Pinto no Lixo (ou Beta no Sebo)

O que é isso? Um pinto no lixo? Nãããão, é só a Beta no Sebo…

É desse jeitinho mesmo que eu estou me sentindo essa semana: um pinto no lixo! Não bastava estar contente por ter conseguido mudar de cidade (sim, outra vez!) e estar morando num cantinho muito agradável, ainda que temporário (como não poderia deixar de ser…), depois de passar quase 6 meses vivendo num lugar que eu aboninava, tamanha foi a minha felicidade ao descobrir que bem ao lado da minha nova toca tem um lugar mágico, também conhecido como Sebo!

Mas não é um sebo qualquer, é um lugar adorável, desses que você entra e não quer nunca mais sair. Eu moraria entre aqueles livros se não me cobrassem aluguel.

Mas, por hoje, o sebo já fechou e, a essa altura, algumas várias malas me aguardam, com algumas várias roupas dentro, que esperam ansiosas por viver dentro de um armário com algumas várias gavetas, depois de tanto tempo brigando por espaço dentro daquelas algumas várias malas. Pois é, eu ainda não tive coragem de avisá-las que o armário é temporário, deixo que curtam sem se preocuparem tanto com o amanhã. Eu e elas, todas feito pintinhos no lixo!

Para a euforia ficar completa, o que eu vejo da minha nova Janela de Cima ao acordar? O Corcovado, com um moço bonito, de braços abertos pra mim.

Impossível não me sentir abraçada por livros, armários e Cristos.

Roberta Simoni

E se fosse o contrário?

Taí um exercício desafiador: colocar-se no lugar do outro. Conheço gente que nunca ousou fazê-lo.

Não, não é fácil mesmo, eu sei. Por isso é que tem muito sedentário que prefere não se sacrificar, afinal, julgar é tão mais simples e não requer qualquer tipo de esforço.

Sem contar que dói. Dói pra caramba. Imagina só se colocar no lugar de doentes, moribundos, pobres, órfãos, viúvos, solitários, presidiários, mendigos…? Não dá. É pesado demais. Não fomos programados para isso. O peso é insuportável.

Imagina então se colocar no lugar de uma formiga? Do seu gato de estimação? Do cachorro preso no canil? Dos ratos de laboratórios? Do peixe no aquário? Do pássaro na gaiola? Fala sério, né? Coisa de gente desocupada.

Mas eu sou gente ocupada e faço. E, é claro, vivo aflita.

Mas é inevitável, sabe? Quando eu percebo, já estou me sentindo na escama do peixe, no pêlo do cachorro e do gato, na pena do pássaro, na pele do doente, no estômago do faminto, nos olhos do cego, no coração quem ama platonicamente… 

E não é porque eu sou boa demais, porque eu não sou. É porque eu sinto demais. Sinto tudo. Tudo muito. Muito mais do que eu gostaria…

Eu gostaria mesmo era de viver como muita gente vive, de forma menos latente, tranquilamente, sem sentir tanto. (Mentira! Gostaria nada…)

É pouco provável que eu mude, pelo menos nesse aspecto. O que acontece comigo são transformações constantes. Talvez por isso eu já tenha sido chamada de mulher camaleoa, apesar das poucas mudanças no visual e da cor do meu cabelo que é sempre a mesma, meu espírito (ou o estado dele) tá sempre diferente, ele se ilumina, troca de cor e textura a cada vez que se coloca no lugar de alguém, fica cinzento e áspero quando não muda.

Ou você espera que, no calor de uma briga, eu consiga facilmente trocar de lugar com o oponente? Na-na-não. Aí o bicho pega. A mulher camaleoa pede licença, se ausenta do ambiente e o egoísmo entra porta à dentro sem pedir permissão, sentido-se o “proprietário” do pedaço. Por essas e outras é que eu sei, na prática, como é difícil se colocar no lugar de outra pessoa.

É um exercício constante, com movimentos repetidos e contínuos, que requer paciência e causa elasticidade. Aí, aos poucos a gente vai ficando mais flexível.

