Foi (des)propósito

Ela saiu de casa contrariada para comprar absorventes. Ele se arrastou para descer e ir comprar um efervescente para curar a ressaca. Eram vizinhos. Não sabiam. Se esbarraram na farmácia da esquina. Ele cedeu a vez a ela na fila do caixa. Ela agradeceu. Ele desejou que não estivesse com a ressaca estampada na cara. Mas estava. Ela desejou não estar vestindo o seu moletom mais surrado e sua havaiana-rosa-choque-velha-de-guerra. Mas estava. O caixa ao lado desocupou. “Próximo!”. Pagaram ao mesmo tempo. Saíram juntos da loja. Ela foi andando um pouco mais a frente e apostou consigo mesma que ele estava olhando para sua bunda. Ele estava, e até que gostou. Ela também, de ser desejada. Só não gostou mais porque estava vestindo aquele moletom, logo aquele…

Ele acelerou o passo. Ela desacelerou. Ele se ofereceu para carregar sua sacola. Ela recusou. Mas sorriu. “Não precisa, tá leve!”. Ele sorriu de volta com algum esforço, sentindo náuseas. Ela percebeu, achou melhor não perguntar nada. Ele se adiantou: “Gastrite”. Mentira, era o fígado reclamando da noite passada. Ela contou que só ficou boa do estômago com muito chá de boldo. Ele se fingiu interessado. “É mesmo?”. Ela fingiu acreditar no interesse dele. Viraram a esquina. Pararam na portaria do mesmo prédio. “Coincidência!”. Entraram.

Ele abriu a porta do elevador. Ela entrou. Apertou o 8. “Fico aqui”. Ele perguntou se talvez ela não teria folha de boldo em casa. Ela disse que não. Ele se odiou um segundo depois de ter perguntado. “Mas posso ver se consigo pra você…” – ela acrescentou antes de sair, se odiando por ter negado no segundo anterior.

Sorriram sem conseguir disfarçar que o boldo era só disfarce.

E foi com tamanho despropósito que eles começaram a revezar as noites nas camas um do outro. Ela andava desejando um novo amor não era de hoje. Ele andava cansado das noites vazias, de acordar solitário e com a impressão de ter um elefante sentado acomodadamente na sua cabeça. Ela pensou que encontraria alguém interessante numa galeria de arte, no teatro, talvez… Ele ficaria mais contente se ela fosse loira, e um pouco menos magra, talvez… Ele apareceu com olhos fundos de ressaca, mas até que era bem bonitinho, cedeu seu lugar na fila, ofereceu de carregar a sacola dela e abriu a porta do elevador para ela entrar primeiro. “É o homem da minha vida!”. Ela não tinha uma bunda exatamente redonda, mas era bonita, além disso, sua blusa marcava seios rijos e lindos. “Preciso levar essa mulher pra cama!”

Ela descobriu que ele não só era gentil e educado, como sabia cozinhar, era inteligente, bem dotado e bom de cama, sabia fazê-la rir como nenhum outro a fez antes, e – muito importante – não era casado. Ele descobriu que ela não tinha só peitos durinhos, mas até que transava bem direitinho, tinha uma bela tatuagem na virilha, não era dessas mulheres frescas das quais ele andava cansado, era bastante culta, gostava dos mesmos livros que ele e não era uma ciumenta neurótica como as outras. Apaixonaram-se.

Não foi de propósito e mesmo assim – e por isso mesmo – foi lindo. O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.

Até foi quase propositalmente que se apaixonaram, quando fizeram a soma de qualidades + vontades, mas foi o despropósito que tratou de esbarrá-los na esquina de casa. E o despropósito estava de havaianas rosa choque, com uma tremenda ressaca, dessas que faz o sujeito prometer que nunca mais vai beber na vida, tinha um pacote de absorvente nas mãos, vestia o seu moletom mais surrado, aquele, sabe…? Que é também o mais confortável e aconchegante de todo o guarda-roupas…

… parecido com o amor que nem sempre aparenta vestir bem, não costuma andar na moda, mas, se duvidar, é a malha mais gostosa de todas e caí bem em você como nenhuma outra.

