A florzinha de cabelo

Frôzinha

Ontem eu passei numa loja, vi aquelas florezinhas que você gosta de usar nos cabelos e lembrei tanto de você, aí deu uma saudade sua… – ela me disse, docemente.

Achei tão meigo e carregado de sinceridade, mesmo sendo aparentemente tão simples, afinal, era só um enfeite de cabelo que remeteu uma lembrança a minha pessoa.

Tenho essa mania de achar significado e sentido para tudo. É que eu acho mesmo tudo tão simbólico, e, por mais que pareça bobo, me emociona. Considerando que eu sou um pouco (bastante???) boba, isso faz até algum sentido, não é?!?

Apesar de não ser intencional, eu gosto de saber que deixei algum registro, alguma marquinha na vida das pessoas, por mais insignificante que possa parecer, como a florzinha de cabelo: entre tantas coisas que minha amiga podia ter pensado ao ver o enfeite, tantas pessoas que podia se lembrar… pensou em mim. Durante um dia de horas corridas e concorridas, eu me enfiei lá, intrusa, no meio dos pensamentos dela.

Mas foi só um enfeite de cabelo, Beta !!!

Ora… foi um enfeite, como poderia ter sido uma música, uma frase, um filme, um livro, um cachorrinho de rua, um cheiro, uma cor, um sabor, como foram tantas vezes com tantas outras pessoas, que me emocionaram na mesma proporção. Não é necessariamente o “objeto” da lembrança, mas a recordação em si.

É por isso que as nossas referências são um caso sério. Se elas fazem alusão a nós, é melhor que sejam boas. Já imaginou ser referente à um cheiro desagradável, um episódio ruim, uma música brega ou uma roupa de mau gosto? Para quem lembra de você, deve ser – no máximo – engraçado. Pra você, talvez, nem tanto.

O mais interessante é que nós registramos as características de várias pessoas, cada qual de uma maneira diferente, na nossa memória. E elas fazem o mesmo conosco.

O mesmo amigo que me falou animado, que ouviu uma música liiiiinda e instantaneamente se lembrou de mim, ao me encontrar usando um desses meus “frufus” no cabelo, dias atrás, confessou que me acha tão fora de moda e com aparência envelhecida quanto estou com esses “troços” no cabelo. Eu achei tanta graça, e na mesma hora pensei: que bom que a memória dele não busca a minha imagem ao ver as “frôzinhas” por aí. Neste caso, acho que a música deve me representar melhor mesmo. 😀

Especial mesmo é ser lembrado. Não me importo que seja pelo jardim ambulante que carrego na cabeça, pela minha risada escandalosa, pelas palavras que eu destilo, pelas gafes que eu cometo, pelo perfume que deixo ao passar, ou pela melodia que gosto de escutar incansavelmente… desde que, qualquer que seja a lembrança que se remeta a mim, cause um único efeito: aquele sorriso gostoso e manso que surge inesperadamente no canto da boca!

Roberta Simoni

Contagem Regressiva

Tempo

Estamos sempre contando. Dinheiro, tempo ou vida. Seja para fazer contas, compras ou aniversários.

Embora eu me relacione melhor com as palavras do que com os números, eles não me causam mais tantas dores de cabeça desde a época do colegial. Não porque deixaram de ser importantes, mas porque sou eu quem decido como usá-los desde então, e fórmulas matemáticas, definitivamente, não são o meu forte. Além do mais, não preciso mais usar a calculadora escondida…

Eu conto quantas moedas faltam para inteirar o valor da passagem do ônibus; as quantidade de compras que fiz com o cartão de crédito pra não levar um susto no mês seguinte; a quantidade de anos de vida que eu tenho; a quantidade de tempo que não vou a um lugar especial ou que não vejo uma pessoa querida. Esse último me ajuda a tornar urgente as coisas que são verdadeiramente essenciais.

