Boris me entenderia.

Me irritei 101 vezes num dia. Isso fica fácil de acontecer depois de 1001 espirros.

Nem o mar azul me apeteceu hoje. Estiquei minha canga na areia, espirrei mais uma dezena de vezes, abri meu livro e tentei ler, juro que tentei. Até que as crianças correndo ao meu redor me irritaram pouco, a coisa só piorou quando elas resolveram começar a chorar. O gaúcho com seu chimarrão, falando sem parar de trabalho, em plena praia, reclamando dos funcionários com mais dois amigos robóticos, “cor-de-pele transparente”, concordando com tudo que ele dizia, a certa altura, começaram a me irritar também. E o grupo de bichinhas falando mal do corpo das mulheres que passavam também era potencialmente irritante. Deus sabe como o meu mundo é – felizmente – gay, mas bicha afetada e invejosa é o “óh”… tive o ímpeto de afogá-los, confesso.

Depois do milésimo espirro à beira mar, e de saber que me irritaria em qualquer parte que fosse, considerando que em todos os cantos haveria gente, resolvi voltar para casa. No caminho de volta, um sujeito me deu uma cantada cretina, parei na frente dele, abaixei os óculos escuros e o encarei de forma que qualquer resposta tornou-se dispensável. Passei numa padaria e observei um casal que comia junto, aliás, eles faziam qualquer coisa, menos juntos. Ele com o jornal aberto na cara dela e ela lixando as unhas, indiferente. Tive a impressão de que eles passariam o resto do dia daquele jeito, talvez da vida.

“Micróbios”, é do que o Boris nos chamaria. Boris não é um velho ranzinza e mal humorado como o julgam, é só um velho que já nasceu com preguiça para a raça humana. Hoje eu acordei Boris, com preguiça das pessoas. Acontece de vez em quando…

É verdade que não tenho tido tempo de ser gente, mas hoje é domingo e, então, eu fui ter com a vida. Não devia. Tudo parecia banal, e era. E repetitivo. E chato. Eu, que costumo ser moça simpática, ignorei o pedido de desculpas pouco sincero da menina que me empurrou na porta do metrô, e troquei de lugar no vagão, sem fazer a menor cerimônia, quando um grupo de adolescentes se aproximou, às gargalhadas com suas próprias piadas sem graça.

Uma moça de rosto fino, óculos de armação redonda e fundo de garrafa, cabelos loiros mal presos, pano de cortina que ela fez de saia, sapatos antigos e ar de deusa, foi a visão mais linda do dia. Sabendo ou não, vestia-se de feia, mas era dona de uma incapacidade incrível de ser. Passava silenciosa e discreta pelo mundo e me encheu de graça. Só não me pergunte a lógica disso, pois eu não imagino.

Talvez gente igual me canse, assim como viver todos os dias também cansa qualquer sujeito. O que não é mau, só humano. E é bom estar indiferente, de vez em quando. Alegria demasiada é enjoativa como qualquer doce em excesso.

(porque eu amo Woody Allen, também acho que TUDO PODE DAR CERTO e que o Boris foi um dos personagens mais fantásticos que ele criou. E, cá entre nós, desconfio que a inspiração veio do próprio espelho, rs…)

Roberta Simoni