Os entretantos menosprezados

“(…) As vezes apareciam raparigas. Oportunidades. Bem intencionadas. Dispostas a esquecer que eu já tinha vivido o meu ‘grande amor’ – como chamam ingenuamente ao amor da nossa vida. Bonitas. E colaboradoras. Se o amor não chamava por mim, chamavam elas. Aos gritos, se fosse preciso. Umas diziam ‘Ama-me’, outras ‘Nem que seja só um bocadinho’ e havia algumas, muito boas raparigas, que facilitavam mais ainda: ‘Não me importo se não me amas. Deixa-me é eu amar-te.’ Foge. Essas eram as piores.

As figuras que eu fiz. Até ficar azul de lhes explicar que, se eu ficava parado, sem saber por onde andar, era por estar preso a um passado que nunca mais chegaria ao fim. E elas, logo: ‘E entretanto?’

Era uma boa pergunta. ‘Bem, entrentanto…’

Às vezes julgo que, de todos os tempos que temos, os entretantos são os mais menosprezados.”

(O Amor é Fodido – Miguel Esteves Cardoso)

Boris me entenderia.

Me irritei 101 vezes num dia. Isso fica fácil de acontecer depois de 1001 espirros.

Nem o mar azul me apeteceu hoje. Estiquei minha canga na areia, espirrei mais uma dezena de vezes, abri meu livro e tentei ler, juro que tentei. Até que as crianças correndo ao meu redor me irritaram pouco, a coisa só piorou quando elas resolveram começar a chorar. O gaúcho com seu chimarrão, falando sem parar de trabalho, em plena praia, reclamando dos funcionários com mais dois amigos robóticos, “cor-de-pele transparente”, concordando com tudo que ele dizia, a certa altura, começaram a me irritar também. E o grupo de bichinhas falando mal do corpo das mulheres que passavam também era potencialmente irritante. Deus sabe como o meu mundo é – felizmente – gay, mas bicha afetada e invejosa é o “óh”… tive o ímpeto de afogá-los, confesso.

Depois do milésimo espirro à beira mar, e de saber que me irritaria em qualquer parte que fosse, considerando que em todos os cantos haveria gente, resolvi voltar para casa. No caminho de volta, um sujeito me deu uma cantada cretina, parei na frente dele, abaixei os óculos escuros e o encarei de forma que qualquer resposta tornou-se dispensável. Passei numa padaria e observei um casal que comia junto, aliás, eles faziam qualquer coisa, menos juntos. Ele com o jornal aberto na cara dela e ela lixando as unhas, indiferente. Tive a impressão de que eles passariam o resto do dia daquele jeito, talvez da vida.

“Micróbios”, é do que o Boris nos chamaria. Boris não é um velho ranzinza e mal humorado como o julgam, é só um velho que já nasceu com preguiça para a raça humana. Hoje eu acordei Boris, com preguiça das pessoas. Acontece de vez em quando…

É verdade que não tenho tido tempo de ser gente, mas hoje é domingo e, então, eu fui ter com a vida. Não devia. Tudo parecia banal, e era. E repetitivo. E chato. Eu, que costumo ser moça simpática, ignorei o pedido de desculpas pouco sincero da menina que me empurrou na porta do metrô, e troquei de lugar no vagão, sem fazer a menor cerimônia, quando um grupo de adolescentes se aproximou, às gargalhadas com suas próprias piadas sem graça.

Uma moça de rosto fino, óculos de armação redonda e fundo de garrafa, cabelos loiros mal presos, pano de cortina que ela fez de saia, sapatos antigos e ar de deusa, foi a visão mais linda do dia. Sabendo ou não, vestia-se de feia, mas era dona de uma incapacidade incrível de ser. Passava silenciosa e discreta pelo mundo e me encheu de graça. Só não me pergunte a lógica disso, pois eu não imagino.

Talvez gente igual me canse, assim como viver todos os dias também cansa qualquer sujeito. O que não é mau, só humano. E é bom estar indiferente, de vez em quando. Alegria demasiada é enjoativa como qualquer doce em excesso.

(porque eu amo Woody Allen, também acho que TUDO PODE DAR CERTO e que o Boris foi um dos personagens mais fantásticos que ele criou. E, cá entre nós, desconfio que a inspiração veio do próprio espelho, rs…)

Roberta Simoni

Não dormi e acordei poesia.

Sabe quando você vive um momento especial, na hora nem desconfia da grandeza daquele instante e só muito tempo depois é que se dá conta do quão foi feliz? Eu não. Eu não sei como é ter essa sensação. Tenho a exata noção da proporção da felicidade que tenho nas mãos enquanto a tenho, antes que ela se dissolva e escorra entre os meus dedos finos.

Eu era feliz e sabia. Sempre soube, desde sempre. E escondia os meus seios dentro de uma camiseta larga, tentando camuflar a evidência de que virava mulher. Queria me agarrar àquela infância que eu já sabia doce, e não queria me mudar da casa pequena porque gostava de não caber dentro de tanta alegria infantil. Eu queria prolongar viagens, passeios, o sabor do chocolate, e os dias, as horas… Queria que a felicidade ficasse um pouco mais, que o dia não amanhecesse agora. Queria que você não fosse embora. Sabia que fecharia os olhos no dia seguinte para te ver nas lembranças mais lindas e te encontraria na minha saudade.