Já se sentiu expandir? Então experimente a sensação de se colocar no lugar de outra pessoa, outro ser vivo, de qualquer espécie ou tamanho. Um pouquinho a cada dia. Oportunidade não vai faltar, eu garanto! É como alongar braços e pernas diariamente, só que dói um tiquinho mais…

Mas aí, quando você percebe, suas mãos já estão alcançando os seus pés. E a sua alma? Ahhhh… essa já se expandiu tanto que você perdeu de vista.

Homem de estimação. Que tal?

Esse curta é tudo que eu quis dizer, dispensando as palavras. Obrigada por me enviar o link, Alê! 😉

Roberta Simoni

Em dias de fantasia

É verdade que às vezes eu me tranco num casulo de preocupações e aborrecimentos, esqueço da minha promessa de carnaval e visto a fantasia da realidade involuntariamente.

É verdade que grandes mudanças estão para acontecer. É verdade que eu preciso tomar decisões difíceis.

E a verdade maior de todas é que, mais do que nunca – ou mais do que sempre – eu serei chamada de louca, maluca, doida varrida… tudo muito familiar pra mim (e isso também é verdade).

E pensando nas minhas loucuras voluntárias e ainda não anunciadas, eu me aproveitei do carnaval para vestir a minha fantasia insana sem ser taxada de maluca. Porque no carnaval, tudo pode. Tudo é festa. E toda insanidade é perdoada.

… E acabei indo parar na página da Uol.

Na legenda: “Roberta Simoni se diverte no bloco das Carmelitas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.”

E depois na página da IG:

“Cariocas e estrangeiros se misturaram no bloco, com fantasias criativas como um dominó humano.”

E até no O Globo:

Isso porque eu não tive metade da energia desse povo aí para ir atrás dos blocos todos os dias. E se alguém estivesse lá escondido, tava era lascado, porque nem o RJ TV e o Jornal Hoje nos deixaram passar batidos. Evaristo que o diga… 😀

“Betaaaaaaaa, acabei de te ver na Globo, pulei aqui na frente da tevê: é ela, é ela, é ela!” (minha irmã, ao telefone, empolgada com meus 5 segundos de estrelato, vestida de peça de dominó… uó!).

Mas gente… eu juro: não vou deixar a fama subir à cabeça. =P

O carnaval termina hoje e eu ainda estou pensando se visto ou não aquela fantasia desbotada e ordinária da realidade.

A loucura me cai tão bem, afinal.

Vai dizer que não? 😉

Roberta Simoni

A fantasia desbotada da Realidade

Se neste país o ano só começa depois do carnaval, e de fato tudo na minha vida parece só querer começar a acontecer depois da quarta-feira de cinzas próxima, tudo bem. Se o Brasil para, eu paro junto. Aqui a gente dança conforme a música, ou no batuque do samba.

Ouvi uma frase do amigo Gabriel que ficou ecoando na minha cabeça hoje: “A minha fantasia é a realidade.”. Achei linda. Daria um belíssimo texto se eu não estivesse vestindo a fantasia da realidade às avessas.

Neste carnaval, “A minha realidade é a fantasia”. E o meu lado “mulherzinha” se sente profundamente ofendido de repetir a mesma roupa por tantos dias consecutivos e eu já começo a enjoar desse uniforme. Então tá decidido: guardo a realidade no fundo do armário (ou, no meu caso, no fundo da mala) e só volto a vestir depois do carnaval. Pronto.

Se o que é real, palpável e concreto não é colorido o suficiente, o carnaval taí pra isso: descombinar as cores, misturar as estampas, desordenar a rotina, esticar os prazos e adiar os compromissos inadiáveis.

Eu quero listras com bolinhas, cores estampadas num tecido prateado de lantejoulas douradas. Quero a cor púrpura das paixões no meu cabelo, embaraçado com confetes e serpentinas. Quero o brilho do suor da minha pele se confundindo com a purpurina.

