Porque sempre haverá o caminho de volta para casa…

“Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Sonhos dourados enchem seus olhos,
Sorrisos lhe acordam quando você se levanta,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.

Certa vez havia um caminho para voltar para casa.
Certa vez havia um caminho para voltar para casa,
Durma, bela adorável, não chore,
E eu lhe cantarei uma canção de ninar.”

(Tradução de Golden Slumbers –Sonhos Dourados” The Beatles)

Minha memória fotográfica é boa, mas não ajuda muito se eu não consigo lembrar o caminho. Sei como é, mas não sei onde é. Dizem que a minha desorientação geográfica serviria para estudos científicos. Não duvido.

Se você me ensina a ir até a sua casa uma vez e eu chego lá, não se iluda, da próxima vez que eu for, você vai precisar me ensinar o caminho todo de novo, e da terceira vez, da quarta… por isso, eu sei que muita gente se esforça para não perder a paciência comigo, e a minha bússola defeituosa agradece.

Mas tem um caminho que eu nunca erro, que eu sempre dou jeito de chegar, seja lá como for, eu chego: é o caminho de volta pra casa. Não o da minha casa, onde a minha bagunça divide espaço com a minha vida zoneada, mas a casa dos meus pais, “de mamãe e papai”, lá na nossa terrinha, de onde eles não têm a menor intenção de sair, nem eu de voltar. Mas eu sempre volto…

… E todas as vezes que eu entro na minha rua, meu coração dá uma festa! É lá… lá que está tudo de melhor que eu tenho na vida, é lá que eu encontro todo o amor e apoio que qualquer um precisa, e o meu coração – que não é bobo nem nada – já se tocou disso. E não importa se eu ficar um dia, ou um mês por lá, sempre vou embora ouvindo dele a mesma reclamação: “mas já?!”

Respondo que “já”, porque eu preciso trabalhar, ganhar dinheiro, dar continuidade aos meus planos quase sempre falíveis, porque eu não posso desistir de realizar os meus “sonhos dourados” que a minha terra se nega a realizar, e mais uma série de “porquês”. O coração se aquieta, mas não se conforma. Jamais.

Eu já estive do outro lado do mundo sem que o meu coração estivesse inteiramente ali, comigo. E eu sei que era que ele estava. E sempre estará. Uma parte, uma parte enoooorme, de mim sempre estará “lá em casa”, talvez por isso eu sempre acerte o caminho.

Às vezes bate uma vontade forte de voltar pra ficar, de acomodar a minha mala no fundo do armário do quarto vazio que ainda guarda o meu cheiro e que nunca se tranca com seus bichinhos de pelúcia sorridentes, registrando que uma criança foi muitíssimo feliz ali, e com seus lençóis limpos e coloridos, que me aquecem todas as vezes que faz muito frio aqui fora.

É que tem ficado muito apertado morar na minha mala, mas, eu sei… ainda não é hora de voltar. Mesmo assim é ótimo saber que lá, naquele lugar, existe um quarto com o meu cheiro, uma sala com fotos minhas nos porta-retratos, um cachorro que me derruba de alegria ao me ver, e sempre espera paciente no portão pelo meu retorno, uma irmã com saudades minhas, uma avó que reza um terço para mim todas as noites antes de dormir, e quarto braços sempre abertos, esticados na minha direção: dois da minha mãe e dois do meu pai.

Porque, felizmente, sempre haverá o caminho de volta para aquele lugar que eu chamo de lar.

Roberta Simoni

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Era uma vez uma janela…

– Você deveria voltar a escrever, já disse…

– Eu sei, mas…

– Mas o que, Beta? Você vai me dizer que não tem tempo? Enjoou do seu blog de novo? Não tá inspirada? O que é dessa vez?

– É… isso tudo aí que você disse. Faz um layout novo pra mim, faz? Quero tentar escrever outra vez, mas preciso me mudar pra uma casa nova!

