Que seja doce

Eu disse adeus e bati a porta. Acordei com o barulho que a batida fez no sonho. E “puf”… como num passe de mágica, acordei mais velha, com um número a mais somado à contagem anual de tempo de vida, o que torna a nova idade enferrujada e envelhecida, apesar de recém-nascida. Foi assim que me despedi da idade antiga.

Não tenho fome quando acordo, meu estômago é o último a despertar, mas, às vezes, minha vontade é independente da fome, então pouco importa se o resto do corpo está dormindo ainda, a vontade está lá, acordada e disposta. É ela que, na sonolência preguiçosa do meu estômago, alimenta o meu espírito com um bombom de licor de chocolate. “Que seja doce, que seja doce, que seja doce…”

É quase como um mantra que repito a frase do Caio Fernando Abreu mentalmente quando o chocolate encharca a minha boca de doçura. “Que seja doce.” É o que eu digo pra mim mesma, todos os dias. Especialmente no dia em que a minha contagem regressiva se reinicia.

Não tenho nome nem personalidade quando faço aniversário. Sou só os beijos e os abraços que recebo. E basta. Não tenho trabalhos, problemas, nem carreira. Sou só os telefonemas sorridentes que atendo. Não tenho casa, não tenho pressa, nem fome. Me alimento da energia boa que me emanam. Só isso. Sou criatura que assopra a vela que não veio em cima do bolo – que não deu tempo de ser providenciado – mas foi comprada por quem tanto me ama e assoprada junto com quem realmente importa.

Se a vida está do jeito que eu queria? Nem muito longe, nem muito perto disso. A vida está acontecendo, no sentido próprio da palavra acontecer e isso já é mais do que suficiente para me dar ânimo de dar um passo adiante.

O que eu diria da minha primeira semana de ano novo? No mínimo, inusitada. Começa com champanhe, violão e amigos, num piquenique de céu estrelado no terraço de um prédio que fica entre o Pão de Açúcar e o Corcovado, bem no centro do meu universo, e segue com dias corridos e noites em claro, abarrotadas de trabalho. Muita vontade de escrever no blog. Uma semana inteira de saudade. Um ano novo não tão novo assim, afinal. Mas hoje o dia amanheceu diferente quando resolvi, não sei ainda o porquê, não me contentar em olhar apenas para o topo da árvore que vejo da janela do meu quarto e me debrucei sobre ela. Olhava distraída quando vi um homem bem ali debaixo, de pé, completamente paralisado, com as mãos na cintura, olhando para o nada, com as calças arriadas… PEGANDO SOL NO TRASEIRO. Ok, cada um tem o sol que merece e o bronzeado na “área de lazer” que deseja. Mas… oi???

Fiquei ainda uns bons minutos ali na janela, paralisada, tentando encontrar uma mensagem subliminar, alguma coisa, qualquer coisa, que justifique começar o dia com uma cena dessas. Mas não encontrei. Juro que vou controlar essa mania de tentar a todo custo entender a cabeça, ou a bunda, que seja… das pessoas. “É o que temos pra hoje…”

Well, well… é meus caros, é o que temos pra hoje. Então, que o resto do dia, do ano, da vida seja doce… e mais além.

 – Caio, querido, me passa o açúcar, por favor.

Então que seja doce

  “Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol
Ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce.
Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia,
 Contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo;
Repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder.
Tudo é tão vago como se fosse nada.”
 (Caio Fernando Abreu – “Os dragões não conhecem o paraíso”)
 
Roberta Simoni

Somos mais.

No primeiro sonho eu usava um vestido tomara-que-caia branco, dançava e ria numa festa que acontecia no seu apartamento, que era o único que parmanecia intacto sobre a estrutura de um prédio em pleno desmoronamento. No segundo sonho o cenário era uma festa de gente elegante, e, segundo você, eu estava deslumbrante, num vestido escuro de veludo, que você não sabe se era verde musgo, azul marinho ou preto, tinha um decote bem cavado nas costas, minha cabeleira quase toda presa, com alguns cachos soltos, brincos enormes e brilhantes, uma gargantilha combinando, e eu sorria tanto, mas tanto… e girava e girava…

Eu era quase tão escandalosamente feliz quanto uma gargalhada. E você ficava em estado de êxtase puro, enquanto sonhava e, depois ainda, quando acordava.

Seu corpo que ainda teima em girar com o meu, feito criança que gosta da brincadeira e não quer nunca mais parar. Meu corpo que reage com gargalhadas gostosas e falta de ar. De olhos fechados, dá a impressão de que os nossos pés vão sair do chão e alçar vôo a qualquer instante. E a gente brinca. Brinca que a vida é uma festa, no seu apartamento entre ruínas, na minha cabana, numa festa de granfinos com brilhantes que ninguém diria que são falsos, ou na padaria da esquina, comendo o melhor pão com manteiga que existe.

