Às avessas

Eu faço tudo trocado. Funciono ao contrário.

Faxina de madrugada. Amor o dia todo. Janta no almoço. Camiseta do avesso. Cabelo molhado à noite. Chuva sem guarda-chuva. Sol sem protetor. Almoço na janta. Você no café da manhã. Leite gelado. Acordo cansada. Deito animada. Não durmo. Não como. Não amo. Calças amarrotadas. Janela escancarada na tempestade. Meias dobradas. Cortinas fechadas à tarde. Pares trocados. Amor na medida exata. Morro de amores. Falo alto. Fico muda. Perco a hora. Faço piada. Humor negro. Chego cedo. Saio tarde. Não vou. Choro à toa. Acho hilário. Não acho graça. Nem me comovo. Me apaixono de novo. Não paro. Não me movo. Falo a verdade. Não penteio o cabelo. Minto mal. Esqueço o celular. Levo o carregador. Calcinha velha no Reveillon. Beijo seu nariz. Não conto. Falo demais. Estaciono em local proibido. Franqueza na hora errada. Guardo o frasco vazio. Mastigo meus lábios. Pinto o oito. Dirijo acelerada. Quente com gelado. Esqueço o aniversário. Lembro do cheiro. Volto cedo. Não volto. Odeio Pollyanna. Adoro Macabéa. Coca-cola sem gás. Você suado. Chocolate depois da corrida. Bagunça em ordem. Cabeça desorganizada. Textura detestável. Sabor adorável. Risada na hora errada. Saudade pontual. Leitura no ônibus. Lembrança dos detalhes. Esqueço do todo. Não vou ao médico. Quase mato um. Salvo a vida de uma formiga. Ando nua. Falo calada. Calo o silêncio. Desafio o sono. Ando no telhado. Acho sua cabeça tão linda. Não levo o agasalho. Não esqueço a máquina fotográfica. Não queimo cartas. Rasgo verbos. O mundo inteiro acorda. A gente dorme. Cabeça dura. Coração mole. Calcinha listrada. Sutiã de bolhinha. Personagens reais. Pessoas inventadas. Licença Poética. Poesia sem rima. Verso sem prosa. Amor sem hora. Alma do avesso…

…Ah, esse meu jeito torto de me fazer tão certa!

Roberta Simoni

Da série “Diálogos Emblemáticos II”

Aquele que nunca desiste: Nunca vou desistir de ter uma noite de amor, luxúria, sedução e conversas literárias com você.

Aquela que nunca cede: Pois deveria.

Aquele que nunca desiste: Olha, se você topar, ganha até um texto de brinde!

Aquela que nunca cede: Você tá tão acostumado a seduzir com sua escrita que fica me oferecendo literatura em troca de orgias.

Aquele que nunca desiste: E nem assim você pretende ceder às minhas investdias?

Aquela que nunca cede: Não!!! Você não presta!

Aquele que nunca desiste: Ah, eu queria poder dizer o mesmo…

Roberta Simoni

… e se atira lá de cima!

“Ah Beta… você é muito mais atirada na vida do que eu. E se recupera muito melhor e mais rápido!”

…Será?

Eu sei que me atiro feito bala de canhão em tudo, só não sei se me recupero melhor e mais rápido quando o tiro sai pela culatra. Sim, porque minha pontaria ainda não é das melhores. E para melhorar, só atirando. Ainda que isso inclua me atirar e, fatalmente ou felizmente, me atingir em cheio.

Mas, sabe? A vida segue… Relutante tantas vezes, fazendo pirraça, querendo ficar onde está, permanecendo estacionada em local proibido só por preguiça de rodar para procurar outra vaga, mas segue… cedo ou tarde segue. No meu caso, cedo, quase sempre, porque maior do que a preguiça de procurar uma vaga é a minha preguiça de ficar parada por muito tempo até ver o reboque chegar e me tirar a força de lá.

Talvez ela tenha razão… talvez eu me recupere mais rápido do que a maioria das pessoas que conheço, talvez pela prática de me atirar, talvez pelo vício da adrenalina, talvez porque eu sempre sobreviva após cada atirada incerta. Mas um dia se morre, talvez não disso, mas se morre… e uma coisa, pra mim, é certa: se a vida sempre há de seguir, quer queira, quer não, prefiro continuar seguindo com ela desse meu jeito atirado a ter que ficar sempre parada vendo-a passar por mim. O movimento é vital.

E é gostoso me balançar daqui de cima! Ainda agora deu vertigem, mas já passou… é que eu estava me movendo rápido demais e fiquei tonta… aí eu parei o balanço e me dei conta de que estava indo mais depressa do que o mundo lá embaixo. Comecei a impulsionar meu corpo devagar para frente e para trás…

O vento não tá batendo agora, tá fazendo carícia no meu rosto e vai assoprar mansinho aqui no meu ouvido quando quiser que eu me atire do balanço e voe de novo, e de novo, e de novo…

Roberta Simoni