Mas, contar o tempo que ainda falta me parece enlouquecedor. Contagens regressivas me dão a sensação de que estou tornando o tempo mais lento e arrastando as horas. Me sinto como um presidiário riscando um dia a menos na parede da cela, com aquele peso enorme preso à uma das pernas. O peso é nada mais, nada menos que ela: a ansiedade. Sempre ela.

Por isso eu não conto, não conto os dias que faltam para chegar a primavera, as horas que faltam para um dia ruim terminar, os minutos que duram uma música boa, ou uma dança. Muito menos quanto tempo ainda falta para eu te beijar outra vez. Deixo que venha e me beije, ou que se deixe ser beijado por mim.

Só arrumo as malas pouco antes de viajar, e, é claro que esqueço um bocado de coisas em casa, mas não levo mais ansiedades e expectativas na bagagem. Elas sempre ocupam um espaço valioso, que poderia ser ocupado por aquela calça jeans bacana…

Deixo a porta sempre aberta, e espero – sem esperar – a felicidade chegar de sopetão. A alegria inundar a sala com o sol da manhã, a brisa suave do amor acariciar minha face e o vento da paixão despentear completamente o meu cabelo.

As alegrias são como o sol, as brisas, as chuvas e os ventos. Simplesmente não marcam data para chegar, então, pra quê contar o tempo?

Roberta Simoni

Ano novo. Idade nova.

Meu Aniversário

Do meu pai puxei o gênio. Da minha mãe, a coragem. Dos dois eu puxei defeitos. Puxei também algumas qualidades. Características físicas não tenho muitas de ambos, mas as rugas que formam ao redor dos meus olhos entregam que sou mesmo filha de Beth.

Tudo bem que minha irmã dizia que eu era adotiva quando ficava brava comigo. E eu acreditava. Mas não tem como negar que meus olhos e os da minha mãe são idênticos quando estão sorrindo, e que eu sou uma versão atualizada do meu pai, mas nem tããão atualizada assim, e, além de tudo, outro dia percebi que a minha gargalhada é idêntica a da minha irmã que, por sinal, eu sempre achei engraçadíssima.

Sou rascunho de um, esboço de outro… sou sequência, sou versão e até repetição de outros sob alguns aspectos, mas sou única. E o peso da responsabilidade que existe ao se ter plena noção disso? Com 1/4 de século de vida, também pudera, né?

Sabe-se lá quantas outras pessoas também estão fazendo aniversário hoje por esse mundão afora? Eu mesma conheço mais umas três além de mim. Ainda assim, me permito dizer que hoje é o meu dia! Meu e de um monte de gente, eu sei… mesmo assim, o peso da responsabilidade de ser “única” continua, eu diria até que, hoje – especialmente hoje – pesa mais um tiquinho…

Cada abraço, cada sorriso, cada desejo de felicidade, cada telefonema, cada palavra escrita ou falada, cada gesto de carinho, cada lembrança daqueles que me dão os sinceros “parabéns” por mais este aniversário, reforçam um pensamento: parabéns pelo quê?

Por fazer parte de suas vidas, por amá-los, por permitir ser amada… por existir? A gente não escolhe existir, ou escolhe? Se escolhe, essa consciência se perde em algum lugar antes de chegarmos aqui… bom, de todo jeito, se eu escolhi, espero ter escolhido também fazer a diferença na vida de alguém, caso contrário, ser parabenizada perde um pouco do sentido.

Pensando bem, acho que mereço mesmo os parabéns, não por mim, mas pela sorte que tive por ter nascido na família que eu nasci, por ser fruto do amor de um casal iluminado que nunca me poupou educação, orientação, cuidado e amor, por ter ganhado uma irmã que é uma verdadeira amiga, e por ter escolhido amigos que são verdadeiros irmãos. Por ter a chance de ter gente tão especial participando da minha vida (isso inclui muitos de vocês que me lêem).

