E se fosse o contrário?

Taí um exercício desafiador: colocar-se no lugar do outro. Conheço gente que nunca ousou fazê-lo.

Não, não é fácil mesmo, eu sei. Por isso é que tem muito sedentário que prefere não se sacrificar, afinal, julgar é tão mais simples e não requer qualquer tipo de esforço.

Sem contar que dói. Dói pra caramba. Imagina só se colocar no lugar de doentes, moribundos, pobres, órfãos, viúvos, solitários, presidiários, mendigos…? Não dá. É pesado demais. Não fomos programados para isso. O peso é insuportável.

Imagina então se colocar no lugar de uma formiga? Do seu gato de estimação? Do cachorro preso no canil? Dos ratos de laboratórios? Do peixe no aquário? Do pássaro na gaiola? Fala sério, né? Coisa de gente desocupada.

Mas eu sou gente ocupada e faço. E, é claro, vivo aflita.

Mas é inevitável, sabe? Quando eu percebo, já estou me sentindo na escama do peixe, no pêlo do cachorro e do gato, na pena do pássaro, na pele do doente, no estômago do faminto, nos olhos do cego, no coração quem ama platonicamente… 

E não é porque eu sou boa demais, porque eu não sou. É porque eu sinto demais. Sinto tudo. Tudo muito. Muito mais do que eu gostaria…

Eu gostaria mesmo era de viver como muita gente vive, de forma menos latente, tranquilamente, sem sentir tanto. (Mentira! Gostaria nada…)

É pouco provável que eu mude, pelo menos nesse aspecto. O que acontece comigo são transformações constantes. Talvez por isso eu já tenha sido chamada de mulher camaleoa, apesar das poucas mudanças no visual e da cor do meu cabelo que é sempre a mesma, meu espírito (ou o estado dele) tá sempre diferente, ele se ilumina, troca de cor e textura a cada vez que se coloca no lugar de alguém, fica cinzento e áspero quando não muda.

Ou você espera que, no calor de uma briga, eu consiga facilmente trocar de lugar com o oponente? Na-na-não. Aí o bicho pega. A mulher camaleoa pede licença, se ausenta do ambiente e o egoísmo entra porta à dentro sem pedir permissão, sentido-se o “proprietário” do pedaço. Por essas e outras é que eu sei, na prática, como é difícil se colocar no lugar de outra pessoa.

É um exercício constante, com movimentos repetidos e contínuos, que requer paciência e causa elasticidade. Aí, aos poucos a gente vai ficando mais flexível.

Já se sentiu expandir? Então experimente a sensação de se colocar no lugar de outra pessoa, outro ser vivo, de qualquer espécie ou tamanho. Um pouquinho a cada dia. Oportunidade não vai faltar, eu garanto! É como alongar braços e pernas diariamente, só que dói um tiquinho mais…

Mas aí, quando você percebe, suas mãos já estão alcançando os seus pés. E a sua alma? Ahhhh… essa já se expandiu tanto que você perdeu de vista.

Homem de estimação. Que tal?

Esse curta é tudo que eu quis dizer, dispensando as palavras. Obrigada por me enviar o link, Alê! 😉

Roberta Simoni

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6 comentários sobre “E se fosse o contrário?

  1. esse curta é uma gracinha…
    eu tenho o costume de me colocar na ‘pele’ dos outros, por vezes eu sofro, outras vezes não, mas isso fez de mim, não digo uma pessoa melhor, mas uma pessoa sempre em busca de melhoria.
    bjs

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  2. Nossa… E eu me encontrei tanto aqui que, sem querer, acabei me transpondo para você. Sendo-a, nesse instante.
    Sim, sentir é a maravilha mais pesada de que um vivente pode ser portador. Não falo do sentir frívolo, nem da metafísica de botequim, mas DESSE sentir exato que pronto acabaste de descrever aqui…
    Acabo de me enxergar no espelho de suas palavras.
    E que bom.

    Um beijo.

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  3. menina, por onde andei que nunca havia te lido? Adorei!

    nunca cheguei ao extremo de me sentir no pêlo dos cachorros, mas na pele de outros homens, sim, sempre. E nem é pq sou boa, pq não sou. É febre de sentir, Fernando Pessoa descobriu.

    volto pra ler os arquivos, certeza.

    bjs meus

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