Eu reinvento-me. Tu reinventa-se?

Acordei inventando cansaço. Tudo psicológico. Só porque eu passei a noite em claro? Só porque o moço que vende churrasquinho de gato na esquina resolveu, de uns tempos pra cá, atrair (espantar?) a clientela com o adorável forró da banda Calcinha Preta? Imagina… Só porque ele coloca o som nas últimas alturas até o dia amanhecer? Bobagem… Só porque, quando eu estava começando a desconfiar que vivo na terra-de-ninguém, inconformada por ser alguém impedida de dormir pelos gemidos (sim, porque aquilo não é voz, menos ainda melodia!) da vocalista da banda, a polícia chegou, botou a casa em ordem e, quando a viatura virou a esquina, o som ficou ainda mais alto? Frescura minha… olheiras minhas, cansaço meu… dormir? Sonho meu, sonho meu…

Mas, e aí que o dia foi chegando ao fim, e aí que eu ia para casa me acabar de tanto dormir, e aí que quando eu estava pegando a bolsa para ir embora, pintou uma matéria importante para divulgar de última hora, e aí que eu tive que trabalhar até mais tarde. E aí que só de raiva eu decidi que não estava cansada, e aí que eu reinventei o que sobrou do meu dia, inventando que estava super-hiper-mega-ultra disposta a sair, encontrar meus amigos para jogar conversa fora e tomarmos um café, porque apesar de sextas-feiras combinarem bem mais com cerveja, bastaria apenas uma para me fazer dormir na mesa do bar, e as minhas invenções podem até funcionar, mas não sem a ajuda de cafeína para me reanimar.

Além disso, eu me reinventei com dinheiro no bolso, apesar de ter acordado “pobre, pobre, pobre de marré de si” porque foi dia de pagar contas, fui ao meu cinema favorito e voltei para casa decidida a inventar que sou baiana, de saia rodada e mão na cintura, caso o moço do churrasquinho estivesse por lá, com calcinha preta, branca, amarela ou cor-de-rosa cantando ou gemendo, ameaçando meu sono, porque àquela altura eu já havia deixado de ser zumbi para me reinventar humana, e humanos precisam dormir. Mas, por sorte – dele e minha – ele não estava lá.

Reinventei também, pela milésima vez, que nem todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite e que domingo não é dia de sair, mas de ficar em casa, lendo Cortázar. E ainda agora fiz as duas invenções mais importantes da semana. A primeira: Saramago não morreu, só deixou de estar aqui para estar em outro lugar e tirou férias de escrever, só isso. A segunda: hoje tem jogo do Brasil e eu, meus tímpanos e meu humor estaremos imunes às malditas vuvuzelas-do-capeta, afinal, são só algumas mosquinhas varejeiras de nada…

E para representar dias surreais e reinventados como estes, ninguém melhor que Salvador Dali. E eu não consegui pensar em outra imagem para o post de hoje, senão a “Dali Atomicus”, tirada em 1948, uma das minhas favoritas, do fotógrafo russo Philippe Halsman, que costumava retratar o mestre do Surrealismo.

Essa foto é dona de um fascínio explicável: para conseguir esse registro foram 26 tentativas, durante cinco horas, com a ajuda de três assistentes para jogarem os gatos (pobres bichanos…), um outro jogando a água, e o outro a cadeira. Pois é, naquele tempo não existia Photoshop, mas já existiam mentes brilhantes e criativas. E para a minha feliz surpresa, elas ainda existem, e uma delas resolveu reinventar fotografias clássicas com a ajuda de peças de lego, e deu nisso:

E você, também anda se reinventando para sobreviver?

Roberta Simoni

Quem disse que hidratante não dá jeito?

Eu achei que não fosse conseguir, depois de três semanas consecutivas e interruptas de espirros, fechadas com chave de ouro com as chuvas geladas do fim de outono, graças a minha indigesta teimosia em querer ir ao cinema debaixo de uma tempestade torrencial para assistir “O Segredo dos Seus Olhos”, porque achei inadmissível ver esta obra prima em outro lugar que não fosse numa sala de cinema, como manda o figurino de todo filme excepcional (e, de fato, se trata de um!), ignorei a dor de garganta, os espirros, o estado febril, o dilúvio e escambau, decidida a não perder a última semana do filme em cartaz, nada nem ninguém me seguraria em casa naquele dia, pois bem… o resultado? Hospital no dia seguinte: crise de sinusite. Um dia inteiro de trabalhos urgentíssimos jogados no lixo, ou melhor, na cama, debaixo do cobertor comigo.

