Thelma que sou.

Sabe, Thelma? Você é quem estava certa, sempre esteve com a razão, o tempo todo! Hoje acordei lembrando de você e da Louise. A primeira imagem que me veio à mente ao abrir os olhos  foi a de vocês duas, naquele Thunderbird azul, diante do abismo. Você olhou para a Louise e falou: “vamos em frente!”, ela afundou o pé no acelerador, e vocês (se) foram. Mergulharam de mãos dadas no desconhecido, sorrindo.

Quando eu te vi fazendo isso, custei a acreditar, e mais ainda: eu não quis aceitar. Logo você, Thelma…? Tudo bem que você seria indiciada pela morte daquele cretino que tentou te estuprar, tudo bem que você estava foragida, tudo bem que tivesse roubado, incendiado o caminhão daquele tarado de beira de estrada e até apontado uma arma na cabeça de um tira. Bom, ainda assim, você dormiu com o Brad Pitt, e estava com crédito. Quem dorme com o Brad, minha amiga, pode quase tudo nessa vida. Mas, se jogar no precipício, Thelminha? Aí, não! Você podia ter convencido a Louise a se entregarem à polícia. Talvez a pena fosse mais branda, um bom advogado ajudaria, ou aquele policial bonzinho que sabia que vocês não eram criminosas. Talvez…

… talvez tenha sido exatamente dessa forma que eu pensei quando eu te vi de mãos dadas com a Louise, rumo ao abismo. Fechei os olhos, e tampei a boca, incrédula, de coração apertado. É que eu estava achando aquela aventura de vocês tão deliciosa, e depois de ver você se transformando naquela mulher corajosa e atrevida, absolutamente diferente da esposa obediente, medrosa e boba que eu conheci, eu me apeguei a você, sabe? Torci, vibrei junto, peguei carona naquele possante maravilhoso da Louise e senti o gostinho bom do vento despenteando nossos cabelos. Foi isso, me apeguei muito. E chorei.

Mas agora eu sei, eu entendi !!! Não fiquei triste com você, Thelma, de verdade! Aquilo tudo era só apego, e um pouco de egoísmo, entende? Mas eu superei, cresci, aprendi algumas coisas sobre os riscos e os abismos da vida, e descobri que continuava te admirando, mesmo depois de todos esses anos. Hoje em dia é até engraçado, eu falo de você com tanto orgulho. Isso mesmo, orgulho! Essa é a palavra. É o que eu sinto hoje ao pensar em você.

Tudo é tão subjetivo, afinal, não é mesmo? Por que a morte não seria? Quem disse que morrer foi um final triste para você e a Louise? Quem disse que era o fim? Aposto que foi só o começo! Além do mais, vocês já não cabiam nesse mundo, eles nunca compreenderiam vocês mesmo, e isso tudo aqui ficou limitadinho demais para tamanha ousadia. Deve haver um outro mundo bem mais preparado para receber vocês duas, ahhhh deve! Só não sei o que te deu que até hoje você não voltou pra me contar o que aconteceu depois daquele salto no precipício, mas, eu duvido que aquele buraco profundo era o inferno de vocês. Era, sim, o nirvana!

Ahhhhh, minha cara, se todo mundo ousasse ser um pouquinho “Thelma”, de vez em quando, o mundo seria um lugar tão mais simpático, leve, divertido…

E hoje eu acordei bem assim, me sacudindo, me encarando no espelho e dizendo: “Anda, Thelma, aparece! Eu sei que você está escondida aí, deixa de ser besta!”.

Você aceitou a provocação, e veio. É tão bom te ver de novo, Thelma… quando tempo fazia?

Vem! Me dá sua mão, vamos pular juntas. Me deixa mergulhar contigo no desconhecido? Vamos nadar num mar de águas turvas, dirigir naquela estrada sinuosa que ninguém sabe onde termina, vamos nos atirar de braços abertos com as nossas asas invisíveis na vida, vamos rir da cara dos temidos, vamos zombar das regras, vamos ultrapassar o limite imaginário do certo e do errado. A gente sabe, sempre soube, que nada disso existe…

Só o que existe agora somos você, Louise e eu, experimentando vida.

Roberta Simoni

O Beijo de Melancia

– Quer?

– Oi? Ah… não, obrigada!

– Tem certeza? É de melancia.

– Hummm, ahhh… tá bom, eu aceito. Adoro trident de melancia! É o meu preferido.

– O meu também! Viu? Já temos uma coisa em comum!

– Sei… e você é o…?

– Gustavo. E você?

– Regina.

– E então, Regina, você vem sempre aqui?

– Sempre. E você sempre anda com chicletes no bolso para se aproximar das mulheres?

– Na verdade, não. Só me sinto seguro de fazer isso quando o sabor do chiclete é de melancia. Sempre funciona.

– Infalível mesmo é quando eu digo que “seja-lá-qual-for” o sabor do chiclete que me oferecem é o meu preferido. Para falar a verdade, eu nem gosto de melancia.

– Bom, então posso ousar achar que você queria que eu me aproximasse?

– Ouse.

