Filtro da sinceridade escangalhado

Desde cedo a vida começou a me mostrar que sinceridade não é uma coisa bonita. Mesmo assim, eu venho resistindo à essa ideia e, sem querer ser pleonástica (mas já sendo), a verdade é que, muitas vezes, a verdade é mesmo feia.

Na minha adolescência teve uma moda de “Caderno de Perguntas”, que circulava por todo o colégio. A brincadeira funcionava assim: cada um respondia a todas as perguntas feitas pelo dono do caderno, e depois passava adiante.

As perguntas variavam entre bobas e idiotas: “Qual a sua cor preferida? Quem você levaria para uma ilha deserta? Quais suas qualidades e defeitos?” e por aí vai…

Um dia, um caderno desses veio parar na minha mão. Comecei a responder… até que me deparei com uma pergunta um tanto quanto complexa: “Com quantos anos você deu o seu primeiro beijo?”

Bom, eu tinha 14 anos e nunca havia sido beijada. Olhei para as respostas dos outros, e o mais atrasado tinha beijado pela primeira vez aos 12 anos, mas isso não foi suficiente para me intimidar. Respondi sem pestanejar: “Ainda não beijei na boca.”

O caderno continuou circulando pelo colégio e, no dia seguinte, eu assistia à aula quando um grupo de alunos de outras turmas se amontoava do lado de fora da janela da minha sala. Eles apontavam lá pra dentro e riam. Aquela movimentação toda dispersou a aula e logo todos  fomos tomados por uma enorme curiosidade. A professora parou a aula, abriu a janela e perguntou a um dos meninos o que estava acontecendo…

O garoto respondeu com outra pergunta, às gargalhadas, apontando pra mim: “Professora, aquela ali que é a Roberta?”. Ela, ainda confusa, fez que sim com a cabeça, e o grupo começou a gritar, em coro: “BV, BV, BV, BV…” (pra quem não sabe, B.V. é abreviação para “Boca Virgem”.)

Pois é… a “coisa” que causou aquele reboliço todo, era eu. E tudo isso por causa de um beijo… um beijo que eu nunca havia dado.

A professora fechou a janela e tentou retomar a aula, mas aí já era tarde, porque o “vuco vuco” agora era dentro da sala. “Beta, isso é verdade?”, “Meu Deus, você nunca beijou na boca mesmo? Mas, por que, menina?”

Finalmente conseguiram me intimidar. Naquele momento eu era o próprio “ET”, que acabara de ser descoberto infiltrado entre os seres humanos !!! 😀

Episódios parecidos com esse eram frequentes, por razões diferentes, mas todos provocados pelo meu excesso de sinceridade, sempre.

A primeira vez que eu me lembro de ter achado a sinceridade feia foi quando ganhei um monte de roupas de presente de aniversário de uma amiga rica da minha avó, da qual eu esperava ganhar o melhor brinquedo, considerando seu poder aquisitivo. Eu rasguei a embalagem ávida e quando vi o que era, falei instantaneamente: “poxa, mas roupa não é presente!”

Minha mãe, envergonhadíssima, me repreendeu e me fez agradecer o presente. “Mas, mãe, eu não gostei!”, eu insisti. Só me lembro da tia dizendo: “Não tem problema, criança é assim mesmo!”.

Depois minha mãe me explicou que não é sempre que podemos dizer o que estamos pensando ou sentindo, porque isso pode desencadear numa série de problemas e pode, inclusive, magoar as pessoas, mas parece que eu não aprendi muito bem, até hoje… e comprovei isso ontem à noite.

Entrei no ônibus tensa, porque já era tarde e eu estava sozinha. Escolhi um dos muitos lugares vazios e me sentei. Dois minutos depois, um homem sentou-se ao meu lado. E ele não apenas sentou como quase se jogou em cima de mim, eu dei um pulo e falei sem pensar duas vezes: “Ei, precisa encostar tanto?”

O rapaz ficou surpreso e se defendeu: “Eu tô no limite do meu banco, moça!”

Eu rebati: “Ahhh, não está não!”

“Calma, eu não quero te assaltar não!” – ele falou, tentando descontrair.

“Tem certeza?” – perguntei e prossegui antes que ele pudesse voltar a falar – “Só não entendo porque você se sentou ao meu lado se o ônibus está vazio e, me desculpa, mas continuo achando que você está encostando muito em mim, moço!”

Normalmente, eu teria ficado incomodada, mas teria ficado quieta. Ou teria, no máximo, trocado de lugar, se o meu “filtro da sinceridade” não estivesse com defeito ontem.

Depois eu observei o rapaz e vi que ele tinha cara de “bom menino”, mesmo assim, aquela coisa toda de quase sentar no meu colo não foi legal, e se aquilo foi uma espécie de investida, ele precisa aprender a fazer uma abordagem mais inteligente. Mesmo assim, confesso que depois morri de vergonha pelo fora que dei no menino!

O que acontece comigo é que, às vezes, eu não consigo filtrar nem uma vírgula que sai do meu cérebro até chegar à minha boca e deixo passar tudinho o que penso. Acho que a minha válvula responsável por pensar antes de falar entra em curto constantemente e depois haja colhão para aguentar as consequências. Além do mais hoje ninguém vai poder dizer: “Ah, ela é só uma criança!”, até porque eu consigo disfarçar muito bem que sou adulta.

Hoje em dia, se eu fosse responder um Caderno de Perguntas, quando chegasse naquela parte de “Qual é o seu maior defeito?”, eu responderia: “Cuidado, eu sou sincera!”