Com a ajuda de antibióticos “levanta defunto” cheguei viva no trabalho no dia seguinte, sobrevivi ao dia puxado, consegui me arrastar até o curso de italiano mais tarde, “ma non parlare niente…” a aula toda, pois só tossia, tossia e tossia… depois tinha uma reunião às 21h. “Duvido que você consiga ir” me autodesafiei. “Ah é?” Entrei no metrô e fui. E foi a caminho do meu destino que eu recebi a lição do dia.

Estação de Copacabana, eu em pé, de frente para uma das portas do vagão, um entra e saí danado de gente, de repente, um grito, seguido de outros gritos de susto que provocaram outros tantos, agora de pavor. “Pára, pára, não deixem o trem seguir… páááára!” (é, eu sei que o acento do “pára” caiu no novo acordo ortográfico, mas, nesse caso, preciso muito dele para enfatizar melhor!), e eu gritando junto, ajudando a fazer barulho, tentando alertar o maquinista. Gritaria bem sucedida, o trem parou com as portas abertas, mas o moço continuava lá, com uma das pernas presas no vão entre o trem e a plataforma, bem na minha frente.

Ninguém sabia direito o que fazer e, como de costume em situações como essa, todo mundo esquece que muito ajuda quem pouco atrapalha. Formou-se uma verdadeira multidão em volta do homem, tornando o resgate ainda mais difícil. Um puxava daqui, o outro dali e nada do homem sair.  Alguém falou em óleo para ajudar a soltar, pensei rápido: “alguém tem hidratante aí?”. Imediatamente surgiram vários das bolsas das mulheres, e vejam vocês, com um pouco de jeito e muito creme hidratante, conseguiram desprender a perna do moço, que saiu bem, carregado por um dos seguranças do metrô, um pouco ferido e muito assustado, claro. Mas em pensar que poderia ser beeeem pior… 

A moça do meu lado chorava de nervoso, e ela foi a primeira a oferecer seu hidratante, eu queria acalmá-la, mas já estava ficando nervosa junto sem saber como. Depois que passou o susto e seguimos viagem, acho que consegui encontrar as palavras adequadas: 

“Da próxima vez que te disserem que mulher só carrega coisa inútil na bolsa, conte a eles o que aconteceu hoje. Duvido que continuem duvidando da utilidade das coisas que carregamos na bolsa depois que souberem que um hidratante salvou uma vida, não é mesmo?!?”

Enfim, ela sorriu, aparentemente mais relaxada.

E eu voltei para casa decidida a parar de renegar os hidratantes que minha mãe e minha irmã vivem me dando de presente ou me convencendo a comprar, garantindo que já passei da fase de cuidar da minha pele e ser mais vaidosa, porque já estou no estágio de me preocupar, pois com a idade chegando e eu descuidada desse jeito, tsc, tsc, tsc… já sabe, né? 

Os hidratantes prometem deixar sua aparência vinte anos mais jovem… sei não… eu continuo olhando torto para eles e duvidando de sua eficácia estética, mas, pode até ser que não te deixem mais bonito(a), mas eu parei de duvidar do “segredo dos seus óleos“. 🙂

Nesse sentido, eu confesso que tenho mesmo uma dificuldade desproporcional de diferenciar o que é futilidade do que é essencial mas, o que eu sei é que depois do episódio no metrô eu estou revendo todos os meus conceitos, e corri para pôr em uso os meus hidratantes que estão quase perdendo a validade. E se eu ainda não consigo me disciplinar a hidratar minha pele diariamente, ao menos, levo um hidratante comigo na bolsa. Nunca se sabe quando ele poderá se tornar o herói do dia…

