A simplicidade de ser/estar viva!

E era simples. Bastava dar literatura a ela e lançá-la à beira-mar antes que o sol desse lugar à noite. De nada mais ela se queixava e até duvidava se você ousasse dizer que ela tinha problemas tantos a resolver. E corajoso do sujeito que tentasse lembrá-la de seus afazeres, que estivesse preparado para ser sumariamente ignorado ao alertá-la da casa e da vida bagunçadas para arrumar, o barulho das ondas quebrando era estrategicamente ensurdecedor.

E era paz. A moça tagarela se calava para ouvir, só assim. E tudo ao redor falava, o livro, o mar, a maresia, as conchas, os grãos minúsculos de areia quando a tocavam. Era o “Deus” dela que conversava quando a calmaria chegava. E ela se escutava. E confidenciava seus segredos ao pé do ouvido do vento, que soprava mansinho para ela não perceber que cochichava com as aves.

E era real. Tocava os pés na água salgada e fria e se encharcava da sensação  maravilhosa que era ter um corpo com sentidos. Sentia-se deleitamente viva e conectada com o mundo bom. E não se envergonhava do prazer exposto ao sol, quando a pele arrepiava seus pêlos com a brisa fria que o fim da tarde trazia e o sol ameno a envolvia num abraço que a aquecia em puro gozo. Depois sorria largo, sem se importar, sem direção, mas com todas as razões que lhe cabiam. E também ria solto pelo que desconhecia, mas sentia. E  ela bem sabia o que sentia.

Roberta Simoni

(Recebi essa foto do Marcelo, lá de Brasília, novo amigo que fiz bem aí, nessa praia, enquanto eu lia meu livrinho. Ele teve a feliz ideia de tirar essa fotografia antes mesmo de me conhecer, e depois teve a coragem de me contar seu feito arteiro, e agora, por fim, me mandou a foto de presente, que me encantou por ser um retrato espontaneamente poético. ;))

Mais uma intensa no mundo…

Tá bom gente, eu sei, vocês sabem, e qualquer um que não sabe, nem precisa ler muitas linhas da minha vida para perceber: sou emoção à flor da pele.

Já começou errado quando, ao nascer, eu senti falta de alguma coisa entre as minhas pernas. “Ihhhh, ferrou, nasci mulher” – pensei, instantaneamente. Depois compreendi: se eu nascesse homem e tivesse tamanha sensibilidade, teria minha sexualidade sendo posta à prova o tempo inteiro, coisa mais desagradável… Ok., fui poupada disso, thanks! Posso chorar em público, posso abrir o berreiro assistindo “Marley e Eu”, posso receber flores, posso falar livremente de amor, posso me derreter toda e falar – medonhamente – dengosa (e no dimunitivo, of course!) ao me deparar com bebês bochechudos e com criaturas peludas que abanam o rabo, não preciso me preocupar em ter que não “dar pinta”, posso usar a TPM como desculpa para surtos inesperados…

No entanto, tenho que aturar essas desgraças de hormônios descompensados, tenho que consultar o calendário para verificar a proximidade do período menstrual para tentar entender o porquê de eu ter começado a chorar, do nada, no meio de um restaurante lotado. Sou influenciada pela sociedade feminina a gastar meu tempo pensando em casamento, filhos e casa perfeita, enquanto poderia estar por aí, simplesmente tomando uma  loira gelada com os amigos, me divertindo vendo uma cambada de homens “coxudos” correndo atrás de uma bola, uma bolinha só. Tão mais simples!

“O quêêêê? Você não quer casar? Hã? Não se vê vestida de noiva? Como assim na praia? E a cerimônia na igreja?” Calma, eu posso explicar: não é que eu não queira casar, eu até acho que pode ser muito legal se acontecer, só não fico pensando nisso. Não me vejo vestida de noiva porque, sei lá, nunca fui pedida em casamento (tá tá… já fui, mas não oficialmente, então não conta, pedido de casamento de verdade incluí romantismo, ora, só assim vale!) então, gasto meu tempo imaginando coisas mais prováveis, mas ahhhhh… acho até que posso dar uma noiva ajeitadinha. Sim, sim… casar na praia, de sandálias havaianas, de short e camiseta, na beira do mar, quer coisa mais romântica? Topo, claro que eu topo casar na igreja se o suposto noivo fizer muuuuuuita questão, nada contra.

A verdade é que meus comportamentos se alternam entre completamente mulherzinha, e cabra macho (sim sinhô!). Aí, quando a mulherzinha que habita no meu âmago começa a se esvair em lágrimas, o cabra macho chega, olha nos olhos dela e diz, curto e grosso: “Seja homem, rapá!”

