Flagrantes de Felicidades

Sou do tipo que adora um impresso. Livros, revistas, jornais, gosto até do cheiro das folhas. Antiquada. Jornalista à moda antiga. Mas, confesso: coisa rara é me ver folheando um jornal. Simplesmente não dá tempo. Essa é mais uma das muitas coisas que eu faria diariamente se pudesse. É verdade que a leitura dinâmica na web acaba sendo sempre a opção mais prática, mas  hoje eu comprei um jornal, não porque deu tempo, mas porque eu precisava dos Classificados de Imóveis. Pois é, de mudança outra vez!

Inevitavelmente passei os olhos nas notícias de destaque do jornal. Na foto da primeira página: haitianos se matando por comida. É o fim do mundo, só pode. Não dá pra ver tudo isso e ignorar, achar que é um fato isolado, um caso distante da minha realidade. Não é.

Dói. Faz parecer que a comida que eu tenho no meu prato todo dia não é digna. Que o meu estômago cheio e o de outros vazios não é honesto. Não é justo. Triste ver mortos dividindo espaço com vivos nas ruas. Mais triste ainda para os que não morreram soterrados, e agora morrem de sede e fome. Não dá. É o fim.

Sei lá. É tanta coisa ruim acontecendo com o mundo que dá vontade de pedir pro pessoal lá do meu planeta me buscar e me levar de volta pra casa, porque aqui definitivamente não é o meu lugar.

Aí eu saio. Respiro ar puro, caminho, vejo o mar, vejo gente. Volto melhor. Fazer isso é tão instintivo que só hoje eu percebi que eu sou uma caçadora de fragmentos de felicidade. Eu fico buscando aqui e ali vestígios de alegrias, rastros de instantes de compensação por viver nesse mundo. E, invariavelmente, acabo achando.

Dessa vez voltei pra casa com um frasco cheio deles: uma aurora belíssima que inundou o céu de rosa. Um cachorro de rabo abanando, sorridente (sim, cães sorriem, não sabiam?). O primeiro beijo de um casal que, se não foi o primeiro, pareceu ser. A surpresa e o entusiasmo da menininha ao ver o cachorro (é o au-au, é o au-au!). A expressão de prazer da gordinha ao devorar o seu sorvete. O vovô vidrado nas pernas da morena que desfilava rebolativa na orla. A moça da limpeza da praça de alimentação abrindo um sorriso largo pra mim, ao perceber que eu a observava admirada na sua árdua tarefa de limpar a sujeira dos outros. Flagrantes. Pequenos flagras de felicidades.

A guerra continua, ainda há os mortos de fome, o mundo continua feio e eu continuo sentindo tudo isso de forma latente, mas ainda dá pra flagrar gente sendo feliz por aí, mesmo que por instantes de aparência insignificante, ainda que essa mesma gente sequer se dê conta que está sendo feliz. Eu percebo. E é dessas pequenas alegrias cotidianas (as minhas e as alheias) que eu me alimento.

Flagrantes de dor me abatem e me adoecem, mas os flagrantes de felicidade são o antídoto, principalmente essas felicidadezinhas que se escondem por trás da rotina cotidiana desse planeta estranho.

E quando há pouco o que comemorar ou nada do que se alegrar eu saio por aí… caçando aquela que, de todas, é a presa mais arisca que existe e, possivelmente, tão inconstante quanto eu: a felicidade.

Já que não dá para ser constante, tampouco permanente, que seja breve, mas intensamente saboreada.

Roberta Simoni

(Créditos: Fotografia de Miguel Teotónio)

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9 comentários sobre “Flagrantes de Felicidades

  1. eu também acho q felicidade é a união de pequenas coisas, como vc disse, o sorriso do cachorro [sim, a minhha golden tem o sorriso mais largo q já vi], o primeiro beijo, a alegria de ver uma coisa diferente e por aí vai, tudo junto faz uma felicidade enorme dentro do peito, e isso ameniza a parte ruim da história.
    bjs

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  2. Roberta, eu não a conheço – a não ser pelos textos do blog – mas venho lendo seus textos – quase todos – e me identifico muito com o que você escreve, com você! E não é só porque fazemos aniversário no mesmo dia! Espero não estar sendo aquele tipo de pessoa assustadora – aquelas cheia de intimidade que mal conhecemos ou que simplesmente não conhecemos, o que é o meu caso!- mas precisava lhe escrever para te dar os parabéns pelos seus textos, suas fotografias, e também quero agradecer por se tornar uma das pessoas que me inspiram! Graças a você decidi finalmente abrir meu blog – e não foi por falta de vontade, mas sim de coragem ! Também não tenho dom pra escrever, mas amo! – e gostaria muito que você desse uma espiadinha por lá, tem algumas palavras pra você! Mais uma vez, valeu mesmo por escrever! Não pare! Espero assim como você não só se expressar, mas inspirar alguém, mudar algo, fazer diferença ! Bom, já falei demais para um comentário! É isso ! Obg!

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  3. Desde a gravidez que fujo de jornal. Ridículo isso (principalmente pra uma professora de Geografia), mas não sei como lidar com as mazelas do mundo e depois que a gente tem filho parece que a forma como sentimos tudo muda. Tudo dói mais. Tsc…

    Prima do J.P., vc arrasa nas fotos e nos textos tb. 😉

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  4. Pois é…hoje me senti tomada pelas dores do mundo(inclusive as minhas) e adivinha onde vim buscar alento? Nas suas palavras, é claro ( e não é a primeira vez). Obrigada! Saudade!

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  5. sabe uma vez ouvi uma pessoa falando,não lembro quem, nem aonde,mas não importa, ela dizia que os pensamentos, as idéias boas, e até as não tão boas assim, ficam vagando pelo espaço e as pessoas captam elas com sua mente,uns captam mais por ser mais “sensitivos”, e uns menos (apesar do meu ceticismo não me deixar pensar muito assim gostei da idéia), porém a idéia principal é que as pessoas tinham de ter sensibilidade para perceber essas idéias ao vento. aí eu me pergunto, porque não podemos abranger essa idéia para as coisas boas, não que fiquem flutuando por aí, mas que sejam cenas, coisas interessantes que talvez se não estivesse atento passaria despercebido.

    Gui.

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