Roberta Simoni

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45 comentários sobre “Foi (des)propósito

  1. É o “conto-de-fadas” mais real que já li… e é um desses que toda mulher de verdade sonha viver, né? Por um bom tempo estive viciada em ficar em casa com bons dvd’s de comédias românticas e (parafraseando o dono da locadora) acabei me “especializada no gênero”! 😉

    Mas devo confessar que o melhor de tudo foi perceber que o mundo lá fora é bem mais interessante do que os filmes que vi… então, a partir daí, comecei a ir ao mercado mais atenta e feliz… rsrs! E não é que “sair de casa” funciona???

    Beta, arrasou… sou sua fã!!! 😉
    Bjssssss!

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    • Renatinha,

      Num dado momento, enquanto eu escrevia esse conto, me lembrei tanto de você dizendo bem assim lá na sua casa:
      “(…) comecei a ir ao mercado mais atenta e feliz…”

      E nem vem que eu sou sua fã primeiro, antes de você ser minha… hahahaha!
      Beijos querida… te vejo no clube de leitura! (oba, tá chegando!)

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  2. Ai, os vizinhos…sei não…muitas vezes fico pensando naquelas frases prontas do tipo: “o amor bate à dua porta”, “o amor pode estar do seu lado”, “foi paixâo à segunda vista”…já tive uma tórrida paixão por um vizinho, que propositadamente me ofereceu açúcar, caso eu precisasse em algum momento…e ficamos assim, ele no décimo, e eu no décimo segundo andar..uma delícia de encontro!
    Tomara que seja pra valer, com ou sem roupa simples, quanto mais somos nós, mais atraimos a simplicidade! Que coisa boa!! Bons ventos de inverno pra vc!

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    • Jusciney:

      Adorei a sua tórrida paixão pelo vizinho que te ofereceu açúcar… adorei, adorei. Daria um belo conto baseado em fatos reais.
      Se você tivesse me contado antes, eu poderia ter criado o conto seguindo essa linha… rs rs rs

      Bons ventos de inverno pra você também, querida!

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  3. Eu não gosto de palavrões. Acho eles efusivos, vulgares, desnecessários quase sempre.

    Mas, em momentos raros, eles são necessários. Como este.

    Porra, que texto foda.

    Simplesmente pq… Deixa vc sem palavras. Uma coisa do tipo: “O que dizer? Seu texto é legal, bacana, interessante? nah, isso não serveria.”
    Claro eu poderia ser enfadonho e discursar sobre como o jogo de palavras e de situações foi extremamente bem elaborado.

    Mas acho que palavrões, vindo de um poeta (ou quase poeta), que os detesta é bem mais expressivo.

    Pq pra eu dizer que eh foda, é pq é foda mesmo.

    Parabéns ^^

    Abraços!

    ps. merece registro nos meus feeds ;]

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  4. É bastante provável que meu próximo-grande-amor-não esteja de bobeira em um Festival de cinema, e que não tenha lido “O Jogo da Amarelinha”. Muito difícil que tenha fones de ouvidos do tamanho dos meus, e que fique sonhando acordado com largar tudo e colocar o pé no mundo.

    Mas, bem, parafraseando uma grande e sábia amiga em comum, precisamos nós também “quebrar nossos paradigmas”. 🙂

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    • Henrique,

      Para frustração generalizada dos leitores da Janela de Cima esse conto não é baseado em fatos reais. Saiu tudo daqui óh, da cachoca fértil dessa que vos fala.

      E ah… eu adorei a piadinha infame! hehehehe

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  5. Acho estranho usar gostoso para descrever um texto, mas é o que me vem quando leio os seus… Sabe quando vc pega um livro e deixa de comer, de sair, de ligar para o namorado só pra terminar?! É como me sinto quando chego por aqui é uma pena terminar rápido, aliás, espero um dia ter o prazer de deixar tudo de lado só para terminar de ler um livro seu… Ahaha.

    Bjim

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  6. Haahahhaha… não aguento, preciso comentar novamente!!!
    Vcs querem ler um conto real? Começa de uma forma bem parecida com essa – mas o final… bom, lá vai!