E aí, quando eu penso nisso, o peso do privilégio fica maior ainda (será que mereço tanto?). Talvez seja por isso que fazer aniversário costumava me doer tanto até agora. Só até agora! Sim, porque existir dói, e ser lembrado disso, mexia na ferida, sabe? Mas acho que a idade, aliada a maturidade, finalmente começam a tornar as coisas mais leves e sóbrias. É verdade que eu tenho sentido que outras coisas estão amadurecendo também, mas deixa isso pra lá, hoje não é dia de falar de seios e bumbum caindo…

Esse ano não estou apenas comemorando mais um aniversário, comemoro a dor que começa a ceder com o peso, a vida que se deixa renovar mais uma vez, o novo ano que acaba de começar para mim, a nova estória que estou começando a escrever, a nova Beta que já vejo nascer, que apesar de jovem, se sente cansada com o tal peso da existência, mas com uma carga de emoção que muita gente experiente certamente desconhece.

Comemoro as tantas vidas que já vivi nessa única vida, afinal, toda essa urgência de viver não me proporciona apenas esse peso insustentável, mas a leveza de existir plenamente e com totalidade. Coisa que só quem vive com intensidade é capaz de entender…

Roberta Simoni

Caminhando ou divagando?

Caminhando Só

Eu finalmente me determinei a fazer caminhadas diárias. Determinação é uma característica que possuo e, ao mesmo tempo, não possuo. Sou determinada para fazer certas coisas que eu “duvide-ó-dó” que um bocado de gente faria, em contrapartida, admiro a determinação das pessoas para coisas aparentemente simples, mas que exigem – pelo menos de mim – um esforço descomunal.

Ter uma alimentação balanceada, fazer exercícios físicos, dormir cedo (leia-se, pelo menos, antes das 2h) e seguir uma rotina de horários e obrigações, sempre exigiram de mim uma força de vontade que acaba se esvaindo rapidamente. Determinação zero.

Na verdade, eu protelo, protelo, mas toda vez que começo a fazer caminhadas me sinto muito bem física e psicologicamente. Sempre arrumo algum foco para distrair o meu cérebro e acabo não sentindo o tempo passar, dando pouca importância para o cansaço físico.

Hoje, durante a minha caminhada, passei por diversas casas, mas o que me chamou a atenção desta vez não foi a arquitetura delas, o jardim ou os cachorros (desculpem-me, mas é inevitável observar aquilo que se gosta tanto…), o que me despertou interesse foram os moradores.

Era possível ouvir as risadas da esquina, mas só quando passei em frente à casa é que me certifiquei que se tratava do aniversário de alguma criança. Senti o cheiro do guaraná que elas tomavam, e me lembrei de como eram doces as festinhas de aniversário que os meus pais preparavam para mim.

Na casa ao lado, dois idosos estavam sentados na varanda, eles bebiam alguma coisa, e a mulher falava muito alto com o homem. Não sei se a velha estava bêbada, ou se precisava mesmo gritar para que o velho pudesse escutá-la. Vai ver ele era meio surdo… ou ela. Ou os dois.

Um pouco mais a frente, um casal de namorados discutia na porta de casa e, no final da rua, adolescentes ouviam música enquanto mexiam no som do carro, parado na porta de casa. Eles estavam num ânimo que não lembro sentir desde… desde… bom, desde a adolescência, provavelmente.

O interessante foi ver como na mesma rua tantas gerações e estilos diferentes de vida dividem espaço e vivem, cada um, sua rotina ao mesmo tempo. É também o que acontece com os condomínios e os apartamentos dos prédios: muitas vezes apenas uma parede divide vidas absolutamente opostas, só uma parede. Cimento e tijolos, nada mais.

Lembrei dos tempos em que morei em pensionatos e repúblicas da vida… lá nem existiam paredes para separar tantas rotinas diferentes, um quarto era capaz de suportar todas.

