Tudo novo, novamente, de novo, mais uma vez!

Sou ré confessa: não telefonei para ninguém no Natal, não mandei cartão com votos de renovação de esperança para os meus amigos, nem mesmo pelo correio virtual, o que tomaria apenas alguns minutos do meu corrido tempo.

Também esqueci de me lembrar que Natal é mais do que peru e reunião familiar, e nem é culpa do meu ceticismo ou da minha falta de intimidade com o universo religioso, tampouco tenho alguma coisa contra o Natal, é simplesmente por não estar conectada.

Pode ser que no ano que vem eu comece a comprar os enfeites para a minha árvore de Natal com três meses de antecedência. Pode ser que no próximo ano eu tenha uma árvore de Natal. Pode ser que eu sinta vontade de ligar para Deus e o mundo. Pode ser que eu pense em Jesus. Pode ser que eu mande um e-mail para você com animações natalinas e com um Papai Noel falando “ho ho ho”. Ou pode ser que não.

Natal, Reveillon, aniversário… tudo isso pra mim é estado de espírito. Eu, por exemplo, costumo fazer mais de um aniversário por ano, ter mais de um Reveillon. Sempre acontece quando eu mudo. Quando eu sinto que alguma parte de mim se transforma para melhor, eu “aniversario”. Quando a vida me mostra novos rumos, é ano novo dentro de mim!

Também não é por mal que, às vezes, eu não telefono no dia do aniversário. O motivo é quase sempre o mesmo: eu esqueço. Tenho um problema sério com datas mas, mesmo quando lembro, só telefono se eu estiver conectada de alguma forma com o aniversariante. Se for única e exclusivamente para seguir protocolo, pode esquecer! Pra mim, só existe contato válido se os votos são reais, se existe alguma coisa realmente boa para ser compartilhada.

Quando eu me compreendi assim, parei de me forçar a fazer o que manda o figurino em datas comemorativas e me senti livre… livre para seguir a risca o que o meu coração manda, independente do dia do ano. Por isso aqueles por quem eu tenho amor, respeito, gratidão, admiração e/ou amizade recebem de mim cartas inesperadas em datas atípicas, e-mails inspirados, presentes personalizados, palavras doces, sorrisos genuínos, gargalhadas espalhafatosas, abraços apertados, telefonemas empolgados… e é deles que eu também recebo os melhores presentes.

Hoje me desejaram o sol. De todos os votos de fim de ano, esse foi o melhor. “Você merece o sol.” foi o que me desejou um recente amigo. E isso soou tão bem ao meu coração que eu decidi compartilhar com vocês o sol que ganhei. Pra aquecer, para secar o que ainda estiver úmido e para derreter o que era gelado. No mais, desejo TUDO NOVO DE NOVO!

E de tudo o que quero mudar (de novo), a única coisa que eu não quero que mexam é no sol que eu ganhei de presente, nem mesmo no inverno. Porque é dele que eu recebo os mesmos raios de luz que irradio.

Sol pra quem me lê, pra quem olha através da minha janela, e para quem entra aqui a fim de poetizar, distrair, rir, emocionar, ver e ler o cotidiano da vida acontecendo. Pra quem quer ler um conto, um “causo”, uma crônica. Pra quem quer me ler… sol, muito sol, como profundo agradecimento pela companhia e pela partilha de luz que entra e sai por esta janela de cima!

Tudo novo de novo, menos essa troca natural de empatia com o universo, maior que do qualquer apatia que o mundo oferece o tempo todo.

E mais uma confissãozinha antes de partir pra 2010: sabem o que eu quero muito, muito mesmo? É ver 2009 pelas costas!  E algo me diz que eu não sou a única! 😉

E para fechar o ano com chave de ouro e começar a próxima contagem de tempo com a energia renovada, eu escolhi essa música que é mais do que um hino, é a minha oração há muitos anos, a oração que um anjo chamado Gabriel me ensinou a cantar:

Tudo Novo de Novo (Moska)

“Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos.”

Roberta Simoni

Você acredita?

Eu nunca esperei que a fadinha do dente trocasse o meu dente de leite por dinheiro, sempre soube que eram os meus pais que compravam os ovos de páscoa e nunca entendi direito o que o coelho tem a ver com chocolate.

