Um pouco mais de Kundera…

Milan Kundera(…) No começo do Gênese, está escrito que Deus criou o homem para que ele reine sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus quisesse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou sobre a vaca e o cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo fraterno, mesmo durante as guerras mais sangrentas.

Esse direito nos parece natural porque nós é que estamos no topo da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro se intrometesse no jogo, por exemplo, um visitante vindo de um outro planeta a quem Deus tivesse dito: “Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas”, para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado a uma carroça por um marciano, eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via Láctea, talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato e pediria (tarde demais) desculpas à vaca.”

(trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera)

Pois é, pois é… não é à toa que eu “pago um pau” pro Kundera!  E isso é só uma pequena mostra do que é esta arte, que eu gosto de chamar de “Kunderar”, que quanto mais eu conheço, mais eu gosto… e quero mais!

Terminei de ler A Insustentável Leveza do Ser hoje, com muito pesar, já sentindo saudades da companhia do livro, da trama, dos personagens… afe! Eu queria tanto aprender a me apegar menos a tudo: pessoas, bichos, lugares, cheiros, gostos, passados, palavras, lembranças…

Mas como esperar desapego de uma criatura que se afeiçoa até com personagens fictícios…?

Roberta Simoni