O Blues é blue… ♫ ♪ ♫ ♪

Porque, às vezes, você precisa simplesmente ignorar o mundo, parar tudo o que está fazendo e ouvir a música. Precisa usar mais os fones de ouvido à seu favor. Precisa tirar a poeira do vinil e botar o seu disco preferido para tocar. Precisa escutar o ruído da vitrola. Precisa sair de casa para ouvir música boa. Precisa ir num show de blues em plena segunda-feira. Precisa tocar sua guitarra imaginária e dedilhar as notas que você nunca aprendeu. Precisa cantar num microfone, mesmo que a sua escova de cabelos ou de dentes não emitam qualquer som. Precisa sentir vontade de aprender a tocar violão de novo, depois de já ter desistido outras dezenas de vezes. Precisa ignorar sua voz desafinada e o seu inglês ruim e… cantar, cantar e cantar. Precisa deixar a música balançar o seu corpo. Precisa acreditar, por um momento, que a melodia é capaz de te transportar para um mundo muito bom, e entrar em transe. Precisa voltar a compor com o seu amigo violeiro. Você não precisa conhecer as cifras para saber os acordes, nem o tom, para sentir a harmonia da canção. Precisa fechar os olhos e sentir a música te tocar. Precisa ver as cores do blues. Você vê? O blues é blue

Roberta Simoni

Ok, eu paro!

Cheguei em casa hoje na mesma ligeireza de quase todos os dias, da qual pressinto que o porteiro noturno do meu prédio jamais se acostumará – “Que isso, meu-deus-do-céu?” – foi o que ele exclamou, depois de me ver entrar e sair pela portaria pela terceira vez num espaço de poucos minutos. Primeiro entrei correndo, tentando me equilibrar naqueles odiáveis saltos altos dos quais eu também acho que jamais me acostumarei, assim como o porteiro, com a minha habitual correria. Entrei no elevador, subi recuperando o fôlego, abri a porta, sequer cumprimentei a minha casa (como faço de costume) e espero que ela não tenha ficado ofendida, pois assim como eu desejo várias vezes por dia chegar e encontrá-la à minha espera, eu imagino que ela se sinta vazia e silenciosa demais até que eu chegue me espalhando, contando os meus “causos” diários e colocando música para ouvirmos juntas para espantar a solidão que vive à espreita.

Felizmente o elevador ainda estava no meu andar, parecia me esperar. Tomei-o de volta, desci para encontrar o meu colega de profissão que, mais uma vez, me emprestou uma câmera fotográfica para cobrir meu último trabalho (pois é, Nikita continua em coma!), e ele ainda fez a gentileza de vir ao meu encontro para pegá-la de volta comigo. O porteiro soltou um “Mas, já?”, surpreso quando me viu passar pela portaria outra vez. Não tive tempo de responder. Detesto deixar as pessoas me esperando. Simplesmente detesto. Devolvi a câmera e falamos rapidamente sobre o trabalho, pois ele estava com pressa, como de costume. Talvez tenhamos escolhido a profissão errada… ou não. Pensando bem, até que fazemos bem o “tipo jornalista”, sempre acelerados. Se quiséssemos ter uma vida tranqüila, teríamos optado pelo surf, ou talvez estaríamos pescando ou, quem sabe, não teríamos nos profissionalizado em futebol de botão?

Voltei, ainda no mesmo ritmo. “Ué?” – o porteiro, outra vez, com pontos de interrogações quase visíveis saltitando de sua cabeça. Prometi que seria a última vez que ele me veria por hoje e desejei boa noite. A pressa agora era por conta das matérias que eu tinha me programado para escrever ainda hoje, essas mesmas que mandei para o meu e-mail do trabalho, com a intenção de terminá-las em casa. Mas – que maravilha! – fiquei sem internet. Ai ai… seres humanos e essa insistente mania de planejar as coisas. Tudo bem, olhei para o livro que estou me arrastando para terminar de ler há semanas, já até comecei a ler outros, mas este eu estava com uma dó enoooorme de acabar e preservei intactas as últimas páginas, coisa que não acontecia desde que eu li o livro da Fal – Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite (falo dele aqui oh!).