    “Início de verão. Quase meio-dia. Ela saiu da faculdade, morrendo de fome e calor. Pegou o metrô. Dez minutos depois estava na rua, a caminho de casa e lembrou que sua geladeira estava vazia. Resolveu parar no mercado ao lado pra comprar algumas coisas práticas pro almoço, já que a pressa é mesmo inimiga da melhor refeição. Ele estava lá. Tinha acabado de acordar e escolhia maçãs pro café-da-manhã. Ela, de calça jeans e uma blusa qualquer. Ele, com uma blusa amarelo-ovo e óculos escuros, a olhou. Ela sentiu e, apesar dele ser LINDO, fingiu que não viu. Perderam-se por lá. Ela foi ao caixa. Ele estava no caixa ao lado. E enquanto ela tentava pagar, sorria da operadora atrapalhada que não sabia como passar o cartão. De repente, ela – completamente atraída por um “sei-lá-o-que”, virou pro lado e ficou olhando (ainda sorrindo) fixamente para os desenhos da camisa amarela.. e ao levantar o olhar, viu que ele sorria do sorriso dela. Ela saiu primeiro e foi pra casa pensando “como deixei isso passar?”.

    Fim da tarde desse mesmo dia. Ela em casa, com um vestido qualquer e chinelos pretos, decide sair e buscar um DVD na locadora. Demorou horas pra escolher e, ao chegar ao caixa, percebeu uma camisa amarela ao seu lado. Era ele. Ela, munida de toda sua coragem, falou: “era você hoje de manhã no mercado?”. Ele confirmou. Ela, ja de saída, falou: “… reconheci pela camisa…” – e se sentindo a maior das idiotas, ia embora qdo ele perguntou seu nome. Se apresentaram. E ela saiu, torcendo para que ele estivesse logo atrás.

    Ela virou a esquina. Ele não. Ela diminuiu o passo. Parou. Comprou um cigarro pra dar tempo dele chegar, caso viesse. E ao pensar em voltar, olhou pra trás e viu que ele estava logo ali. Ele chegou. “Você está me seguindo?”, ela disse. “Agora eu tô.”, ele respondeu e tb comprou um cigarro.

    Foram andando lentamente para o mesmo lado. Descobriram-se vizinhos (mesma rua, prédios diferentes). Ele de Minas. Ela da Bahia. Ela, atriz e cantora. Ele, ator e músico. Os dois no Rio de Janeiro. Trocaram telefones e endereços virtuais.

    Dois dias depois, ele ligou. A convidou para um café… na casa dele. Ela foi. Ele disse ter demorado pra ligar porque estava terminando com a namorada. Ela, solteira, disse que não ligou porque não teve tempo ( e ficou torcendo pra que ele não entendesse que, nesse caso, tempo significava coragem).

    Conversaram muito, leram poesias, cantaram… até que o “inesperado fez uma surpresa”. E como foi muito bom, a partir daí, começaram a se encontrar esporadicamente. Ela estava adorando a idéia de ter alguém tão próximo, tão lindo, tão fácil, tão bom de cama… e com os mesmos interesses profissionais!!! Ela poderia ter se apaixonado… mas como tem um anjo-da-guarda muito forte, descobriu amigos em comum e, quase sem querer, recebeu uma pesquisa extensa sobre seu passado. Foi advertida por muitos sobre a verdadeira falta de caráter dele. Ela não quis acreditar, mas ficou com um pé atrás.

    Aos poucos ele confessou ter voltado com a namorada, mas não queria deixar de vê-la. Ela não gostou, inventou uma desculpa e disse que ligaria pra encontrá-lo depois. Ela não ligou jamais. Ele começou a aparecer sem avisar e ela não o deixou subir mais.

    Hoje ele está de volta à Minas. E ela? Feliz para sempre, no Rio… em paz.”

    Beta… o seu é bemmmmm mais legal!!!! Eu quero um assim pra mim! 😉
    Bjsssssssss!

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    • O que devo dizer sobre este post?
      Para começar: é recente, mas já é um dos contos que mais gostei de escrever e fiquei satisfeita com o resultado. E mais ainda com os comentários, que me divertiram e emocionaram…

      A Renata e a Jusciney, com os relatos maravilhosos que trouxeram pra cá, tornaram o ambiente por aqui ainda mais aconchegante e a leitura deliciosa. Obrigada, queridas.

