mais fez sentido pra mim nos últimos tempos. Lembrei do Patch Adams, por isso, escolhi essa foto para colocar no texto de hoje…

Nunca me considerei uma pessoa centrada, que vive dentro da normalidade. E lucidez nunca foi o meu forte, eu sei. Mas vejo tanta loucura acontecendo no mundo, tanto maluco solto por aí fazendo atrocidades que chego até a me sentir normal – dentro do possível.

Só que o conceito de normalidade é algo muito complexo e íntimo. Assim como o conceito de loucura é absolutamente pessoal. O que é normal pra mim, pode ser uma loucura inaceitável para você, e vice-versa. Mas isso é papo pra outro dia…

Por ora eu sei que quando me sinto normal, me sinto chata. Afinal, é chato ser normal.

Depois desse sonho, duas coisas não me saem da cabeça:

A primeira é que o mundo talvez seja, na verdade, um grande hospício, e a segunda é que talvez isso nem tenha sido só um sonho, mas, uma lembrança de alguma vida passada… e aí tudo passa a fazer sentido.

Bom, essa maluca que vos fala não poderia terminar esse post sem a participação de outro maluco: Raulzito… esse que não foi só mais um doido, mas o Maluco Beleza mais adorável de todos!

Roberta Simoni

Ruas de Outono

Outono

Andei sumida, eu sei… juntou viagem no feriado, com carro quebrado na estrada, no meio da madrugada – e no meio do nada – , debaixo de muita chuva e frio. Eu e minhas roupas ensopadas tentando empurrar o carro, depois congeladas e cheias de lama, esperando o reboque chegar, batendo o queixo.

É claro que não podia dar em outra: voltei completamente “gribada”. O que eu não contava era receber aquela visita mensal uma semana antes do esperado. Já não basta ser desagradável, ela também faz questão de ser inconveniente, porque nunca vem sozinha, está sempre acompanhada de muita cólica e um tiquinho de mau-humor… um tiquinho só, claro!

E esse frio que tem feito? Gente… carioca não está acostumado a sentir frio de verdade, não! Carioca nem sabe o que é inverno direito, e sabe menos ainda o que é inverno em pleno outono! Apesar de gostar mais do verão, eu não desgosto do inverno ou, pelo menos, não desgostava. Confesso que ultimamente não tenho curtido, só faço espirrar da hora que levanto até a hora que vou dormir. E tenho tido tempo demais para sentir frio e pensar…

E eu tenho pensado muito nesses tempos frios, tanto que talvez os meus pensamentos estejam tão gelados a ponto de resfriarem não só a mim, mas ao meu coração. Não é só o corpo que nunca se sente suficientemente aquecido, independente da quantidade de pano que eu vista, o coração também anda precisando de um aquecimento mais eficaz.

Nessa época do ano eu ando pelas ruas mais distraída do que o normal, observando o alto das árvores com enormes galhos vazios e as calçadas que mais parecem um tapete de folhas secas. Acho lindo. O outono tem uma tristeza poética que me fascina: o céu melancólico, com seus tons de cinza, sem a companhia das graciosas nuvens, soprando um vento frio, espalhando folhas mortas pelas ruas, despindo os galhos das árvores, assoviando o silêncio…

Mas eu, graveto que sou, sinto falta das minhas folhas verdes, das minhas flores coloridas. Elas que me aqueceram e me enfeitaram durante todas as outras estações, agora estão caídas pelo chão, esperando o vento frio assoprá-las para longe de mim. Eu, nostálgica que sou, queria poder me desgrudar dessa árvore e resgatar as folhas de volta pra mim, mesmo secas, mesmo mortas. Eu, medrosa que sou, queria me esconder do frio atrás delas como fazia antes. E eu, esquecida que também sou, preciso do outono para me fazer lembrar que as folhas não são eternas, e que precisam morrer para dar lugar às folhas novas.

