A odisséia de ser (ou estar) pobre

Ônibus Lotado

Pergunta insistente do dia: Por que? Por que? Por que eu nasci pobre? Por que?

A pior pobreza é a de espírito, eu sei, mas vamos combinar que a financeira também não é nada interessante. Ser rica de amor, de alegria, de saúde, é importante, é claro, mas fica bem mais bonito na poesia. Experimenta ser rico de amor e andar de condução lotada todo dia.

Não posso reclamar de ter uma vida banal, sabe? Nunca pude. Só que quando a gente vive assim: uma hora aqui, outra hora acolá, entre um canto e outro no mundo, não é sempre que dá para contar com a sorte de cair de paraquedas nos lugares mais convenientes. Enfim, coisas da vida… o que sei é que minha vidinha está sendo, mais do que nunca, uma verdadeira aventura!

E, na minha atual rotina, o pensamento que me toma todo santo dia é: todo castigo para pobre é pouco. Invariavelmente essa frase me vem a cabeça. E, normalmente, começo ou termino o dia (ou os dois) questionando o por quê de eu não ter nascido num bercinho douradinho, de preferência de ouro ou, pelo menos, folheado. E não, eu não me sinto fútil por pensar assim, nem um pouquinho.

Aliás, o que eu tenho desejado ultimamente é muito pouco. Tipo chegar em casa e não ter a luz cortada que a minha amiga esqueceu de pagar; tomar banho quentinho sem ser de balde com água que foi fervida no fogão; uma maquinazinha básica de lavar roupa, basta funcionar que eu fico feliz, contente e saltitante. Que tal sair de casa para trabalhar e não se deparar com a cena de um crime na minha rua? Aí é abuso, né? Acho que já é pedir demais não querer ver uns corpinhos de nada logo pela manhã…

Ahhhh, e o ônibus? Minhas adoráveis viagens de ônibus! Essas renderiam algumas histórias cômicas para contar aqui, isso, é claro, se eu tivesse o luxo de ter um computador onde estou vivendo. Vida itinerante tem dessas coisas mesmo, não é novidade pra mim e, normalmente, eu tiro de letra, menos em dias que eu acordo “limão“, vocês sabem… 😀

Hoje pela manhã, quando eu viajava de ônibus lotado, em pé, com a ligeira impressão de que a criatura atrás de mim se aproveitava para dar uma roçadinha de leve em mim, depois de testemunhar uma passageira armando o maior barraco, aos berros com o motorista que continuava deixando gente entrar sem ter lugar para uma mosca dentro do ônibus que, por sua vez, exalava uma mistura inacreditável de odores, que iam do pior perfume de farmácia ao cheiro nada agradável das axilas do senhor ao meu lado, de repente, meu olhar parou num homem sentado há poucos metros de mim.

Ele sorria, não pra mim, nem pra ninguém, simplesmente sorria. Sorria sereno, tranquilo, fechava os olhos, e voltava a sorrir, parecia enfeitiçado. Olhava pela janela sorrindo, completamente alheio ao que acontecia dentro daquele adorável transporte que eu saltei antes mesmo de chegar ao meu ponto, por não suportar mais o peso de ser/estar desprovida de um automóvel.

No que será que ele pensava? Na morte da bezerra? Não. Com certeza ele não pensava em morte. Devia estar pensando na mulher amada, se é que o amor ainda é capaz de tal efeito. Talvez o motivo tenha sido mais simples, mas não menos eficaz: ele acabara de ter um orgasmo antes de sair de casa para trabalhar. Esse sim pode causar tal efeito… ahhhh, pode!

Uma coisa é certa: estando no pior ou no melhor lugar do mundo, com muito, pouco ou nenhum dinheiro, se você consegue se desligar da realidade e se transportar para qualquer outro lugar onde sua cabeça decida estar, tudo pode sumir num passe de mágica e isso pode tornar as coisas bem mais leves, ainda que um passageiro obeso sente ao seu lado, e te esmague aos poucos.

Vou me lembrar disso da próxima vez que eu estiver num ônibus abarrotado de gente…

Para onde eu vou me transportar? Para Paris, na companhia do Gianecchini. Só isso, mais nada.

E nem adianta vir me dizer que o Gianecchini é gay, nem mesmo isso vai atrapalhar a minha viagem…

E você? Vai pra onde?

Roberta Simoni

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13 comentários sobre “A odisséia de ser (ou estar) pobre

  1. “Ser rica de amor, de alegria, de saúde, é importante, é claro, mas fica bem mais bonito na poesia.”

    hahaha! mto boa! realismo total! (eu digo o mesmo)

    “Não posso reclamar de ter uma vida banal, sabe?”

    E eu não posso reclamar de ter uma vida BANANAL sabe…

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  2. Vou para Pasárgada, lá o Bandeira é íntimo do rei
    e não é preciso pegar metro lotado nem chegar encharcado
    no trabalho nos dias de chuva. Aliás, lá nem é preciso trabalhar só
    aproveitar a vida. Afinal o que é melhor do que vir à vida
    a passeio … bora ?

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  3. Eu vou correr pra te dar um abraço, amiga!! rs. Mas trudo vai melhorar, vc esteja muito certa disso, e o que o pobre aqui puder fazer pra ajudar, estamos aí! Afinal, dois pobres juntos tem mais força!!! rsrsrs
    Te amo!

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  4. o dia que você achar a resposta, promete me contar?

    acho que sou da “mesma turma” que você.
    fizemos algo de muito, muito, muito terrível algum dia! rs

    beijos, e vamos-levando-essa-vidinha-pequeno-burguesa.

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  5. Nossa, Beta, que brabeira hein, amiga?

    Mas, se isso te deixar menos depre, acredite que a dureza é geral hoje em dia, tb ando numa fase super mega apertada, trabalho cada vez mais, meu marido rala como louco, coitado, dorme pouquíssimo, mas mesmo assim, as coisas estão cada vez mais difícieis. Chega essa época de fim de ano então, festas, presentes, a gente que tem criança fica mais desesperado ainda, não tem como não comprar presentes…Puxa, é duro…mas o essencial é seguir o exemplo do passageiro lá do ônibus e não deixar esse tipo de coisa te abater, pode ter certeza que o cheque especial dele tb deve estar estourado, o de quem não está hoje em dia? Quanto a nascer em berço de ouro, nossa, acho que todo mundo se pergunta isso várias vezes por dia…mas fazer o que? Ainda há uma segudna chance, amiga, casar com o dono do berço de ouro!! Eu já desperdicei essa tb! Pra mim, só resta me conformar com o amor e uma cabana…

    bjocas e boa sorte!

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  6. Amigaaaaaa, somos dois né?

    Vai pegar buzão lotado pra vir me visitar tb? hehee

    Saudades. Bjuu

    OBS: amiga, escrrvi este mesmo comentário no texto abaixo, apaga, please! Burro! rs

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  7. Para onde eu vou… bem, pensei no outro lado do arco-íris, pensei também em Neverland ou no País das Maravilhas… mas eu quero mesmo ir ao sem fim! Pois é, quero ter a sensação de infinito (por mais que não dure), isso parece vago por demais, mas é o sem fim que eu procuro…

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  8. Hahaha…que dureza! Tô nesse patamar tb…só que ando de trem…às vezes me questiono pra que estudei tanto…mas, vamos que vamos…quem sabe ‘num estalo’ chega nossa hora de desfrutar dos confortos da vida! kkkk…bjuuuuu

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  9. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…adorei amiga, tô rindo pra kct de tanta falta de dinheiro juntas…kkkkkkk…tô nessa tb, e o pior, agora até sem tempo de passar aqui pra ser feliz um pouquinho…

    Ninguém merece, dura, ralando pra kct, e quase desconectada do mundo,rs…

    Conhece aquela frase: tô fritando bosta pra comer torresmo,kkkkkkkk..eu sei, eu sei, é péssima, mas é mais ou menos isso…kkkkkkk…

    Mas……sou brasileira, e não desisto nunca!!! Mas q tá foda, ah isso tá…rsrs…

    Bjokas e sdds infinitas de vc!!!

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