E o tempo levou…

“O tempo leva um bocado de coisas, mas tem coisas que só o tempo trás.”

Tempo Perdido

Não lembro onde li essa frase, ou talvez eu tenha escutado alguém dizer, de qualquer maneira não recordo sequer quem disse, mas as palavras ficaram guardadas…

Tá bom, tá bom… eu confesso que anotei, pronto! É que tem muita coisa interessante que leio e/ou ouço por aí, mas como nunca tive uma memória confiável, prefiro contar com uma folha de papel e uma caneta, tanto que se eu não tivesse anotado, não teria essa grata surpresa ao abrir o meu velho caderninho de anotações, aliás, esse é um que o tempo ainda não levou, apenas sujou as folhas com tinta de caneta, gastou e envelheceu…

Mais ou menos o mesmo que vem acontecendo comigo, embora isso não seja novidade, já que o tempo passa pra todo mundo (ainda que de maneiras diferentes para cada um). O problema é quando a gente começa a sentir o efeito do tempo, e não estou me referindo só aos fios de cabelos brancos, às rugas ou à saúde que começa a apresentar sintomas de DNA (“Data de Nascimento Avançada”… Afe, que piadinha mais cretina!). Me refiro aos sinais invisíveis.

Quando você é criança, pode contar nos dedos quantas pessoas conheceu que já morreram. Um dia você cresce, e, durante a vida adulta perde a conta de quantas vezes precisou e ainda precisará lidar com a morte, considerando o tempo que lhe será dado de vida.

Me refiro a morte porque não consigo pensar em nada mais doloroso, mas não são só as pessoas que morrem, e não é só a morte que nos faz perder. E, mesmo perdendo, muitas vezes, a gente ganha.

Hoje eu senti falta de tantas das minhas coisas, coisas pequenas que fizeram parte do meu dia-a-dia. Mas eu deveria saber que quando se vive com uma mochila nas costas – carregando, basicamente, minha vida “resumida” dentro – , não se deve apegar à lugares, bens materiais ou costumes, porque se o tempo não os leva, você acaba partindo e deixando-os para trás de qualquer jeito.

Só que às vezes eu acordo assim, melancólica, pensando no que eu tive e não tenho mais, e aí bate uma vontade incontrolável de reviver um monte de coisas, mas já foi, passou… o tempo levou e não vai trazer de volta, e, no fundo, é bom que não traga, porque ele passa ligeiro, corre mais depressa  que o ponteiro que marca os segundos e, por isso mesmo, é tolice viver preso ao passado que, como o próprio nome diz: passou.

Eu falo isso para que eu mesma consiga assimilar e, quando isso funciona, a melancolia se inibe e dá espaço a uma euforia que eu mal consigo conter, uma vontade louca de descobrir o que o tempo vai me trazer desta vez. Aí eu cruzo os dedos feito criança pequena, torcendo para que sejam agradáveis surpresas, mesmo que me rendam futuros dias de nostalgia. Afinal, tudo o que é bom se torna nostálgico.

Roberta Simoni

Temporada das Flores

 Sou Flor

Hoje o dia amanheceu chorando. Ele chora porque se despedir nunca é fácil. E a despedida do inverno não poderia ser de outra forma, senão chuvosa.

Eu aproveitei a chuva e também me despedi, com lágrimas que se misturaram e se perderam propositalmente entre as gotas de chuva que escorriam pelo meu rosto. E era do inverno que eu também me despedia, do frio que fazia lá fora, e aqui dentro… de mim. Porque até os dias frios deixam saudades, ainda que este inverno tenha sido o mais impetuoso que me lembro ter enfrentado. Naqueles dias em que casaco nenhum me aquecia, este inverno me pareceu ainda mais longo e rigoroso. E foi.

Apesar do excesso de chuvas, das nuvens cinzas, do sol que mal aquece – quando aparece -, eu gosto do inverno. Nessa estação que, por algum motivo, eu cheguei ao mundo, o frio aproxima, facilita e sugestiona o calor humano. Mesmo assim, eu esperei ansiosa a chegada da primavera este ano…

E hoje eu decidi: essa será a minha primavera mais linda !!!

Quero flores pela casa, pelas árvores, nas ruas, espalhando pétalas pelo chão do mundo, colorindo a vida. Quero cheiro de jasmim, tulipas nas janelas, sol de girassol, jardins de lírios e delírios, mar de violetas, “copos de leite” pela manhã, rosas vermelhas para eu me apaixonar todos os dias e orquídeas pra me lembrar que apesar de rara e frágil, é também cheia de beleza essa vida.

É ela, a temporada das flores, que me faz querer guardar os agasalhos no fundo do armário, despir a alma mais uma vez, vestir-me de flores, num vestido rodado, bem colorido, de estampa florida e sair por aí, destribuindo cor, graça e o meu melhor sorriso. 

