Quando os sonhos eram de pelúcia

Um urso de pelúcia do meu tamanho. Era o que eu queria para colocar dentro de um quarto onde eu mal cabia. Mesmo assim, espaço era o de menos. Onde eu arrumaria dinheiro para comprar um daqueles eu não sabia, mas lugar para colocar o sonho eu tinha.

Hoje me lembrei dele, do urso que eu nunca tive. E só agora, tantos anos mais velha, é que me dou conta da absoluta falta que ele nunca me fez e da diferença que ele jamais teria feito na minha vida. Foi vontade que deu e passou, como tantas outras, daquelas que se a gente não tem como realizar, só resta sentar e esperar ir embora. Aí, um dia, de repente, você lembra de um desejo desbotado, que de tão infantil se vestia da arrogância que lhe parecia e que hoje só parece coisa à toa, vontade boba, tão simples de realizar.

E agora existem outras vontades, as que simulam ingenuidade escondendo prepotência. Um dia com 30 horas para caber tudo dentro? Tempo para respirar? Histórias de amor para acreditar? Alguém para confiar as estrelas do seu céu? Reconhecimento pelos seus esforços, por serviços prestados? Boa vontade desinteressada? Acordar ao meio dia? Sobrar dinheiro no fim do mês? O problema é que a gente sempre se excede nos devaneios.

E o que fazer com essa necessidade estupidamente humana de não caber dentro do que deseja e de ter sonhos que não cabem dentro da casa pequena que construíram pra gente morar?

A gente simplesmente aprende a viver numa casa minúscula e a conviver com os sonhos que não tem preço.

Quando o meu quarto aumentou e eu descobri – não muito bem até hoje – o jeito suado de ganhar o meu dinheiro, meu urso de pelúcia se desfez, virou cinza de um sonho que morreu ainda tão moço para dar lugar a desejos mais espaçosos, e mesmo aqueles mais razoáveis, de tão improváveis, os mais tolos.

… Vontade de desejar um ursão de pelúcia de novo, aquele que de gigante virou miniatura de colocar na estante.