Eu adoro a praticidade dos homens, o jeito mais leve de levar a vida, a natureza livre deles… e não só aprecio, como pendo para esse mesmo lado da força masculina, só (me) espio pra não ficar prática, leve e livre demais, e não perder o ponto da sensibilidade, como muitos homens perdem, e deixam a receita do bolo desandar.

Aí, me vira uma moça querida e diz que não passa um dia sequer sem pensar em mim, porque olha para sua filha e me vê, todo dia. Sua intuição materna diz que a Júlia será “eu amanhã”. Acho lindo na hora, mas depois me preocupo, pergunto se isso, afinal, pode ser considerado bom e saudável (temerosa da resposta dela, claro!). Ela diz que no começo ficava bastante assustada, mas depois passou a achar muito bom…

A Júlia também bate com a cabeça na parede quando contrariada, tem gênio forte, não aceita não como resposta, é ativa e hiperativa e tudo nela é muito intenso. (ô gente… me descreveu, foi?). Tirando a parte de bater com a cabeça na parede, que parei de fazer tem um tempinho, depois de muito uso de psicologia infantil, todo o resto continua igualzinho.

E por que ela acha bom ser mãe de uma criatura assim, que esbandalha todo o resto da energia dela? Porque, segundo ela, prefere sua pequena desse jeito, pois assim, a Júlia é também intensamente feliz.

Pronto, né? Danei a chorar de emoção e alegria. E respirei aliviada: a receita do bolo está a salvo.

(e a pergunta que não quer calar: em que pé andará o meu ciclo menstrual, heim?!? tcham tcham tcham tchaaaaam…)

Roberta Simoni

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.

“(…) Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.

Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,- para dizer alguma coisa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.

– Você?

– Eu mesmo.

– Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.

– Se embaraçar, você desembaraça depois.

– Vamos ver.

(Machado de Assis)

E não desembaraçaram ainda, nem os meus cabelos, nem meus pensamentos. E eu continuo de ressaca, mesmo sem ter ingerido uma gota de álcool sequer. Fui lá na praia, vi o mar revolto, testemunhei a altura que as ondas alcançaram, me certifiquei do exagero contado pelos outros, não chegaram a 10 metros, como disseram, mas talvez tenham tido a grandeza e a beleza devastadora de ondas de 5 metros de altura.

O mar e eu de ressaca, juntos. Parceiros de vida. E os surfistas se aproveitaram da fúria das águas da mesma forma que os pensamentos tortuosos se aproveitaram da minha embriaguez para deslizarem soltos, brincando de equilibristas. E por mais que eu balançasse a cabeça, eles não saiam, agarravam-se às partes vizinhas, orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos meus ombros.

E aí ficou tudo tão embaraçoso que, assim como o mar faz com as suas ondas, eu também deixei rolar, e me deixei ser levada pelo mar, e se a ressaca me embolou nas águas e não me deixou boiar, ela também não me deixou afogar, e não foi água salgada que eu bebi, foi inquietude necessária para tratar de viver, e me deixar puxar pra dentro, de mim e do mar.

E submersa, mesmo com toda a nossa volubilidade (minha e do mar), meus olhos de ressaca contemplaram o fluxo e o refluxo da maré cheia e eu me esvaziei de novo, para assim como a maré, me encher outra vez.

E eis que na minha frente, de repente, o que vejo? O pente, querendo me desembaraçar.

Fotos que meus olhos de ressaca registraram da Praia do Flamengo – RJ, também sob efeito do dia seguinte de embriaguez de chuva:

   

Roberta Simoni

Um livro e um cappuccino

… e um pouco de açúcar, por favor.

Porque açúcar e literatura nunca são demais.

E se eu troco programas por livros e minha casa passa a me ver muito mais que os meus amigos, “óquêi”, é hora de trocar a minha toca e a livraria por uma mesa de bar. Só um pouco, prá variar. Porque, Beta, vida social é essencial, sabia? “A-hã. Tô sabendo…”

O problema é que ninguém entende que eu tô envolvida emocionalmente com a literatura… e quando eu fico desse jeito, a paixão se entranha em todos os poros do meu corpo, e só dá vontade de viver pra ela, viver dela, viver com ela.

… É que eu ando fazendo excelentes escolhas literárias e como já é sabido pelos meus leitores, eu me apego fácil, fácil também a livros, autores, personagens…

E meu atual caso de amor, ou melhor, meuS atuaiS casoS de amor têm sido tão bem sucedidos que, quando eu saio, acabo indo ao encontro de “certos amigos” que querem me manter apaixonada, e me indicam Mary Ann Shafer e Annie Barrows com “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” para se juntarem a Gabriel Gárcia Márquez com a “Memória de Minhas Putas Tristes” e Julio Cortázar com “O Jogo da Amarelinha”. Sim, uma orgia literária de-li-ci-o-sa, pra ninguém botar defeito.