As máscaras? Quero todas possíveis. Menos a minha de todo dia.

E, por favor, abram alas, que eu quero passar… ♪ ♫ ♪ ♫ ♪ ♪ ♫ ♪ ♫ ♪

Quem vem comigo?

(a foto eu tirei daqui óh!)

Roberta Simoni

Que gozem!

Mania de levar tudo pro lado maldoso/sexual da coisa,  tsc tsc tsc… (eu diria até o lado booooom da coisa, mas, enfim…)

Ainda agora eu senti o chão tremer. Não vou mentir, a primeira coisa que pensei foi: “tem gente transando”. Mas aí o chão parou de tremer, e nem a mais rápida das rapidinhas poderia ser tão ligeira. Imediatamente me reprimi por deixar, mais uma vez, meus pensamentos terminarem em sexo.

Minutos depois, além do chão tremendo, parecia que alguém estava pregando um quadro na parede. Caramba, mas são 3h da manhã, ninguém faria isso a essa hora!

Fui para a janela e… bingo! Meus vizinhos de baixo estavam transando, loucamente, diga-se passagem. E ainda estão.  Tudo por aqui continua tremendo enquanto escrevo, ao som de gemidos e “marteladas”.

Aquela pequena pausa deve ter sido um breve espaço de tempo entre o ensaio e o espetáculo, que já dura mais de duas horas. Uau, meu vizinho não é fraco, não!

Acho que gozaram, lá pela enésima vez. A verdade é que eu esqueci de contar, e se não fosse pela ausência de cálculos, estaria me sentindo agora a própria Amélie Poulain.

Depois de tanto tempo escutando essa sinfonia harmônica é inevitável pensar na minha personagem favorita do cinema. Um dos prazeres de Amélie era esse: escutar os orgasmos vizinhos, e ela não só escutava como contava todos, um por um.

Um modo de passar o tempo que muita gente pode julgar obsceno. Eu considero divertido. Obsceno é diminuir o volume da tevê para escutar a briga dos vizinhos ao lado. Coisa que eu já fiz, e não me orgulho nem um pouco disso.

Mas e aí? Qual é a graça de ver ou ouvir gente brigando por aí? Que os brigões fiquem longe de mim. Mas se tiverem que transar por perto, tudo bem, eu não me importo.

Ficar ouvindo briga de casal é quase como ver uma ambulância socorrendo feridos na estrada e parar o carro só para olhar os acidentados. Vai ajudar? Não! Então, muito ajuda quem pouco atrapalha. Não foram poucas as vezes que enfrentei engarrafamentos quilométricos por conta dos curiosos que empacam o trânsito só para testemunharem a dor dos outros. Tenho vontade de passar por eles e perguntar: “e aí, foi bom para vocês?”

Tenho um palpite: acho que esses sujeitos são os mesmos que interfonam para reclamar com os vizinhos que trepam de madrugada, ou fazem queixa para o síndico, incomodamos com os efeitos sonoros das trepadas alheias. Pra mim isso é um baita atestado de uma vida sexual ruim, ou pior: inexistente.

É claro que existem casos e casos e, se o casal se excede na empolgação, vale dar um toque, mas não é o caso dos meus vizinhos de baixo. Eu só posso ouví-los tão bem porque estou insone, com a janela de cima aberta (a real e a virtual) e também porque desliguei as caixinhas de som do computador, que tocavam Norah Jones, mas achei que a trilha sonora não combinava muito com a ocasião.

Casais transando existem aos montes por aí, nesse exato momento vários devem estar fazendo o mesmo exercício que os meus vizinhos de baixo. Brigando idem. Muitos devem estar caindo no tapa agora. O que é preferível? Saber que duas pessoas estão se desfazendo em lágrimas e ofensas ou se acabando de tanto prazer?

Eu, assim como Amélie Poulain, prefiro ser testemunha de orgasmos… eles que, inegável e indiscutivelmente, são a excelência em gozar a vida.