E se me colocarem num vaso, serei o enfeite mais orgulhoso do ambiente, ou ainda, se me plantarem num jardim e em mim pousarem, me alegrarei em ser néctar que alimenta e adoça outras vidas…

Ontem eu fui chuva, hoje eu sou flor de primavera.

“Que saudade!
Agora me aguardem
Chegaram as tardes de sol a pino
Pelas ruas flores e amigos
Me encontram vestindo
Meu melhor sorriso.

Eu passei um tempo
Andando no escuro
Procurando não achar as respostas
Eu era a causa e a saída de tudo
E eu cavei como um túnel
Meu caminho de volta.

Me espera, amor
Que eu estou chegando
Depois do inverno
É a vida em cores
Espera, amor
Nossa temporada das flores…”

Roberta Simoni

“Janela de Ônibus” (ou Vida de Nômade).

Talvez seja melhor mudar o nome deste blog para “Onde está a Beta? Procura-se viva ou morta.”. Eu sei, eu sei… tenho ficado tempo demais sem postar e, acreditem: isso dói mais em mim do que em qualquer pessoa.

Falta de inspiração? Não desta vez. Falta tempo então? Também não. Não que esteja sobrando, afinal, tempo é uma coisa que está cada vez mais escassa no mercado, virou artigo de luxo pra todo mundo, mas ainda dá para conciliar. O problema é a minha rotina, ou – mais provavelmente – a falta dela. Meus pés continuam entre as estradas e as nuvens. Serelepes, apressados, errantes, calejados, cansados, porém seguem com passos firmes.

ViajandoSer nômade devia funcionar muito bem na época que não existia internet. Hoje em dia é tarefa árdua… a gente até vive bem sem endereço fixo, sem conforto, sem destino certo, mas ficar sem internet? Aí já é demais…

Que tal trocar “Janela de Cima” por “Na estrada com Beta?”, ou “Janela de Ônibus”? Sugestões serão bem-vindas, caros – e raros – leitores… 😉

Por hora, meus pés nervosos estão tentando ganhar vida própria e voltar para a estrada. Preciso acompanhá-los, senão serei a última a saber onde vão parar. Mas antes, deixo um vídeo que foi produzido para a campanha da marca Olympus, que achei fantástico e vem ao encontro dos meus devaneios sobre a vida…

É interessante e ao mesmo tempo revelador (e até assustador) ver uma vida inteira passando tão depressa, especialmente quando é vista através de antigas fotografias.

Mas o que se há de fazer se é mesmo assim a vida? Breve, depressa e instantânea, como as atuais fotos digitais.

Roberta Simoni

Eu, limão.

Limão

Desculpa, tá? Não me queria mal…

É que hoje eu levantei sem acordar, mal saí da cama e já vesti preguiça. No café da manhã, comi vento com gosto de vazio, pois não senti aquele apetite rotineiro de vida. No almoço, já com fome, comi disposição vencida, que me deixou mal pro resto do dia. Devo ter engolido rápido demais o meu humor. Depois, fiquei com azia.

Além do mais, andei comendo expectativas fora da validade, e aí não houve sobremesa que ajudasse a adoçar as horas seguintes, o açúcar que tinha era pouco pra isso. Depois, o espelho me viu, me provocou e me aborreceu. Ele é bom mesmo nisso!

Mais tarde deu sede, bebi ironia. Dessas ironias de que é feita a vida, sabe? O efeito foi instantâneo, fiquei ranzinza. Tentei um banho, mas ainda me sentia azeda, apesar de limpa. Lembrei de uma receita antiga para melhorar o astral, mas deixei tempo demais no forno e ficou com gosto de alegria solada.

Desavisado, você chegou me provando, mas o meu sabor era amargo como limão. Mesmo assim, não me cuspiu, fingiu que estava bom, e, com um esforço notável, você me engoliu. Achei tão lindo que também resolvi fingir, fiz que não sabia que eu estava intragável e indigesta, e – sem nenhum esforço – sorri o meu primeiro sorriso do dia.

Eu, limão que era, me espremi inteira, me misturei com água, açúcar e gelo, e preparei uma limonada. Ficou gostoso, acabei de tomar. Que tal agora? Quer provar?

Com jeitinho, acho que posso até virar caipirinha. E aí, arrisca experimentar? 😛

Capirinha

Roberta Simoni

Então eu sento e espero.

Espera

Eu sentei e esperei, esperei, esperei e, cansada de esperar, esperei o cansaço passar. Mas a única coisa que passou foi a minha paciência, desfilando na minha frente, provocativa, batendo a mão e dizendo: “bye bye, baby!”.