Com o bom velinho não foi diferente, sempre soube que Papai Noel era um homem comum fantasiado, por isso, nunca escrevi uma carta pra ele, nem esperei que ele entrasse pela chaminé da minha casa trazendo o meu presente. Até porque eu nunca morei numa casa que tivesse lareira.

Nasci no litoral de um país tropical, e Papai Noel com aquelas roupas todas de frio nunca fizeram muito sentido pra mim. Nossa! Como devem soar os “Papais Noéis” brasileiros, pobres coitados!

Meu pai passou a infância traumatizado, magoado com Papai Noel, que ano após anos não aparecia, o presente então… menos ainda. É compreensível que tenha vindo dele a decisão de não alimentar nenhuma ilusão nas filhas. Minha mãe concordou, e felizmente nunca usou o Papai Noel para fazer terrorismo comigo. Nunca me disse que se eu não me comportasse, o tal gorducho de barbicha branca não traria o meu presente. Ufa!

No entanto, na nossa última confraternização natalina eles se confessaram arrependidos por não terem alimentado a minha imaginação infantil.

Papy e Mamy: Não se preocupem! As fantasias que vocês não criaram na minha cabeça quando criança, eu compenso até hoje. Minha imaginação é, provavelmente, mais fértil que a de uma garota de cinco anos, e os meus devaneios são tão grandes que eu evito contar pra vocês porque, aí sim, vocês ficariam preocupados.

Ter tido consciência da verdade desde cedo não afetou a minha imaginação, tanto que hoje eu não só escrevo como crio histórias. E se teve algum lado negativo nisso tudo, os que sofreram com ele foram os pais das outras crianças. Explico:

“Sua boba, se você puxar a barba dele, vai ver que é de mentira!” “Papai Noel vai na sua casa entregar os presentes? Deve ser o seu pai fantasiado, menino! Procura só o seu pai pra ver se ele não some na hora que Papai Noel aparece!” “Você pediu isso de presente na cartinha pra Papai Noel? Se eu fosse você pediria alguma coisa que seus pais pudessem comprar, porque Papai Noel não pode ser rico se ele nem existe.” “Você não acha que tá muito grandinha pra acreditar em Papai Noel, não? O quê? Sua mãe não te contou a verdade até hoje?”

Não satisfeita em saber a verdade antes de todas as outras crianças da minha idade, eu fazia questão de desmistificar toda a farsa pra elas, consequentemente desmascarando os pais delas que, nada contentes, iam reclamar com os meus.

Criança é uma coisinha muito meiga e pura, mas pode ser a criatura mais cruel que existe. E eu, obviamente, passei longe de ser uma flor de candura desde bem novinha. Ora… aposto que se eu não falasse, ninguém jamais notaria!

Quando eu tiver os meus filhos (se eu os tiver), talvez eu os estimule a acreditarem em Papai Noel, ou talvez eu simplesmente deixe que sejam livres para acreditarem no que quiserem, como os meus pais fizeram. No fundo, ninguém precisa de estímulo para fantasiar. Uns fantasiam mais, outros menos. Há ainda os que só sabem viver o que é real, palpável.

Eu continuo com meus sonhos, vestindo as minhas fantasias coloridas e ousadas, confundindo o real com o imaginário, ultrapassando o limite do impensável.

Eu que sempre fui descrente do Papai Noel, coelhinho da páscoa, fadinha do dente, fada madrinha, duende e príncipe encantado, acredito em coisas bem menos prováveis, que gente grande e pequena é capaz de duvidar: no sorriso que pode transformar, na intuição que pode salvar, na palavra que pode acarinhar, na estrela que pode me ouvir, no amor que ainda pode ser mais forte e no sonho mais ousado que pode acontecer.

Pensando bem, seria mais fácil acreditar em Papai Noel…

Roberta Simoni

Retalhados, porém intactos.

Ele estava assistindo um filme de luta na tevê, sem nada melhor para fazer. Já era tarde e o sono começava a bater quando, de repente, seu celular tocou. Era ela… nem ele sabia, mas ainda tinha o número dela registrado na agenda do telefone, apesar de não receber nenhuma chamada sua há anos. Anos mesmo.

Ela arriscou ligar para o número dele, sem muitas expectativas. Imaginou que fosse uma das únicas pessoas que consegue manter o mesmo número durante tanto tempo. Por isso cedeu despreocupada ao seu impulso e ligou tarde da noite, acreditando que não daria em nada mesmo, mas com uma esperança tímida escondida no canto da alma.