E foi assim, com gosto de melancia, o nosso primeiro beijo. Afinal, o que mais me restaria fazer a não ser beijar aquela mulher ali, diante de mim, me olhando dentro dos olhos e me dizendo “ouse”. Ousei.

Mas agora, pensando friamente, não sei se fui ousado ou covarde. A verdade – uma das quais nós, homens, nunca assumimos – é que mulheres que nos olham dentro dos olhos assim, num primeiro contato, parecem ser tão seguras que nos intimidam. A gente vive dizendo que não suporta mais se relacionar com mulher insegura, que gostaria que as nossas mulheres fossem mais independentes, que não aguenta mais os joguinhos e as frescuras do universo feminino, que gostaria de ter uma mulher decidida ao lado, e aí, quando ela aparece a gente simplesmente não sabe como agir. Virei garoto, garoto bobo, que não consegue controlar as próprias pernas bambas.

E antes que ela olhasse para baixo e visse os meus pés sambando, eu a beijei. Beijei porque não resisti àquela boca me induzindo a ousar, e porque eu não sabia o que fazer, e também porque tive medo de ser engolido por aqueles grandes olhos negros e não saber nadar tão fundo e tão escuro. Eu sempre tive medo de mergulhar no mar à noite. E ela era mar, e era noite.

Ledo engano acreditar que beijando-a eu estaria nadando no raso. Mergulhei nela. E mergulhamos fundo um no outro, num beijo que durou quase meia hora. A meia hora de silêncio mais barulhenta que eu já experimentei, de suspiros profundos, de palpitações fortes e batimentos cardíacos acelerados, findada com as nossas respirações ofegantes. É… parecia sexo, mas foi melhor: era beijo apaixonado.

E como quem não tivesse me dito – meia hora antes – que não gostava de melancia, ela tirou da bolsa um envelope de trident – adivinhem!!! – de melancia.

E, apesar de termos trocado olhares por dias seguidos antes que eu tomasse coragem de me aproximar dela com o meu chiclete tolo, eu juro, reparei tanto em cada detalhe dela, que não sobrou tempo nem espaço para observar se ela mascava chiclete ou não, quanto mais se era de melancia, menta, hortelã ou tuti-fruti. Mas aí, meus amigos, já era! Não importava o que eu dissesse, ela é mulher, e vai morrer achando que eu planejei tudo. Logo eu, que morria de medo de mergulhos noturnos…

– Mas, espera aí… você não gosta de melancia, esqueceu?

– Esqueci… quer?

– O que? Você ou o chiclete?

– Os dois. Juntos.

E aí vieram outros beijos, vários. Todos sem chicletes como pretextos, alguns com chicletes e sem pretextos, outros sem chicletes e sem pretextos.

… E eu ainda consigo sentir o sabor de melancia do primeiro beijo.

Roberta Simoni

Sobre amores e temores

Agora talvez eu seja mais temor, mas, por tanto tempo fui só amor. Amor purinho, da melhor qualidade. E morria de dó dos meus amigos que tiveram o coração partido e não conseguiam juntar seus cacos. E não entendia porque os casais se destruiam enquanto tentavam construir um relacionamento, uma vida juntos, uma casa com um quarto a mais para as crianças e um quintal grande para os cachorros. No lugar de levantar paredes de tijolos, montavam um castelo de areia, que a cada vento mais forte que batia, desmoronava.

Eu já construí os meus castelos de areia por aí. Mas a gente nunca vê isso com clareza na hora da construção, ou até percebe, mas ignora, finje que os grãos de areia são tijolos e toca com a obra, até o dia do primeiro vendaval tornar a falta de tijolos gritante!

Por dois ou três relacionamentos seguidos eu me surpreendi com a minha capacidade de colar os pedaços partidos do meu coração e mantê-lo lá, aberto, ainda que fragilizado, exposto para amar de novo. Só que, com tanta exposição, eu peguei uma bactéria perigosa chamada medo.

Mas, não se preocupem, tem cura. De medo eu não morro! Só que essa bactéria causa um tipo de reação ao organismo que, se não houver um tratamento adequado, de hospedeira em “corpo estranho”, ela passa a ser moradora fixa, com contrato de locação e tudo. O processo de cura é lento e demorado, mas quase sempre eficaz.

Enquanto sigo com meu tratamento, observo meus amigos (na maioria homens), verdadeiros românticos – felizmente – incorrigíveis e fico tão orgulhosa deles. Não sei se é influência do Dia Internacional da Mulher que está me deixando deveras sensível, se são meus hormônios, se é a quantidade de filmes românticos que tenho visto ou o excesso de romances que tenho lido, só sei que essa fase “temor” não está combinando nada com o universo romântico ao meu redor hoje.

“Eu não sei viver sem amor”, foram as palavras que o meu amigo usou ao me relatar sua história de amor com uma moça que vive em outro continente. “Beta, você é como eu, precisa de paixão, de bilhetinhos românticos, de cartas de amor, tenho certeza que vai me entender…” afirmou um outro amigo ao me mostrar a carta de amor que fez para a nova namorada. Muitas mulheres dariam a vida para receber uma carta daquelas, e qualquer mulher que lesse aquilo, se derreteria. Comigo, é claro, não foi diferente. Desgraçado! Me fez chorar… e de soluçar!