Pensar na minha privacidade e individualidade invadidas ou preservadas só por cimento e tijolos me deixou um tanto tensa, e foi inevitável pensar que todos nós vivemos em casulos e ninhos, exatamente como vivem os insetos e os bichos. Quanto mais eu tento identificar diferenças entre nós e eles, encontro mais semelhanças, impressionante!

Acredito que eles – ou a maior parte deles – não tenha esse tipo de consciência que estou tendo agora, e isso torna insuportavelmente irresistível um pensamento: é bem provável que nós também não tenhamos consciência das formas de vidas que existem por aí, mas nada impede que eles tenham consciência da nossa existência. Assim como observamos os insetos e os microorganismos (que consideramos irracionais), eles devem nos observar.

Por mais que vivamos organizados em paredes, casas, ruas, bairros, cidades, países e continentes, é tentador pensar que talvez também sejamos considerados seres irracionais para um outro tipo de espécie, da qual não fomos programados para entender, tampouco ter conhecimento.

Já pensaram nisso?

Ok. Parei. Mas juro que não fumei nada, nem cheirei, nem ingeri, nem apliquei.

Concordam que caminhar não deve se tornar uma rotina na minha vida? É pelo bem geral, estou avisando. 😉

Roberta Simoni

Por favor, consumam-me com moderação!

Consumir

Eu sou uma exímia consumidora, quase sempre… algumas vezes – confesso – eu dou uma de “joão sem braço” e compro mais do que, de fato, preciso. Tipo aquela blusinha vermelha liiiinda de frio que eu estou precisando tanto e que está suuuuuuper baratinha naquela loja que eu adóóóóóro, que acaba indo para a sacola acompanhada daquela outra camisetinha azul que está uma graça e com um preço imperdível.

Mas esse é o meu limite de extravagância: precisar da blusa de frio vermelha e acabar levando a camisetinha azul para casa também. Mesmo assim, antes de comprar eu faço as contas e vejo se vai dar para pagar. Se der, eu me permito, se não, é só sentar e esperar a vontade passar.

Fora os chocolates – que consumo de maneira desregrada quase sempre – e esses pequenos deslizes esporádicos, sou uma consumidora exemplar. Por isso, gostaria de ser consumida da mesma maneira. Seja por pessoas, tarefas ou, principalmente, por sentimentos. Eu explico:

Sabe aquelas pessoas que te sugam com um canudo como se você fosse a última gota de coca-cola da latinha? Pois então, essas pessoas são capazes de fazer isso de maneiras adversas: algumas sugam a sua energia só pelo simples fato de existirem, outras por falarem demais, por cobrarem demais ou por fazerem de menos. Ainda existem aquelas que abusam da sua boa vontade e te sugam por todos os seus poros, te explorando o quanto podem. Essas são só algumas formas de ser consumido por alguém.

Tarefas que te consomem são aquelas que roubam todo o seu tempo contra a sua vontade e te irritam e estressam profundamente. Mas os sentimentos… ah, esses são mais do que meros consumidores de você, eles são consumistas.

Sentimento brando é carinho, ternura, fé, tranquilidade, serenidade, sobriedade, por exemplo. Esses são sentimentos (ou sensações) que não te tiram de órbita, ao contrário, te colocam no eixo. Mas aí, de repente, você é consumido por uma ansiedade, por um tédio, um ódio ou uma paixão que te sugam e te deixam imune.

E se sua imunidade fica baixa, você inevitavelmente acaba caindo doente. Doente de quê? Você pensa que é febre, virose, resfriado, mas, que nada… você está doente de ansiedade, de amor, de ódio, de tédio, de paixão ou até mesmo de saudade. Sinto lhe informar que a doença física foi apenas a última coisa que você desenvolveu.

Antonella PuglieseEu estou para a ansiedade como o chocolate está para mim. E acho que a ansiedade realmente me venera, adora e me  deseja com urgência, por isso me consome tanto.

