Vou de vestido preto!

No escuro de novo. Agora é assim, pelo menos uma vez por semana isso acontece por aqui, geralmente nos dias que eu mais preciso de eletricidade, obviamente.

Depois de horas na escuridão calorenta do veraneio carioca, teve até torcida gritando quando a luz voltou. E eu juro que quase pude escutar Renato Russo cantando “Eu era um Lobisomem Juvenil” ao pé do meu ouvido:

“Luz e sentido e palavra
Palavra é!
Que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando
Quando a luz voltou…”

E lá estava eu de novo, me transportando à adolescência. Embalada pelo som de Legião Urbana, foi até difícil me achar no meio de tantos planos milaborantes, sonhos escalafobéticos e dores nada fundamentadas. Mas lá estava eu, diante de mim mesma outra vez, parada, me olhando com uma certa desconfiança, sentindo uma curiosidade inquieta e uma compaixão quase maternal por mim.

– Ei, garota! Qual o problema?

– Tô preocupada…

– Pois não deveria. Seus planos não vão dar certo mesmo.

– Ahhh tá… agora sim, eu fiquei beeeem mais tranquila. Isso foi muuuito animador !

– Engraçado, eu não lembrava de você irônica assim desde tão nova.

– E eu não imaginava você tão pessimista.

– Não é pessimismo, é só a realidade. Sabe esses planos todos que você tá fazendo? Então… eles vão se concretizar, mas de forma absolutamente diferente de como você imagina agora.

Ahhhhh, mas então eles vão acontecer?

– Vão, mas você não vai nem sentir, porque eles não acontecerão de maneira óbvia, muito menos dentro do tempo que você espera, e você vai julgar que eles não te servirão mais, e eles acabarão não servindo mesmo. Tipo aquele vestido que você ganhou de presente no seu aniversário de 15 anos que você veste para desfilar em frente ao espelho, enquanto espera pela festa perfeita para finalmente usá-lo, sabe?

– Sei, claro… aquele preto que minha tia me deu! Você já usou?

– Não. Ficou curto, não cabe mais. Nós fomos à festas maravilhosas, mas não usamos o vestido esperando “a festa perfeita”, que nunca aconteceu. E eu achei por bem doar o vestido novo… com cheiro de mofo.

– Não acredito que você deu o meu vestido !!!

Você deu. Um dia você se olhou no espelho com ele e se achou ridícula e –  preciso dizer – você estava mesmo ridícula e… cafona. Seu vestido saiu de moda, mocinha !

– Você tá me dizendo que é isso que eu faço com os meus… com os nossos sonhos?

Booooa, garota! É isso! Você não degusta. Ou a fome é muita e você come cru ou você gosta tanto que guarda pro final, e come frio.

– É quase como se não tivesse acontecido, né?

– Exato. Por isso, não se preocupe se vai acontecer, se concentre em como vai acontecer, mas não agora. E não se frustre se, na hora agá, você estiver usando a sua calça jeans mais surrada, ou aquela camiseta velha, pois é exatamente assim que vai ser.

“Beeeeeeeeeeeta, tá na sua vez de comprar pão !!!

Tô iiiiiindo, mãe!”

Nossa conversa foi interrompida por causa do pão fresco do lanche da tarde.

E eu fui e voltei da padaria sob os olhos de estranheza da minha mãe, do padeiro, e de todo mundo que passou por mim na rua. Ninguém jamais entenderia o que aquela garota fazia ali, usando aquele vestido preto sofisticado àquela hora do dia.

Era só uma menina vestindo um sonho que não podia ficar pendurado para sempre no cabide, ora!

E hoje, que eu julguei ser o dia ideal para fazer o meu trabalho, voltei pra casa mais cedo e “puffff”: fiquei no escuro. E aí eu pensei na conversa que não aconteceu ontem, na viagem que eu cancelei no mês passado, na mudança que eu adiei para esse ano e lembrei do vestido preto que eu poderia ter usado antes…

“E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante…”

Roberta Simoni

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11 comentários sobre “Vou de vestido preto!

  1. Lindonaaaaaa…uma palavra para o texto:PERFEITO! Passamos tanto tempo esperando o momento ideal, que nem percebemos (e aproveitamos) quando ele acontece…SOU SUA FÃ!

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  2. mandou muito Beta…
    de novo digo que fico cada vez mais impressionado com seus textos.
    gostei muito do que li, e digo que é um assunto muito pertinente pois realmente vivemos esperando o momento perfeito, ou ideal, e quando percebemos nossos sonhos já estão velhos de fato não nos servem como antes!

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  3. O post acabou sendo pouco metafórico pra mim, Beta.

    Tenho um vestido há quase uns dois anos improdutivo dentro do armário. É lindo, é vermelho, comprei como possível símbolo de uma audácia que, na verdade, jamais pus em prática. Sempre aguardando “a festa certa”, eu também dizia para mim, e nunca tendo efetivamente saído do cabide.

    A sorte é que, como o corte é razoavelmente clássico, não saiu de moda. E eu não creio que tenha engordado tanto, de lá pra cá – ainda deve me servir.

    Você está certa: é preciso tirar do armário os nossos sonhos, e sair por aí com eles, nem que seja para embelezar a fila do pão. Na próxima oportunidade, não importa o quão estranha e pouco adequada, pretendo seguir seu conselho: vou de vestido vermelho! Se a situação fugir do meu controle e realmente houver gente demais me olhando com cara de “por que um vestido vermelho?”, ao menos sempre poderei contar com a ajuda dos apagões cariocas. 🙂

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  4. Acho que todos nós temos um “vestido preto” ou vários
    Fez-me lembrar de tantos sonhos guardados e nafitalinados no armário da vida.
    É bom quando alguém vem nos acordar para seguirmos prestando mais atenção na realidade.
    Parabéns pela bela analogia.
    Léah

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  5. E quem não tem seu “vestido preto”, não é?

    eu estou com um “armário” cheio deles, sempre adiando… à espera. Ando faxinando a vida com mais frequência, mas, ainda falta muito.

    BEIJOS menina bonita! 🙂

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