Tarde demais, baby…

Ela estava aí, do seu lado, todo o tempo, e só agora que ela foi embora você percebeu o quanto a ama e que não pode viver sem ela, aí você saiu feito um louco pela rua, pegou um táxi, mandou o motorista acelerar o máximo que pudesse, mas o trânsito estava  completamente congestionado, então você abandonou o táxi e foi correndo mesmo, entrou no aeroporto empurrando as pessoas, se desculpando, tropeçando e derrubando as bagagens que estavam pelo caminho, mas quando chegou no portão de embarque, ela já tinha entrado no avião, que decolaria nos próximos minutos. Você tentou ultrapassar o portão mesmo assim, mas, obviamente, foi barrado pelos seguranças porque estava sem o bilhete de embarque. Aí você pediu – na verdade você implorou – para que deixassem você passar, argumentou que o amor da sua vida estava dentro daquele avião e que se você não a impedisse, ela partiria para nunca mais voltar. Ficaram comovidos e, com alguma resistência, deixaram você entrar. Quando você alcançou o avião, a tripulação já havia sido avisada e estava à sua espera, a aeromoça (particularmente emocionada) comunicou aos passageiros o motivo do atraso do vôo e chamou sua amada pelo nome, que se levantou, sem entender nada, até o momento em que te viu vindo ao encontro dela. Vocês trocaram olhares apaixonados. Ela quis que você explicasse o que estava fazendo ali, e você finalmente disse, em alto e bom tom, que não conseguia imaginar sua vida sem ela e a pediu em casamento. Ouviu-se um coro de “Óhhhhhh” de comoção dentro do avião. Ela disse sim e vocês se beijaram demoradamente, enquanto os passageiros aplaudiam entusiasmados àquela cena de amor. A aeromoça suspirou, desejando viver um amor assim algum dia, e…

The End. Começaram a subir os créditos do filme, música do Roxette tocando ao fundo, as luzes do cinema se acenderam e as pessoas começaram a se levantar. Alguns casais ainda resistiam sentados, aos beijos, envolvidos pelo clima de romantismo cinematográfico, mas cedo ou tarde teriam que levantar, dar ao mãos e ir embora viver a vida real…

Eu não satirizo o amor romântico, só acho que, certas coisas, só funcionam bem nas telas do cinema, isto é, quando funcionam. Esse roteiro onde o mocinho passa o filme inteiro sem notar o amor platônico da mocinha e só no final descobre o seu amor por ela, ou da fulaninha que durante toda a estória não dá o devido valor ao fulaninho e no fim, decide ficar com ele e os dois são felizes para sempre não cola… não mais.

Pode ser que um dia eu entenda, mas acho pouco provável… se tem uma dúvida que levo comigo dessa vida é essa: por que as pessoas só dão valor depois que perdem?

Teoricamente não seria mais simples valorizar o que está ao alcance das mãos, diante dos olhos do coração? Então, por que na prática é tão diferente? É como se alguma coisa encobrisse a visão enquanto você ainda tem ao seu dispor e depois, ao perder, como num passe de mágica, você passasse a enxergar o que antes, misteriosamente, não via.

Por que só agora que eu não te quero mais? – foi a pergunta que eu fiz, anos atrás, para um ex-namorado. Não sei… – foi o que ele me respondeu com sinceridade. Pois é, nem eu sabia, e ainda não sei e, provavelmente, nunca vou saber, tampouco entender. Porque os anos passam e eu vejo as pessoas cometendo os mesmos erros tolos, de olhos vendados, perdendo de vista grandes amores, deixando escapar a magia do relacionamento construído no cotidiano a dois, para depois terem tristes estórias de amor para – não – contar. Sim, porque, me desculpem, mas, eu não tenho interesse em escutar.

E eu espero que as chances tão logo se esgotem, porque é puro desperdício de tempo e desgaste do amor que, se ainda não se esgotou, pouco sobrou para gastar. E eu não quero que ele termine com ela. Eu quero que ele entre no avião e, por conta do atraso do vôo, os passageiros estejam esbravejando contra ele, que irá encontrá-la acompanhada de um cara bem mais gato que ele – e apaixonado por ela agora! Exatamente agora, quando ela também está apaixonada por ele, e não amanhã, quando ela, cansada de amar por dois, for embora. Eu quero é ver gente se amando “tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora”, não em tempos e mundos distintos. Quero escutar falar de estórias de amor que começam e terminam juntas, embora, fatalmente, tantos acabem separados antes do fim. Mesmo assim, o que eu quero é ver recíprocos começos, meios e fins de amor mútuo, independente do desfecho, um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.