O outono tem a difícil tarefa de “limpar a casa”. Ele sai varrendo tudo, jogando tudo fora, deixando a casa vazia e tão espaçosa a ponto de sobrar espaço para a solidão. Pega as flores que marcharam e as folhas ressecadas que ainda estavam presas ao galho, e arranca uma por uma. E os galhos sentem, lamentam porque já estavam apegados, mas sobrevivem… mesmo no frio.

Eu venho preparando meus galhos para uma nova folhagem, o frio é só uma parte desse processo… e é nas “ruas de outono que os meus passos vão ficar…”

Roberta Simoni

Aquilo que se eterniza

Fotos

Antigas fotografias que nunca ficam antigas. Sorrisos de olhos fechadinhos de tanta alegria. Saudade do abraço apertado que a fotografia registrou, do cheiro e da sensação que a memória gravou. Saudade da calça tamanho 36 que agora só fica bem na foto antiga. Do cabelo curto de menina. Dos amigos que passaram e dos que ficaram. Da paixão que um verão trouxe e do amor que um inverno levou.

Saudade da infância de pés descalços, sem camisa, do cabelo “joãozinho”, das brincadeiras na rua, das primeiras descobertas, das sensações nunca esquecidas. Saudade até da parte da infância que não lembro ter vivido. Saudade da bisavó que eu desejei ter conhecido além do que vi numa fotografia em preto e branco.

Saudade das fotos que não tirei, dos momentos que não registrei através de imagens congeladas na geladeira do tempo, mas que o cérebro fez questão de arquivar… Dá uma saudade, sabe? Saudade dos lugares que ainda não conheci, dos amigos que ainda não fiz, do beijo que não foi roubado, da primavera que ainda não chegou.

Mais saudade ainda do que existiu e foi tão bom que se eternizou. Das fases, das descobertas, das “Robertas” que fui, da criança, da menina, da mulher. Daquela pessoa estranha, da pessoa que ainda reconheço, da minha versão que ficou esquecida. Das tantas caras que tive, das caretas que fiz, dos sorrisos que dei, dos estilos que tive, das bandas que fui fã, das músicas que ouvi, dos sonhos que realizei e dos que ficaram esquecidos no fundo de alguma gaveta.

Hoje eu perdi a conta da quantidade de horas que passei vendo e revendo fotografias, das mais novas até as mais “jurássicas”. Ri sozinha, gargalhei, chorei, me espantei, me encantei, me espelhei… ouvi sonoras gargalhadas na foto tirada numa roda de amigos. Senti a brisa do mar, escutei o barulho das ondas, senti meus pés tocando a areia molhada. Assisti o sol nascendo. Senti o sol me aquecendo antes de se pôr no horizonte da fotografia. Ouvi o estalo do beijo na bochecha, o barulhinho gostoso dos copos se chocando na hora do brinde. Os abraços que duraram só alguns segudos, mas que eu ainda posso sentir…

Roberta Simoni

O copo hoje está meio vazio.

Copo

Eu acho tão, tão, tão, mas tãããão legal ver que uma pessoa é otimista 100% do tempo. Mesmo, de coração. Admiro de verdade. Mas, por favor, não espere que eu seja também, porque isso está muito além das minhas limitações humanas.

Ok. Admito. Não estou num dos meus melhores dias, muito menos no dia mais otimista, e quando estou nesses dias, preciso ser extremamente estrategista. Número 1: procuro estar em contato com o menor número de pessoas possível. Número 2: se me perguntarem se estou bem, eu minto e digo que sim. Número 3: se me conhecerem bem e souberem que estou mentindo, evito falar sobre o que me aflige. Número 4: quando não consigo evitar de falar sobre o assunto, ou, se preciso desabafar, escolho aquele amigo com a porcentagem mais razoável de otimismo.