– Outro blog? Já criei vários blogues pra você, pô!

– Eu sei, e eu te amo por isso. Prometo que se você criar um cantinho novo pra mim, eu volto a escrever. Você poderia fazer um layout de um jeito que…

– Espera! Tenho uma proposta: crio o seu blog novo, mas eu escolho tudo. Inclusive o nome, o endereço, e gostando ou não, você vai ter que escrever nele.

– Fechado!

E foi assim que ele abriu uma nova janela na minha vida. Dessa vez, a janela de cima, do alto, de onde eu pudesse ter uma visão mais ampla desse mundo que se revela cada vez mais maluco, de onde eu tivesse que correr o risco de cair. Era o que ele queria: que eu temesse cair, e mesmo assim eu me pendurasse, me arriscasse… e me atirasse se fosse preciso, como tantas vezes me atiro, de corpo e alma (mais alma do que corpo, é bem verdade).

Ele provoca o meu instinto criativo, desafia o meu trauma de exposição na internet, ri da cara da minha insegurança, me empurra no abismo, e ainda diz, sorrindo, que empurra porque sabe que eu tenho asas.

Obrigada por isso, meu amigo. Por enxergar as asas que, nos dias nublados, eu sou incapaz de ver.

O nome dele? Marcello Sampaio. Gravem esse nome, esse moço poeta, escritor e cineasta ainda vai dar muito o que falar.

… E, contrariando as expectativas, este blog completou um aninho de vida no dia 05 deste mês (!!!). Um ano inteiro de atualizações não regulares, porém, bem mais frequentes que nos meus quase 8 anos anteriores de blogueira.

E esta semana, como presente de aniversário, a Janela de Cima recebeu o comentário de uma leitora que, ao que parece, já lê os meus escritos há algum tempo, mas só agora resolveu se revelar, não só pra mim, mas pra ela própria, diante do mundo. Copio aqui um trecho:

“Roberta, eu não a conheço – a não ser pelos textos do blog – mas venho lendo seus textos – quase todos – e me identifico muito com o que você escreve, com você! E não é só porque fazemos aniversário no mesmo dia! (…) Precisava lhe escrever para te dar os parabéns pelos seus textos, suas fotografias, e também quero agradecer por se tornar uma das pessoas que me inspiram! Graças a você decidi finalmente abrir meu blog – e não foi por falta de vontade, mas sim de coragem ! (…) Mais uma vez, valeu mesmo por escrever! Não pare! Espero, assim como você, não só me expressar, mas inspirar alguém, mudar algo, fazer diferença !”

Ariane: sou tão grata a você por me ler quanto você é grata a mim por eu escrever. E minha gratidão vai além: obrigada, de coração, por, além de apreciar o que escrevo, dividir comigo uma coisa tão especial. Saber que, de alguma forma, minhas palavras te encorajaram a escrever, é qualquer coisa de maravilhoso.

Não pense que vai ser fácil, pois não será. Não o ato de escrever em si, mas o ato de se descobrir, se desvendar e, ainda mais, se revelar diante dos outros. Mas também não pense em desistir, te garanto que será uma experiência única, da qual muita gente passa por essa vida sem experimentar: o auto-conhecimento! Vai com tudo, Ariane, e depois me conta o resultado, combinado? 😉

Outro dia eu recebi um outro comentário, no mínimo curioso, sobre uma narrativa que publiquei aqui. Nele o autor dizia que o texto era bom, porém apelativo.

Well… tirando o texto que escrevi sobre o enfermo (esse aqui óh!), onde eu apelava para que a minha mãe me socorresse caso lesse o meu blog, pois eu estava infernalmente gripada e carente, não lembro de ter feito outros apelos por essas redondezas, de todo jeito, é bom esclarecer: eu não escrevo com a intenção de apelar, convencer, persuadir. Pra falar a verdade, eu nem tenho intenções ao escrever, eu simplesmente escrevo. E é bom, intenso, “é vasto, vai durar”.