A ansiedade faz comigo algo bem parecido que já fiz com o amor: bebi até a última gota, depois ainda virei o copo no alto, na direção da minha boca aberta, com a ponta da língua para fora, na esperança de cair aquela última gotinha que não mata a sede, mas me dá a sensação de não ter desperdiçado nada.

O problema é que, de certa forma, a gente escolhe o que quer consumir, mas não é sempre que dá para escolher o que – ou quem – consome a gente. Mesmo assim, eu insisto aos consumistas: consumam-me com moderação! 😉

Roberta Simoni

Créditos: Foto de  Antonella Pugliese – uma das minhas fotógrafas favoritas.

Hoje eu acordei assim, meio Bossa Nova, sabe?

Música

Eu adoro ouvir a minha mãe cantarolando, não importa a canção, nem o tom. É a voz dela e o efeito que ela causa em mim.

Nessas manhãs em que eu acordo com receio de abrir os olhos e encarar as horas que se seguirão pelo resto do dia, ouví-la cantar tem sido como ouvir o assobio alegre dos pássaros na minha janela numa manhã ensolarada, ainda que a cortina esteja fechada e o quarto esteja escuro e melancólico, cheio de desânimo e preguiça, feixes de luz conseguem penetrar através da cortina, enquanto os pássaros saúdam o dia, fazendo o meu medo de despertar se dissipar no meio da melodia…

Nesses dias poucas coisas têm feito sentido, mas nenhuma delas têm pouco sentido. Meus sentidos estão todos apurados, os anseios tão inflamados e as feridas tão expostas que tentar camuflagem é puro desperdício de energia, e ludibriar a dor com palavras bonitas e consoladoras não tem nada de poético. Chega a ser patético.

E eu penso na menina de outrora e acho graça porque lembro que sempre fui mesmo muito melancólica, como as manhãs de agora.

Nessas manhãs eu acordo assim, meio “Bossa Nova”, sabe? Ouvindo Bebel Gilberto precisando dizer que te ama, vendo o barquinho do Bôscoli deslizando no azul do mar, a garota desfilando na praia de Ipanema do Tom e do Vinícius e fazendo coro com eles, cantando “chega de saudade”…

Contando vil metal como os nossos pais e os da Elis, lembrando de coisas nossas do Noel Rosa e das tardes bucólicas e preguiçosas em Itapuã com Toquinho e Vinícius… e aí dá vontade de pegar aquela velha viola e tocar Bossa Nova, com o perdão dos desafinados de Tom e João Gilberto, para acompanhar as cantorias na voz doce da minha mãe.

Isso, é claro, se eu soubesse tocar violão…

Inspiração

Inspirar-se

Na semana passada dei um pequeno depoimento para um documentário que fala sobre Inspiração. Falo tanto nela, mas nunca havia parado para pensar a respeito. De repente me vi falando: “Inspiração é tudo o que me move e movimenta a minha vida. Se não houver inspiração, não existe sentido. Inspiração, pra mim, é tudo.”

Desde então essa frase ficou ecoando na minha cabeça: “Inspiração, pra mim, é tudo.”… e não é que é mesmo?

O que me inspira? – perguntei e respondi ao mesmo tempo – Coisas simples me inspiram, não preciso de muito. Na verdade, acho que minhas fontes de inspiração vem de coisas que costumam passar batidas na vida de muita gente. Uma ligação inesperada me inspira; uma demonstração de afeto; receber e escrever uma carta de papel à moda antiga, com o cheiro da tinta da caneta me inspira. Lugares, cheiros, lembranças, pessoas… o que mais? … já sei! Comer um pedaço de chocolate no meio de uma dieta me inspira para o resto da semana…

A inspiração está diretamente vinculada a absolutamente tudo o que me dá prazer. Escrever e fotografar, por exemplo. Fico imaginando como seria interessante se outras coisas que preciso fazer constantemente me inspirassem: acordar, estudar, cozinhar, limpar a casa, e várias outras coisas que não consigo lembrar agora, mas, certamente a lista é grande…