Aí eu sentei aqui, abri o meu blog e comecei a escrever, para dividir com você que me lê, essa minha urgência de viver. E olha, tenho pressa aqui pra dar e vender!

Sabe o que é cômico? Pensar que temos controle sobre a nossas vidas, enquanto está tudo mudando o tempo todo e somos afetados por outros fatores, pessoas e circunstâncias, e lá vamos nós, levados pela correnteza do rio, que não para de correr…

Mas aí, um dia, o rio se revolta e avisa: hoje não vou correr. E ele simplesmente não sai do lugar.

Mais engraçado ainda é que isso acontece, normalmente, quando a gente deseja muito seguir, descer rio abaixo ou ser levado pelas correntes marítimas, mas a água resolve descansar e não nos resta nada, a não ser esperar.

Se não partir de você a iniciativa de esperar o tempo certo de tudo acontecer, a vida se encarrega disso, e te faz parar de qualquer jeito.

Já tem algum tempo que as águas onde eu nado ficaram calmas, mansinhas, mansinhas… e eu lá, ainda me debatendo para não afogar, como se estivesse lutando contra uma correnteza feroz. Só que, na verdade, eu luto contra a ordem natural das coisas.

Então, só por isso, pelo menos nos próximos instantes eu não vou me debater, não vou desperdiçar energias, nem tentar enfrentar a força da minha própria natureza, já que é só esta que hesita em descansar. Vou ficar sentadinha aqui, imóvel, quieta, apreciando a beleza que a calmaria é capaz de revelar.

Vem comigo?

Roberta Simoni

Qual a face da paixão?

Face de Mulher

Que dias felizes eram aqueles. Naquelas tardes preguiçosas de fim de inverno, com a primavera começando a florescer nos corações, havia um clima diferente no ar, uma magia que Tobias não sabia explicar, só sabia sentir. Na verdade, nem sentir ele sabia, porque era maior do que ele. Não cabia na alma, fugia do controle e do espaço limitado do coração. Era sentimento novo e, por isso mesmo, era muito gostoso.

Ele fechava os olhos e se esforçava para lembrar do rosto dela. Ia buscar lá no fundo da memória, mas não encontrava nada. Só lembrava de detalhes: da cor da pele clara e dos cabelos escuros e encaracolados, das bochechas rosadas, do nariz arrebitado, da boca pequena, dos olhos castanhos e grandes. Até do cheiro ele lembrava, e, quando pensava nele enchia o pulmão de ar, respirando tão fundo que era capaz de sentí-lo, mesmo só tendo sentido o cheiro dela de fato uma única vez, quando a viu também pela primeira vez.

Ele tentava juntar cada detalhe que lembrava para construir o rosto dela, em vão. Mas, às vezes, no meio do dia, inesperadamente, durante uma atividade rotineira, o rosto dela surgia no meio de um pensamento, mas antes que ele tentasse registrar a imagem, em milésimos de segundos, ela desaparecia. Era um espasmo de felicidade que se prolongava pelo resto do dia, e o efeito que isso causava em Tobias era visível: olhos caídos, cara de bobo e sorriso no canto da boca, sem o menor motivo aparente.

Um dia eu falei pra ele: “Tobi, você está apaixonado, sei que está!”. Ele nem hesitou ou tentou negar, se aproximou e confessou falando baixinho comigo, justificando-se ao mesmo tempo: “Ahhh, mas ela é tão… tão… linda! Bom, eu acho, porque não consigo me lembrar do rosto dela, mas acho que é, senão eu não teria me apaixonado, não é mesmo?”.

Eu conhecia bem aquela sensação, apesar de me lembrar vagamente de como é sentir “paixão sem cara”: a melhor que existe, definitivamente! Lembro-me de ficar irritada e inconformada, por gostar tanto de uma pessoa e, mesmo assim, esquecer o seu rosto. Hoje eu acho tudo isso tão divertido! Simplesmente fechar os olhos e pensar em alguém – com ou sem um rosto propriamente dito -, tentar adivinhar as informações que o cérebro não registrou, ou registou, mas guardou para o final, como a gente guarda o último pedaço do doce preferido.

Mas hoje Tobias está sóbrio. Casou-se com Clara, aquela de quem o rosto ele não se lembrava. Final feliz? Tenho lá minhas dúvidas. Agora ele nem precisa mais fechar os olhos para lembrar-se dela, inclusive, acho pouco provável que gaste alguns minutos do seu dia para suspirar por Clara. Não, não é que ele não a ame, ele ama, só não está mais embriagado.

É só um homem entre tantos. Não há mais sintomas de paixão, nem sequer sinais. O Diagnóstico? Bom, ele – infelizmente – está curado.

Roberta Simoni