Um livro e um cappuccino

… e um pouco de açúcar, por favor.

Porque açúcar e literatura nunca são demais.

E se eu troco programas por livros e minha casa passa a me ver muito mais que os meus amigos, “óquêi”, é hora de trocar a minha toca e a livraria por uma mesa de bar. Só um pouco, prá variar. Porque, Beta, vida social é essencial, sabia? “A-hã. Tô sabendo…”

O problema é que ninguém entende que eu tô envolvida emocionalmente com a literatura… e quando eu fico desse jeito, a paixão se entranha em todos os poros do meu corpo, e só dá vontade de viver pra ela, viver dela, viver com ela.

… É que eu ando fazendo excelentes escolhas literárias e como já é sabido pelos meus leitores, eu me apego fácil, fácil também a livros, autores, personagens…

E meu atual caso de amor, ou melhor, meuS atuaiS casoS de amor têm sido tão bem sucedidos que, quando eu saio, acabo indo ao encontro de “certos amigos” que querem me manter apaixonada, e me indicam Mary Ann Shafer e Annie Barrows com “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” para se juntarem a Gabriel Gárcia Márquez com a “Memória de Minhas Putas Tristes” e Julio Cortázar com “O Jogo da Amarelinha”. Sim, uma orgia literária de-li-ci-o-sa, pra ninguém botar defeito.

O Rio de Janeiro em estado de calamidade, as ruas alagadas e o medo – que nem mesmo todos os “chepéus negros” são capazes de espantar – nos assombrando a cada esquina também colaboram muito para que eu viva minha “clausura enamorada”.

E ainda pensando sobre o texto que escrevi anteriormente e nos comentários originados por ele é que surgiu “Um livro e um cappuccino” que escrevo agora.

É mesmo de uma beleza e uma grandeza sem tamanho ser feliz com tantas miudezas cotidianas como tantas vezes consigo ser. Uma xícara com café, leite, chocolate, um pouco de açúcar e um bom livro. Pronto, só isso, e por agora sou o ser humano mais feliz das redondezas.

Ah, como seria encantador ser sempre assim, tão feliz… mas não tem nada, não. A aula sobre felicidade plena eu assisti e aprendi. Fui boa aluna e tirei boa nota na prova. Felicidade plena é mito, a eterna então… essa é a maior de todas as lendas. Mas existem outras formas de estar feliz, e isso eu também acho que ando assimilando bem na escola da vida. Aquelas felicidades miudinhas, sabem? Aquelas de que a vida é repleta, mas que a gente precisa de dedicação e sensibilidade para conseguir começar a enxergar. Então… são elas que me colorem, e me fazem parecer uma idiota sem que isso me incomode, como muito bem descreveu Julio Cortázar e, melhor ainda, transcreveu a Gabi aqui no adorável Quinas e Cantos, o blog dela.

E aí que quando eu li sobre a idiotice do Cortázar ao se empolgar tanto com o que os outros consideram supérfluo, tolo e até desqualificado, eu dei pulos da cadeira, falando sozinha: “É isso, é isso… essa sou eu! É de mim que ele tá falando!”

Porque é com cara de idiota que eu fico quando eu falo sobre a beleza que existe das folhas secas do outono caindo das árvores e colorindo as calçadas e me ignoram deliberadamente. Ou quando comento, admirada, sobre o sorriso gratuito que eu acabei de ganhar da moça do caixa do supermercado e me olham com cara de “Hããã?”, como se todos os dias todas as pessoas do mundo fossem atendidas com educação e simpatia da mais fina qualidade, como eu fui, por uma funcionária que trabalha feito escrava num posto onde dificilmente as pessoas conseguem encontrar razão para exercitarem sua simpatia e elegância.

Ou quando falo da sensibilidade das sombras numa determinada fotografia e dizem que o fotógrafo que capturou àquela imagem – que considerei belíssima – não entende nada de luz. Bom, errr… isso quer dizer que eu também não entendo, ora pois. Que seja… a gente precisa ser “expert” numa determinada coisa para poder admirá-la?

