Por quanto você se vende?

Menina Doce

Um pacote de pão de mel. Esse é o meu preço.  

Era assim que a minha mãe me comprava quando não tinha com quem me deixar para ir trabalhar e, considerando a criança hiperativa que fui (fui???), eu suponho que me carregar para um escritório cheio de salas e corredores para desbravar, gente transitando sem parar para todos os lados, caras novas, máquinas de escrever e botões diferentes para apertar devia ser, no mínimo, preocupante.  

Mas bastava um papel, um lápis e… um pacote de pão de mel, daqueles com cobertura de chocolate, of course! Eu me enfiava debaixo daquela mesa de escritório, me espalhava pelo carpete, entre os pés da minha mãe, eu sentia que podia passar o resto da vida daquele jeito, sem precisar de mais nada.

E era tão simples ser feliz. Tão pobre e tão nobre aquela felicidade resumida num lápis, num papel e num pão de mel.  

Não sei se foi a minha mãe que contou para a minha avó, ou a minha avó quem descobriu primeiro e contou para a minha mãe que bastava um pacote de pão de mel para me calar e me convencer a fazer qualquer coisa, desde me tornar cúmplice de um crime até acompanhar a minha avó ao supermercado que, antes de descobrir a fórmula mágica, só me levava sob tortura e, depois, quando eu a escutava falar em compras, já corria para a porta de casa, de prontidão, com o braço estendido para acompanhá-la, igualzinha ao meu cachorro quando escuta a palavra “passear”!

Eu ia saltitante, e voltava ainda mais, com um pacote de pão de mel nas mãos…

É tão fácil comprar uma criança, não é? Não porque elas sejam mais interesseiras que os adultos, muito pelo contrário. A diferença é que as crianças não fazem a menor questão de esconder o interesse, o que as torna muito mais “vendáveis”.

Sinto saudades desses tempos em que me bastavam esses pãezinhos cobertos de chocolate para me encherem de boa vontade e entusiasmo a ponto de dar saltos de alegria pela rua. E não sinto nenhum orgulho por ter transformado a minha satisfação em algo tão apurado e exigente para certas coisas…

Para outras, no entanto, eu continuo sendo vendida baratinha, a preço promocional de banana em fim de feira. Quer ver só? Educação me compra sem esforço algum, simpatia, boa vontade e bom senso também. Além disso, eu me vendo fácil por sorrisos, sem precisar fazer pechincha nenhuma.

Dia desses fui visitar a minha avó e ela me recebeu com um pacote de pão de mel, dizendo: “Beta, entrei no mercado, vi isso aqui e lembrei de você. Não era você que adorava quando era pequena?”. Eu ri e a fiz relembrar das nossas idas ao supermercado, então ela entendeu porque sempre ligava o pão de mel a mim. Desde então eu recebo vários desses pãezinhos regularmente da Vó Verinha.

E você? Também se vende? E o que te compra?

Longe de mim querer comprar meus leitores, mas vocês aceitam um pãozinho de mel? É que eu acabei de abrir um desses pacotes que a minha avó me mandou de presente, e esse aqui leva uma pitada deliciosa de alegria nostálgica que eu nunca provei igual… servidos? 😀

Roberta Simoni