Pensando a respeito, eu não sei o que seria da vida de qualquer um de nós sem inspiração. Independente do que nos inspire, seja inspiração visual ou sensorial, não dá para viver sem. Inspirar é mais do que “um método de introduzir o ar atmosférico nos pulmões por meio dos movimentos do tórax”… é fôlego de vida. É tudo o que causa entusiasmo, tudo aquilo que nos impulsiona para frente, que enche o nosso pulmão de ar e o espírito de ânimo, ainda que, às vezes, isso se resuma apenas num pequeno pedaço de chocolate.

Isso me fez lembrar de uma cirurgia de garganta que me submeti alguns anos atrás, que me obrigou a ficar tomando água apenas com aqueles “conta-gotas” durante, pelo menos, uma semana. Eu morria de sede. Lembro perfeitamente do dia em que consegui virar um copo inteiro de água garganta abaixo depois da cirurgia. Foi uma sensação indescritível. Cheguei a me emocionar ao sentir a água invadindo a minha boca feito uma onda e sendo engolida por minha garganta.

E o que isso tem a ver com inspiração? Tudo. Absolutamente tudo.

A inspiração provoca o mesmo tipo de sensação, que te invade, te eleva, te dá prazer e tira os seus pés do chão, ainda que isso pareça a coisa mais corriqueira do mundo para qualquer pessoa, menos para você. Só você sabe, sente e goza daquele prazer exclusivo.

Músicas, melodias, poesias, paladares, aromas, palavras, sentimentos, paisagens também provocam orgasmos. E eu ainda não conheço nada mais inspirador que isso…

E você? O que te inspira?

Roberta Simoni

A alma também precisa beber.

Sede

Hoje eu acordei sem despertar. Ou despertei sem acordar. Simplesmente levantei. Mas levantar não significa – necessariamente – acordar. E apesar de não estar sonâmbula, agi como tal.

Coisa rara é alguma coisa conseguir me tirar da cama durante o meu sono. Normalmente eu vou direto, até o dia seguinte. Mas eu senti uma sede tão grande que minha boca secou.

Fui até a cozinha, abri a geladeira sem conseguir abrir os olhos direito e virei meio litro de água goela abaixo, depois voltei para a cama com a ajuda de todos os meus outros sentidos, menos a visão.

Quando voltei para debaixo das cobertas meus olhos resolveram abrir e decidiram permanecer assim pelas horas seguintes. Sem que eu percebesse, o meu sono deve ter escapado e se escondido dentro da geladeira enquanto eu bebia água, distraída.

Me recusei a ligar a tevê às 3h da manhã. E me determinei a não acender a luz, nem a pegar o livro que estava na cabeceira e ler até o sol nascer. De qualquer forma, vi o dia amanhecer, sem a ajuda do livro ou da tevê. Perturbada de sede!

Mas não era sede de água. Não era o meu corpo pedindo líquido. Era sede na alma mesmo. Percebi que eu ando cuidando tão mal do corpo quanto da alma, que está claramente desidratada.

Era tanta sede para ser sentida àquela altura da madrugada. E tudo o que eu queria era um gole de água, enquanto, na realidade, tudo o que eu precisava era de um gole de várias outras coisas… um gole só!

Um gole de força para hidratar minha coragem. Um gole de calma para saciar minha ansiedade. Um gole de luz para eu enxergar na escuridão. Um gole de energia para motivar o meu corpo. Um gole de paixão para turbinar o meu tesão pela vida. Um gole de paciência para controlar essa ânsia de viver tudo tão intensamente.

Um gole de cada coisa agora, para quando a felicidade chegar, eu me sentir no direito absoluto de beber tudo de uma só vez, sem parar para respirar…

E você?  Anda sentindo sede de quê?

Roberta Simoni