Pelo visto ela não era a única que fazia questão de manter certas coisas. Aliás, essa não era a única coisa que os dois mantinham intactos. Tanto que o coração dele, quando viu o nome dela no visor, começou a bater tão acelerado quanto o dela quando viu que estava chamando…

Ele sentiu vontade de atender falando o nome dela, mas temeu que pudesse ser um engano, ou sei lá o que, e só disse:

– Alô?
– Alô… Nando?
– Clara?
– Meu Deus… é você! Desculpa te ligar tão tarde, é que…
– Tudo bem, eu continuo com problemas de insônia… é ótimo ouvir a sua voz de novo, sabia?
– É muito bom falar com você também. Eu sei que prometi não te procurar, mas hoje…
– Eu quis te procurar muitas vezes, só que…
– Sofri um acidente, Nando. Quase morri.
– Meu Deus! Como isso aconteceu? Como você tá?
– Tô bem agora. Não vou morrer, quero dizer, pelo menos não agora. Mas tô apavorada.
– Mas o que houve, afinal? Me fala, por favor… tá me assustando.
– Fui atropelada há alguns dias. Quebrei alguns ossos e bati com a cabeça, fiquei desacordada por mais de um dia, e quando recuperei os sentidos não lembrava de nada do acidente, e ainda não lembro, mas desde então tenho pensado em você com fixação, por isso quebrei a promessa.
– Puxa, Clara, sinto tanto por isso… de verdade. Gostaria de estar aí para te abraçar agora, para ver de perto como você está.
– Você não ia gostar de ver como está o meu rosto. Quebrei o nariz em cinco lugares, inclusive. Mas o médico disse que vou voltar ao normal, e isso me encorajou a te procurar.
– Mas o que é isso? Você acha que eu deixaria de querer te ver se o seu rosto estivesse desfigurado? Francamente…
– Então vem…

Silêncio.

– Você sabe que…
– Eu sei… apesar de não parecer, eu tenho noção do que estou te pedindo.
– Pois é… eu adoraria te ver de novo, especialmente agora que você tá passando por isso, mas…
– Eu sei Nando, eu sei… você não pode, eu não posso. E nós estamos há centenas de quilômetros de distância. Existe um verdadeiro abismo entre nós. Mas é que quando eu pensei que fosse morrer, só consegui pensar em você, e fiquei apavorada com a ideia de não poder te ver nunca mais.
– Clara, eu…
– Nando, eu nunca tive pensamentos suicidas, você sabe, mas confesso que cheguei a pensar que teria sido mais fácil se eu tivesse morrido, mas aí eu lembrei das coisas que eu ainda quero fazer, e no topo da minha lista está você. Preciso te ver mais uma vez. Foi essa vontade que me deu forças para viver, tenho certeza.
– Clara, não fala mais nada.

Ele desligou o telefone apressado, comovido, emocionado, com o coração de Clara nas suas mãos, segurou-o com cuidado, sabendo exatamente o que devia – mas não podia – fazer.

Bastou uma ligação. Um toque. Uma verdade dolorosa. Um incidente. Um acidente. O calafrio da morte que não matou, ao contrário, ressuscitou dois corações.

Roberta Simoni

Todo enfermo fica carente

Você não mora com seus pais, nem com parentes, amigos ou filhos, também não mora com seu(a) namorado(a). Não gosta de dar satisfações da sua vida, adora não ter hora pra voltar. Sente uma alegria enorme em encontrar suas coisas do jeito que as deixou antes de sair, ainda que a sua casa esteja uma zona.

Às vezes sente falta de chegar em casa e ter alguém que pergunte como foi o seu dia, sente uma pontada de inveja quando vem aquele cheirinho de comida caseira da casa ao lado, mas rapidamente supera aquele aroma quando pensa que não precisa fazer comida se não quiser, que não tem obrigação de limpar a casa hoje, nem amanhã, nem depois. E que a louça suja pode esperar a manhã seguinte…

Você bebe água da geladeira no gargalo e chega a sentir um prazer secreto ao pensar em como sua mãe reclamaria se presenciasse essa cena. Você escuta música, liga a televisão e mexe no computador, tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém reclame. Começa a desenvolver o hábito estranho de falar sozinho, com as paredes ou com as suas coisas e acha graça da sua sandice, até que…

… Você fica doente !!!