Não ensinaram a gente a ser feliz porque não tem como aprender. Não existe ser, mas eu sei quando estou, eu sinto, farejo no ar, como o anúncio da chuva de verão que vem e vai embora tal qual, depressa, ainda que eu a deseje eterna. A gente aprende, ao menos, a identificar quando ela vem, cheia de graça, sinuosa ou articuladamente, invadindo o ambiente, encharcando a gente, ou pingando de pouquinho, molhando só aqui dentro, me fazendo chuva no céu de sol que brilha, aliviando o corpo do calor, matando a sede da alma.

Solto o cabelo, passo perfume e me enfeito toda para me molhar. Tem dia novo nascendo. Tem gente acordando e a gente ainda nem pensa em dormir. Tem pássaro assoviando ao fundo, tem sol saindo de dentro do mar, tem voz cantando, tem acorde de violão tocando, tem melodia encantando, tem amigos sorrindo… olha lá… tem gente se emocionando… é a felicidade chegando, sentando na nossa roda e cantando afinada, fazendo coro com a nossa alegria de estar… com ela.

Não durmo há dias e acordo pura poesia, encharcada do bom da vida.

(… e era isso que cantávamos com o Kiari, virando chuva com ele… obrigada, querido, por molhar a gente!)

Roberta Simoni

Quando os sonhos eram de pelúcia

Um urso de pelúcia do meu tamanho. Era o que eu queria para colocar dentro de um quarto onde eu mal cabia. Mesmo assim, espaço era o de menos. Onde eu arrumaria dinheiro para comprar um daqueles eu não sabia, mas lugar para colocar o sonho eu tinha.

Hoje me lembrei dele, do urso que eu nunca tive. E só agora, tantos anos mais velha, é que me dou conta da absoluta falta que ele nunca me fez e da diferença que ele jamais teria feito na minha vida. Foi vontade que deu e passou, como tantas outras, daquelas que se a gente não tem como realizar, só resta sentar e esperar ir embora. Aí, um dia, de repente, você lembra de um desejo desbotado, que de tão infantil se vestia da arrogância que lhe parecia e que hoje só parece coisa à toa, vontade boba, tão simples de realizar.

E agora existem outras vontades, as que simulam ingenuidade escondendo prepotência. Um dia com 30 horas para caber tudo dentro? Tempo para respirar? Histórias de amor para acreditar? Alguém para confiar as estrelas do seu céu? Reconhecimento pelos seus esforços, por serviços prestados? Boa vontade desinteressada? Acordar ao meio dia? Sobrar dinheiro no fim do mês? O problema é que a gente sempre se excede nos devaneios.

E o que fazer com essa necessidade estupidamente humana de não caber dentro do que deseja e de ter sonhos que não cabem dentro da casa pequena que construíram pra gente morar?

A gente simplesmente aprende a viver numa casa minúscula e a conviver com os sonhos que não tem preço.

Quando o meu quarto aumentou e eu descobri – não muito bem até hoje – o jeito suado de ganhar o meu dinheiro, meu urso de pelúcia se desfez, virou cinza de um sonho que morreu ainda tão moço para dar lugar a desejos mais espaçosos, e mesmo aqueles mais razoáveis, de tão improváveis, os mais tolos.

… Vontade de desejar um ursão de pelúcia de novo, aquele que de gigante virou miniatura de colocar na estante.

Filha de peixe…

Acordo hoje com o seguinte e-mail enviado pelo meu pai:

Depois de alguns minutos com o celular colado ao ouvido e ouvindo aquela musiquinha básica, sem contar que antes tive que prestar atenção numa série de números, para “ver” qual eu deveria “apertar”, uma moça me atendeu: “Boa tarde ! Elizabeth falando. Com quem eu falo ?”


__ Paulo Cardoso… Tudo bem com você, Elizabeth ? A família “tá” boa ?
__ Tudo bem, senhor… Em que posso ajudar ?
__ Elizabeth, por favor, me confirma uma coisa: é verdade que eu tenho o direito de pedir uma cópia da gravação dessa nossa conversa ?
__ Sim, senhor !
__ E o que é necessário ? (Aí ela falou uma série de documentos e procedimentos).
__ Elizabeth, essa gravação alguém ouve, como por exemplo, um diretor ou presidente da Vivo ?
__ Sim, senhor… O nosso… (não me lembro quem ela falou que ouvia).
__ Tá bom…
__ Em que posso estar ajudando, senhor ? (detesto gerundismo: estar falando, estar providenciando, e uma cacetada de “estar”).
__ É que eu quero mandar a vivo pra merda… (daí, ela não parava de rir, tentando se conter, mas rindo muito).
__ Só isso, senhor ? Mais alguma coisa em que eu possa estar sendo útil ?
__ Por enquanto, não… Vou pensar direitinho, e da próxima vez, eu mando pra outro lugar, tá bom ? Obrigado pela atenção. Você é muito simpática. Fica com Deus. Jesus te ama !”

 

Sei que é ridículo mas fiquei contente, pois disse tudo com muito amor, carinho e educação…”

Faltou só ele dizer: “(…) disse tudo com muito amor, carinho, educação e ironia…” especialmente na parte do “Jesus te ama” porque o meu pai é o menos religioso dos seres.

Eu compreendo perfeitamente a elegante satisfação dele. O problema continua e mandá-lo a merda (com tamanha classe ou não) não vai resolver nada, mas o efeito que surte é impagável: alivia a alma.

Aí me pus a pensar: como eu poderia querer ser diferente se a herança genética se faz presente? O mundo faz todo o sentido, afinal.

Roberta Simoni