Aos meus leitores que me lêem desde os primórdios da Blogosfera, seguidos daqueles que me “descobriram” ontem, meu muito obrigada e o meu melhor sorriso pelos comentários cheios de estímulo, carinho e até cumplicidade, pela troca de boas energias, boas ideias e conversa fiada da melhor qualidade.

Essa janela de arranha-céu, que não possui grades e não é segura, de onde tantos, mesmo assim, se penduram para acompanhar os meus devaneios, às vezes é luz, outras vezes escuridão, abre-se em momentos indeterminados, e fecha-se também. Aqui dentro vive essa moça incompleta, apoiada na janela assistindo assustada o mundo lá embaixo, outras vezes encantada, sempre sonhando com paisagens novas e cada vez mais bonitas, para seus olhos enxergarem e refletirem o que vêem.

Obrigada, meus queridos, por serem a extensão dos meus olhos…

Roberta Simoni

♪ ♫ ♪ ♫ ♪ “Da janela lateral, do quarto de dormir…” ♪ ♫ ♪ ♫ ♪

Flagrantes de Felicidades

Sou do tipo que adora um impresso. Livros, revistas, jornais, gosto até do cheiro das folhas. Antiquada. Jornalista à moda antiga. Mas, confesso: coisa rara é me ver folheando um jornal. Simplesmente não dá tempo. Essa é mais uma das muitas coisas que eu faria diariamente se pudesse. É verdade que a leitura dinâmica na web acaba sendo sempre a opção mais prática, mas  hoje eu comprei um jornal, não porque deu tempo, mas porque eu precisava dos Classificados de Imóveis. Pois é, de mudança outra vez!

Inevitavelmente passei os olhos nas notícias de destaque do jornal. Na foto da primeira página: haitianos se matando por comida. É o fim do mundo, só pode. Não dá pra ver tudo isso e ignorar, achar que é um fato isolado, um caso distante da minha realidade. Não é.

Dói. Faz parecer que a comida que eu tenho no meu prato todo dia não é digna. Que o meu estômago cheio e o de outros vazios não é honesto. Não é justo. Triste ver mortos dividindo espaço com vivos nas ruas. Mais triste ainda para os que não morreram soterrados, e agora morrem de sede e fome. Não dá. É o fim.

Sei lá. É tanta coisa ruim acontecendo com o mundo que dá vontade de pedir pro pessoal lá do meu planeta me buscar e me levar de volta pra casa, porque aqui definitivamente não é o meu lugar.

Aí eu saio. Respiro ar puro, caminho, vejo o mar, vejo gente. Volto melhor. Fazer isso é tão instintivo que só hoje eu percebi que eu sou uma caçadora de fragmentos de felicidade. Eu fico buscando aqui e ali vestígios de alegrias, rastros de instantes de compensação por viver nesse mundo. E, invariavelmente, acabo achando.

Dessa vez voltei pra casa com um frasco cheio deles: uma aurora belíssima que inundou o céu de rosa. Um cachorro de rabo abanando, sorridente (sim, cães sorriem, não sabiam?). O primeiro beijo de um casal que, se não foi o primeiro, pareceu ser. A surpresa e o entusiasmo da menininha ao ver o cachorro (é o au-au, é o au-au!). A expressão de prazer da gordinha ao devorar o seu sorvete. O vovô vidrado nas pernas da morena que desfilava rebolativa na orla. A moça da limpeza da praça de alimentação abrindo um sorriso largo pra mim, ao perceber que eu a observava admirada na sua árdua tarefa de limpar a sujeira dos outros. Flagrantes. Pequenos flagras de felicidades.