E agora? Não tem ninguém para ir até a farmácia comprar um remédio para você, ninguém para tirar a sua temperatura, nem para fazer um suco de laranja e te obrigar a tomar, alegando que você precisa de Vitamina C.

Você gostaria de ter coragem de bater à porta da casa vizinha e perguntar se pode se sentar à mesa com eles. Odeia com todas as forças o cheiro de feijão fresquinho que vem de lá. Chega a fantasiar sua mãe na sua cozinha preparando a sua comidinha favorita e te dizendo que você não pode ficar sem comer, filhinho(a)!

Deseja veementemente encontrar aquela cartelinha de novalgina que está perdida no meio da bagunça que é a sua vida. Se sente a criatura mais carente do mundo. Não sabe se espirra ou se chora, acaba fazendo os dois, e fica com o nariz completamente entupido.

Começa a entender, finalmente, que está só. Você mora sozinho, queridinho(a)! Não tem ninguém para se comover com a sua fraqueza, para se preocupar com as suas tosses excessivas, para te mandar procurar um médico ou para te carregar à força para o hospital.

Calma! Você só está gripado(a)… mas, eu sei, você tem a impressão de que vai cair em depressão profunda a qualquer momento. Mas aí, você reage. Se arrasta até o banheiro como um “sobrevivente gripal” e toma banho encostado na parede do box, porque não têm forças para ficar de pé. Se sente melhor, mas não ao ponto de conseguir pentear os cabelos.

E falando em cabelos, você se olha no espelho e vê que os seus estão todos embaraçados e que você está com uma aparência horrível de… doente. Mas tudo o que você queria agora nem era estar bonito(a), tampouco te preocupam suas olheiras, pois só o que você precisa é de alguém que esteja pouco se importando com a sua aparência, desde que não se importe em lhe fazer um cafuné.

Sim, isso é um apelo !!! 🙂

Manhêêêêê… eu sei que você lê o meu blog !!!

Roberta Simoni

Quando o sol se despede…

“Não dou muita bola pra essa coisa de natureza, prefiro rua, casas, gente andando nas calçadas para lá e para cá, carros trafegando no asfalto, mas tem duas coisas que eu gosto: árvore e pôr do sol. Nascer do sol também. Mas o problema do nascer do sol é que ele só é interessante durante poucos momentos. Minha mãe gostava de ópera, um dos seus cantores favoritos era o Enrico Caruso e ela gostava particularmente da matinata L’Aurora di Bianco Vestita, de Leoncavallo. Nesta música está dito o problema da aurora. Ela só é agradável de contemplar quando o sol, uma rutilante esfera vermelha, vai surgindo no horizonte, isso dura poucos minutos, logo em seguida a bola vermelha se torna uma brutal fonte de luz branca, apoteótica, impossível de contemplar. É isso: quando a aurora se apresenta de bianco vestita ela fica muito bonita na música de Leoncavallo e na voz de Caruso, mas na vida real fica insuportável. Ao contrário, o pôr do sol vai ganhando beleza continuamente, como aquela beleza que eu estava contemplando, o pôr do sol que nunca agride, a menos que considere uma forma de agressão a melancolia que invade você na hora em que o crepúsculo se instala no mundo antecedendo a noite.”

(O Seminarista – Rubem Fonseca)

Eis que eu caio nas graças do Rubem outra vez… apaixonada. Lendo com voracidade as deliciosas histórias sujas que só ele sabe contar. Dessa vez, um matador profissional que gosta de poesia. Um personagem que não tem escrúpulo, mas sabe admirar o crepúsculo.

Este trecho do livro me fez questionar: quantas vezes eu vi o sol nascendo? Tão poucas que dá para contar nos dedos, todas, porém, em casos excepcionais ou especiais. A verdade é que quando o sol está nascendo, eu estou longe de sentir vontade de estar acordada e se não for por uma viagem, durante um vôo, numa estrada ou por uma noite virada, eu sempre chego depois que o espetáculo termina. Mas o pôr do sol não… esse, se for necessário, eu compro ingresso para assistir de camarote.