Roberta Simoni

Tarde demais, baby…

Ela estava aí, do seu lado, todo o tempo, e só agora que ela foi embora você percebeu o quanto a ama e que não pode viver sem ela, aí você saiu feito um louco pela rua, pegou um táxi, mandou o motorista acelerar o máximo que pudesse, mas o trânsito estava  completamente congestionado, então você abandonou o táxi e foi correndo mesmo, entrou no aeroporto empurrando as pessoas, se desculpando, tropeçando e derrubando as bagagens que estavam pelo caminho, mas quando chegou no portão de embarque, ela já tinha entrado no avião, que decolaria nos próximos minutos. Você tentou ultrapassar o portão mesmo assim, mas, obviamente, foi barrado pelos seguranças porque estava sem o bilhete de embarque. Aí você pediu – na verdade você implorou – para que deixassem você passar, argumentou que o amor da sua vida estava dentro daquele avião e que se você não a impedisse, ela partiria para nunca mais voltar. Ficaram comovidos e, com alguma resistência, deixaram você entrar. Quando você alcançou o avião, a tripulação já havia sido avisada e estava à sua espera, a aeromoça (particularmente emocionada) comunicou aos passageiros o motivo do atraso do vôo e chamou sua amada pelo nome, que se levantou, sem entender nada, até o momento em que te viu vindo ao encontro dela. Vocês trocaram olhares apaixonados. Ela quis que você explicasse o que estava fazendo ali, e você finalmente disse, em alto e bom tom, que não conseguia imaginar sua vida sem ela e a pediu em casamento. Ouviu-se um coro de “Óhhhhhh” de comoção dentro do avião. Ela disse sim e vocês se beijaram demoradamente, enquanto os passageiros aplaudiam entusiasmados àquela cena de amor. A aeromoça suspirou, desejando viver um amor assim algum dia, e…

The End. Começaram a subir os créditos do filme, música do Roxette tocando ao fundo, as luzes do cinema se acenderam e as pessoas começaram a se levantar. Alguns casais ainda resistiam sentados, aos beijos, envolvidos pelo clima de romantismo cinematográfico, mas cedo ou tarde teriam que levantar, dar ao mãos e ir embora viver a vida real…

Eu não satirizo o amor romântico, só acho que, certas coisas, só funcionam bem nas telas do cinema, isto é, quando funcionam. Esse roteiro onde o mocinho passa o filme inteiro sem notar o amor platônico da mocinha e só no final descobre o seu amor por ela, ou da fulaninha que durante toda a estória não dá o devido valor ao fulaninho e no fim, decide ficar com ele e os dois são felizes para sempre não cola… não mais.

Pode ser que um dia eu entenda, mas acho pouco provável… se tem uma dúvida que levo comigo dessa vida é essa: por que as pessoas só dão valor depois que perdem?

Teoricamente não seria mais simples valorizar o que está ao alcance das mãos, diante dos olhos do coração? Então, por que na prática é tão diferente? É como se alguma coisa encobrisse a visão enquanto você ainda tem ao seu dispor e depois, ao perder, como num passe de mágica, você passasse a enxergar o que antes, misteriosamente, não via.

Por que só agora que eu não te quero mais? – foi a pergunta que eu fiz, anos atrás, para um ex-namorado. Não sei… – foi o que ele me respondeu com sinceridade. Pois é, nem eu sabia, e ainda não sei e, provavelmente, nunca vou saber, tampouco entender. Porque os anos passam e eu vejo as pessoas cometendo os mesmos erros tolos, de olhos vendados, perdendo de vista grandes amores, deixando escapar a magia do relacionamento construído no cotidiano a dois, para depois terem tristes estórias de amor para – não – contar. Sim, porque, me desculpem, mas, eu não tenho interesse em escutar.

E eu espero que as chances tão logo se esgotem, porque é puro desperdício de tempo e desgaste do amor que, se ainda não se esgotou, pouco sobrou para gastar. E eu não quero que ele termine com ela. Eu quero que ele entre no avião e, por conta do atraso do vôo, os passageiros estejam esbravejando contra ele, que irá encontrá-la acompanhada de um cara bem mais gato que ele – e apaixonado por ela agora! Exatamente agora, quando ela também está apaixonada por ele, e não amanhã, quando ela, cansada de amar por dois, for embora. Eu quero é ver gente se amando “tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora”, não em tempos e mundos distintos. Quero escutar falar de estórias de amor que começam e terminam juntas, embora, fatalmente, tantos acabem separados antes do fim. Mesmo assim, o que eu quero é ver recíprocos começos, meios e fins de amor mútuo, independente do desfecho, um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.

E você, meu bem, trate de se engraçar com a aeromoça que se derreteu toda com seu romantismo descartável e seu amor tardio, porque dessa vez (confesso que sinto um prazer cretino em dizer isso) você até alcançou o avião, mas chegou tarde demais, baby

Na foto do post, a escandinava Greta Garbo, que rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos com John Gilbert em A Carne e o Diabo, na da década de 1920. E no vídeo, Deborah Kerr, ao lado de Burt Lancaster, protagonizado o mais exuberante dos beijos cinematográficos de todos os tempos em A Um Passo da Eternidade. Porque suspiros e um pouco de romance de cinema não fazem mal a ninguém… 😉

Roberta Simoni