A guerra continua, ainda há os mortos de fome, o mundo continua feio e eu continuo sentindo tudo isso de forma latente, mas ainda dá pra flagrar gente sendo feliz por aí, mesmo que por instantes de aparência insignificante, ainda que essa mesma gente sequer se dê conta que está sendo feliz. Eu percebo. E é dessas pequenas alegrias cotidianas (as minhas e as alheias) que eu me alimento.

Flagrantes de dor me abatem e me adoecem, mas os flagrantes de felicidade são o antídoto, principalmente essas felicidadezinhas que se escondem por trás da rotina cotidiana desse planeta estranho.

E quando há pouco o que comemorar ou nada do que se alegrar eu saio por aí… caçando aquela que, de todas, é a presa mais arisca que existe e, possivelmente, tão inconstante quanto eu: a felicidade.

Já que não dá para ser constante, tampouco permanente, que seja breve, mas intensamente saboreada.

Roberta Simoni

(Créditos: Fotografia de Miguel Teotónio)

O triste fim de Margot Simoni

Era uma daquelas noites de tanto frio que, ao sair à rua, dava para enxergar a própria respiração numa fumaça se dissolvendo no ar gelado. Eu evitava sair de casa a todo custo, até que numa noite dessas de inverno a solidão quase me engoliu e me lançou nas ruas frias de São Paulo. Cansada de vê-la à espreita em todos os cantos do apartamento, à espera do momento certo para me dar o bote, arrisquei uma caminhada pelo bairro.

Naquela noite eu andei tanto que fui parar longe demais de mim. Sentei no banco duma praça, próxima à Marginal Pinheiros. O cheiro não era bom, o visual não era nada poético e para todos os lados que eu olhava, só via prédios e escuridão. Paredes Gigantes. Concreto. Verdadeiras muralhas que protegem – e afastam – as pessoas.

Junto com as minhas mãos, pés e nariz, o meu coração também começou a congelar. Dentro ou fora de casa o frio era o mesmo e a solidão me seguiria de qualquer forma até aquele lugar sofrível. E lá estava eu, me sentindo do jeito que ela queria: sozinha.

Já era tarde e eu resolvi fazer o caminho de volta pra casa. Escondi as mãos nas mangas do casaco e levei o coração apertado dentro do bolso que, às vezes, de tão apertadinho, suava. Ou chorava. Não sei bem o que era, porque o frio me deixou meio dormente.

De repente, um miado. Fininho. Choramingoso. Loooongo. Láááá longe. Depois perto, muito perto.  E o susto. Uma gatinha vira-latas se enroscando nas minhas pernas, esfregando a cabeça nos meus pés, me olhando com a cara lânguida. Cinco minutos depois, uma gata dentro do meu bolso, apertada junto ao meu coração.

(Até hoje não descobri quem foi a vítima de quem naquela noite. Se fui eu quem a salvei ou se foi ela quem me adotou.)

Casa comida e roupa lavada. Caminha quentinha. Pratinho de areia. Cortinas novinhas para escalar e companhia nas madrugadas à dentro. Juntas, podíamos ser felizes para sempre, se fôssemos só eu e ela. Mas a outra sempre aparecia para estragar tudo. No final, éramos três companheiras entediadas: Margot, eu e a solidão.

Margot e eu cansamos do frio – e da frieza – de São Paulo, planejamos uma fuga, e concordamos em não contar nada para a solidão. Foi trairagem, eu sei, mas eu sei também que a solidão tem um monte de amigos por aí, vejo-a sempre, acompanhada de tudo quanto é tipo de gente. “Ela vai superar” – pensamos. E assim partimos para o Rio de Janeiro. Nessa parte do caminho nós nos separamos. Eu fui para um lado da cidade, Margot para outro.

