Ano novo. Idade nova.

Meu Aniversário

Do meu pai puxei o gênio. Da minha mãe, a coragem. Dos dois eu puxei defeitos. Puxei também algumas qualidades. Características físicas não tenho muitas de ambos, mas as rugas que formam ao redor dos meus olhos entregam que sou mesmo filha de Beth.

Tudo bem que minha irmã dizia que eu era adotiva quando ficava brava comigo. E eu acreditava. Mas não tem como negar que meus olhos e os da minha mãe são idênticos quando estão sorrindo, e que eu sou uma versão atualizada do meu pai, mas nem tããão atualizada assim, e, além de tudo, outro dia percebi que a minha gargalhada é idêntica a da minha irmã que, por sinal, eu sempre achei engraçadíssima.

Sou rascunho de um, esboço de outro… sou sequência, sou versão e até repetição de outros sob alguns aspectos, mas sou única. E o peso da responsabilidade que existe ao se ter plena noção disso? Com 1/4 de século de vida, também pudera, né?

Sabe-se lá quantas outras pessoas também estão fazendo aniversário hoje por esse mundão afora? Eu mesma conheço mais umas três além de mim. Ainda assim, me permito dizer que hoje é o meu dia! Meu e de um monte de gente, eu sei… mesmo assim, o peso da responsabilidade de ser “única” continua, eu diria até que, hoje – especialmente hoje – pesa mais um tiquinho…

Cada abraço, cada sorriso, cada desejo de felicidade, cada telefonema, cada palavra escrita ou falada, cada gesto de carinho, cada lembrança daqueles que me dão os sinceros “parabéns” por mais este aniversário, reforçam um pensamento: parabéns pelo quê?

Por fazer parte de suas vidas, por amá-los, por permitir ser amada… por existir? A gente não escolhe existir, ou escolhe? Se escolhe, essa consciência se perde em algum lugar antes de chegarmos aqui… bom, de todo jeito, se eu escolhi, espero ter escolhido também fazer a diferença na vida de alguém, caso contrário, ser parabenizada perde um pouco do sentido.

Pensando bem, acho que mereço mesmo os parabéns, não por mim, mas pela sorte que tive por ter nascido na família que eu nasci, por ser fruto do amor de um casal iluminado que nunca me poupou educação, orientação, cuidado e amor, por ter ganhado uma irmã que é uma verdadeira amiga, e por ter escolhido amigos que são verdadeiros irmãos. Por ter a chance de ter gente tão especial participando da minha vida (isso inclui muitos de vocês que me lêem).

E aí, quando eu penso nisso, o peso do privilégio fica maior ainda (será que mereço tanto?). Talvez seja por isso que fazer aniversário costumava me doer tanto até agora. Só até agora! Sim, porque existir dói, e ser lembrado disso, mexia na ferida, sabe? Mas acho que a idade, aliada a maturidade, finalmente começam a tornar as coisas mais leves e sóbrias. É verdade que eu tenho sentido que outras coisas estão amadurecendo também, mas deixa isso pra lá, hoje não é dia de falar de seios e bumbum caindo…

Esse ano não estou apenas comemorando mais um aniversário, comemoro a dor que começa a ceder com o peso, a vida que se deixa renovar mais uma vez, o novo ano que acaba de começar para mim, a nova estória que estou começando a escrever, a nova Beta que já vejo nascer, que apesar de jovem, se sente cansada com o tal peso da existência, mas com uma carga de emoção que muita gente experiente certamente desconhece.

Comemoro as tantas vidas que já vivi nessa única vida, afinal, toda essa urgência de viver não me proporciona apenas esse peso insustentável, mas a leveza de existir plenamente e com totalidade. Coisa que só quem vive com intensidade é capaz de entender…

Roberta Simoni