O paradoxo da calcinha exposta!

Eu não tenho medo de morrer. Se a morte me assombra e amedronta de alguma forma é quando eu penso na morte dos meus amores. Mas morreremos todos, tão logo ou não, morreremos. Mas, por favor, se eu morrer sem aviso prévio, como normalmente acontece com a maior parte da humanidade, que as minhas calcinhas estejam todas limpinhas, guardadinhas na gaveta, que a minha geladeira não esteja repleta de frutas estragadas e embalagens vencidas, que não haja flores secas e murchas espalhadas pela minha casa, nem livros do Paulo Coelho nas prateleiras ou CDs do Belo na estante.

Sim, porque alguém vai precisar fazer o serviço sujo de entrar na casa desta mulher que mora só para cuidar dos objetos pessoais… e qual seria a última imagem que esse sujeito teria de mim caso encontrasse uma calcinha usada? Porca. E a comida estragada? Relaxada e egoísta, com tanta gente passando fome, tsc tsc… E flores mortas? Não conseguia nem cuidar de plantas, e ainda queria ter filhos. E como eu poderia explicar que o livro do Paulo Coelho foi presente de um amigo querido, e que não tive coragem de me desfazer dele porque a dedicatória era linda? E o CD do Belo? Meu Deus! Como eu explicaria uma atrocidade dessas? Quem acreditaria que era de uma amiga que me pediu para fazer uma cópia? Porca, relaxada, egoísta, relapsa e ainda por cima tinha um péssimo gosto musical e literário?

Normalmente quando eu viajo, me preocupo em deixar a casa, no mínimo ajeitadinha… nunca se sabe, né? Mas esta semana eu sequer tive tempo de lavar a louça. Que louça, sua louca? Um prato, três talheres, um copo e uma panela? Pobrezinha, ainda por cima era solitária…

No meu apartamento eu só tenho o básico, primeiro porque é temporário, segundo porque eu raramente paro em casa, terceiro porque toda a mobília que me resta está em outro Estado e eu só vou trazer tudo quando me mudar para um fixo. Além disso, só esta semana eu quebrei dois copos. Mas isso eu também não teria oportunidade de explicar… e no caminho para o aeroporto fui pensando nessas tolices e me deu um calafrio. “Ui… aviãozinho, seja bonzinho!”

Dia desses eu recebi uma visita rápida que precisou usar meu banheiro, só lembrei quando ela já estava lá dentro que havia uma calcinha pendurada no chuveiro. Tarde demais… Outro dia estava no apartamento de um casal de conhecidos, fui usar o banheiro deles e quando joguei o papel na lixeira, foi inevitável perceber as camisinhas usadas que estavam lá dentro. Ok, ok… toda finalidade de um casal, felizmente, é o sexo, e é normal lavar a calcinha no banho e esquecê-la pendurada lá dentro vez ou outra, mas, ahhh… nem por isso pessoas com quem você não tem a menor intimidade precisam saber a quantas anda sua vida sexual, muito menos qual o tipo de lingerie que você usa.

E, ainda assim, apesar de tudo isso, eu gosto de escrever num blog, de falar sobre as minhas impressões do mundo, divagar sobre o que sinto. E, vejam só, exponho minhas ideias e opiniões para um monte de gente que eu desconheço… quer coisa mais paradoxal do que essa ????

E você, pensa rápido e me conta: o que você esconderia debaixo do tapete se soubesse agora que nunca mais voltaria para casa?

Roberta Simoni