O melhor a gente sempre deixa pro final, e talvez o sol saiba disso e faça igual, porque é quando está se despedindo que ele reserva o seu melhor espetáculo. E ainda que seja incrível ao nascer, ele consegue ser ainda mais perfeito quando morre. E contrapondo o que eu disse aqui dias desses, nem toda morte precisa ser, necessariamente, feia ou triste. 

Eu sou noturna, sempre fui, ainda que eu ache as luzes, cores e sabores do dia fantásticos e que eu saiba que algumas atividades são exclusivamente diurnas, os meus dias normalmente são ocupados pela rotina do trabalho, repletos de obrigações que me restringem ao contato com paredes frias e a me contentar – descontente – a ver as cores do dia da janela de algum prédio comercial.

É quando o sol dorme que eu acordo, e o pôr do sol é uma bela maneira de celebrar o começo do meu “dia”. O crepúsculo talvez seja o presságio de uma boa noite. E já que belezas que cegam e agridem não me interessam, eu fico com melancolia de mais uma despedida, que são menos breves.

(sim… sou eu na foto lá em cima, sozinha na platéia do meu show favorito!)

Roberta Simoni

Fome de viver (ou pressa de comer…)

E essa fome que corrói o estômago? Não, não é fome de comida, mas corrói o estômago e todo o resto, mesmo assim.

Fome de riqueza de gestos, nobreza de palavras, experiências enriquecedoras, fome de viver… será que isso causa gastrite?!? Ou será que é culpa da minha alimentação desregrada? Talvez o estômago não seja a única coisa inflamada aqui dentro…

Essa minha mania de sempre querer mais me aborrece. Seria tudo tão mais simples se viver uma vida só de cada vez me bastasse. E quisera eu que os meus incontáveis desejos fossem todos compráveis. Eu daria um jeito, trabalharia dobrado, tentaria um empréstimo, venderia até a alma!

Eu ando tentando fazer as pazes comigo, tentando ser uma boa menina, simpática e agradável. Faço todo o possível para me mimar. Logo mais me prometi levar ao cinema, eu e as minhas vontades, nós duas, sozinhas. Também decidi me presentear com dois livros da minha “singela” lista de “próximos livros a serem lidos“. Ok, ok… também vou comprar mais um filminho…

Para o desgosto da minha conta bancária eu criei mais esse hábito: ter minha própria locadora em casa, repleta dos meus filmes favoritos. Porque, assim como tudo nessa minha vidinha metida à besta, assistir os melhores filmes uma única vez também não me sacia…

Mas, afinal, quando foi que eu já me senti saciada? Antes de continuar escrevendo eu parei por alguns minutos e tentei encontrar lá no fundo da memória um momento de satisfação plena… não achei nada. Talvez essas lembranças tenham se perdido quando eu nasci, porque eu aposto que enquanto feto, eu estava plenamente satisfeita, sem grandes planos para o futuro, sem desejos veementes. Ou não.

É mais provável que eu tenha sido um feto ansioso para nascer, louco para desbravar o mundo, para conhecer minha mãe, meu pai, minha irmã que sempre conversava comigo quando eu estava lá dentro daquela barriga apertada. Pode ser que eu mal tenha suportado todos aqueles meses de curiosidade, e o fato de eu ter nascido depressa, na presença de um único médico, sem a ajuda de enfermeiros, já é um forte indício da minha “pressa precoce”.

Sim, eu tenho pressa desde que me entendo por feto. Talvez desde que eu me entendo por sêmen…

E é exatamente do tamanho de um espermatozóide que eu me sinto perto dos meus desejos e comparada ao mundo que existe lá fora, pedindo para que eu o explore…

E hoje… hoje eu acordei mais faminta do que acordo de costume, com uma pressa maior do que os passos que as minhas pernas curtas e velozes são capazes de dar. E elas até tentaram me dizer que a vida pode esperar, mas eu sei que pernas não falam, e se falam, mentem, porque tudo que a vida não pode é esperar.

É tudo culpa desse meu velho vício de sonhar, que me faz contar as horas para chegar logo o dia em que eu estarei realizando tudo o que sonho agora, e quando esse dia chegar eu, muito provavelmente, estarei esperando ansiosa para degustar novos momentos que eu desejarei viver até lá.

Por isso, o quanto antes eu me acostumar com a minha alma roncando de fome, melhor. Porque o dia em que essa vontade toda passar, eu nem estarei mais aqui pra contar…

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni