Amor Explícito

“Me dá um beijo?

Hummmm… que beijo gostoso!

Eu amo tanto você, mas tanto… um dia você vai entender o quanto é grande e importante esse amor…”

Eu e quem mais estava na escada rolante do shopping olhou para trás para ver quem falava. Foi inevitável…

Foi indiscrição minha, eu sei. Mas eu tive que olhar… foi então que eu vi um homem (bonito, por sinal) com um menino no colo, e era com a criança que o pai falava. Derreti na hora, claro! Talvez seja meu instinto materno aflorando… (ui, meda!)

Demonstração de amor, assim? Em público?!? Hoje em dia, isso chama mais atenção do que briga de marido e mulher no meio da rua, convenhamos.

Cheguei no andar seguinte do shopping pensando na cena, enquanto pai e filho ainda riam, brincavam e se abraçavam. Fiquei hipnotizada e por pouco não segui os dois, mas ainda me resta algum bom senso, e fui na direção oposta…

Ok, o pai não era de se jogar fora, mas essa foi a última coisa que reparei, de verdade. Relações e demonstrações afetuosas me atraem mais do que pessoas bonitas. Foi a cena de amor gratuito e explícito que me saltou aos olhos.

Mas, para me forçar a lembrar que o mundo não é cor de rosa, poucos dias depois, no mesmo shopping (sim, tenho ido lá com uma frequência considerável no horário de almoço por pura falta de opção…) testemunhei uma cena lastimável: uma mãe que gritava com o filho, na frente de todos, e, não satisfeita, enchia o braço magro do garoto de socos de punho fechado. Lamentável, desnecessário… ainda que eu saiba que tem muita criança sendo educada dessa forma pelo mundo afora, prefiro não ver, considerando que não há muito o que eu possa fazer.

Ainda assim, essa cena despertou menos a atenção alheia do que os beijos de pai e filho, dias antes. As pessoas olhavam discretamente, fingindo que não estavam vendo a mulher humilhando o garotinho que, independente do que tivera aprontado, não justificava a punição que sofria. Enquanto eu olhava chocada, sem a menor intenção de disfarçar o meu desgosto.

Sou eu que estou sensível demais ou são os valores do mundo que estão se invertendo? Arrisco dizer que são as duas coisas.

Acho que agora amor é o que escandaliza, especialmente esse amor cheio de pureza, gratuidade e desinteresse.

De qualquer forma, seria ótimo testemunhar mais vezes demonstrações de afeto como essa… quem sabe essa moda não pega?

Eu estive pensando, sabe? (é… isso acontece, às vezes!) Não seria nada mal se o amor fosse um vírus contagioso, transmitido pelo ar ou através de contato físico como os outros vírus, seria?

Roberta Simoni