Tinha um vendedor ambulante no centro da cidade ainda agora rodeado por tanta gente que pensei: “Opa, deve tá vendendo 3 bombons Serenata de Amor por R$1,00, também quero!” . Só quando cheguei perto é que vi que o moço estava vendendo rosas avulsas, cercado exclusivamente por homens. Que lindo !!!

Na avenida Rio Branco estava rolando uma passeata, homens e mulheres protestavam pelos direitos das mulheres. No metrô o vagão estava cheio de moças carregando flores nos braços. Bravo, bravo! Senti vontade de bater palminhas empolgadas de “tiazinha”, e dar saltos de alegria feito criança pequena! Lindo, lindo, lindo!

Aí eu abro a porta de casa e vejo um envelope. De repente me senti num filme… sabe aquelas comédias românticas onde o amor sempre vem, mesmo que chegue pelo correio? Então… mas era só a fatura do meu cartão de crédito que, como de costume, me deixou tensa. “Good bye love, welcome fear!” Medo, muito medo ao abrir o envelope e ver o resultado de um dia de fúria (leia-se TPM), sanado provisoriamente com a compra de um scarpin. Eu disse provisoriamente! Eis que sempre chega o momento fatídico de efetuar o pagamento.

Mas nem a fatura de cartão de crédito mais cara quebraria o encanto do dia de hoje. Nem mesmo o meu pensamento sujo de que seria muito bom se eu tivesse um homem que bancasse as minhas contas, como acontecia antes da minha avó ter queimado aquele maldito sutiã em praça pública!

Eu sigo acreditanto no amor, continuo chorando nos casamentos das minhas amigas, me emocionando com cartas de amor, chorando de boca aberta com filmes e romances de banca de jornal, achando liiiindo de viver constatar que os homens românticos estão se proliferando e, acima de tudo, feliz por ver tanta gente com o coração aberto para amar, mas agora eu preciso pensar num jeito de conseguir mais trabalho para pagar o meu scarpin. Urgente!

Outros scarpins me esperam, e ainda me resta amor… muuuuito amor!

Roberta Simoni

Ou você tem, ou não tem.

(…) “É claro que eu chorei, sofri, tive o meu coração partido em pedaços incontáveis, tive o impulso de te ligar, de te xingar, de perguntar como você foi capaz de fazer isso, de te escrever um e-mail malcriado, mas nada do que a gente faz quando está fora do nosso controle pode ser bom. E eu não quero te insultar, ainda que você mereça os adjetivos mais insólitos e os xingamentos mais sórdidos.

Mas hoje eu não estou muito disposta a falar palavras chulas. Sorte sua a vida já ter me ensinado algumas lições das quais faço uso agora. A primeira delas: desrespeito não se resolve com desrespeito. A segunda: rebaixamento de nível é um desperdício e até uma maldade com os meus nobres saltos altos.

E eu até poderia me sentir no direito de te dar uma lição de moral, de como respeitar os outros, ou como ser uma pessoa digna, mas, mas, mas… tudo isso é uma questão de caráter e isso não se aprende. Ou você tem, ou não tem.”

E foi escrevendo esse trecho do e-mail (que não está na íntegra!) que eu, sem querer ensinar, acabei aprendendo uma lição. Já falei disso aqui outras vezes e, volto a dizer: não canso de me surpreender com a magia que existe no ato de escrever, pois foi quando escrevi (isso aí foi há meses e já passou, viu gente!?!) sobre o caráter ser algo que não se aprende é que finalmente aprendi – na teoria, pelo menos – que tentar ensinar índole a seja-lá-quem-for é total perda de tempo e desperdício de energia.

Certas coisas ou nascem com você, ou você segue os exemplos que tem em casa, ou a vida te ensina na marra. E se nenhuma das alternativas anteriores for válida, esquece! Você nunca vai aprender. E isso serve tanto para as características boas quanto as ruins. Não adianta tentar convencer um cara honesto de que roubar é bacana que ele nunca vai tirar um centavo do bolso do sujeito mais rico do planeta. Da mesma forma que não adianta falar o contrário para um ladrão. Vai entrar por um ouvido e sair pelo outro. Simples assim. E isso não vai sequer passar perto de ficar grudado na cera do ouvido do sujeito, o que dirá ser filtrado pelo cérebro.

E aí a gente vê que tá sempre perdendo um tempo precioso com um bocado de “paus que nasceram tortos e que nunca vão se endireitar”. Então, que eles sejam felizes com suas características tortuosas. E eu continuo com as minhas, desse jeito bem “porta ambulante” para múltiplas coisas que as pessoas gostariam muito que eu tivesse talento, mas eu, definitivamente, não tenho. Seja para o bem ou para o mal. Sorry!

Uma verdade incontestável: todos somos casos perdidos para uma coisa ou outra. Azar o nosso. Ou pura sorte!

Roberta Simoni