Ou será que o segredo está em continuar sendo idiota para conseguir enxergar a sutileza que existe na beleza? Não, não estou vestindo a camisa da ignorância, tampouco fazendo campanha para enaltecer a idiotice, mas, se o conhecimento aprofundado sobre determinados assuntos nos brinda com um senso crítico afiado e intimista (que, algumas vezes, beira a intimidador), não seria possível fazê-lo sem poluir um olhar admirado? Aquele olhar que não ofusca a beleza sutil que está em tudo…

E nesse universo de coisas que eu desejo conhecer, que espero aprender um dia e que talvez eu venha a escolher me aprofundar, há certas coisas que prefiro continuar sendo a mesmíssima completa idiota de sempre, com uma altivez imaculada.

Quanto aos assuntos que não me permitem ser ignorante, tampouco distante, pois acontecem bem aqui, debaixo do meu nariz afiado – esses assuntos que não deixam nenhuma brechinha para fazer poesia, até porque qualquer tentativa poética, de todo jeito, vai descer por água abaixo -, tenho cuidado de me desfazer de certas extravagâncias acumuladas e de tentar me livrar de tudo que não é essencial, para dividir com quem anda precisando do básico com tanta urgência.

E, ainda há pouco, eu pude sentí-la de novo: ela… aquela breve felicidade deliciosa, ao imaginar o breve contentamento de alguém para quem algumas de minhas roupas (algumas nunca usadas) vão servir de algum consolo (também brevíssimo), diante das perdas irreparáveis provocadas por esse mar de chuva que saiu engolindo tudo por aqui.

Roupas não salvam a vida de ninguém, não consertam casas, não devolvem pessoas amadas, nem sequer servem para secar tanta coisa que ficou enxarcada, mas, deixo a pergunta: solidariedade não ajuda a aquecer e embelezar a alma de quem ajuda e de quem é ajudado?

E esse papo todo misturado de chuva, idiotice, beleza, caos, soliedaridade e subjetividade me deixaram com uma vontade bem objetiva de tomar o café da Arlequim. Isso, aquela livraria mesmo que me disseram que não é tão boa quanto eu acho, mas onde eu sempre encontro tudo que eu preciso, inclusive a paz para sentir a felicidade chegando sorrateira, acompanhada da xícara de cappuccino.

Roberta Simoni

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11 comentários sobre “Um livro e um cappuccino

  1. Tem gente que a gente gosta e pronto!
    Mesmo que nunca tenha escutado a voz ou olhado nos olhos, o que é muito importante diga-se de passagem. E “ouvir” vc falar nesses últimos dias que tenho acompanhado o janela, deu vontade de ser sua amiga para sempre! Empatia, é isso. E era tão bom que mais gente se permitissem alegrar dessas pequenas “idiotices”…

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  2. Beta, eu adorei seu post. Dá muito pano pra manga, ou melhor, pra horas de conversa boa.
    Belíssimo o modo como fala das pequenas alegrias que poucos compartilham, por não afiarem seus olhares para as incomensuráveis ternuras que vêm de coisas corriqueiras, banais, quase invisíveis. E feliz por sentir que, embora raro, há os que se sentem assim, propícios à sutil felicidade do instante.
    Velhinhos para mim são fontes de ternura constante, como também o é um sorrisão sem compromisso de quem não se espera. Folhas caídas do Outono. Os contrastes suntuosos do céu num fim de dia. Tanta coisa adorável que pode ser objetivo e razão de felicidade.
    “A gente precisa ser “expert” numa determinada coisa para poder admirá-la?”. Esse é um questionamento que também já formulei, pela irritação que me gera o preciosismo de certas pessoas. Traduziste também meu sentir quando diz: ” se o conhecimento aprofundado sobre determinados assuntos nos brinda com um senso crítico afiado e intimista (que, algumas vezes, beira a intimidador), não seria possível fazê-lo sem poluir um olhar admirado? Aquele olhar que não ofusca a beleza sutil que está em tudo…”. Há uma certa pureza de sentir que se deve conservar e você fala disso muito bem.
    Um beijo grande, e que a vida possa sempre nutri-la com essas breves felicidades tão essenciais!

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    • Beta, xará querida:

      Suas palavras são sempre tão carregadas de doçura que me enchem de paz e alegria.
      Isso, você disse tudo: “(…) embora raro, há os que se sentem assim, propícios à sutil felicidade do instante.”

      Assim nós somos, felizmente!

      Um beijo grande para você também e o meu desejo de muitas felicidades instantâneas pra você que, melhor do que ninguém, sabe reconhecê-las tão bem.

