Drama Poético

Mulher Poesia

Eu tento, juro que tento. Mas estou inevitavelmente poética. Até os meus relatos estão. E é sem querer, mas adoro rimar poético com patético. E eu sei que nem tudo que é poético é também patético, muito pelo contrário. Patética é apenas como me sinto quando me percebo poética. E faço rima besta. E a rima é outra coisa patética, poética, lírica e… irresistível.

… Enquanto questionava a mim própria, pensava em como tudo o que me move vem do sentimento: do amor, da dor, do medo, do entusiasmo. Do mesmo jeito como acontece como o que me mantém inerte. E lembrei que com todo mundo é assim também, acontece do mesmo jeito com qualquer um. E aí me senti igual, e ser igual é tão comum, tão chato, tão banal.

Mas eis que um desastre pessoal aconteceu, e não é que até dele eu fiz poesia? Era dor e drama, que virou emoção poética. Quando a gente está diante de algum problema, sempre aparece alguém para dizer: “há males que vem para o bem.”, pode esperar! Na hora é difícil ver qualquer bem diante do mal que uma situação e/ou uma pessoa te causam, mas depois, só depois, você começa a entender como funciona esse “mecanismo”…

Não faz muito tempo, eu chorava de soluçar, feito criança, por uma amizade que morreu. Não adianta… acho que nunca vou aprender a lidar com a morte, seja de que espécie for. Mesmo assim, mandei flores para o velório e enterrei tudo o que sobrou no meu coração.

Enterrar relações humanas é quase tão difícil quanto enterrar sentimentos, mas, às vezes, é chegada a hora.

Já sentiu que você podia sair do seu corpo e se ver do lado de fora, como se fosse expectador de si mesmo? Senti isso poucas vezes na vida, sempre em situações carregadas de adrenalina, e, normalmente eu não gostava do que via. Sempre esperava mais de mim e ficava desapontada, mas dessa vez, ahhhh, dessa vez foi diferente…

De repente aquela amizade pareceu ter a face completamente desfigurada por um ódio que eu não consegui desvendar até hoje de onde vinha, só consegui ver para onde ia: diretamente para mim, e gratuitamente. E a mim só cabia negar aquele “brinde”. E foi o que eu fiz. Rejeitei o ódio com a mesma veemência e educação que recuso um pedaço de jiló. Afinal, nem tudo que é de graça é, necessariamente, bom. 

Ouvi palavras duras e foi como se eu tivesse o meu coração apunhalado, como naqueles filmes de guerra, naquelas cenas dramáticas quando o oponente enfia a espada no coração do inimigo enquanto olha nos seus olhos sem a menor culpa. Naquele momento morria uma amizade. Mais um amor era, lamentavelmente, desperdiçado.

A minha maior surpresa foi ver que quanto mais o clima se tornava desarmonioso e denso, mais o meu tom de voz diminuía e a minha calma eu mantinha, antes era tão raro quando isso acontecia… Contrariando o efeito “ação x reação“, não briguei, não gritei, não xinguei, na verdade, eu mal falei, apenas olhei incrédula o que acontecia, com a certeza absoluta de que fazer qualquer coisa senão assistir aquela cena lamentável e respeitar a decisão que estava sendo tomada naquele momento era a única coisa que o meu bom senso e a minha educação permitiam.

Fui embora com aquela espada cravada no coração, que, por sua vez, batia no ritmo de música dramática de novela mexicana. Fazer o que se era assim que eu me sentia? É claro que depois chorei, chorei de soluçar, parecia uma menina, mas ao mesmo tempo me sentia mulher, cheia de orgulho por me enxergar tão madura.

Me emocionou constatar que, de alguma forma, em algum momento que eu ainda não consegui identificar, eu evolui, e não que isso me faça sentir superior, apenas melhor, não melhor do que ninguém, mas melhor do que eu era. Sentir orgulho de mim mesma me fez sentir diferente.

E é bom, apesar de raro, me permitir sentir especialmente diferente, mata a banalidade de ser igual, de fazer como quase todo mundo faz, de agir como a maioria – por defesa, naturalmente  – agiria, se estivesse no meu lugar.

E aí, eu entendi: às vezes a gente sente igual, sofre igual, pensa igual, mas pode muito bem agir diferente.

Roberta Simoni