(adoro essa foto, tinha que ser o Almodóvar, né?)

Roberta Simoni

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10 comentários sobre “Filtro da sinceridade escangalhado

  1. Beta. Muito Bom! Dizer que esse é um dos melhores até hoje não é exagero…Acho que seja pela simplicidade direta, sei lá…mas eu sorri aqui com a mão no queixo pensando “putaquepariu, pior é que é verdade”. E de fato o é.

    Mas do assunto, digo que meu filtro é tão calibrado que as vezes me sinto falso…são pouquissimos aqueles que perguntam sua opiniao querendo realmente saber dela e isso é péssimo…maldito mundo “hiproquita”! Mas eu aida me considero um felizardo por ainda ter pessoas com quem eu posso mandar o filtro pra merda e ser transparente, como eu curto ser e gostaria de ser mais vezes…

    Sobre o lance do beijo…bem, eles te zoaram pelo seu ontem, pelo seu hoje (daquele dia) mas ignoraram totalmente o seu amanha…pobres crianás tolas…

    Mais uma vez…otimo texto!!!

    Ps.: maior aflição da foto…

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  2. Roberta Simoni, como é bom ter uma coleguinha talentosa, inspirada e ao mesmo tempo tão real como você. Sempre que posso, dou uma olhadinha pela sua janela (com respeito viu, hehehee) e me encanto com a sua facilidade em dizer o que pensa e sente.

    Caderno de Perguntas, menino também respondia, hhehehehe…passei por alguns, e o que me lembro de mais marcante são as decepções com as descobertas sobre a vida dos outros (e das outras). Quan do resolvi fazer um, quis algo diferente. Fiz perguntas diferentes, questões interativas, até que deu certo, mas nao sei que fim levou, uma pena…

    Obrigado por me fazer recordar uma época boa da minha vida, espero o próximo texto para recordar mais.

    Abraços e um bjo
    Julio, seu colega de facul!!!

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  3. é, também acho que ser sincera é defeito e eu cometo sincericídio com freqüência, mas taí uma coisa que eu não quero mudar, vou muito bem assim. Obrigada! ok, já perdi algumas coisas com isso, mas como diz meu lado Pollyana – se perdi é pq não era meu…

    [menina, esses caderninhos foram febre no brasil inteiro? só eu respondi uns 20, entre escola e rua q moro, e sim, as minhas respostas sempre foram as mais diferentes, inusitadas e sinceras.]

    bjs

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  4. Todo mundo metia nesses cadernos de perguntas … o que te deu pra falar a verdade ?!? rs. É engraçado como fatos banais da nossa infância/adolescência nos faz realmente apreender como a vida adulta é baseada em pequenas grandes mentiras cotidianas. Bjs.

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  5. Acho que meu filtro também É (e não ESTÁ) escangalhado! rs…
    Nãotenho vergonha não… às vezes me ferro, mas faz parte!!!! Bom, e falando nisso… tô precisando te ouvir um pouquinho, e escutar suas palavras e opiniões, cheias de sinceridade. AMO!

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  6. Ahahahaha!!! Ontem comentava com um amigo que minha sinceridade assustava os homens!!!

    E é verdade! Sinceridade assusta as pessoas! Ninguém quer sair do seu mundinho perfeito e encarar um sincero… Sofremos graves preconceitos! Rsrsrs…

    Legal achar teu blog. Foi por acaso, procurava uma imagem legal para o meu blog e me deparei com o Sr. Almodovar. Com toda sinceridade a foto já foi devidamente copiada, também adoro essa foto!!!

    Beijos!!!

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  7. Sinceridade rima com Raridade….

    não é por vontade própria que, às vezes, omitimos ela, é contra vontade muitas vezes, calha mais o silêncio do que o grito da sinceridade que sempre vem grudada na verdade, e a verdade dói e também liberta, se houver no outrem a também sinceridade….para que ela aja tem que haver dela no âmago de onde ela sai para o âmago de
    quem ela vai…e isto é algo que nõa podemos saber.
    ser sincero pra falar é mais fácil, porém ser sincero para ouvir e se retificar é mais difício.

    é como perdoar, tão difícil como pedir o perdão.
    ambos sem a sinceridade não valem nada…

    Deus não quer a perfeição humana,( para os que O acham tirano(nome de um colega meu…) mas não é por saber
    disto que nos condicionemos à imperfeição e a usemos de descuilpa para não fazer e viver o que é dever de todo ser que respeita seu semelhante, independente de fé e crença, a retidão, a honestidade, a fidelidade são valores independentes da fé, ninguém se glorie em Deus DESTAS COISAS, É DEVER NOSSO!!

    ENFIM, como ia falando e já ia me descendo a ladeira sem fim, Deus não quer a perfeição humana, ele quer tao somente a maravilhosa SINCERIDADE do Homem.

    Então, cara BETA, vc , e tantos quantos sejam como vc,
    tem algo bonito e valoroso em vc, e exprimir isto torna vc uma pessoa invejada e odiada ao mesmo tempo, pois é algo que todos querem ser, e por circusntancias não o são, os que não sentem falta disto em suas vidas tem muito que repensar…

    aê, não vou me desculpar por meter Deus aqui tá bem ? pra mim, Ele cabe em qq lugar e assunto, Ele é o Alfa E o Ômega, Principio e Fim….e vc nõa esqueça…é BETA…RSRSR a segunda letra do alfabeto grego.

    Alefe, Bete,Guimel, Dalete…etc

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