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  3. Vamos lá.
    Uma vez estava caminhando triste, desanimada, me sentindo medíocre e pequena.. aqueles dias aonde você não consegue enxergar nada de bom na vida. Sim, esses mesmo. Dai eu passo na frente da minha antiga escola, tão querida e especial. Paro para cumprimentar o Estevão, meu antigo professor de natação, que está levando a sua turma para a piscina. Eis que uma menina de uns 4 anos, 5 talvez pergunta a ele: quem é ela? e ele responde? essa é a Helena, ela foi minha aluna quando era do seu tamanho. A pequena me olha, abre um sorriso e solta: Você é tão bonita! Assim, de graça, do nada. Abri um sorriso e fui pra casa pensando que a vida é assim. Cheio de anjinhos enviados por Deis espalhados nesse mundo. Que vez ou outra se manifestam trazendo alegria e fazendo o mundo melhor. E por quê eu to dizendo isso? Tá na cara, né? Isso mesmo, Beta. Obrigada por se fazer anjo e tornar o mundo melhor. =)

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    • Helena:
      Minha menina acesa, cheia de luz,

      Pois como aquela pequena foi um anjinho enviado por Deus, e como você também me diz anjo, eu, que tenho uma certa intimidade com os seres angelicais, posso te garantir: você, minha flor, é uma das versões humanas mais angelicais que eu já tive o prazer de conhecer.

      E hoje, quando você me escreveu essas palavras de doçura eu pude até ver as suas asas.
      E você não sabia, mas eu estava num dia daqueles que você descreveu e você fe zum carinho aqui na alma.

      Obrigada, linda mór!

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  4. Beta,

    é tão bom quando a gente descobre que a amizade pode nascer a partir das situações mais inusitadas. E não digo apenas pela internet, que acaba reunindo pessoas talvez pelo acaso (e que acaba conservando-as pela afinidade, mas aí já é outra história. 😉 ).

    Enquanto seus amigos de carnes, ossos e companhias requisitavam sua presença numa mesa de bar, lá estava você, em outra, tomando um cappuccino com outros amigos. Que talvez não estivessem vendo a chuva (e quanta chuva!) que batia contra a vidraça da sua livraria favorita; quem sabe se nas janelas deles não estivessem desfilando manhãs claras de outra estação ou luas cheias, imensas, tomando parte de outros céus que não o seu. Podia até ser que muitos daqueles seus amigos não estivesse mais girando em torno do sol há muitas décadas, ou mesmo séculos. Mas, para eles e para você as latitudes e os hemisférios não fazem sentido, e a linha do tempo é só mais uma coisa a ser bagunçada, e tratada como brinquedo, como as palavras.

    Você estava com um amigo em comum (certamente temos outros, mas este ocupa um papel central na minha vida), o Cortázar. Espero que tenham se divertido, que a amarelinha que riscaram no chão tenha resistido à chuva, e que tenham alcançado o céu que Oliveira jamais vai alcançar (porque continuará sempre procurando aquilo que jamais saiu de baixo do nariz empinado dele.) “É amiga do Cortázar? Ah, então é minha amiga também, e tenho dito.” (Bem, não apenas porque é amiga do Cortázar, mas essa também é outra história.)

    E, por falar em histórias, lembrei de uma que por acaso vem ao caso, e é contada por Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços (que, se você não leu, eu recomendo enormemente, é para se apaixonar uma e mil vezes):

    “Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan
    diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim: que esse poeta, esse pastor e essa mulher são seus contemporâneos.”

    Vá curtir todos os seus amigos, menina. Os que você pode abraçar e os que te abraçam com seus discursos. E não se esqueça de voltar abraçar também a nós, com suas histórias.

    Ps – Manda um beijo meu para a Maga, tenho certeza que vocês duas se deram muitíssimo bem.

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  5. Escrever um texto de madrugada e ficar com preguiça de revisá-lo é um exercício perigoso, tanto que me bateu a culpa da professora de português. Pois bem, por favor coloque um “m” ao final de “estivesse” e um “para” entre “voltar” e “abraçar”.

    Ah, sim, e as digressões foram tantas que eu acabei não agradecendo por você ter citado meu blog de uma forma tão legal. Pois que entre na revisão também.

    E agora posso dormir o sno dos justos, sem medo de vírgulas mal colocadas e de concôrdãncias discordantes. 🙂

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