Vamos nessa! Mais cedo ou mais tarde isso teria de acontecer, não é mesmo? – falei com pesar, tentando convencer a mim mesma, enquanto olhava para “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Babata”, da americana Mary Ann Shaffer – que morreu antes de ver o sucesso do romance, que foi escrito com apoio de sua sobrinha Annie Barrows.

Não posso dizer que tive um dia ruim, muito pelo contrário, apesar de cansativo, foi bom, mas nada, nada pode se comprar a sublimidade deste momento. Eu, agarrada ao meu livrinho, debaixo do cobertor, em meio à gargalhadas e encantamento puro. Que delícia de leitura,  já quero – e preciso – relê-lo. E, vejam vocês, toda essa estória de portaria, correria e porteiro só para contar isto.

Me perdoem, queridos leitores, se esperavam mais do desfecho chinfrim dessa estória que prometia um final surpreendente. Mas é que eu continuo me surpreendendo muito com quase nada – e quase nada com muita coisa.

E eu prometo que vou voltar a escrever na sessão “Beta Indica…” do blog, que não atualizo há muitos, muitos meses e lá darei detalhes sobre esse deleite de romance, contado inteirinho através de correspondências de dar água na boca, uma coisa! Tenho um listinha literária simplesmente tão deliciosa quanto eu imagino que seja essa torta de casca de batata.

Mais correria e menos literatura é o que  eu prevejo pelos dias seguintes, então,  foi mais do que merecido esse meu momento lírico cada vez mais raro, não é mesmo? E fica aí a dica literária da vez… enjoy! 😉

Roberta Simoni

O paradoxo da calcinha exposta!

Eu não tenho medo de morrer. Se a morte me assombra e amedronta de alguma forma é quando eu penso na morte dos meus amores. Mas morreremos todos, tão logo ou não, morreremos. Mas, por favor, se eu morrer sem aviso prévio, como normalmente acontece com a maior parte da humanidade, que as minhas calcinhas estejam todas limpinhas, guardadinhas na gaveta, que a minha geladeira não esteja repleta de frutas estragadas e embalagens vencidas, que não haja flores secas e murchas espalhadas pela minha casa, nem livros do Paulo Coelho nas prateleiras ou CDs do Belo na estante.

Sim, porque alguém vai precisar fazer o serviço sujo de entrar na casa desta mulher que mora só para cuidar dos objetos pessoais… e qual seria a última imagem que esse sujeito teria de mim caso encontrasse uma calcinha usada? Porca. E a comida estragada? Relaxada e egoísta, com tanta gente passando fome, tsc tsc… E flores mortas? Não conseguia nem cuidar de plantas, e ainda queria ter filhos. E como eu poderia explicar que o livro do Paulo Coelho foi presente de um amigo querido, e que não tive coragem de me desfazer dele porque a dedicatória era linda? E o CD do Belo? Meu Deus! Como eu explicaria uma atrocidade dessas? Quem acreditaria que era de uma amiga que me pediu para fazer uma cópia? Porca, relaxada, egoísta, relapsa e ainda por cima tinha um péssimo gosto musical e literário?

Normalmente quando eu viajo, me preocupo em deixar a casa, no mínimo ajeitadinha… nunca se sabe, né? Mas esta semana eu sequer tive tempo de lavar a louça. Que louça, sua louca? Um prato, três talheres, um copo e uma panela? Pobrezinha, ainda por cima era solitária…

No meu apartamento eu só tenho o básico, primeiro porque é temporário, segundo porque eu raramente paro em casa, terceiro porque toda a mobília que me resta está em outro Estado e eu só vou trazer tudo quando me mudar para um fixo. Além disso, só esta semana eu quebrei dois copos. Mas isso eu também não teria oportunidade de explicar… e no caminho para o aeroporto fui pensando nessas tolices e me deu um calafrio. “Ui… aviãozinho, seja bonzinho!”