O Rio de Janeiro em estado de calamidade, as ruas alagadas e o medo – que nem mesmo todos os “chepéus negros” são capazes de espantar – nos assombrando a cada esquina também colaboram muito para que eu viva minha “clausura enamorada”.

E ainda pensando sobre o texto que escrevi anteriormente e nos comentários originados por ele é que surgiu “Um livro e um cappuccino” que escrevo agora.

É mesmo de uma beleza e uma grandeza sem tamanho ser feliz com tantas miudezas cotidianas como tantas vezes consigo ser. Uma xícara com café, leite, chocolate, um pouco de açúcar e um bom livro. Pronto, só isso, e por agora sou o ser humano mais feliz das redondezas.

Ah, como seria encantador ser sempre assim, tão feliz… mas não tem nada, não. A aula sobre felicidade plena eu assisti e aprendi. Fui boa aluna e tirei boa nota na prova. Felicidade plena é mito, a eterna então… essa é a maior de todas as lendas. Mas existem outras formas de estar feliz, e isso eu também acho que ando assimilando bem na escola da vida. Aquelas felicidades miudinhas, sabem? Aquelas de que a vida é repleta, mas que a gente precisa de dedicação e sensibilidade para conseguir começar a enxergar. Então… são elas que me colorem, e me fazem parecer uma idiota sem que isso me incomode, como muito bem descreveu Julio Cortázar e, melhor ainda, transcreveu a Gabi aqui no adorável Quinas e Cantos, o blog dela.

E aí que quando eu li sobre a idiotice do Cortázar ao se empolgar tanto com o que os outros consideram supérfluo, tolo e até desqualificado, eu dei pulos da cadeira, falando sozinha: “É isso, é isso… essa sou eu! É de mim que ele tá falando!”

Porque é com cara de idiota que eu fico quando eu falo sobre a beleza que existe das folhas secas do outono caindo das árvores e colorindo as calçadas e me ignoram deliberadamente. Ou quando comento, admirada, sobre o sorriso gratuito que eu acabei de ganhar da moça do caixa do supermercado e me olham com cara de “Hããã?”, como se todos os dias todas as pessoas do mundo fossem atendidas com educação e simpatia da mais fina qualidade, como eu fui, por uma funcionária que trabalha feito escrava num posto onde dificilmente as pessoas conseguem encontrar razão para exercitarem sua simpatia e elegância.

Ou quando falo da sensibilidade das sombras numa determinada fotografia e dizem que o fotógrafo que capturou àquela imagem – que considerei belíssima – não entende nada de luz. Bom, errr… isso quer dizer que eu também não entendo, ora pois. Que seja… a gente precisa ser “expert” numa determinada coisa para poder admirá-la?

Ou será que o segredo está em continuar sendo idiota para conseguir enxergar a sutileza que existe na beleza? Não, não estou vestindo a camisa da ignorância, tampouco fazendo campanha para enaltecer a idiotice, mas, se o conhecimento aprofundado sobre determinados assuntos nos brinda com um senso crítico afiado e intimista (que, algumas vezes, beira a intimidador), não seria possível fazê-lo sem poluir um olhar admirado? Aquele olhar que não ofusca a beleza sutil que está em tudo…

E nesse universo de coisas que eu desejo conhecer, que espero aprender um dia e que talvez eu venha a escolher me aprofundar, há certas coisas que prefiro continuar sendo a mesmíssima completa idiota de sempre, com uma altivez imaculada.

Quanto aos assuntos que não me permitem ser ignorante, tampouco distante, pois acontecem bem aqui, debaixo do meu nariz afiado – esses assuntos que não deixam nenhuma brechinha para fazer poesia, até porque qualquer tentativa poética, de todo jeito, vai descer por água abaixo -, tenho cuidado de me desfazer de certas extravagâncias acumuladas e de tentar me livrar de tudo que não é essencial, para dividir com quem anda precisando do básico com tanta urgência.

E, ainda há pouco, eu pude sentí-la de novo: ela… aquela breve felicidade deliciosa, ao imaginar o breve contentamento de alguém para quem algumas de minhas roupas (algumas nunca usadas) vão servir de algum consolo (também brevíssimo), diante das perdas irreparáveis provocadas por esse mar de chuva que saiu engolindo tudo por aqui.

Roupas não salvam a vida de ninguém, não consertam casas, não devolvem pessoas amadas, nem sequer servem para secar tanta coisa que ficou enxarcada, mas, deixo a pergunta: solidariedade não ajuda a aquecer e embelezar a alma de quem ajuda e de quem é ajudado?

E esse papo todo misturado de chuva, idiotice, beleza, caos, soliedaridade e subjetividade me deixaram com uma vontade bem objetiva de tomar o café da Arlequim. Isso, aquela livraria mesmo que me disseram que não é tão boa quanto eu acho, mas onde eu sempre encontro tudo que eu preciso, inclusive a paz para sentir a felicidade chegando sorrateira, acompanhada da xícara de cappuccino.

