Quem disse que hidratante não dá jeito?

Eu achei que não fosse conseguir, depois de três semanas consecutivas e interruptas de espirros, fechadas com chave de ouro com as chuvas geladas do fim de outono, graças a minha indigesta teimosia em querer ir ao cinema debaixo de uma tempestade torrencial para assistir “O Segredo dos Seus Olhos”, porque achei inadmissível ver esta obra prima em outro lugar que não fosse numa sala de cinema, como manda o figurino de todo filme excepcional (e, de fato, se trata de um!), ignorei a dor de garganta, os espirros, o estado febril, o dilúvio e escambau, decidida a não perder a última semana do filme em cartaz, nada nem ninguém me seguraria em casa naquele dia, pois bem… o resultado? Hospital no dia seguinte: crise de sinusite. Um dia inteiro de trabalhos urgentíssimos jogados no lixo, ou melhor, na cama, debaixo do cobertor comigo.

Com a ajuda de antibióticos “levanta defunto” cheguei viva no trabalho no dia seguinte, sobrevivi ao dia puxado, consegui me arrastar até o curso de italiano mais tarde, “ma non parlare niente…” a aula toda, pois só tossia, tossia e tossia… depois tinha uma reunião às 21h. “Duvido que você consiga ir” me autodesafiei. “Ah é?” Entrei no metrô e fui. E foi a caminho do meu destino que eu recebi a lição do dia.

Estação de Copacabana, eu em pé, de frente para uma das portas do vagão, um entra e saí danado de gente, de repente, um grito, seguido de outros gritos de susto que provocaram outros tantos, agora de pavor. “Pára, pára, não deixem o trem seguir… páááára!” (é, eu sei que o acento do “pára” caiu no novo acordo ortográfico, mas, nesse caso, preciso muito dele para enfatizar melhor!), e eu gritando junto, ajudando a fazer barulho, tentando alertar o maquinista. Gritaria bem sucedida, o trem parou com as portas abertas, mas o moço continuava lá, com uma das pernas presas no vão entre o trem e a plataforma, bem na minha frente.

Ninguém sabia direito o que fazer e, como de costume em situações como essa, todo mundo esquece que muito ajuda quem pouco atrapalha. Formou-se uma verdadeira multidão em volta do homem, tornando o resgate ainda mais difícil. Um puxava daqui, o outro dali e nada do homem sair.  Alguém falou em óleo para ajudar a soltar, pensei rápido: “alguém tem hidratante aí?”. Imediatamente surgiram vários das bolsas das mulheres, e vejam vocês, com um pouco de jeito e muito creme hidratante, conseguiram desprender a perna do moço, que saiu bem, carregado por um dos seguranças do metrô, um pouco ferido e muito assustado, claro. Mas em pensar que poderia ser beeeem pior… 

A moça do meu lado chorava de nervoso, e ela foi a primeira a oferecer seu hidratante, eu queria acalmá-la, mas já estava ficando nervosa junto sem saber como. Depois que passou o susto e seguimos viagem, acho que consegui encontrar as palavras adequadas: 

“Da próxima vez que te disserem que mulher só carrega coisa inútil na bolsa, conte a eles o que aconteceu hoje. Duvido que continuem duvidando da utilidade das coisas que carregamos na bolsa depois que souberem que um hidratante salvou uma vida, não é mesmo?!?”

Enfim, ela sorriu, aparentemente mais relaxada.

E eu voltei para casa decidida a parar de renegar os hidratantes que minha mãe e minha irmã vivem me dando de presente ou me convencendo a comprar, garantindo que já passei da fase de cuidar da minha pele e ser mais vaidosa, porque já estou no estágio de me preocupar, pois com a idade chegando e eu descuidada desse jeito, tsc, tsc, tsc… já sabe, né? 

Os hidratantes prometem deixar sua aparência vinte anos mais jovem… sei não… eu continuo olhando torto para eles e duvidando de sua eficácia estética, mas, pode até ser que não te deixem mais bonito(a), mas eu parei de duvidar do “segredo dos seus óleos“. 🙂

Nesse sentido, eu confesso que tenho mesmo uma dificuldade desproporcional de diferenciar o que é futilidade do que é essencial mas, o que eu sei é que depois do episódio no metrô eu estou revendo todos os meus conceitos, e corri para pôr em uso os meus hidratantes que estão quase perdendo a validade. E se eu ainda não consigo me disciplinar a hidratar minha pele diariamente, ao menos, levo um hidratante comigo na bolsa. Nunca se sabe quando ele poderá se tornar o herói do dia…

Roberta Simoni

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7 comentários sobre “Quem disse que hidratante não dá jeito?

  1. Vou passar a andar com hidratante na bolsa. E quanto a eficácia dos hidratantes, minha tia de 79 anos que o diga… Eu também fazia pouco dele mas depois de conhecer essa tia, passei a usar. Não como um ritual, como ela. Mas um dia eu chego lá. Beijos minha Flor. 😀

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