Dia desses eu recebi uma visita rápida que precisou usar meu banheiro, só lembrei quando ela já estava lá dentro que havia uma calcinha pendurada no chuveiro. Tarde demais… Outro dia estava no apartamento de um casal de conhecidos, fui usar o banheiro deles e quando joguei o papel na lixeira, foi inevitável perceber as camisinhas usadas que estavam lá dentro. Ok, ok… toda finalidade de um casal, felizmente, é o sexo, e é normal lavar a calcinha no banho e esquecê-la pendurada lá dentro vez ou outra, mas, ahhh… nem por isso pessoas com quem você não tem a menor intimidade precisam saber a quantas anda sua vida sexual, muito menos qual o tipo de lingerie que você usa.

E, ainda assim, apesar de tudo isso, eu gosto de escrever num blog, de falar sobre as minhas impressões do mundo, divagar sobre o que sinto. E, vejam só, exponho minhas ideias e opiniões para um monte de gente que eu desconheço… quer coisa mais paradoxal do que essa ????

E você, pensa rápido e me conta: o que você esconderia debaixo do tapete se soubesse agora que nunca mais voltaria para casa?

Roberta Simoni

Das vantagens de não ter tempo

Não, eu não morri, não fui sequestrada, nem abduzida… (agradeço aos queridos leitores preocupados de plantão!)

Cá estou, novamente, acelerada, como minha natureza exige que eu seja, ainda que eu relute com frequência. E trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, e depois, trabalho mais um pouquinho. E torço pro fim de semana chegar e quando ele chega, tenho o disparate de ficar feliz quando pinta algum trabalho freela. E lá vamos nós (Nikita e eu) para mais uma jornada. Tudo bem, a gente aguenta! – é o que sempre dizemos uma para a outra, mas, meus pés fazem questão de dizer o contrário depois de horas seguidas se equilibrando num detestável par de saltos altos. No fim do dia, eles que já não são belos, exibem bolhas nada sexy e calos nem um pouco atraentes. E a Nikita, bom… depois de não-sei-quantas-mil-fotos pediu arrego e me deixou a ver navios e o mar, tudo isso sem poder fotografar.

Tudo bem, sem desespero. Felizmente eu estou na fase “copo cheio”… e vocês bem sabem como eu sou quando teimo em enxergar o copo vazio, né? Não dá tempo pra lamentar muito por nada, maravilha! Então, agilidade, neguinha, agilidade!

Manda máquina para autorizada em São Paulo, corre atrás de máquina nova para comprar. Separa a roupa suja para levar na lavanderia mais próxima, sonha em se mudar pra um apartamento com área de serviço, mas não dá tempo de sonhar, compra o jornal, fuça os classificados, não acha nada que preste, fica mais um mês onde está. Torce para as roupas secarem logo porque acaba de saber que precisa arrumar as malas para viajar a trabalho nas próximas horas. Deseja escrever no blog, mas precisa escrever matérias, roteiros e uma peça de teatro. E trabalha, trabalha e trabalha. E estuda, ou tenta estudar, porque descobre que o italiano é bem mais fodone do que se pode imaginar, bambina!

Mas o copo tá lá, visivelmente cheio, sem espaço para o tempo. E o tempo que falta é ocupado e espaçoso, não deixa brechas para pensar muito em nada, e acaba tornando o peso de alguns problemas, que são do tamanho de um elefante, parecerem mais leves e menores do que uma formiga… não uma qualquer, mas aquela formiga de fogo, miudinha, avermelhada, cuja ferroada é dolorosa. E se vacilar, ela constrói um enorme formigueiro bem debaixo do seu nariz, dividindo espaço com as suas prioridades. Mas, ainda assim, formigas são menores que elefantes.

Das vantagens de não ter tempo, a maior é perceber que todo minuto se torna tão mais precioso e adorável que perdê-lo com lamentações se torna uma tremenda ofensa. E a poesia do cotidiano ainda está aqui, desfilando cheia de graça diante dos meus olhos, me fazendo criar rascunhos mentais que, qualquer dia desses, eu volto aqui para compartilhar…

Agora eu preciso mesmo correr, nao contra o tempo, mas a favor dele, tentando acompanhar o rítmo da música que ele tá botando para tocar agora. E dançamos juntos… dançamos, dançamos…

Volto… juro!

“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio…

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final.”

Roberta Simoni