Eu já caí na besteira de conversar com “otimistas extremistas” em dias assim, e já cheguei a seguinte conclusão: eles não respeitam a falta de fé referente a nada. Não importa sobre o que seja a sua percepção pessimista, é inaceitável. Independente de ser um raciocínio coerente ou só um desabafo, é inadmissível ter uma opinião negativa, mesmo se esta for totalmente realista.

Sim, dias melhores virão. Pode ser só uma fase mesmo. De tudo é possível tirar alguma coisa positiva, mesmo que seja um aprendizado. Acreditar, ter esperança e fé é essencial. Não há mal que dure para sempre. Mas também não existe felicidade eterna.

E é por não existir felicidade eterna e plena que todo mundo tem o direito de esbravejar de vez em quando, de ficar chateado e descrente, de perder as esperanças de vista em algum momento da vida. E isso também não é compreensível, e merece respeito?

Eu ando colecionando frustrações, mas não são delas que me refiro. Conquistas e frustrações pessoais fazem parte do processo na vida de qualquer pessoa. Hoje eu estou exaurida, como se pudesse sentir o peso do mundo nas minhas costas, depois de um dia inteiro de notícias ruins, de conclusões drásticas e de ser testemunha de desgraças alheias. Caramba, o que está havendo com o mundo?

 Ufa! Como pesa existir!!!

Em dias assim, frases prontas de otimismo não fazem efeito algum, por mais que eu tenha conhecimento da veracidade delas, me causam apenas uma reação: irritação. Por isso, as estratégias se fazem tão necessárias nessas horas.

É o melhor para todos, “cada um no seu quadrado”, sem interferir no pensamento positivo alheio, ou na falta dele. E eu sigo duvidando do otimismo e pessimismo enquanto estados permanentes de humor. Às vezes você está, às vezes, não está. Ser ou não ser pessimista ou otimista requer um equilíbrio que raríssimas pessoas são capazes de alcançar.

E não, eu não perdi as esperanças no melhor. E mesmo quando o mundo resolve cair de uma vez só na minha cabeça, eu não fico esperando pelo pior. Só me sinto no direito de, por alguns instantes, emburrar a cara para o otimismo. Mas não demora nada e a gente faz as pazes…

Um copo com água pela metade, para você, está meio cheio, ou meio vazio? Dependendo da sua resposta, você pode estar pessimista ou otimista. Pra mim, o copo hoje está pela metade – mais para vazio.

Mas estou com sede, e bebo tudo…

Pessimismo x Otimismo

Roberta Simoni

Quem vai ficar com Margot?

Margot

Dizem que errar é humano e que cometer o mesmo erro duas vezes é burrice. Pois bem, considerando que eu estou cometendo o mesmo erro pela milésima vez, já posso ver as minhas orelhas de jumenta, e já consigo até relinchar.

Já era noite, fazia um frio do cão e o meu corpo implorava por movimentação, levei as minhas pernas para passear, o vento gelado adormeceu meus pés e congelou meu nariz. Depois de uma hora de caminhada, já sem conseguir sentir praticamente nenhum membro do corpo, fazendo o caminho de volta para casa, dei de cara com uma gatinha de rua determinada a conquistar a simpatia de algum desses humanos de coração mole que falam “axim” com qualquer bichinho peludo que saiba latir ou miar, e tratam deles como se fossem eternos bebês, dão comida farta, água fresca, um teto e uma cama quentinha.

O humano de coração mole em questão? Eu. Apaxionada por animais desde que me entendo por gente, especialmente carente de companhia canina e felina nos últimos tempos e defensora dos “pets marginalizados”. Não sei se gato tem o faro tão bom quanto o faro canino, mas ela foi certeira. Saí de casa sozinha e voltei acompanhada.

E agora? “E agora, José?”

E quando o André chegar? Será que vai me botar para dormir na rua com a gatinha? – Pensei. Mas, estava frio demais e ele ficou sensibilizado. Eu não tiraria a razão dele caso fizesse isso, afinal, moramos num apartamento pequeno, sempre precisamos viajar e ele é alérgico. Mas, felizmente, trata-se de um homem de bom coração.

