Praticando o desapego!

Manter-se igual é tão mais fácil, afinal.

Eu levei o quê? Uns dois ou três meses decidindo se cortava meio metro de cabelo ou não. Cortei! Engraçado como demorei bem menos tempo para decidir, por exemplo, se moraria em São Paulo ou se voltaria para o Rio, se terminaria um relacionamento de anos, ou se diria não para um pedido de casamento.

Agora tenho um rabo de cavalo enorme para doação. Tentei entregar no INCA, mas lá eles só aceitam a peruca pronta, agora tô aqui tentando encontrar alguém que esteja precisando enfeitar a cabeça e a alma, enquanto a minha tá bem mais leve e o meu coração satisfeito com o feito. Além disso, de uns dias pra cá ando me entendendo melhor com o espelho, e desejo que o efeito seja idêntico para quem ficar com minhas madeixas.

Mas não pensem que foi fácil. O desapego é uma arte cuja coragem é a ferramenta principal, e isso requer prática. Eu já havia treinado com pessoas que deixei para trás, lugares, casas (muitas), móveis, objetos pessoais, projetos de vida e até o mais difícil de todos: sentimentos inflamados. Já estava mais do que na hora de partir para algo mais ousado. Sobrou pro cabelo!

Revi fotografias de quase uma década atrás, e se não fosse pelas rugas de agora, minha cara seria sempre a mesma… coisa mais chata! Mesmo assim protelei, protelei… até me tocar de que estava sendo vencida pelo medo de uma tesoura. Que abuso!

Fechei os olhos, como quem está prestes a descer numa montanha russa e confiei cada fio do meu cabelo às mãos habilidosas do Luciano, que foi divino, como sempre!

Confesso que, desde então, meu atual hobby é ver a reação de susto das pessoas. Umas adoram, outras não se conformam. “Sua louca, o que você fez com aquele cabelão lindo?” Eu sou mais do que um cabelo, gente! E, exorcizando o bonitão parece até que ficou mais fácil – talvez mais leve – encarar a quarta mudança (de espaço físico habitacional) do ano. E eis que eu me vejo, outra vez, rodeada por malas e caixas, diante de mais uma vida nova, outra vez…

Cabelo novo, casa nova, e mais um monte de novas sensações pipocando aqui dentro.

Do colo à mostra, dos ombros agora livres, da nuca desprotegida, do desapego, da mudança, do desafio, do medo do novo, da coragem, fica a sensação mais maravilhosa de todas: o bom uso da liberdade de escolha desperdiçada todos os dias. Do trivial ao essencial.

Cabelo cresce, mas… e o resto? Bom, aí a gente arrisca cortar pra ver o que acontece. Se sangrar, depois sara. Sempre haverá mercúrio e esparadrapo em casa.

Roberta Simoni