Voltei a ser nômade, mas definitivamente não queria que a Margot voltasse a viver nas ruas. Encontrei um pai pra ela. O pai castrou (coisa de pai ciumento, rs!), cuidou, amou e deu à ela a liberdade que ela queria ter novamente. Eu voltei a perambular pelo mundo e ela voltou a escalar telhados, andar livremente pelo bairro, varar a madrugada e dormir só quando a noite cedia espaço para o dia. Mesmo à distância, nosso apetite pela madrugada continuava idêntico. Tudo ia bem. Margot parecia contente da vida, e eu ficava satisfeita todas as vezes que recebia notícias dela.

Mas tinha outra coisa que Margot e eu tínhamos em comum: nós amávamos a liberdade, apesar de, muitas vezes, eu ainda não saber direito o que fazer com a minha, eu pensava que Margot sabia… no entanto, aquela felina não havia se livrado dos vícios que criou enquanto vivia na rua. Nem eu me livrei de muitos dos meus. Por exemplo: enquanto eu tinha a liberdade de comer a hora que eu bem entendesse e me esquecia de comer e, quando lembrava, comia mal, Margot esquecia que tinha comida em casa e não precisava mais fuçar o lixo. Culpa dos vícios, dos velhos vícios…

Um dia Margot foi encontrada morta. O pai dela me falou ao telefone: “Acho que ela comeu veneno pra rato!”. Chorei um bocado. E, inconformada, pensei alto: “Poxa Margoleta, por que você tinha que pegar comida no lixo se tinha comida em casa?”.  Depois lembrei que gatos não pensam como nós pensamos. Foi aí que percebi uma coisa interessante: eles não pensam como nós, mas nós agimos como eles, com a diferença deles terem o perdão da limitação de raciocínio, e nós?

Nós temos alergia a camarão e comemos mesmo assim, não temos resistência ao álcool e bebemos até ficar “daqueeele jeito”, sabemos que o cigarro estraga o pulmão, mas não paramos de fumar. Que droga vicia, que chocolate engorda, que sorvete tem gordura hidrogenada, que fritura faz mal pro estômago…

Nós nos apaixonamos pela pessoa errada. Nos envolvemos com sujeitos visivelmente problemáticos. Cometemos o mesmo erro mais de uma vez. Comemos, bebemos, amamos e sofremos além da conta e depois passamos mal pelo excesso.

Margot não sabia que estava comendo veneno. Nós sabemos e mesmo assim comemos. Eu já comi comida estragada sem saber. E já comi sabendo.

Viver também é aceitar correr o risco de comer comidas exóticas, vencidas ou estragadas de vez em quando… é provar, depois decidir se vai querer ou não repetir, identificar se vai ou não gostar, se vai ser bom pra você ou não. Se vale a pena variar o cardápio, ou se é mais seguro se alimentar só daquilo que já está acostumado a comer, ainda que você não goste tanto ou tenha enjoado do paladar.

Se for fatal, paciência. Pelo menos você vai morrer com a sensação de ter saciado sua vontade, como certamente Margot morreu: livre e de estômago cheio.

Ela que não teve sete vidas, mas viveu intensamente a única que teve.

Roberta Simoni

… porque quando eu comecei a escrever esse texto, só consegui pensar nessa música e enquanto eu escrevia, era ela que eu escutava repetidas vezes.

Para quem não leu as páginas passadas da minha história com a Margot, aqui eu conto tudo, e aqui também.

E sim, o título deste post foi inspirado no romance de Lima Barreto: “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. 😀

Dormindo Sozinha?

Eu tenho dormido pouco, muito pouco. Por volta de 2… 3 horas, no máximo, por noite, mas fico com a sensação de ter dormido 3 minutos. Em suma: eu apenas cochilo. E apesar da agilidade que os últimos dias têm exigido de mim, eles estão letárgicos, eu ando devagar, quase parando. Meus movimentos estão tão lentos quanto os de uma tartaruga ou de um brinquedo que começa a falhar porque a pilha está acabando. Além disso, o meu raciocino foi para as cucuias. Eu sei… ele nunca foi lá grandes coisas, mas, mesmo assim, faz falta. De tudo, o estado mais grave é o da minha cabeça. Acho, aliás, estou certa de que estou variando…