Roberta Simoni

Não quero ter razão…

Resolvo começar a fatiar o meu ano em estações. A quantidade de meses é maior que o número de estações, mas quem disse que quantidade é mais importante do que qualidade? Meses acabam muito depressa, e tantas vezes passam sem que eu sequer os perceba. Mas as estações não… essas são anunciadas pelo céu, pelo mar, pelos ventos e  chuvas, pelas cores, sabores, aromas e termômetros. E elas são, cada uma a seu modo, todas uma delícia.

Eu, que gosto especialmente da luz do outono, acordo hoje com vontade de ficar bonita para a luz dessa estação me encontrar na esquina de casa e realçar a minha alegria de estar viva. Eu, que não sou chegada a combinações, visto meu corpo de acordo com as cores da minha alma, e saio por aí, colorida.

Vou ao encontro de uma amiga querida, decidida a ceder aos encantos gastronômicos da cidade, na nossa livraria preferida. Me dou ao luxo de incluir na conta do almoço mais um livro. E depois compro uma saia rodada de bolinhas, porque não dou ouvidos ao meu senso de ridículo que tenta argumentar comigo. No crédito, por favor !!!

E no meio do dia eu lembro do Dudu e, mais uma vez, penso no quanto eu gostaria que ele não tivesse partido tão cedo. E toda vez que lamento sua ausência, eu levo um susto enorme, como da primeira vez que anunciaram sua morte. Não é como se eu tivesse esquecido, é como se eu simplesmente não soubesse. Já faz quase três anos e eu ainda não entendi direito. Era o nosso artista maior, nosso amigo mais inconsequente, que tinha o perdão de cada loucura só por ser dono do sorriso mais franco, e nós sempre o perdoávamos desde que ele viesse com aquela cara de moleque alegre, com aquele queixo charmoso furado ao meio, de sorriso largo e escandaloso. E com a imagem dele na cabeça, de repente, me pego rindo sozinha…

No caminho de volta para casa cumprimento com sorriros quem por mim passa, mas não perco muito tempo olhando para frente, ando com passos lentos olhando para o topo das árvores da minha rua que já amo profundamente como se tivessem sido, desde sempre, parte da minha vida. Qualquer dia eu acabo caindo, mas tudo bem, meus olhos confirmam que vale o risco.

As nuvens cobrindo o Corcovado anunciam a chuva que está por vir, e a minha casa se enche do cheiro premonitório de terra molhada. Da janela escancarada vejo os pássaros fazendo balé no céu cinza. Descubro que tenho algum vizinho que toca violino e compreendo que não preciso agora de nenhum outro ruído. Só o som do violino, o burburinho da cidade lá embaixo e a calmaria dos meus pensamentos, no ritmo harmonioso dos meus batimentos cardíacos.

Enquanto eu transformo o meu dia nesse cotidiano poético – que, sem causa ou justificativa, escrevo – sou induzida a olhar outra vez pela janela, e lá estão eles, se exibindo: pássaros fazendo questão de me lembrar que sou uma invejosa.

Mente quem diz que não sente inveja. Mente feio. Porque, ainda assim, a mentira não consegue ser tão horrorosa quanto a inveja, que não existe para ser admitida, tampouco assumida. E eu adoro as criaturas que voam, mas também as invejo. E por querer e não poder fazer o que só elas são capazes de fazer no céu é que eu jamais desejaria que elas não pudessem voar ou tentaria impedi-las de tal feito. Gaiola é abuso de poder, e a minha inveja é branca, clara feito neve, dessa cor serena que não é capaz de ser destrutiva, nem jamais pretenderia. Só quero voar com elas, mais nada.

E você quer saber como foi o sonho mais lindo que eu já tive na vida. E chora enquanto eu te conto, e os meus olhos se enchem d’água quando eu agradeço ao universo por me rodear de gente que ainda se emociona, e aí eu penso na inveja preta que muita gente de alma escura sente de mim por viver numa atmosfera tão generosa, e lembro das gaiolas e das mordaças que essa gente me oferece o todo o tempo. E sigo negando todas, com veemência.

E já não vejo mais pássaros, nem nuvens. Já é noite. E eu também gosto do escuro, porque aprendi a conviver com ele. E com o silêncio, e com os sentimentos que não são brancos, nem brandos. Eu vivo em vários mundos simultaneamente, e neles eu descubro do que gosto, do que não suporto, do que preciso, do que dispenso e do que aceito de bom grado. Nos meus vários mundos, eu misturo as estações e consigo viver em todas ao mesmo tempo, e desvendo mais do que vontades ou desgostos, descubro todas as minhas vertentes.

E entendo, finalmente: eu não quero ter razão, prefiro ser feliz.

“Já que sou, o jeito é ser.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni