O homem Invisível

Fantasia Homem Invisível

Quem olhasse pra ele, jamais imaginaria que ele tinha superpoderes. Magro e esmirrado, dava a impressão de não ter mais do que 13 anos de idade, mas tinha mais de trinta. Era subnutrido, por isso, seu corpo ficou subdesenvolvido.

Andava pela cidade com uma vassoura que talvez pesasse mais do que ele. O único peso que ele sentia era o de existir. Trabalhava como gari, o que parecia ser o trabalho perfeito para ele que sempre andou olhando para o chão. Recolhia as folhas que caiam das árvores, limpava a sujeira que os outros faziam, e vez em quando achava alguma coisa reciclável que o interessava e levava para casa, mas era raro.

Dia desses, passei por ele, desejei bom dia. Do jeito que estava, de cabeça baixa, ficou. Segui meu caminho. Tentei outra vez, dessa vez um “Bom Dia” mais animado (!!!), ele levantou a cabeça e olhou para trás, pra ver com quem eu falava. Não viu ninguém e deu de ombros sem entender. Certamente, pensou que se tratava de uma maluca que deseja bom dia ao vento.

O inevitável aconteceu: aquela figura interessante despertou a minha curiosidade. Passei a observá-lo todas as manhãs. Quando eu saia de casa ele já estava lá, hipnotizado com o chão, que varria apático e resignado. Parecia que a vassoura se soltaria daquelas mãos magras de dedos finos a qualquer momento. Deslizava as piaçabas na calçada, passando-as lentamente de um lado para o outro, como a mãe que faz carinho na cabeça do filho.

Se as pessoas pareciam não notá-lo, ele menos ainda as percebia. O máximo que via era pés em chinelos, sapatos e sandálias transitando de um lado para o outro. Provavelmente já havia visto tudo quanto era tipo de calçado nessa vida…

Parei ao lado dele. Ele freou a vassoura, esperando que eu passasse. Não passei, só parei. Ele olhou para os meus pés, sem cogitar a hipótese de olhar além disso. Mas eu estava determinada a fazer contato. E foi com um simples “oi” que ele olhou, incrédulo, pra mim, desta vez, mais pra cima. “Oi???” – ele respondeu num tom que mais parecia uma pergunta.

O senhor faz um belo trabalho aqui todos os dias – falei. Tinha a óbvia intenção de mostrá-lo que nem ele, nem o trabalho que fazia eram invisíveis. Mas a satisfação que eu tentei causar, foi visivelmente substituída pelo susto que dei no homem.

Também pudera… sabe-se lá por quanto tempo ele esteve certo de que não era visto. Estava acostumado à condição de invisibilidade, e até gostava. Usava um uniforme laranja florescente e, mesmo assim, passava despercebido, era como se fosse transparente, como se não existisse. De fato era um feito incrível.

No começo estranhava, achava as pessoas esquisitas. Aos poucos passou a também não notá-las e agora nenhuma diferença isso fazia. Sentia-se invisível e isso era bom, dava a sensação de ser dono de um certo poder, diferente da sensação de impotência que a condição humana trazia.

De repente aparece uma lunática que ignora completamente a sua capa superpoderosa de invisibilidade e estraga completamente a fantasia.

… E eu só queria que ele soubesse que o chão não é o limite.

Roberta Simoni

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7 comentários sobre “O homem Invisível

  1. Seu texto me fez lembrar um pouco Manoel Bandeira, porém desprovido do sentimentalismo apelativo deste ultimo. Não que nao tenha sido um apelo, mas muito sutil. O que faz a gente se apaixonar pelo personagem principal sem ter pena dele, ao contrário do “Bicho Homem”que provoca um misto de pena e repulsa…

    É um texto cinza, brando, repleto de lirismo…mas lirismo bom, lirismo contundente, coisa que deveriamos estudar mais em literatura em detrimento dos poemas que não se fazer entendidos pelas novas gerações, em todos os aspectos…

    Meus Parabens, Beta. Como sempre, meus mais sinceros parabens…Estou boquiaberto. E feliz de estar de volta.

    Beijão

    Igor (ordemincaos.blogspot.com)

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  2. Oi…vim te vistitar…e, como sempre, fiquei maravilhada com seu texto. PERFEITO! Uma verdadeira homenagem a esses tantos ‘invisíveis’ que que vivem por aí! Parabéns, seu talento de expressar o cotidiano através das palavras é brilhante! Bjuuuuu…muita saudade.

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  3. Oi Beta, parabéns!! Adorei! MAis uma vez você me fez rir e refletir aomesmo tempo. Rir porque fico imaginando cada detalhe da situação que descreve. Além disso você desperta a minha curiosidade de saber como terminou este encontro com o homem invisível.
    Beijos, continue escrevendo.

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