Agora estou com a Margot, gastando o que nem tenho para gastar,  espalhando anúncios pelos petshops da vida e falando com Deus e o mundo, tentando encontrar um lar pra ela. E a única alma boa que se interessou em adotar a felina vira-latinha (latinha porque ela é filhotinha) mora a 500Km de distância de mim, e não tenho como levá-la até lá, pelo menos não tão cedo.

Enquanto isso, durmo e acordo preocupada, pensando no destino da Margozita, enquanto ela escala –  e desfia inteira – a cortina novinha da minha sala e escuto o André espirrando sem parar, coitado. Ou seja, para ajudar essa bolinha de pêlos manhosa, me trumbiquei toda.

Ahhhhh, mas ela é uma graça, olha só:

   Margot de Lacinho               Margot Controle        

Será que um dia eu aprendo?

Roberta Simoni

Rotina

olhosvendados

No começo você reclama de ter que acordar tão cedo, depois se acostuma tanto que, quando pode acordar tarde, não consegue. Se acostuma a fazer o mesmo caminho todos os dias, passa pelas mesmas ruas e vê as mesmas pessoas, um dia você resolve mudar a rota, e aí, se perde. Acostuma o seu organismo com o mesmo tipo de tempero e quando prova outros sabores, ele rejeita. Adapta seu corpo ao calor, e ele não resiste ao frio, e vice-versa.

Dorme todos os dias ao lado da mesma pessoa, e já não adora tanto o corpo dela, nem o cheiro. Faz sexo com ela há tantos anos que já nem lembra que um dia achou aquele o melhor sexo do mundo. Já não se encanta com o sorriso dela, nem com a boca. Não acha mais tão fantástico ter alguém para dividir a vida, porque a rotina já fez você esquecer de como se sentia triste sozinho.

… Ela traiu todos os homens com quem se relacionou, mas sempre se defendeu com inúmeras justificativas, até que… encontra aquele cara, aquele que tem tudo que ela sempre procurou nos outros, e se sente completa pela primeira vez. Mesmo assim não consegue deixar de sair com outros homens, e então, ela descobre que trai por rotina.

De repente, ele conhece aquela que parece ser a mulher de sua vida, mas já se adaptou a viver sozinho e não permite que ninguém mais entre em sua vida, tampouco que ocupe algum espaço nela. A rotina de uma vida solitária o fez perder uma companheira em potencial.

Durante toda a vida só passaram homens pela vida dela que a fizeram sofrer, até que ela conhece um bom homem, que a faz sentir amada e valorizada, e então, ela decide terminar com ele. Nesse momento ela descobre que se acostumou a ser a vítima, e que não sabe viver o outro lado da relação.

Na maioria das vezes, nós crescemos rodeados da família, nos acostumamos a ter um pai, uma mãe, irmãos, avós e parentes em geral. Mas enfrentamos tantos problemas e conflitos da rotina do dia-a-dia com eles que, frequentemente, precisamos ser lembrados do quão são preciosas aquelas pessoas.

A rotina usa venda nos olhos, ela não precisa enxergar, faz tudo mecânica e automaticamente. É metódica, antiquada e controladora. Nada que aconteça fora do planejado a agrada. Ela gosta da repetição e da mesmice. Tudo sempre do mesmo jeito, da mesma forma, na mesma hora, no mesmo lugar, com o mesmo sabor.

Por mais que a rotina seja chata, é difícil se livrar dela. Às vezes, ela pode ser até necessária, mas quase sempre é inoportuna. Ela se impõe, gosta de ludibriar e consegue como ninguém ocultar a beleza das coisas.

Por isso, muito cuidado: a rotina consegue vendar seus olhos sem que você perceba. Quando você se dá conta, já está parcial ou completamente cego.

Roberta Simoni