Fico tonta, mas você continua a me rodar. Tenho medo, mas não dá vontade de parar. Você diz que não cabe dentro de tanta felicidade, e me falta fôlego para te responder que você é maior do que pode imaginar. O lustre do teto do quarto ainda está rodando, meu corpo está imóvel e silencioso, coberto com um tecido macio que não é o vestido de veludo do seu sonho, é só o lençol da minha cama que me envolve enquanto assisto aquelas duas criaturas divinas dançando, rodando e rindo alto, sem parar. O lustre cai, o teto some, e só o que existe é o céu da gente.

Que ousadia sua achar que eu existo além dos seus sonhos. E corajosa de mim acreditar que você é real. Não somos palpáveis. Somos mais.

Roberta Simoni

Foi (des)propósito

Ela saiu de casa contrariada para comprar absorventes. Ele se arrastou para descer e ir comprar um efervescente para curar a ressaca. Eram vizinhos. Não sabiam. Se esbarraram na farmácia da esquina. Ele cedeu a vez a ela na fila do caixa. Ela agradeceu. Ele desejou que não estivesse com a ressaca estampada na cara. Mas estava. Ela desejou não estar vestindo o seu moletom mais surrado e sua havaiana-rosa-choque-velha-de-guerra. Mas estava. O caixa ao lado desocupou. “Próximo!”. Pagaram ao mesmo tempo. Saíram juntos da loja. Ela foi andando um pouco mais a frente e apostou consigo mesma que ele estava olhando para sua bunda. Ele estava, e até que gostou. Ela também, de ser desejada. Só não gostou mais porque estava vestindo aquele moletom, logo aquele…

Ele acelerou o passo. Ela desacelerou. Ele se ofereceu para carregar sua sacola. Ela recusou. Mas sorriu. “Não precisa, tá leve!”. Ele sorriu de volta com algum esforço, sentindo náuseas. Ela percebeu, achou melhor não perguntar nada. Ele se adiantou: “Gastrite”. Mentira, era o fígado reclamando da noite passada. Ela contou que só ficou boa do estômago com muito chá de boldo. Ele se fingiu interessado. “É mesmo?”. Ela fingiu acreditar no interesse dele. Viraram a esquina. Pararam na portaria do mesmo prédio. “Coincidência!”. Entraram.

Ele abriu a porta do elevador. Ela entrou. Apertou o 8. “Fico aqui”. Ele perguntou se talvez ela não teria folha de boldo em casa. Ela disse que não. Ele se odiou um segundo depois de ter perguntado. “Mas posso ver se consigo pra você…” – ela acrescentou antes de sair, se odiando por ter negado no segundo anterior.

Sorriram sem conseguir disfarçar que o boldo era só disfarce.

E foi com tamanho despropósito que eles começaram a revezar as noites nas camas um do outro. Ela andava desejando um novo amor não era de hoje. Ele andava cansado das noites vazias, de acordar solitário e com a impressão de ter um elefante sentado acomodadamente na sua cabeça. Ela pensou que encontraria alguém interessante numa galeria de arte, no teatro, talvez… Ele ficaria mais contente se ela fosse loira, e um pouco menos magra, talvez… Ele apareceu com olhos fundos de ressaca, mas até que era bem bonitinho, cedeu seu lugar na fila, ofereceu de carregar a sacola dela e abriu a porta do elevador para ela entrar primeiro. “É o homem da minha vida!”. Ela não tinha uma bunda exatamente redonda, mas era bonita, além disso, sua blusa marcava seios rijos e lindos. “Preciso levar essa mulher pra cama!”

Ela descobriu que ele não só era gentil e educado, como sabia cozinhar, era inteligente, bem dotado e bom de cama, sabia fazê-la rir como nenhum outro a fez antes, e – muito importante – não era casado. Ele descobriu que ela não tinha só peitos durinhos, mas até que transava bem direitinho, tinha uma bela tatuagem na virilha, não era dessas mulheres frescas das quais ele andava cansado, era bastante culta, gostava dos mesmos livros que ele e não era uma ciumenta neurótica como as outras. Apaixonaram-se.

Não foi de propósito e mesmo assim – e por isso mesmo – foi lindo. O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.

Até foi quase propositalmente que se apaixonaram, quando fizeram a soma de qualidades + vontades, mas foi o despropósito que tratou de esbarrá-los na esquina de casa. E o despropósito estava de havaianas rosa choque, com uma tremenda ressaca, dessas que faz o sujeito prometer que nunca mais vai beber na vida, tinha um pacote de absorvente nas mãos, vestia o seu moletom mais surrado, aquele, sabe…? Que é também o mais confortável e aconchegante de todo o guarda-roupas…

… parecido com o amor que nem sempre aparenta vestir bem, não costuma andar na moda, mas, se duvidar, é a malha mais gostosa de todas e caí bem em você como nenhuma outra.

Roberta Simoni