Roberta Simoni

Vou de vestido preto!

No escuro de novo. Agora é assim, pelo menos uma vez por semana isso acontece por aqui, geralmente nos dias que eu mais preciso de eletricidade, obviamente.

Depois de horas na escuridão calorenta do veraneio carioca, teve até torcida gritando quando a luz voltou. E eu juro que quase pude escutar Renato Russo cantando “Eu era um Lobisomem Juvenil” ao pé do meu ouvido:

“Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou…”

E lá estava eu de novo, me transportando à adolescência. Embalada pelo som de Legião Urbana, foi até difícil me achar no meio de tantos planos milaborantes, sonhos escalafobéticos e dores nada fundamentadas. Mas lá estava eu, diante de mim mesma outra vez, parada, me olhando com uma certa desconfiança, sentindo uma curiosidade inquieta e uma compaixão quase maternal por mim.

– Ei, garota! Qual o problema?

– Tô preocupada…

– Pois não deveria. Seus planos não vão dar certo mesmo.

– Ahhh tá… agora sim, eu fiquei beeeem mais tranquila. Isso foi muuuito animador !

– Engraçado, eu não lembrava de você irônica assim desde tão nova.

– E eu não imaginava você tão pessimista.

– Não é pessimismo, é só a realidade. Sabe esses planos todos que você tá fazendo? Então… eles vão se concretizar, mas de forma absolutamente diferente de como você imagina agora.

Ahhhhh, mas então eles vão acontecer?

– Vão, mas você não vai nem sentir, porque eles não acontecerão de maneira óbvia, muito menos dentro do tempo que você espera, e você vai julgar que eles não te servirão mais, e eles acabarão não servindo mesmo. Tipo aquele vestido que você ganhou de presente no seu aniversário de 15 anos que você veste para desfilar em frente ao espelho, enquanto espera pela festa perfeita para finalmente usá-lo, sabe?

– Sei, claro… aquele preto que minha tia me deu! Você já usou?

– Não. Ficou curto, não cabe mais. Nós fomos à festas maravilhosas, mas não usamos o vestido esperando “a festa perfeita”, que nunca aconteceu. E eu achei por bem doar o vestido novo… com cheiro de mofo.

– Não acredito que você deu o meu vestido !!!

Você deu. Um dia você se olhou no espelho com ele e se achou ridícula e –  preciso dizer – você estava mesmo ridícula e… cafona. Seu vestido saiu de moda, mocinha !

– Você tá me dizendo que é isso que eu faço com os meus… com os nossos sonhos?

Booooa, garota! É isso! Você não degusta. Ou a fome é muita e você come cru ou você gosta tanto que guarda pro final, e come frio.

– É quase como se não tivesse acontecido, né?

– Exato. Por isso, não se preocupe se vai acontecer, se concentre em como vai acontecer, mas não agora. E não se frustre se, na hora agá, você estiver usando a sua calça jeans mais surrada, ou aquela camiseta velha, pois é exatamente assim que vai ser.

“Beeeeeeeeeeeta, tá na sua vez de comprar pão !!!

Tô iiiiiindo, mãe!”

Nossa conversa foi interrompida por causa do pão fresco do lanche da tarde.

E eu fui e voltei da padaria sob os olhos de estranheza da minha mãe, do padeiro, e de todo mundo que passou por mim na rua. Ninguém jamais entenderia o que aquela garota fazia ali, usando aquele vestido preto sofisticado àquela hora do dia.

Era só uma menina vestindo um sonho que não podia ficar pendurado para sempre no cabide, ora!

E hoje, que eu julguei ser o dia ideal para fazer o meu trabalho, voltei pra casa mais cedo e “puffff”: fiquei no escuro. E aí eu pensei na conversa que não aconteceu ontem, na viagem que eu cancelei no mês passado, na mudança que eu adiei para esse ano e lembrei do vestido preto que eu poderia ter usado antes…

“E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante…”

Roberta Simoni