E você, meu bem, trate de se engraçar com a aeromoça que se derreteu toda com seu romantismo descartável e seu amor tardio, porque dessa vez (confesso que sinto um prazer cretino em dizer isso) você até alcançou o avião, mas chegou tarde demais, baby

Na foto do post, a escandinava Greta Garbo, que rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos com John Gilbert em A Carne e o Diabo, na da década de 1920. E no vídeo, Deborah Kerr, ao lado de Burt Lancaster, protagonizado o mais exuberante dos beijos cinematográficos de todos os tempos em A Um Passo da Eternidade. Porque suspiros e um pouco de romance de cinema não fazem mal a ninguém… 😉

Roberta Simoni

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23 comentários sobre “Tarde demais, baby…

    • Josy,
      A essa altura eu não aguentei de curiosidade e já te liguei para saber, afinal, “o que aconteceu ontem” !!!!

      E, Renata… eu também prefiro a vida real, ainda que os contos de fada sejam absolutamente tentadores… rs

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  1. será que é tarde? será que nunca mais? Eu já passei por situações que me fizeram acreditar que NUNCA não existe no vocabulário dos apaixonados..é persistir…se tiver de ser, será..

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    • Jusciney,

      Eu tanto concordo com você que “nunca digo nunca” (ou quase nunca! rs). E não, nem sempre é tarde, mas, sim, algumas vezes é absolutamente tarde demais, sim.
      Nesse texto eu me refiro aos amores que tiveram suas chances tantas vezes despediçadas e, nestes casos, sou a favor de dar lugar aos novos amores, embora eu não tenha nada contra a “tentar de novo”, como eu mesma já fiz muitas vezes e não me arrependo. Mas aí, um dia você acorda, abre a janela, um passarinho pousa no seu ombro e fala ao seu ouvido que é hora de tentar de novo, só que dessa vez, um novo amor…

      E aí (te parafraseando): “O que tiver de ser, será.” 😉

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  2. Maçã… texto excelente! Parabéns! A cena descrita me lembrou um filme q repetia sempre na sessão da tarde: “Admirador Secreto”. Só q em vez de avião, o cara pulava de um deck e nadava atrás do barco onde estava o amor da vida dele (uma grande amiga que sempre esteve do lado dele, mas ele não notava o qt ela era importante e o qt ele gostava dela). São coisas da vida e q acontecem com todos nós. E continuaremos a eterna busca ou espera do verdadeiro amor! =)

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    • Guido e Obed, eu acho, vejam bem, ACHO que já vi esse filme que vocês falaram, mas pode ser que eu esteja enganada porque, afinal, existem tantos do gênero por aí, né? O problema é que vocês aguçaram minha curiosidade (coisa muito difícil de acontecer, como vocês sabem… rs). Beijos, beijos…

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  3. Hahahahaha… aproveitando que vc foi lá no blog… há exatamente um ano escrevi um conto de fadas (baseado em fatos reais!) com princípio, meio e fim. Dá uma olhada, Beta: http://rcfilesoflife.blogspot.com/2009/06/reality-mode-on.html

    Sábado aqui em casa vc ouviu a história do “príncipe” em questão… é… esse mesmo, o que virou sapo! Hahahaha… e preciso te agradecer por este seu post de hoje – vou encontrar o “sapo” essa semana. Mas já com a certeza de que eu tb quero “um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.”(sim, roubei essa frase e vou colocá-la – com seus devidos créditos, claro – em todas as minhas redes sociais!!! Hahahaha…!)

    bjs!!!

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  4. Ê, Dona Flor (do dia)… desabafo ecoando looooonge, viu?
    Melhor mandar um e-mail! 😉

    (…)

    E, ah! MUITO MUITO MUITO obrigado ao Obedvolkan acima, que me lembrou desse filme… Sei lá, deve ter só uns DEZ ANOS que eu tô tentando lembrar o nome dessa joça, “Admirador Secreto”! Sempre falo dele pra todo mundo e nunca lembravo o nome! ok ok, não esqueço mais.

    O nome da garota era Tony, a propósito.
    E o idiota não teria que pular do deck no final do filme se, lá no comecinho, tivesse percebido que ela era a mulher da vida dele e dado o devido valor!