Nessa madrugada, durante o meu breve instante de sono, eu levantei de sobressalto.  Olhei pro lado, não tinha ninguém. Dei um pulo! Onde ele estava? Comecei a procurá-lo por toda a casa. O coração estava acelerado. Eu precisava dele. Entrei em todos os cômodos do apartamento, fucei todos os cantos. Tudo vazio. Bateu um leve desespero: “cadê ele?”. Abri a porta de casa, olhei no corredor do meu andar… nem sinal de ninguém. Cansei. Deitei de novo, inconformada.

Ele teria ido embora no meio da noite? Por que não se despediu? Será que estava se escondendo de mim? Mas por que ele se esconderia? Aquilo era uma brincadeira? Como foi embora sem que eu notasse? Será que voltaria? Talvez tivesse apenas dado uma saída rápida, mas, para onde teria ido?

E no meio daquele dilúvio de dúvidas, fui me cansado de tentar entender. Os batimentos cardíacos entrando no ritmo normal, o sono voltando, meus olhos foram cedendo ao cansaço e se fecharam de novo, até que… eu dei outro pulo!

Peraí, quem é que eu estou procurando? Ele…? Mas ele quem? Quem é ele? Eu fui dormir sozinha, e nada mais natural que eu acordasse sozinha. Nem fui dormir à espera da chegada de ninguém. Além do mais, só eu tenho as chaves de casa, então, a não ser que escalassem o prédio e entrassem pela janela, eu poderia dormir sozinha e acordar acompanhada.

Como assim, minha gente? Enlouqueci de vez?

E o pior não foi isso. O pior é que até agora eu estou com uma sensação terrível de abandono, sentindo uma saudade aguda nem-sei-de-quem. De alguém que me visitou durante a noite e que, certamente, eu não gostaria que tivesse ido embora.

Uma hora mais tarde, quando meu celular despertou na hora que programei, acordei pensando no episódio de poucos minutos antes, e conclui o óbvio: “sou doida de pedra!”, voltei a dormir sem querer, na verdade foi “sem querer querendo”, mas longe de estar podendo prolongar o sono. Adormeci por mais alguns minutos e depois fui despertada por alguém, como se me catucassem pra eu levantar, e aí eu levantei, adivinhem só, com mais um pulo (o terceiro, contaram?).

Não é a primeira vez que acontece, e não raro, depois do susto de acordar atrasada, e de constatar que fui salva por poucos minutos, eu já levanto dizendo: “obrigada, anjinho, se não fosse você, eu estaria perdida!”

Não sou espírita, católica, evangélica nem macumbeira. Não sou nada. Sou o que eu sinto. E eu não sei se anjos existem, e se existem, eu nem sei se  tenho um que me guarde, mas alguém – ou alguma coisa – tá lá, SEMPRE, ainda que eu só perceba esporadicamente.

Pode ter sido um anjo me visitando. Um fantasma. E esse último pode aparecer de várias formas: pode ser um fantasma do passado, o fantasma de mim mesma ou o de outra pessoa. Pode ter sido uma saudade que foi me ver. A saudade que alguém sentiu de mim. Pode ter sido um encontro, ou um reencontro. Pode ser que minha alma esteja enamorada enquanto eu durmo. E pode ser, é claro, que eu esteja precisando de um tratamento psicológico urgentemente. E talvez o Pinel seja o próximo lugar que eu escolha passar uma temporada, pra variar. 😀

De todo jeito foi bom. Bom demais. Mas foi breve e deixou saudade. Só por isso, eu vou dormir mais essa noite, ainda que ele volte a me visitar e eu nem me recorde disso amanhã.  

Ai ai… eu não me canso de me surpreender com as minhas aventuras noturnas!

E você? Tem certeza que dorme “sozinho”?

Roberta Simoni