      Para terminar: aviso que me empolguei tanto com os contos, por culpa exclusivamente de vocês, leitores, que escrevi mais um. E que venham mais. Acho que essa é mesmo a minha praia. 😉

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  7. Sensacional o conteúdo, e muito bem escrito na forma
    Em especial gostei de :
    “O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.”

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    • “MR”:

      Sabe que eu também gostei um bocado desse trecho?!?

      O acaso ignora os planos e as metas, ele ri da cara dos propósitos. O acaso é o sarcasmo em pessoa, fantasiado de coincidência, irônicamente vestido à caráter.”

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  8. Oi Roberta.
    Achei seu blog sem querer por meio do blog da Gabriela Ventura (que também achei sem querer, pelo orkut). Enfim… Não fuço muito em blogs, talvez porque muitos não consigam me prender ou chamar minha atenção ao ponto de eu querer visitá-los mais vezes, mas com o seu foi diferente.
    Tenho fuçado nos seus posts passados e, por isso, meu comentário não vai ser pra ESSE post em especial, mas pra todo o blog.
    Gosto do jeito que você escreve, não é cansativo e é atraente. Pelo que eu li, você parece ser uma pessoa bastante interessante e… Na verdade, talvez seja a minha teoria já posta em prática em alguns aspectos (fotografia, viagens,…).
    Ainda pretendo fuçar suas fotos, rs.
    E… sei lá. Acho que ganhou mais uma visitante assídua. 😉
    Parabéns pelo blog! ;*

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  9. Se blog é maravilhoso, Roberta! Senti cheiro de capuccino de canela e livros da Jane Austen abertos! Muito obrigada, seu conto é tão lindo que levantou meu astral lá no alto, beirando a meia noite, em um fim de semana no qual muito me entristeci por um caso simples mas romântico, que não aconteceu.

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    • Ana Rodarte:

      Sabe uma coisa que não tem preço?
      Saber que o que a gente escreveu serviu para melhorar o astral de quem nos leu.

      Sou eu quem te agradeço, querida!
      E torço para que esse caso simples, porém romântico, ainda aconteça.

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  10. Parabéns pelo ótimo texto.
    E os dois últimos parágrafos..ah!esses dois últimos parágrafos.. FANTÁSTICOS!
    Lembra os melhores textos da escritora Marina Colasanti.
    Parabéns de novo.

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  11. Tirando a parte do “se apaixonaram” e modificando alguns detalhes aqui e ali, como a parte da ressaca (curtida no meu caso pelas duas partes, por um bom tempo), esse é mais um texto com o qual me identifiquei! Fui lendo e relembrando situação vivida há muito pouco tempo… Adorei!!!

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  12. Minha carioca, to aqui comendo uma empada folhada de frango, tomando café preto enquanto lia teu conto… acho que ando precisando escrever.

    Acho que a gente encontra as pessoas mais improváveis dos modos mais improváveis tb. Mas, acaso? acho que ele não existe…

    beijos

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  13. Destas historias existem muitas, mas que criaram raízes e deram frutos, ( não necessariamente filhos…) foram poucas, mas tudo vale, que seja eterno enquanto dure.

    Excelente texto da cachola. Vamo esticar estes textos, jogar fermentinho neles, passar no rolo de macarrão, e transformar em livros Beta.

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  14. olha, tem uma foto no site do YAHOO DA QUERIDA FOTOGRAFA DESTE BLOG.

    EU ACHO QUE É, SÓ VI UMA VEZ AS FOTOS DAKI, MAS FICOU NA MEMORIA…SE FOR…

    IMAGENS DA SEMANA, TÁ BEM NA FRENTE…NO LADO DIREITO…ABAIXO….

    http://br.noticias.yahoo.com/fotos/imagens-da-semana-17-a-23-de-dezembro-1324667009-slideshow/#crsl=%252Ffotos%252Fimagens-da-semana-17-a-23-de-dezembro-1324667009-slideshow%252Fnascer-do-sol-photo-1324668382.html

    QUANDO CLICAMOS NA GALERIA É A 4ª FOTO, UM LINDERRIMO POR DO SOL, COM UM CABRA DE BIKE. O TRANSPORTE ECOLOGICAMENTE CORRETO.

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