Qual a face da paixão?

Face de Mulher

Que dias felizes eram aqueles. Naquelas tardes preguiçosas de fim de inverno, com a primavera começando a florescer nos corações, havia um clima diferente no ar, uma magia que Tobias não sabia explicar, só sabia sentir. Na verdade, nem sentir ele sabia, porque era maior do que ele. Não cabia na alma, fugia do controle e do espaço limitado do coração. Era sentimento novo e, por isso mesmo, era muito gostoso.

Ele fechava os olhos e se esforçava para lembrar do rosto dela. Ia buscar lá no fundo da memória, mas não encontrava nada. Só lembrava de detalhes: da cor da pele clara e dos cabelos escuros e encaracolados, das bochechas rosadas, do nariz arrebitado, da boca pequena, dos olhos castanhos e grandes. Até do cheiro ele lembrava, e, quando pensava nele enchia o pulmão de ar, respirando tão fundo que era capaz de sentí-lo, mesmo só tendo sentido o cheiro dela de fato uma única vez, quando a viu também pela primeira vez.

Ele tentava juntar cada detalhe que lembrava para construir o rosto dela, em vão. Mas, às vezes, no meio do dia, inesperadamente, durante uma atividade rotineira, o rosto dela surgia no meio de um pensamento, mas antes que ele tentasse registrar a imagem, em milésimos de segundos, ela desaparecia. Era um espasmo de felicidade que se prolongava pelo resto do dia, e o efeito que isso causava em Tobias era visível: olhos caídos, cara de bobo e sorriso no canto da boca, sem o menor motivo aparente.

Um dia eu falei pra ele: “Tobi, você está apaixonado, sei que está!”. Ele nem hesitou ou tentou negar, se aproximou e confessou falando baixinho comigo, justificando-se ao mesmo tempo: “Ahhh, mas ela é tão… tão… linda! Bom, eu acho, porque não consigo me lembrar do rosto dela, mas acho que é, senão eu não teria me apaixonado, não é mesmo?”.

Eu conhecia bem aquela sensação, apesar de me lembrar vagamente de como é sentir “paixão sem cara”: a melhor que existe, definitivamente! Lembro-me de ficar irritada e inconformada, por gostar tanto de uma pessoa e, mesmo assim, esquecer o seu rosto. Hoje eu acho tudo isso tão divertido! Simplesmente fechar os olhos e pensar em alguém – com ou sem um rosto propriamente dito -, tentar adivinhar as informações que o cérebro não registrou, ou registou, mas guardou para o final, como a gente guarda o último pedaço do doce preferido.

Mas hoje Tobias está sóbrio. Casou-se com Clara, aquela de quem o rosto ele não se lembrava. Final feliz? Tenho lá minhas dúvidas. Agora ele nem precisa mais fechar os olhos para lembrar-se dela, inclusive, acho pouco provável que gaste alguns minutos do seu dia para suspirar por Clara. Não, não é que ele não a ame, ele ama, só não está mais embriagado.

É só um homem entre tantos. Não há mais sintomas de paixão, nem sequer sinais. O Diagnóstico? Bom, ele – infelizmente – está curado.

Roberta Simoni

Anúncios

4 comentários sobre “Qual a face da paixão?

  1. Beta, linda!

    claro que não me importo que coloque o vídeo aqui! pelo contrário, só vai me deixar mais feliz de você compartilhar com quem te lê.

    beijossssssss e super obrigado por passar lá no meu cantinho.

    quero pipoca!!!! rs rs rs AGORAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA…

    ai god!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s