Você acredita?

Eu nunca esperei que a fadinha do dente trocasse o meu dente de leite por dinheiro, sempre soube que eram os meus pais que compravam os ovos de páscoa e nunca entendi direito o que o coelho tem a ver com chocolate.

Com o bom velinho não foi diferente, sempre soube que Papai Noel era um homem comum fantasiado, por isso, nunca escrevi uma carta pra ele, nem esperei que ele entrasse pela chaminé da minha casa trazendo o meu presente. Até porque eu nunca morei numa casa que tivesse lareira.

Nasci no litoral de um país tropical, e Papai Noel com aquelas roupas todas de frio nunca fizeram muito sentido pra mim. Nossa! Como devem soar os “Papais Noéis” brasileiros, pobres coitados!

Meu pai passou a infância traumatizado, magoado com Papai Noel, que ano após anos não aparecia, o presente então… menos ainda. É compreensível que tenha vindo dele a decisão de não alimentar nenhuma ilusão nas filhas. Minha mãe concordou, e felizmente nunca usou o Papai Noel para fazer terrorismo comigo. Nunca me disse que se eu não me comportasse, o tal gorducho de barbicha branca não traria o meu presente. Ufa!

No entanto, na nossa última confraternização natalina eles se confessaram arrependidos por não terem alimentado a minha imaginação infantil.

Papy e Mamy: Não se preocupem! As fantasias que vocês não criaram na minha cabeça quando criança, eu compenso até hoje. Minha imaginação é, provavelmente, mais fértil que a de uma garota de cinco anos, e os meus devaneios são tão grandes que eu evito contar pra vocês porque, aí sim, vocês ficariam preocupados.

Ter tido consciência da verdade desde cedo não afetou a minha imaginação, tanto que hoje eu não só escrevo como crio histórias. E se teve algum lado negativo nisso tudo, os que sofreram com ele foram os pais das outras crianças. Explico:

“Sua boba, se você puxar a barba dele, vai ver que é de mentira!” “Papai Noel vai na sua casa entregar os presentes? Deve ser o seu pai fantasiado, menino! Procura só o seu pai pra ver se ele não some na hora que Papai Noel aparece!” “Você pediu isso de presente na cartinha pra Papai Noel? Se eu fosse você pediria alguma coisa que seus pais pudessem comprar, porque Papai Noel não pode ser rico se ele nem existe.” “Você não acha que tá muito grandinha pra acreditar em Papai Noel, não? O quê? Sua mãe não te contou a verdade até hoje?”

Não satisfeita em saber a verdade antes de todas as outras crianças da minha idade, eu fazia questão de desmistificar toda a farsa pra elas, consequentemente desmascarando os pais delas que, nada contentes, iam reclamar com os meus.

Criança é uma coisinha muito meiga e pura, mas pode ser a criatura mais cruel que existe. E eu, obviamente, passei longe de ser uma flor de candura desde bem novinha. Ora… aposto que se eu não falasse, ninguém jamais notaria!

Quando eu tiver os meus filhos (se eu os tiver), talvez eu os estimule a acreditarem em Papai Noel, ou talvez eu simplesmente deixe que sejam livres para acreditarem no que quiserem, como os meus pais fizeram. No fundo, ninguém precisa de estímulo para fantasiar. Uns fantasiam mais, outros menos. Há ainda os que só sabem viver o que é real, palpável.

Eu continuo com meus sonhos, vestindo as minhas fantasias coloridas e ousadas, confundindo o real com o imaginário, ultrapassando o limite do impensável.

Eu que sempre fui descrente do Papai Noel, coelhinho da páscoa, fadinha do dente, fada madrinha, duende e príncipe encantado, acredito em coisas bem menos prováveis, que gente grande e pequena é capaz de duvidar: no sorriso que pode transformar, na intuição que pode salvar, na palavra que pode acarinhar, na estrela que pode me ouvir, no amor que ainda pode ser mais forte e no sonho mais ousado que pode acontecer.

Pensando bem, seria mais fácil acreditar em Papai Noel…

Roberta Simoni

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