    Por mim morreria afogado, o vacilão ha ha ha
    😉

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    • Sentimental…

      Certas coisas a gente nasce, cresce, vive, ganha experiência, morre sem entender. Se duvidar, reencarna (se essa possibilidade existir), começa e termina todo o ciclo outra vez e continua não entendendo, né? Afff…

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  5. Pra continuar com o clima cinematográfico que você criou (o que me lembra, aliás, que estou frustradíssima por amanhã ser a segunda sexta feira do mês, e não a primeira), lembrei do que talvez seja a mais lúcida fala sbre amor em um filme que eu tenho notícia.

    A certa altura, o protagonista de “2046” (Wong Kar Wai, filmaço, quase tão bom quanto Amor à flor da pele, que é meu preferido, mas estou aqui devaneando) diz que “o amor é questão de ‘timing’. De nada adianta conhecer a pessoa certa cedo ou tarde demais.”.

    Daí que não adianta o fulaninho correr atrás do avião depois que o leite derramou, ou a sicraninha tentar salvar o homem-dos-seus-sonhos que anda de chororô pela perda da última namorada mas que, de fato, tinha tuuuudo para se apaixonar por ela dentro outros milhares de exemplos que vemos (e vivemos, infelizmente) todos os dias.

    Tem coisa mais difícil de coordernar do que o timing de duas pessoas para ficarem juntas? Um encontro tem que ser mais do que um esbarrão na rua, ou que uma apresentação via amigo em comum, ou a matrícula num mesmo curso, preferência por livraria, cinema, coincidências da internet: ambos tem que estar livres de tantos fantasmas e dispostos a tantas aberturas que só de pensar sinto até vertigem – e é melhor parar, ou viro descrente de vez. (é melhor me apoiar no “já aconteceu, então pode muito bem acontecer de novo”)

    É por essas e outras, Beta querida, que acho que a vida está muito mais para filme europeu de arte do que pra comédia romântica americana.

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    • Gabi (Ventura)…

      Tudo bem, amiga. Sempre haverão as primeiras sextas-feiras do mês e na próxima a gente se acaba na maratona de filmes do Odeon, combinado? 😉

      Agora, me diga, será por isso que eu costumo gostar mais de filmes europeus do que de comédias românticas americanas? Você, como sempre, clareando minha cabecinha! 😉

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  6. Quanta revolta Linda Mór!

    Eu acredito em finais felizes e amores vividos juntos. Pelo menos tive a sorte de passar por 3 experiências de mutuidade (existe essa palavra? rs). Começou junto, apaixonou junto, e acabou junto, com os dois indo viver suas vidas mas de bem, em paz com a decisão tomada conjuntamente.

    O cinema nos dá o que queremos ver. Queremos suspirar. Queremos sonhar. Queremos acreditar. Eu tava nessa de que não existia isso e mordi minha língua. Vivi um amor de novela, paixão avassaladora que arrancava suspiros de todos a minha volta. Acabou sim. Mas também numa boa. Bonita como começou.

    Hoje vivo um amor lindo. Diário e contínuo. Me pego amando quando menos espero. Aprendo a costurar esse amor. Driblar a rotina. Construir e ser feliz de mãos dadas.

    Às vezes sinto-me uma sortuda. Tem tanta gente a minha volta desiludida do amor, da sinceridade, do homem. Eu amo os homens e até agora apenas 1 dos que compartilhei a minha via foi o famoso canastrão e fez jus ao que dizem dos homens. Os outros que passaram pela minha vida foram tão… tão.. como se diz? Homens com H maiúsculo. Carinhoso, lindos, respeitosos, sinceros.

    Hoje eu aprendi que o problema não é nem da ficção e nem dos homens que não prestam.. O problema é nosso. Se não deu certo pode ter certeza que a gente constribui para isso! Se ele te quer e você nao quer mais? Sorte a sua que tá feliz e contente sem ele. Se o amor não foi como o da novela? Se entrega de coração que vai ser. Sem medo de ser feliz.

    =)

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    • Menina acesa,

      Revoltada? Minha pessoa?
      Acredite, minha flor, você ainda não me viu (ou me leu) revoltada. Se bem que, se procurar no arquivo do blog, provavelmente vai encontrar um post ou outro “revoltado” e aí vai sentir a diferença para este aqui.

      Preciso esclarecer uma coisa aqui, não só para você, mas que sirva para outros: muitas vezes eu até escrevo sobre mim no blog, mas, não é regra. Este cantinho que adoro tanto não me serve como diário virtual, ainda que ele sofra com meus desabafos algumas vezes como meus antigos diários de papel rosinha com cheirinho de morango sofreram no passado. Mas nem tudo aqui é relato cotidiano, nem tudo é ficção, nem tudo é devaneio, nem tudo é verdade, nem tudo é mentira, nem tudo é experiência própria, nem tudo não é. Aqui não há regras, tudo é inspiração, que vem (independende de onde) e me faz escrever. É momento, é sentido, é estória para boi dormir, ou é estória sem meio, sem destino, sem alvo, sem objetivo, sem fim. É literatura. E a literatura é livre, livre até de mim, ainda que sofra minhas influências, é dona de si.

      Parece que te causei a impressão de que sou/estou descrente do amor. Ah… menina… o amor! O amor ainda me arranca suspiros e sempre vai arrancar. E o amor têm vertentes demais para caber só aqui, nessa “breve” descrição. E se eu vivi experiências como a que descrevi aqui, também vivi outras, boas e ruins e ainda vou viver tantas outras… O que eu sei é que finais felizes existem e são lindos, mas nada, pra mim, se compara a “durantes felizes”.

      Sem dúvidas você é iluminada e digna de todos os amores recíprocos que viveu, e conta mesmo com uma pitada de sorte, porque nenhuma estória pode ser tão perfeita como essa que você descreveu: “Começou junto, apaixonou junto, e acabou junto, com os dois indo viver suas vidas mas de bem, em paz com a decisão tomada conjuntamente.” Olha só, que coisa boa isso… mas, lamentavelmente nem sempre é assim que acontece, azul e límpido desse jeito… e é pelo desperdício que eu lamento, desperdício de amor, de entrega, de tempo, de vida mútua. “O amor é questão de ‘timing’…” a Gabi Ventura disse aí em cima, e eu concordo. Então, se não tá no mesmo “timing”, sejamos práticos, na medida do possível, porque a vida é curta demais e é preciso fazer valer a pena, em parceria, sempre. 😉

      Beijos e abraços esmagadores de saudades em você, florzinha apaixonada… 😉

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  7. Até hoje não consigo explicar o carinho e admiração que sinto por você minha querida Beta! Você me dá força pra continuar sem mesmo saber, me dá força pra não desistir, me traz inspiração e transformação. Vou seguindo os teus passos, claro, de uma maneira mais lenta e não tão talentosa, mas um dia eu chego lá! Obrigada pelo carinho e apoio de sempre! Um Beiiiijo.

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    • Ariane,

      Eu também não saberia explicar, mas, ah… nem precisa de explicação. Tudo que sei é que todas as suas demonstrações sinceras de carinho e admiração cativam em mim muito carinho por você e nos torna próximas como se fôssemos amigas “pessoais”. E quem disse que só porque só nos conhecemos virtualmente não somos, não é?

      Acho lindo você dizer que segue meus passos e eu fico feliz por ter você andando comigo, mas, acredite, suas próprias pernas já te levam sozinhas para caminhos cada vez mais lindos. Boto a maior fé em você.

      Beijocas pupila! 😉

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  8. Você precisa começar a publicar seus pensamentos amore…
    Porque seus posts estão cada dia maiores..
    Quem sabe tu não cria coragem e cria um livro num MP4..

    Bjusssssssssssssssss

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  9. E quando a cabeça não consegue controlar o coração e no lugar de “… mas chegou tarde demais, baby.” sai um “sim”, acontece o momento mais extasiante e lindo possível, mas que seja bem entendido, MOMENTO. Final feliz, ou durante feliz após certas mágoas causados por um amor unilateral, pra essa estranha romântica aqui também é impossível Beta.
    Lindo texto, com uma descrição única desse amar junto ao mesmo tempo, que tem me raptado os sentidos às vésperas do dia dos namorados.

    Bjim

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    • Gab Reis,

      Quando sai um “sim” no lugar de um “bye bye, baby” é porque ainda dá para tentar. É porque o amor ainda não deu “tchau”, e quando (ou enquanto) isso não acontece, ele(a) “não chegou tarde demais, baby…”, não é mesmo? 😉

      Isso, você disse tudo: “Final feliz, ou durante feliz após certas mágoas causados por um amor unilateral, pra essa estranha romântica aqui também é impossível Beta.”

      Beijos para você, querida estranha romântica!

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